quarta-feira, 15 de abril de 2026

Elon Musk representa o novo modernismo reacionário da direita

Elon Musk é muitas coisas: empreendedor, troll da extrema-direita, exemplo dos efeitos negativos da completa ausência de um bom senso de humor. Essa figura mercurial é o tema principal de Muskism: A Guide for the Perplexed, de Quinn Slobodian e Ben Tarnoff. Ambos os autores possuem o que é preciso para fazer uma análise profunda da vida e do pensamento do empreendedor do ramo da tecnologia. Slobodian é professor de história internacional na Universidade de Boston e autor de diversos livros aclamados sobre as origens intelectuais do capitalismo neoliberal. Tarnoff escreveu extensivamente sobre a política do setor tecnológico e as personalidades que compõem o Vale do Silício.

Essa experiência transparece no mais recente lançamento da dupla, um livro seguro e conciso sem jamais parecer apressado. Parte biografia crítica, parte análise político-econômica da era neoliberal, é uma obra bem escrita e incisiva que desvenda a assustadora visão de mundo de seu “protagonista” com detalhes impressionantes.

Apesar de todos os seus méritos, a narrativa de Muskism sobre a ascensão e influência de seu protagonista concentra-se exclusivamente na ideologia, obscurecendo as forças políticas e econômicas mais amplas que atuam nos bastidores. Isso torna o livro esclarecedor, mas, em última análise, limitado em sua abordagem para a compreensão das patologias do presente. Seria benéfico situar Musk no contexto mais amplo das instituições e práticas que lhe permitiram prosperar e discutir sua relação com a direita em geral. Diante disso, achei Muskism mais sugestivo do que revelador e fiquei com a sensação de que uma crítica definitiva de esquerda sobre esse personagem ainda não foi escrita.

<><> Hitler mecânico e o conservadorismo ciborgue

Musk, como figura, presta-se ao tipo de análise defendida por Slobodian e Tarnoff, que orbita no limiar entre biografia e polêmica. Ele possui uma necessidade patológica de atenção e uma capacidade infinita de autodramatização. Essas características aparentemente estavam presentes desde o início de sua carreira. Ao descrever a ascensão do bilionário durante a bolha da internet na década de 1990, Slobodian e Tarnoff argumentam que o que “diferenciava Musk não era sua habilidade em engenharia ou a perspicácia nos negócios, mas uma crença inabalável no futuro — e seu talento para fazer com que os outros também acreditassem nisso”. Musk é, em sua essência, um “fabulista”: alguém que “mistura fantasia e realismo” para contar histórias sobre as “transformações extraordinárias” que suas empresas e sua tecnologia trarão, certificando-se de omitir o apoio de investidores privados e governos que torna esse sucesso possível.

Slobodian e Tarnoff observam que o estilo de comunicação de Musk sempre foi “proléptico” e promissor. Suas especulações utópicas e sua crença no poder dos milagres tecnológicos são o complemento necessário para suas previsões sombrias e apocalípticas sobre o vírus da mentalidade woke, a teoria da “grande substituição” da população branca, o avanço do socialismo e qualquer outro assunto sobre o qual o magnata se veja tuitando às cinco da manhã. Essas fantasias sombrias são, segundo Slobodian e Tarnoff, o obstáculo para a realização de um “sublime tecnológico que está sempre a apenas uma década de distância”. Isso confere a Musk um senso de autoimportância quase religioso. A fachada que ele criou para si mesmo, no entanto, é frágil e repleta de inseguranças, a ponto de ele se sentir compelido a mentir sobre sua habilidade em videogames.

“Como foi possível que pessoas tão profundamente antiéticas, tão contrárias a ideias humanas básicas a ponto de considerarem a empatia um mal social e a introspecção uma perda de tempo, chegassem a exercer poder e influência sobre a sociedade estadunidense?”

Slobodian e Tarnoff inferem, corretamente a meu ver, que esse fabulismo é parte integrante da política de direita de Musk. Há algumas comparações interessantes a serem feitas aqui com seu amigo intermitente, Donald Trump. O próprio Trump começou com uma política relativamente ambígua, mas de forma alguma convencionalmente conservadora. Em uma passagem incomumente autoconsciente de A Arte da Negociação, o futuro presidente descreveu como explorava as fantasias das pessoas por meio de uma “hipérbole verídica”. Ele reconheceu que, embora as pessoas comuns possam não pensar “grande”, elas admiram aqueles que “acreditam que algo é o maior, o melhor e o mais espetacular”. Tanto para Musk quanto para Trump, o fabulista pode se tornar um grande homem explorando as fantasias das massas, que de outra forma seriam dóceis — uma visão de mundo que explica a predileção de ambos pela hierarquia e pela autoexaltação. É a teoria do grande homem de Thomas Carlyle adaptada à era neoliberal.

Da mesma forma, Musk pode ter começado sua carreira atendendo ao desejo dos liberais californianos de classe média alta de salvar o mundo comprando carros de 100 mil dólares, mas isso tinha menos a ver com um profundo amor pela humanidade do que com a necessidade de ser amado por ela. Slobodian e Tarnoff explicam a aterrissagem de Musk na direita conspiratória sob várias perspectivas. Algumas das “razões materiais são fáceis de deduzir”, escrevem eles:

Assim como outros bilionários que projetavam uma imagem pública liberal, especialmente aqueles do Vale do Silício, Musk se sentia alienado pela crescente influência da esquerda estadunidense. Ele desprezava a proposta do presidente Biden de criar um imposto sobre a riqueza dos super-ricos, bem como o apoio do governo aos sindicatos e a pressão regulatória e antitruste da presidente da FTC, Lina Khan.

Mas as razões mais profundas para a atração de Musk pela direita residem no âmbito da ideologia, e não da economia política. Musk invoca rotineiramente a noção de “empatia suicida” do influenciador de direita Gad Saad para descrever a compaixão pelos fracos e sofredores como um problema que impede o progresso da civilização ocidental. Esse problema direciona atenção excessiva para as necessidades e o empoderamento das classes mais baixas, o que, por sua vez, mina a capacidade de figuras como Musk de construir o futuro à sua própria imagem. O muskismo, escrevem Slobodian e Tarnoff, “sempre se dedicou a uma defesa vigorosa da hierarquia. Alguns humanos nascem para governar; outros, para serem governados.”

Talvez não seja surpreendente que essa ideologia tenha levado seus defensores a abraçar um profundo anti-humanismo. A humanidade “deveria se fundir com a máquina — contanto que [permaneça] segmentada por gênero, raça e classe. Podemos chamar isso de conservadorismo ciborgue”. Por exemplo, Musk não vê problema em pessoas implantarem microchips em si mesmas para se conectarem aos seus computadores por meio do “Neuralink”, porque ele lucra com isso e obtém certo controle sobre suas vidas. Mas pessoas trans que tentam mudar de gênero desafiam o apreço do CEO por uma hierarquia de gênero supostamente natural que deve permanecer essencialmente inalterada.

A análise de Slobodian e Tarnoff sobre a visão de mundo de Musk é fascinante e informativa, mas o livro perde a oportunidade de abordar, com maior relevância histórica, como a perspectiva do magnata da tecnologia se conecta à da direita em geral.

<><> Cidadão Musk

Olivro de Slobodian e Tarnoff concentra-se intensamente em seu tema principal. Muskismo trata essencialmente da visão de mundo de Musk, chegando ao ponto de incluir o epílogo arrepiante em que os autores descrevem os potenciais futuros distópicos que o bilionário da tecnologia gostaria de nos impor. Até aqui, tudo bem, mas o foco em uma única figura acaba, em certos momentos, obscurecendo tanto quanto revela. Quais estruturas sociais permitiram que Musk e seus pares adquirissem tanto poder, a ponto de seu futurismo tecno-reacionário messiânico representar uma ameaça real, e não apenas material para uma ficção científica de segunda categoria? Como e onde Musk se encaixa na história mais ampla da direita política?

Estranhamente, apesar de Slobodian ter escrito extensivamente sobre a história dos pensadores neoliberais, há pouco esforço em conectar Musk, como indivíduo, a essa tradição, muito menos em descrever como as políticas e práticas neoliberais ajudaram a facilitar sua ascensão. Logo no início do livro, mencionam como Musk lucrou com os esforços do governo George W. Bush para privatizar funções governamentais, inclusive as forças armadas, em nome de uma integração mais enxuta e eficiente entre Estado e capital. Isso ajudaria a explicar por que os esforços tímidos de Joe Biden para conter o poder dos oligarcas fracassaram. Adotar uma perspectiva mais estrutural e de longa duração também estimularia um conjunto menos personalizado de ideias sobre como responder ao muskismo e a outras vulgaridades produzidas pelos estágios finais do capitalismo neoliberal.

Slobodian e Tarnoff são muito convincentes ao demonstrar que o legado de Musk será, em grande parte, trágico. Mas impedir que Musk, e os mini-Musks que aguardam nos bastidores, causem danos futuros exigirá mais do que simplesmente avaliar e contestar sua ideologia. Precisamos diagnosticar as forças materiais que possibilitaram esse tipo de concentração de poder de classe. Como pessoas tão profundamente antiéticas, tão contrárias a ideias humanas básicas a ponto de considerarem a empatia um mal social e a introspecção uma perda de tempo, chegaram a exercer poder e influência sobre a sociedade estadunidense?

Uma linha de investigação alternativa teria sido conectar Musk e o Muskismo à história mais ampla da direita política global. Já mencionei o neoliberalismo, mas a tradição fascista do “modernismo reacionário” também me veio à mente durante a leitura do livro. Conforme teorizado na clássica obra de Jeffrey Herf de mesmo título, o modernismo reacionário se refere à forma como pensadores e artistas fascistas abandonaram a tecnofobia que há muito permeava a direita e passaram a fetichizar o poder da tecnologia.

Figuras como Ernst Jünger e Oswald Spengler acreditavam que o fracasso da Alemanha na Primeira Guerra Mundial se devia, em grande parte, à sua incapacidade de superar os Aliados no âmbito produtivo. A solução proposta era a ressurreição e o empoderamento de um grande povo racial por meio de novas tecnologias destrutivas, que deveriam ser abraçadas pelos nacionalistas reacionários, receosos da associação da ciência com o Iluminismo igualitário. Para esses pensadores de extrema-direita, tecnologias como os foguetes V-2 e as aeronaves modernas eram armas para que grandes homens e guerreiros conquistassem os céus por conta própria, e poderiam servir como ferramentas para reforçar as hierarquias sociais, auxiliando a Alemanha a escravizar vastas parcelas de populações racialmente inferiores em seu novo projeto de império.

A direita tecnológica contemporânea é obviamente muito diferente de sua contraparte do período entre guerras. Musk e outros são muito mais individualistas, motivados por ganhos financeiros, obcecados pela cultura dos videogames e, em grande medida, um produto do ecossistema midiático do século XXI. No entanto, muitas de suas ansiedades — em torno do declínio da população branca e da ascensão de supostos elementos racialmente inferiores, das demandas potencialmente militantes da classe trabalhadora por democracia, da decadência cultural e da disseminação da libertinagem progressista — ecoam as dos modernistas reacionários do século passado. E há muito o que se dizer sobre como tanto o modernismo reacionário fascista quanto a filosofia tecnológica moderna enxergam na tecnologia um meio de conservar hierarquias sociais e até mesmo estabelecer novas, em vez de um meio de empoderar as pessoas comuns e destruir o elitismo. Para eles, é mais fácil nos imaginar vivendo como ciborgues em Marte do que o fim do capitalismo.

Muskismo é uma leitura estimulante, e sua brevidade e temática deveriam lhe garantir um público amplo. Isso seria positivo, visto que, como demonstram Slobodian e Tarnoff, a filosofia e as consequências apresentadas são corrosivas. Mas, no fim das contas, Musk é apenas uma pessoa. Superestimar sua importância corre o risco de transformá-lo em um vilão histórico — o reflexo sombrio de seu papel autoproclamado de grande salvador. O problema não é Musk ou o muskismo, mas um mundo no qual a esquerda precisa levar ambos a sério. Nosso objetivo não deveria ser apenas eliminar Musk, o sintoma, mas também a ordem social que o gerou.

¨      Nova onda conservadora: Trump, Musk e o Brasil de 2026

O mundo tem testemunhado uma transformação política significativa. A ascensão de Donald Trump nos Estados Unidos, o resultado das eleições na Alemanha, o fortalecimento de movimentos conservadores na Europa e a crescente influência de figuras como Elon Musk demonstram uma mudança profunda no cenário político global à direita, com uma onda conservadora crescente. .

No Brasil, que se aproxima das eleições de 2026, essa onda conservadora também se reflete em um eleitorado cada vez mais desacreditado em relação às políticas do governo de esquerda. Por isso mesmo, a pacificação da direita e sua capacidade de articulação deve ser mais que um mero presságio da derrota da esquerda em 2026, é algo extremamente necessário.

A fala do vice-presidente dos Estados Unidos, JD Vance, na CPAC 2025, reforça o ponto central da estratégia política de Donald Trump: uma diplomacia baseada no pragmatismo e na força. A abordagem tem sido clara ao enfatizar que os Estados Unidos devem se afastar de conflitos prolongados e onerosos, ao mesmo tempo em que reforçam o poder econômico e militar.

A onda conservadora e a virada à direita na Europa não é um fenômeno isolado. O crescimento do partido Alternativa para a Alemanha (AfD) e de outros movimentos conservadores em países como França, Itália e Espanha reflete uma rejeição popular às políticas progressistas que, para muitos, resultaram em crises migratórias, insegurança em vários espectros e declínio econômico.

O apoio de Elon Musk – aliado de primeira hora de Trump – a esses movimentos, principalmente através de suas críticas ao controle estatal, à censura digital e a liberdade de expressão, demonstra que a guerra cultural já não está restrita unicamente ao campo político. Tecnologia e redes sociais tornaram-se campos de batalha ideológicos.

No Brasil, o governo de esquerda tem tentado regular as redes sociais e, mancomunado ao crescente ativismo judicial, essa postura vem gerando forte reação entre conservadores e defensores da liberdade de expressão. Como ressaltei em outro artigo, a união da direita deve ir além de questões pontuais, como o impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal – é fundamental a construção de uma estratégia ampla e coesa para consolidar essa virada política.

Os eleitores brasileiros estão cada vez mais conscientes da importância da liberdade econômica, da segurança pública e do combate à corrupção — sobretudo após a Lava Jato. E o que vemos? Um governo Lula que enfrenta resistência crescente, como comprovado por pesquisas recentes.

É por isso que a conexão do Brasil com a nova direita global pode ser decisiva. Líderes alinhados a Trump e aos movimentos conservadores europeus têm potencial para influenciar diretamente o debate político nacional, incentivando uma agenda mais afinada com tais valores. Com Lula presidente, o Brasil fica à margem dessa discussão.

A experiência internacional mostra que a rejeição às imposições progressistas tende a gerar uma resposta eleitoral robusta – e o Brasil não será uma exceção a essa onda conservadora. A política global está passando por uma transformação irreversível: Trump, a nova direita europeia e figuras como Elon Musk moldam um cenário em que a defesa da soberania nacional, dos direitos individuais e da transparência governamental tornam-se pilares centrais. O Brasil, prestes a encarar as eleições de 2026, está no centro desse embate ideológico.

Reforço, como já destaquei anteriormente, que a direita brasileira tem todas as condições para consolidar sua força política, desde que evite divisões internas e priorize a construção de uma agenda sólida e coerente. A pacificação da direita é um prenúncio claro da derrota da esquerda – mas, para isso, é preciso ir além da retórica e pôr em prática ações contundentes e concretas. Como bem disse Roger Scruton: “O dever dos conservadores é manter vivas as coisas boas e reformar aquelas que precisam de mudança sem destruir o que as tornou valiosas”.

 

Fonte: Por Matt McManus - Tradução Pedro Silva, para Jacobin Brasil/Gazeta do Povo

 

Nenhum comentário: