quarta-feira, 15 de abril de 2026

Sofrimento juvenil na era digital

A crescente taxa de suicídio entre jovens no Brasil não pode ser entendida de forma isolada, mas analisada a partir do contexto mais amplo de transformações socioeconômicas que o país enfrenta. Este fenômeno, que se manifesta de maneira alarmante, está intimamente ligado à saúde mental dos adolescentes e à constituição de uma nova condição social juvenil. Dados da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) revelam que a crise de saúde mental afeta uma proporção significativa de jovens, indicando que o sofrimento psíquico é uma realidade comum entre eles.

Os dados mostram que, em cada dez adolescentes, três relatam sentir tristeza de forma persistente. O mesmo número indica que já experimentaram vontade de se machucar. Além disso, quase 20% dos jovens afirmam que a vida não vale a pena ser vivida e mais de 40% relatam irritabilidade constante. Entre aqueles que já se autolesionaram, os índices são ainda mais preocupantes, pois mais de 60% dos jovens nessa situação não veem sentido na vida.

Esses números não são meros detalhes estatísticos, uma vez que revelam como o sofrimento psíquico se apresenta social e amplamente distribuído. Uma condição que antecede e alimenta o aumento das taxas de suicídio entre os jovens.

Quando se observa a totalidade do segmento etário de 15 a 29 anos no Brasil, um em cada cinco jovens não está estudando nem trabalhando. Essa realidade é ainda mais preocupante, pois quase dois terços desses jovens vivem em condições de pobreza. Entre os que não estão em atividades produtivas, cerca da metade é formada por mulheres pretas ou pardas. Isso aponta para a formação de um novo sujeito social coletivo, cuja experiência tem sido marcada pelo contexto histórico específico, caracterizado por desigualdades persistentes.

No passado da transição do Brasil da sociedade agrária para urbana e industrial, a condição juvenil foi sendo estruturada fundamentalmente pela relação objetiva da educação, trabalho e autonomia. O ciclo de elevadas taxas de expansão econômica associada à industrialização e urbanização nacional ofereceu importante previsibilidade nas trajetórias dos jovens, em geral cercadas de importante ascensão social. No entanto, a partir da última década do século XX, o Brasil começou a experimentar a desindustrialização precoce acompanhada pela estagnação da renda per capita e bloqueio à mobilidade social ascendente.

Esse processo conduzido pelo receituário neoliberal terminou por reconfiguras as bases de integração e coesão no interior da nova sociedade de serviços hiperconectada fortemente marcada pela precariedade laboral e horizonte de expectativas de futuro cada vez mais rebaixadas.

O trabalho, que antes era o eixo organizador estável da vida juvenil, tornou-se intermitente e fragmentado tendo e vista a incapacidade do capitalismo submetido ao receituário neoliberal gerar empregos decentes para todos. Com isso, a inserção no mundo do trabalho está cada vez mais concentrada em setores de serviços de contida produtividade, baixa proteção social e trabalhista, o que resulta em um cenário de incerteza, insegurança e imobilidade social para os jovens.

Essa nova condição juvenil, marcada pela precariedade, reflete a ruptura da era industrial imposta pela transição para a era digital em que os filhos apresentam enorme dificuldade de alcançar padrão de vida superior, em geral a de seus país.

A geração de uma população sobrante às necessidades do capitalismo dominado pela financeirização rentista ressignifica o conceito de novo sujeito social coletivo que emerge como descrição da realidade juvenil atual. Este novo sujeito se assenta sob indivíduos em sofrimento que reconfiguram a sociedade de serviços caracterizada pela socialização fundada na incerteza estrutural.

Com isso, os jovens são forçados a interiorizar responsabilidades sobre suas trajetórias interrompidas ou não realizadas devido a condições extremamente adversas que ocorrem diferentemente do outrora jovem da sociedade industrial que tinha a identidade estruturada por referências mais estáveis, como o trabalho e a classe social.

A simultaneidade de sentimentos como tristeza persistente, a sensação de não pertencimento, ideação autodestrutiva e a fragilidade dos vínculos familiares e escolares indicam que a socialização contemporânea se dá sob o signo da instabilidade emocional e simbólica. A adolescência, portanto, deixa de ser uma mera fase de formação para se transformar em um momento de antecipação do colapso das expectativas sociais.

Ao se articular a situação atual com o pensamento de Michel Foucault permite entender como a lógica da governamentalidade neoliberal molda a vida dos jovens. Eles são vistos como agentes responsáveis por suas próprias trajetórias, mesmo quando as condições estruturais são desfavoráveis. Em diálogo com Pierre Bourdieu, observa-se como a ruptura entre “habitus” e campo revela como as expectativas de ascensão permanecem, embora as condições materiais para alcançá-las se estreitam. Isso resulta na produção de sujeitos frustrados sistematicamente que não se traduz em crítica social, mas em fracasso estrutural, internalizado como insegurança, falha pessoal e sofrimento como derrota individual.

A transição para uma sociedade de serviços hiperconectada introduz o novo elemento mediado pela datificação intensa das experiências sociais. Como observa Franco Berardi, a aceleração informacional gera uma sobrecarga cognitiva e emocional nos jovens que vivem sob a constante pressão para se comparar e ter um desempenho superior. A consequência dessa dinâmica é a subjetividade permanentemente tensionada entre a exigência de sucesso e a impossibilidade concreta de alcançá-lo, resultando em ansiedade, exaustão e, em seus limites, a interrupção da vida.

Dentro desse contexto, o suicídio juvenil deixa de ser visto como uma ruptura inexplicável, tornando-se uma expressão extrema da condição social. Pela perspectiva de Émile Durkheim, a anomia se espalha não apenas pela ausência de normas, mas também pela falta de possibilidades de futuro. Assim, o suicídio torna-se um indicador extremo da desintegração social, evidenciando o bloqueio das trajetórias e a saturação subjetiva que caracteriza a nova forma de socialização juvenil.

Nesse sentido, o novo sujeito social coletivo não se apresenta como desvio, mas sim o resultado histórico de uma sociedade que organiza a vida sob a lógica da instabilidade, competição e responsabilização individual. O aumento das taxas de suicídio entre os jovens se configura como um sintoma estrutural da atual organização social brasileira que é a primeira geração a ser formada completamente sob a hegemonia do neoliberalismo e do capitalismo digital.

Ainda que seja a geração juvenil mais conectada da história, encontra-se imersa em redes que prometem pertencimento, visibilidade e liberdade, mas que, na prática, resultam em uma comparação constante e em uma pressão contínua. Essa frustração sistemática não se traduz em uma crítica social, mas se manifesta como um sofrimento individual que abrange uma geração inteira.

A precariedade se torna a norma, as trajetórias são interrompidas e a hiperconectividade não proporciona pertencimento, apenas reforça a responsabilização individual em um contexto de escassez estrutural. Portanto, o novo sujeito social coletivo é produto do neoliberalismo que dissolveu a sociedade industrial sem construir alternativas sólidas, resultando em uma transição precária para o capitalismo digital que transforma a vida em uma performance contínua fundada em serviços inferiores, em geral.

¨      Transformar para redistribuir o amanhã

Compreender o capitalismo contemporâneo exige o repensar da ideia de que ele se organiza exclusivamente a partir de Estados nacionais e de políticas internas. A economia atual opera por meio de cadeias globais de valor, plataformas digitais e finanças altamente móveis, capazes de atravessar fronteiras com rapidez e de reorganizar o poder econômico e informacional.

Sem reconhecer essa mudança estrutural, estratégias políticas, formas de regulação e projetos de justiça social tendem a mirar um alvo muito importante e comum no passado. Nessa defasagem, pode prevalecer a erosão lenta que enfraquece expectativas coletivas, compromete a credibilidade da promessa de progresso e do futuro como horizonte compartilhado.

O tempo social, então, parece não avançar nem se encerrar; em vez disso, arrasta-se. Não se trata de uma sequência de grandes rupturas claramente percebidas, como guerras e revoluções até agora, mas de um interregno prolongado no qual o capitalismo não consegue se renovar o suficiente para produzir um novo pacto social e tampouco colapsa com intensidade suficiente para abrir, por si, um horizonte alternativo.

O sistema sobrevive por remendos, adiamentos e políticas de exceção, com ajustes pontuais, reformas fragmentadas, programas emergenciais, renegociações recorrentes. O resultado é uma sensação estranha de estagnação histórica justamente quando a tecnologia acelera tudo, como se a passagem para a Era Digital não se traduzisse em emancipação coletiva, mas em um presente hiperconectado e, ao mesmo tempo, socialmente bloqueado.

No caso brasileiro, essa transição iniciada com a adoção do receituário neoliberal, em 1990, assume um traço particularmente duro. O Estado nacional tem perdido margem de atuação, passando a operar crescentemente subordinado a duas forças complementares.

De um lado, a financeirização ampliou o poder disciplinador das finanças sobre a política econômica orientada para a produção. Por meio da dinâmica da dívida, do custo do capital, de metas fiscais e da vigilância permanente de expectativas de mercado, o amanhã deixa de ser um horizonte de emancipação para se tornar um futuro comprometido por metas de curto prazo, parcelas a pagar e gestões das urgências permanentes.

De outro, a digitalização plataformizada desloca atividades econômicas e informacionais para infraestruturas privadas transnacionais, capazes de coordenar mercados, trabalho e consumo sob conectividade constante e gestão algorítmica de dados convertidos em mercadorias. Esse duplo movimento reconfigura a base da acumulação e enfraquece instrumentos clássicos de política econômica.

Diante da redução da capacidade do Estado de tributar rendas altas e grandes empresas, amplia a assimetria entre a escala global do poder econômico e a escala nacional das instituições democráticas, tornando-se, assim, mais difícil sustentar políticas orientadas à produção sustentável. Corporações transnacionais articulam cadeias globais de valor e plataformas digitais fortemente conectadas às finanças altamente móveis e a mecanismos de opacidade.

Da mesma forma, os paraísos fiscais e as estruturas societárias complexas permitem deslocar lucros e patrimônios para jurisdições permissivas, corroendo bases arrecadatórias e limitando a tributação progressiva. A consequência tem sido a combinação instável entre a maior exigência social por proteção e redistribuição e a menor capacidade estatal de financiar políticas universais e sustentadas, o que incentiva a gestão por remendos e acelera a percepção de um presente que se prolonga sem horizonte.

Em contraste, o modelo fordista-keynesiano que marcou o mundo após a Segunda Guerra Mundial baseava-se em uma articulação relativamente clara entre produção industrial em bases nacionais, regulação financeira com forte presença estatal e políticas públicas orientadas pela expansão do emprego e do bem-estar social. Era nesse contexto que o Estado atuava como organizador central da acumulação, mediando conflitos distributivos e produzindo estabilidade para o capitalismo em formação nas sociedades urbanas e industriais.

A partir da crise de rentabilidade dos anos 1970, porém, o capital passou a buscar novas estratégias a partir do deslocamento espacial, flexibilização produtiva e liberalização financeira. O receituário neoliberal aprofundou esse movimento ao promover a libertação progressiva do capital das amarras territoriais impostas pelos Estados nacionais, incentivando abertura financeira, desregulação e reconfiguração produtiva.

A produção foi fragmentada e distribuída internacionalmente por etapas, formando cadeias globais de valor nas quais poucos conglomerados concentram comando estratégico da tecnologia, propriedade intelectual, marca, logística, finanças ao passo que aos Estados restou a competição por investimentos acompanhados por incentivos, regimes especiais e, frequentemente, desregulados e sem compromissos com emprego decente e sustentação ambiental.

Assim, o centro dinâmico do capitalismo deixou de ser apenas a grande fábrica integrada territorialmente, passando a ser o conglomerado transnacional que controla pontos decisivos da cadeia e escolhe onde localizar cada etapa, ampliando a distância entre decisões econômicas e controles políticos.

Esse deslocamento se intensificou com a ascensão das plataformas digitais. Elas não são apenas empresas atuando em mercados já existentes, pois controlam infraestruturas essenciais de comunicação, comércio, publicidade, dados, reputação e, em muitos casos, pagamentos e logística. Diferentemente das corporações industriais clássicas, operam com menor materialidade territorial e maior poder de coordenação econômica e social.

Ao intermediar relações, impor padrões técnicos e definir regras privadas de acesso à visibilidade, à demanda e à monetização, as plataformas reorganizam setores inteiros e deslocam ainda mais o centro do poder para atores privados transnacionais. A separação entre o espaço econômico global e a regulação política nacional torna-se, então, mais profunda.

O capitalismo opera em escala planetária e em tempo real, enquanto as instituições democráticas permanecem majoritariamente nacionais e mais lentas, com jurisdição limitada e capacidade fiscal em erosão. Nesse ponto, a financeirização atua como traço decisivo, favorecendo a dominância de lógicas financeiras sobre a economia produtiva e sobre as decisões públicas.

Impõe, também, um regime de mobilidade extrema do capital e de reação instantânea, pressionando Estados a adotar políticas favoráveis aos interesses mercantis e reduzindo o espaço de planejamento de longo prazo. O Estado não desaparece, mas tende a deslocar sua função de planejamento soberano e promotor da produção e do bem-estar para garantidor da estabilidade do capital, administrando crises, preservando contratos e assegurando condições gerais de acumulação.

A dissociação estrutural entre economia global e política nacional constitui um dos principais dilemas do tempo presente. O deslocamento do poder econômico para corporações, plataformas e finanças móveis impõe limites severos à democracia, à soberania e à redistribuição.

Ao mesmo tempo, os arranjos multilaterais forjados no pós-guerra do século passado perdem efetividade diante da competição regulatória, da opacidade fiscal internacional e do domínio privado de infraestruturas digitais. Essa condição repercute diretamente no modo como o futuro é vivido.

Diferentemente da modernidade clássica orientada por narrativas de progresso e ascensão social, o presente passa a ser experimentado como um tempo fechado, sem projeção emancipatória. Mesmo diante do fracasso evidente do sistema vigente em produzir bem-estar generalizado, a capacidade de imaginar alternativas com densidade institucional parece bloqueada.

Sem futuro, o tempo deixa de ser vetor de transformação e se torna repetição administrada do presente. A crise deixa de ser percebida como evento extraordinário que mobiliza, tornando-se desgaste contínuo. A violência sistêmica é internalizada como cansaço, ansiedade e esgotamento, não como conflito aberto. O resultado é profundamente despolitizante, com muita coisa piora sem que algo exploda de modo claro, pois à sociedade caberia se acostumar a administrar perdas.

Esse futuro não desaparece de uma vez, ele goteja. É parcelado, adiado e capturado por dívidas, metas, métricas e urgências permanentes. A lógica do endividamento transforma o futuro em obrigação, uma vez que o amanhã deixa de ser promessa e vira cobrança.

Assim se instala um regime temporal bloqueado, paradoxal, em que convivem aceleração tecnológica e um presente prolongado incapaz de se tornar passado, mas também desprovido de horizonte. Nessa condição, jovens podem estar altamente escolarizados, conectados e informados, porém sem estabilização material e simbólica, acumulando qualificações, dívidas e experiências sem conversão garantida em vida estável.

O risco do provisório permanente cresce e o colapso não se apresenta como ruptura, mas como esvaziamento gradual do capitalista lento, persistente e socialmente corrosivo. Por isso, transformar para redistribuir não é uma escolha retórica, mas uma exigência histórica.

Se o capitalismo contemporâneo se sustenta por remendos e adiamentos, a transformação não pode ser apenas moral nem apenas técnica. Precisa ser estrutural e institucional, capaz de recuperar capacidade pública de decisão, reconstruir instrumentos de regulação à altura de cadeias globais, finanças móveis e plataformas digitais, e reabrir um horizonte coletivo.

Redistribuir o futuro significa devolver a amplas maiorias a possibilidade real de planejar a vida, projetar expectativas e participar do destino social, enfrentando simultaneamente a captura do excedente por finanças e plataformas, a erosão fiscal via opacidade global e a precarização do trabalho. Sem esse movimento, o interregno tende a se perpetuar num capitalismo que não se renova nem cai, mas que desgasta lentamente a sociedade e suspende o futuro como horizonte comum superior.

 

Fonte: Por Marcio Pochmann, em A Terra é Redonda

 

Nenhum comentário: