Elon
Musk representa o novo modernismo reacionário da direita
Elon
Musk é muitas coisas: empreendedor, troll da extrema-direita, exemplo dos
efeitos negativos da completa ausência de um bom senso de humor. Essa figura
mercurial é o tema principal de Muskism: A Guide for
the Perplexed, de
Quinn Slobodian e Ben Tarnoff. Ambos os autores possuem o que é preciso para
fazer uma análise profunda da vida e do pensamento do empreendedor do ramo da
tecnologia. Slobodian é professor de história internacional na Universidade de
Boston e autor de diversos livros aclamados sobre as origens intelectuais do
capitalismo neoliberal. Tarnoff escreveu extensivamente sobre
a política do setor
tecnológico e as personalidades que compõem o Vale do Silício.
Essa
experiência transparece no mais recente lançamento da dupla, um livro seguro e
conciso sem jamais parecer apressado. Parte biografia crítica, parte análise
político-econômica da era neoliberal, é uma obra bem escrita e incisiva que
desvenda a assustadora visão de mundo de seu “protagonista” com detalhes
impressionantes.
Apesar
de todos os seus méritos, a narrativa de Muskism sobre a
ascensão e influência de seu protagonista concentra-se exclusivamente na
ideologia, obscurecendo as forças políticas e econômicas mais amplas que atuam
nos bastidores. Isso torna o livro esclarecedor, mas, em última análise,
limitado em sua abordagem para a compreensão das patologias do presente. Seria
benéfico situar Musk no contexto mais amplo das instituições e práticas que lhe
permitiram prosperar e discutir sua relação com a direita em geral. Diante
disso, achei Muskism mais sugestivo do que revelador e fiquei
com a sensação de que uma crítica definitiva de esquerda sobre esse personagem
ainda não foi escrita.
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Hitler mecânico e o conservadorismo ciborgue
Musk,
como figura, presta-se ao tipo de análise defendida por Slobodian e Tarnoff,
que orbita no limiar entre biografia e polêmica. Ele possui uma necessidade
patológica de atenção e uma capacidade infinita de autodramatização. Essas
características aparentemente estavam presentes desde o início de sua carreira.
Ao descrever a ascensão do bilionário durante a bolha da internet na década de
1990, Slobodian e Tarnoff argumentam que o que “diferenciava Musk não era sua
habilidade em engenharia ou a perspicácia nos negócios, mas uma crença
inabalável no futuro — e seu talento para fazer com que os outros também
acreditassem nisso”. Musk é, em sua essência, um “fabulista”: alguém que
“mistura fantasia e realismo” para contar histórias sobre as “transformações extraordinárias”
que suas empresas e sua tecnologia trarão, certificando-se de omitir o apoio de
investidores privados e governos que torna esse sucesso possível.
Slobodian
e Tarnoff observam que o estilo de comunicação de Musk sempre foi “proléptico”
e promissor. Suas especulações utópicas e sua crença no poder dos milagres
tecnológicos são o complemento necessário para suas previsões sombrias e
apocalípticas sobre o vírus da mentalidade woke, a teoria da “grande
substituição” da população branca, o avanço do socialismo e qualquer outro
assunto sobre o qual o magnata se veja tuitando às cinco da manhã. Essas
fantasias sombrias são, segundo Slobodian e Tarnoff, o obstáculo para a
realização de um “sublime tecnológico que está sempre a apenas uma década de
distância”. Isso confere a Musk um senso de autoimportância quase religioso. A
fachada que ele criou para si mesmo, no entanto, é frágil e repleta de
inseguranças, a ponto de ele se sentir compelido a mentir sobre sua
habilidade em videogames.
“Como
foi possível que pessoas tão profundamente antiéticas, tão contrárias a ideias
humanas básicas a ponto de considerarem a empatia um mal social e a
introspecção uma perda de tempo, chegassem a exercer poder e influência sobre a
sociedade estadunidense?”
Slobodian
e Tarnoff inferem, corretamente a meu ver, que esse fabulismo é parte
integrante da política de direita de Musk. Há algumas comparações interessantes
a serem feitas aqui com seu amigo intermitente, Donald Trump. O próprio Trump
começou com uma política relativamente ambígua, mas de forma alguma
convencionalmente conservadora. Em uma passagem incomumente autoconsciente
de A Arte da Negociação, o futuro presidente descreveu como
explorava as fantasias das pessoas por meio de uma “hipérbole verídica”. Ele
reconheceu que, embora as pessoas comuns possam não pensar “grande”, elas
admiram aqueles que “acreditam que algo é o maior, o melhor e o mais
espetacular”. Tanto para Musk quanto para Trump, o fabulista pode se tornar um
grande homem explorando as fantasias das massas, que de outra forma seriam
dóceis — uma visão de mundo que explica a predileção de ambos pela hierarquia e
pela autoexaltação. É a teoria do grande homem de Thomas Carlyle adaptada à era
neoliberal.
Da
mesma forma, Musk pode ter começado sua carreira atendendo ao desejo dos
liberais californianos de classe média alta de salvar o mundo comprando carros
de 100 mil dólares, mas isso tinha menos a ver com um profundo amor pela
humanidade do que com a necessidade de ser amado por ela. Slobodian e Tarnoff
explicam a aterrissagem de Musk na direita conspiratória sob várias
perspectivas. Algumas das “razões materiais são fáceis de deduzir”, escrevem
eles:
Assim
como outros bilionários que projetavam uma imagem pública liberal,
especialmente aqueles do Vale do Silício, Musk se sentia alienado pela
crescente influência da esquerda estadunidense. Ele desprezava a proposta do
presidente Biden de criar um imposto sobre a riqueza dos super-ricos, bem como
o apoio do governo aos sindicatos e a pressão regulatória e antitruste da
presidente da FTC, Lina Khan.
Mas as
razões mais profundas para a atração de Musk pela direita residem no âmbito da
ideologia, e não da economia política. Musk invoca rotineiramente a noção de
“empatia suicida” do influenciador de direita Gad Saad para descrever a
compaixão pelos fracos e sofredores como um problema que impede o progresso da
civilização ocidental. Esse problema direciona atenção excessiva para as
necessidades e o empoderamento das classes mais baixas, o que, por sua vez,
mina a capacidade de figuras como Musk de construir o futuro à sua própria
imagem. O muskismo, escrevem Slobodian e Tarnoff, “sempre se dedicou a uma
defesa vigorosa da hierarquia. Alguns humanos nascem para governar; outros,
para serem governados.”
Talvez
não seja surpreendente que essa ideologia tenha levado seus defensores a
abraçar um profundo anti-humanismo. A humanidade “deveria se fundir com a
máquina — contanto que [permaneça] segmentada por gênero, raça e classe.
Podemos chamar isso de conservadorismo ciborgue”. Por exemplo, Musk não vê
problema em pessoas implantarem microchips em si mesmas para se conectarem aos
seus computadores por meio do “Neuralink”, porque ele lucra com isso e obtém
certo controle sobre suas vidas. Mas pessoas trans que tentam mudar de gênero
desafiam o apreço do CEO por uma hierarquia de gênero supostamente natural que
deve permanecer essencialmente inalterada.
A
análise de Slobodian e Tarnoff sobre a visão de mundo de Musk é fascinante e
informativa, mas o livro perde a oportunidade de abordar, com maior relevância
histórica, como a perspectiva do magnata da tecnologia se conecta à da direita
em geral.
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Cidadão Musk
Olivro
de Slobodian e Tarnoff concentra-se intensamente em seu tema principal. Muskismo trata
essencialmente da visão de mundo de Musk, chegando ao ponto de incluir o
epílogo arrepiante em que os autores descrevem os potenciais futuros distópicos
que o bilionário da tecnologia gostaria de nos impor. Até aqui, tudo bem, mas o
foco em uma única figura acaba, em certos momentos, obscurecendo tanto quanto
revela. Quais estruturas sociais permitiram que Musk e seus pares adquirissem
tanto poder, a ponto de seu futurismo tecno-reacionário messiânico representar
uma ameaça real, e não apenas material para uma ficção científica de segunda
categoria? Como e onde Musk se encaixa na história mais ampla da direita
política?
Estranhamente,
apesar de Slobodian ter escrito extensivamente sobre a história dos pensadores
neoliberais, há pouco esforço em conectar Musk, como indivíduo, a essa
tradição, muito menos em descrever como as políticas e práticas neoliberais
ajudaram a facilitar sua ascensão. Logo no início do livro, mencionam como Musk
lucrou com os esforços do governo George W. Bush para privatizar funções
governamentais, inclusive as forças armadas, em nome de uma integração mais
enxuta e eficiente entre Estado e capital. Isso ajudaria a explicar por que os
esforços tímidos de Joe Biden para conter o poder dos oligarcas fracassaram.
Adotar uma perspectiva mais estrutural e de longa duração também
estimularia um conjunto menos personalizado de ideias sobre como responder ao
muskismo e a outras vulgaridades produzidas pelos estágios finais do
capitalismo neoliberal.
Slobodian
e Tarnoff são muito convincentes ao demonstrar que o legado de Musk será, em
grande parte, trágico. Mas impedir que Musk, e os mini-Musks que aguardam nos
bastidores, causem danos futuros exigirá mais do que simplesmente avaliar e
contestar sua ideologia. Precisamos diagnosticar as forças materiais que
possibilitaram esse tipo de concentração de poder de classe. Como pessoas tão
profundamente antiéticas, tão contrárias a ideias humanas básicas a ponto de
considerarem a empatia um mal social e a introspecção uma perda de tempo,
chegaram a exercer poder e influência sobre a sociedade estadunidense?
Uma
linha de investigação alternativa teria sido conectar Musk e o Muskismo à
história mais ampla da direita política global. Já mencionei o neoliberalismo,
mas a tradição fascista do “modernismo reacionário” também me veio à mente
durante a leitura do livro. Conforme teorizado na clássica obra de Jeffrey Herf
de mesmo título, o modernismo reacionário se refere à forma como pensadores e
artistas fascistas abandonaram a tecnofobia que há muito permeava a direita e
passaram a fetichizar o poder da tecnologia.
Figuras
como Ernst Jünger e Oswald Spengler acreditavam que o fracasso da Alemanha na
Primeira Guerra Mundial se devia, em grande parte, à sua incapacidade de
superar os Aliados no âmbito produtivo. A solução proposta era a ressurreição e
o empoderamento de um grande povo racial por meio de novas
tecnologias destrutivas, que deveriam ser abraçadas pelos nacionalistas
reacionários, receosos da associação da ciência com o Iluminismo igualitário.
Para esses pensadores de extrema-direita, tecnologias como os foguetes V-2 e as
aeronaves modernas eram armas para que grandes homens e guerreiros
conquistassem os céus por conta própria, e poderiam servir como ferramentas
para reforçar as hierarquias sociais, auxiliando a Alemanha a escravizar vastas
parcelas de populações racialmente inferiores em seu novo projeto de império.
A
direita tecnológica contemporânea é obviamente muito diferente de sua
contraparte do período entre guerras. Musk e outros são muito mais
individualistas, motivados por ganhos financeiros, obcecados pela cultura dos
videogames e, em grande medida, um produto do ecossistema midiático do século
XXI. No entanto, muitas de suas ansiedades — em torno do declínio da população
branca e da ascensão de supostos elementos racialmente inferiores, das demandas
potencialmente militantes da classe trabalhadora por democracia, da decadência
cultural e da disseminação da libertinagem progressista — ecoam as dos
modernistas reacionários do século passado. E há muito o que se dizer sobre
como tanto o modernismo reacionário fascista quanto a filosofia tecnológica
moderna enxergam na tecnologia um meio de conservar hierarquias sociais e até
mesmo estabelecer novas, em vez de um meio de empoderar as pessoas comuns e
destruir o elitismo. Para eles, é mais fácil nos imaginar vivendo como
ciborgues em Marte do que o fim do capitalismo.
Muskismo é uma leitura
estimulante, e sua brevidade e temática deveriam lhe garantir um público amplo.
Isso seria positivo, visto que, como demonstram Slobodian e Tarnoff, a
filosofia e as consequências apresentadas são corrosivas. Mas, no fim das
contas, Musk é apenas uma pessoa. Superestimar sua importância corre o risco de
transformá-lo em um vilão histórico — o reflexo sombrio de seu papel
autoproclamado de grande salvador. O problema não é Musk ou o muskismo, mas um
mundo no qual a esquerda precisa levar ambos a sério. Nosso objetivo não
deveria ser apenas eliminar Musk, o sintoma, mas também a ordem social que o
gerou.
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Nova onda conservadora: Trump, Musk e o Brasil de 2026
O mundo
tem testemunhado uma transformação política significativa. A ascensão de Donald Trump nos Estados
Unidos, o resultado das eleições na Alemanha, o fortalecimento de movimentos
conservadores na Europa e a crescente influência de figuras como Elon Musk demonstram uma
mudança profunda no cenário político global à direita, com uma onda
conservadora crescente. .
No
Brasil, que se aproxima das eleições de 2026, essa onda conservadora também se
reflete em um eleitorado cada vez mais desacreditado em relação às políticas do
governo de esquerda. Por isso mesmo, a pacificação da direita e sua capacidade
de articulação deve ser mais que um mero presságio da derrota da esquerda em
2026, é algo extremamente necessário.
A fala
do vice-presidente dos Estados Unidos, JD Vance, na CPAC 2025, reforça o ponto
central da estratégia política de Donald Trump: uma diplomacia baseada no
pragmatismo e na força. A abordagem tem sido clara ao enfatizar que os Estados
Unidos devem se afastar de conflitos prolongados e onerosos, ao mesmo tempo em
que reforçam o poder econômico e militar.
A onda
conservadora e a virada à direita na Europa não é um fenômeno isolado. O
crescimento do partido Alternativa para a Alemanha (AfD) e de outros movimentos
conservadores em países como França, Itália e Espanha reflete uma rejeição
popular às políticas progressistas que, para muitos, resultaram em crises
migratórias, insegurança em vários espectros e declínio econômico.
O apoio
de Elon Musk – aliado de primeira hora de Trump – a esses movimentos,
principalmente através de suas críticas ao controle estatal, à censura digital
e a liberdade de expressão, demonstra que a guerra cultural já não está
restrita unicamente ao campo político. Tecnologia e redes sociais tornaram-se
campos de batalha ideológicos.
No
Brasil, o governo de esquerda tem tentado regular as redes sociais e,
mancomunado ao crescente ativismo judicial, essa postura vem gerando forte
reação entre conservadores e defensores da liberdade de expressão. Como
ressaltei em outro artigo, a união da direita deve ir além de
questões pontuais,
como o impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal – é fundamental a
construção de uma estratégia ampla e coesa para consolidar essa virada
política.
Os
eleitores brasileiros estão cada vez mais conscientes da importância da
liberdade econômica, da segurança pública e do combate à corrupção — sobretudo
após a Lava Jato. E o que vemos? Um governo Lula que enfrenta resistência
crescente, como comprovado por pesquisas
recentes.
É por
isso que a conexão do Brasil com a nova direita global pode ser decisiva.
Líderes alinhados a Trump e aos movimentos conservadores europeus têm potencial
para influenciar diretamente o debate político nacional, incentivando uma
agenda mais afinada com tais valores. Com Lula presidente, o Brasil fica à
margem dessa discussão.
A
experiência internacional mostra que a rejeição às imposições progressistas
tende a gerar uma resposta eleitoral robusta – e o Brasil não será uma exceção
a essa onda conservadora. A política global está passando por uma transformação
irreversível: Trump, a nova direita europeia e figuras como Elon Musk moldam um
cenário em que a defesa da soberania nacional, dos direitos individuais e da
transparência governamental tornam-se pilares centrais. O Brasil, prestes a
encarar as eleições de 2026, está no centro desse embate ideológico.
Reforço,
como já destaquei anteriormente, que a direita brasileira tem todas as
condições para consolidar sua força política, desde que evite divisões internas
e priorize a construção de uma agenda sólida e coerente. A pacificação da
direita é um prenúncio claro da derrota da esquerda – mas, para
isso, é preciso ir além da retórica e pôr em prática ações contundentes e
concretas. Como bem disse Roger Scruton: “O dever dos conservadores é manter
vivas as coisas boas e reformar aquelas que precisam de mudança sem destruir o
que as tornou valiosas”.
Fonte: Por Matt
McManus - Tradução Pedro Silva, para Jacobin Brasil/Gazeta do Povo

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