Chocolate
no Brasil está pior?
A
Câmara dos Deputados aprovou recentemente um projeto de lei que pode redefinir
o que chamamos de chocolate no Brasil.
A
proposta exige que o percentual de cacau apareça na frente das embalagens e
redefine os percentuais mínimos de cacau exigidos por lei: 35% nos chocolates
comuns e 25% para os ao leite.
Atualmente,
para um produto ser chamado de chocolate no Brasil, basta ter 25% de sólidos
totais de cacau — inferior aos padrões internacionais. Na União Europeia, por
exemplo, o mínimo exigido é de 35% para chocolate em geral e 30% para a versão
ao leite.
O
projeto de lei ainda precisa passar pelo Senado, mas reacende uma queixa antiga
dos consumidores: o chocolate vendido pela grande indústria é "pura
gordura e açúcar".
Segundo
especialistas ouvidas pela BBC News Brasil, essa percepção faz sentido e
reflete fatores como a baixa qualidade do cacau utilizado e mudanças nas
composições dos produtos para reduzir custos ao longo de décadas.
Além
disso, a substituição cada vez maior de produtos de "chocolate" por
"sabor chocolate", que levam menos de 25% de cacau na composição,
reforçam essa impressão.
Esse
"sabor chocolate" é encontrado em biscoitos, como o Choco Biscuit, da
Bauducco, e também em bombons de grandes marcas, como o clássico Serenata de
Amor, da Garoto, e seu concorrente, o Sonho de Valsa, da Lacta. Nenhum deles
tem chocolate de verdade em suas coberturas.
Com a
chegada da Páscoa que essa discussão ganha contornos práticos: como saber se o
ovo que você está comprando não tem chocolate "fake"?
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'Sim, o chocolate piorou', diz especialista
Especialistas
em chocolate ouvidas pela BBC News Brasil afirmam que "chocolates mais
doces e sem gosto" não são apenas uma percepção.
"Sim,
o chocolate piorou. Isso é realidade", afirma a engenheira de alimentos
Luciana Monteiro, fundadora e diretora da Ara Cacao, uma consultoria para
inovação em chocolates.
Antes
de se tornar consultora, Monteiro atuou dez anos em grandes empresas, como a
multinacional Bunge, onde desenvolvia gorduras para substituir manteiga de
cacau na produção de chocolates, e a suíça Barry Callebaut, uma das gigantes
mundiais em processamento de cacau.
Também
se especializou academicamente na área, com mestrado na Universidade Estadual
de Campinas (Unicamp) e um ano como pesquisadora convidada na Universidade
Estadual de Utah, nos Estados Unidos.
Monteiro
diz que a piora do produto é consequência de mudanças no processo de produção e
nos insumos utilizados ao longo de décadas, em ações da indústria para reduzir
custos.
Esse
processo, ressalta, começa com a crise que assolou as fazendas de cacau na
Bahia há quarenta anos, quando uma praga, a vassoura-de-bruxa, fez a produção
brasileira encolher quase 80% entre 1985 e 1999, de cerca de 449 mil toneladas
ao ano para apenas 96 mil.
Na
época, o país era o segundo maior produtor mundial. Hoje é o sexto, com cerca
de 300 mil toneladas de cacau ao ano, segundo a Organização Internacional do
Cacau (ICCO).
Os dois
primeiros, Costa do Marfim e Gana, chegaram a produzir juntos quase três
milhões toneladas de cacau na safra 2022/2023, mas a produção caiu 23% para
2,22 milhões toneladas na safra seguinte, segundo projeções iniciais da ICCO, o
que impactou na disparada do preço recente.
A crise
da vassoura-de-bruxa, nota Monteiro, levou à piora da qualidade do cacau
brasileiro.
E,
nesse contexto de menos oferta da matéria prima básica do chocolate, a
exigência mínima de sólidos de cacau foi reduzida para 25%, como uma nova
regulamentação adotada em 2005 pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária
(Anvisa).
Além do
percentual baixo, a norma atual também dá flexibilidade aos tipos de sólido que
podem ser utilizados para atingir o mínimo.
"Esse
sólido de cacau [para cumprir o mínimo de 25%] pode ser pó de cacau, manteiga
de cacau e massa de cacau. Isso também é uma grande diferença da nossa
indústria. O pó de cacau entra muitas vezes ali como um redutor de custo",
explica.
"Então,
ele não tem a mesma performance [que a massa ou a manteiga], não tem o mesmo
sabor, mas ele, dentro da legislação, está incluso [no que pode ser
usado]", continua.
"E
há também uma margem muito grande para gorduras substitutas da manteiga de
cacau. Então, gorduras vegetais podem entrar na formulação sem problema nenhum,
vai continuar sendo chamado de chocolate", disse ainda.
Monteiro
ressalta que isso viabilizou o crescimento da indústria no país. Mas, como a
produção de cacau não se recuperou na mesma velocidade, a qualidade piorou.
"Até
início dos anos 1990, as fazendas cuidavam melhor do seu cacau, no processo de
fermentação, de secagem. Então, tinha uma matéria-prima de maior
qualidade", avalia.
"Como
a indústria se desenvolveu, cresceu, e a matéria-prima estava escassa, os
critérios de qualidade foram muito reduzidos. Até porque a qualidade não é
reconhecida. Se eu faço cacau de boa qualidade e você faz um cacau pior, a
indústria vai pagar o mesmo para mim e para você. Não existe um incentivo para
agregação de valor", destaca.
Professora
do curso de Lazer e Turismo da Universidade de São Paulo (USP) e coordenadora
do projeto de extensão Cacau e Cultura, Mariana Bueno também vê grande pressão
na indústria por redução de custos e substituições nos insumos.
A
manteiga de cacau, segundo ela, é um ingrediente importante para garantir que o
chocolate derreta na temperatura da boca, que é de 37 graus.
Como o
insumo é demandado também pela indústria de cosméticos, esse é mais um fator
que pressiona as empresas de chocolate a buscarem gorduras mais baratas.
"O
óleo de palma é um tipo de gordura vegetal usado em substituição à manteiga de
cacau. Mas, muitas vezes, a indústria ainda substitui esse óleo de palma por
óleo de palmiste, que é muito inferior. Então, é a substituição da
substituição", exemplifica.
Outro
insumo que tem sido substituído pela indústria de chocolate é o leite. Na lista
de ingredientes de produtos de grandes marcas, é fácil encontrar o permeado de
soro de leite em pó e soro de leite em pó.
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Como identificar bons chocolates?
Estudiosa
do assunto há mais de uma década, Zélia Frangioni é autora do Chocólatras
Online, que começou em 2014 como blog e hoje está presente nas principais redes
sociais.
Na sua
visão, a piora do chocolate nas últimas décadas reflete um mercado muito
competitivo no país e a demanda dos consumidores por produtos baratos.
"As
empresas tentam ganhar de qualquer jeito, fazem produtos cada vez mais
doces".
Em
contraponto, ela diz que tem crescido a oferta de chocolates de excelente
qualidade no Brasil, que seguem os princípios do movimento "bean to
bar" [do grão à barra], método de produção que controla toda a cadeia
produtiva, com cuidados especiais na plantação e processamento do cacau,
inclusive ambientais e sociais.
Além do
cacau melhor, esse tipo de chocolate é feito com poucos insumos, sem usar as
substituições da grande indústria.
"O
cacau é igual às uvas dos vinhos. Então, dependendo da região onde ele foi
plantado, como foi fermentado, como foi secado, você vai ter diferentes notas
de sabores". explica.
"Mas
não é só uma questão sensorial, é também de sustentabilidade. O produtor do
bean to bar paga muito melhor o produtor de cacau. Ele vai ser valorizado da
forma justa", diz ainda.
Todos
esses cuidados, ressalta, impactam os preços.
"Falando
dos melhores chocolates no Brasil, você compra uma barra [de 80 gramas] por R$
30 a R$ 35. É caro, sim, comparado com a barra de uma grande marca, que vai
custar R$ 9 a R$ 10. É três, quatro vezes mais caro", compara.
Em um
país desigual e de renda média baixa como o Brasil, Frangioni sabe que o
chocolate "bean to bar" não cabe em todos os bolsos. Por isso, uma
alternativa é reduzir o consumo e investir na qualidade.
"Eu
prefiro comprar um chocolate de melhor qualidade e comer menos quantidade,
mesmo porque chocolate em quantidade, não importa a qualidade, não vai fazer
bem pra saúde. É para consumir com moderação", recomenda.
"Então,
escolha que tipo de chocolate você quer e o quanto você está disposto a pagar
por isso. Tem os intermediários", reforça.
Uma
dica para identificar um bom produto, segundo ela, é ler o rótulo, pois os
insumos são listados em ordem decrescente de quantidade — ou seja, os mais
presentes aparecem primeiro.
"O
cacau tem que ser um dos principais ingredientes. O açúcar não deve ser o
primeiro ingrediente. Chocolate bom não tem aromatizante. Por uma coisa muito
simples, se você usa um cacau bom, você não precisa de aromatizante [que serve
para realçar o sabor e o aroma dos alimentos]", orienta.
Esse
cuidado é importante inclusive com os chocolates mais caros.
"Os
chocolates caros nem sempre são bons. Às vezes é só marketing. Tem marcas muito
chiques que você olha a lista de ingredientes e vê que não é ingrediente
bom".
Nutricionista
do programa de Alimentação Saudável e Sustentável do Instituto de Defesa de
Consumidores (Idec), Mariana Ribeiro reforça que o excesso de chocolate é
prejudicial à saúde, ainda mais quando se trata de produtos ultraprocessados,
que usam muitos aditivos, como espessantes, emulsificantes, corantes e
aromatizantes.
Por
isso, ela também recomenda um atenção especial ao rótulo porque, muitas vezes,
as embalagens podem confundir o consumidor.
Produtos
sabor chocolate, por exemplo, costumam trazer essa informação sem destaque, em
letras pequenas.
"Muitas
vezes o produto está de acordo com as regras de rotulagem e informam que é
sabor chocolate, ou sabor outra coisa. Mas, por outro lado, também vemos jogos
de palavras, uma comunicação visual muito semelhante [ao chocolate real]. Isso
pode levar o consumidor ao engano em relação às características daquele
produto", reforça.
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O que diz a indústria do Chocolate?
Procurada
pela reportagem, a Pandurata Alimentos, dona da Bauducco, diz que a mudança do
Choco Biscuit para sabor chocolate buscou "equilibrar qualidade e
acessibilidade".
A
empresa ressaltou que a alteração foi comunicada nas embalagens, conforme
previsto na legislação.
"Em
um contexto de pressão inflacionária, especialmente nos custos do cacau, a
Pandurata Alimentos reforça sua responsabilidade de garantir o acesso ao seu
portfólio", disse a empresa.
"O
estudo encomendado pela marca mostrou que, considerando todas as métricas
avaliadas, a receita atingiu 99% de performance comparativa à receita original
entre os consumidores habituais do produto", afirmou ainda a dona da
Bauducco.
A
reportagem também entrou em contato com a Nestlé, dona da Garoto, e a Mondelez,
dona da Lacta, mas não obteve retorno.
Já a
Associação Brasileira da Indústria de Chocolates, Cacau, Amendoim, Balas e
Derivados (Abicab) ressaltou em nota à reportagem que a indústria oferta uma
variedade de produtos, com diferentes percentuais de cacau, para escolha do
consumidor.
"A
preferência nacional é o chocolate ao leite, mas os produtores têm feito
composições com frutas, castanhas, amendoim, pistache. A Anvisa estabelece que
um produto, para ser considerado chocolate, tenha, no mínimo 25%, de cacau.
Mas, todas as indústrias oferecem produtos com mais intensidade de cacau e
menos açúcar", diz a nota.
A
associação também destacou que a Organização Internacional do Cacau (ICCO na
sigla em inglês) concedeu ao chocolate brasileiro o certificado de 100% de
aroma e sabor.
O
certificado, porém, só atesta a qualiade do cacau fino exportado pelo Brasil,
não analisando a qualidade do cacau produzido em larga escala.
Segundo
publicação do governo brasileiro de 2022, apenas 3% da produção de cacau
brasileira é do tipo fino.
Fonte:
BBC News Brasil

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