Luís
Nassif: Como Alessandro Vieira tornou-se agente do crime organizado
Em 120
dias de funcionamento, 18 reuniões e 220 páginas de documentos, a CPI realizou
um levantamento dos crimes relacionados às atividades econômicas, à lavagem de
dinheiro e de infiltração no poder público, com destaque para o caso do Banco
Master. Até aí, trabalho legítimo. O problema está na conclusão: depois de toda
essa investigação, o relator escolheu pedir o indiciamento de três ministros do
Supremo Tribunal Federal — Dias Toffoli, Alexandre de Moraes e Gilmar Mendes —
e do procurador-geral da República, Paulo Gonet, por supostos crimes de
responsabilidade.
Daniel
Vorcaro, dono do Banco Master, não foi indiciado. Fabiano Zettel, seu cunhado e
operador financeiro identificado pela própria CPI como responsável por
pagamentos ilegais, não foi indiciado. Roberto Campos Neto, ex-presidente do
Banco Central que autorizou a absorção do Master pelo BRB, não foi indiciado.
O líder
do governo no Senado, Jaques Wagner, resumiu a contradição: “Do ponto de vista
de indiciamento, Zettel não foi indiciado, Daniel não foi indiciado, o
ex-presidente do Banco Central não foi indiciado.” Wagner votou contra. Soraya
Thronicke, que não é governista, também votou contra. O presidente da CPI,
Fabiano Contarato, igualmente se opôs.
A
questão que o relatório levanta — e que recusa responder — é estrutural: uma
CPI criada para investigar o crime organizado pode encerrar seus trabalhos
tendo escolhido como alvo principal as instituições que investigam o crime
organizado?
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As formas do lobby
Há duas
maneiras de montar um lobby.
Uma, é
defendendo o padrinho. Se for inviável – reputação muito pesada, imagem
negativa consolidada – ataque o adversário do padrinho.
Aparentemente
foi o que fez o senador Alessandro Vieira, no relatório da CPI do Crime
Organizado. Seja qual for sua intenção, Alessandro Vieira transformou-se no
principal lobista do crime organizado no Senado federal.
Analise,
por exemplo, a Operação Colossus – primeira grande investida contra o crime
organizado. E, depois, o caso Master.
A
primeira etapa envolveu Polícia Federal e Ministérios Públicos. A segunda etapa
envolverá Supremo Tribunal Federal e Procuradoria Geral da República, a partir
do momento que se identifique a participação de deputados e senadores nas
tramóias.
É aí
que entra o fator Alessandro Vieira.
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Envolvimento de políticos com o crime organizado:
• Cerca de 70 deputados federais
envolvidos no escândalo das emendas secretas.
• Três governadores e inúmeros prefeitos
que liberaram depósitos dos fundos de previdência para o Master:
o Rio de Janeiro (Cláudio Castro): ~R$ 970
milhões via Rioprevidência.
• Amapá (Clécio Luís): ~R$ 400 milhões.
• Amazonas (Wilson Lima): ~R$ 50 milhões.
• Prefeituras: Maceió/AL, Cajamar/SP e São
Roque/SP (somas que superam R$ 270 mi).
• Ciro Nogueira (PP-PI): Senador e
presidente do PP, frequentemente citado como um dos principais articuladores e
ligado ao banqueiro.
• Antonio Rueda (União Brasil): Presidente
do União Brasil, classificado como parte da rede de influência.
• Ibaneis Rocha (MDB-DF): Governador do
Distrito Federal, também citado entre os próximos políticos.
Ao
desviar os ataques dos criminosos para os julgadores, é nítido que a intenção
de Alessandro Vieira foi dobrar ambas as instituições em seu trabalho
profilático no Congresso.
Mais
que isso, deixou de lado a imensa rede de organizações que atuavam no entorno
do caso Master. Deixou de apurar a atuação do crime organizado nos seguintes
setores:
1.
Transporte e logística.
2.
Construção civil e empreiteiras.
3.
Postos de combustíveis.
É caso
da PGR investigar os reais motivos que levaram Alessandro Vieira a atuar
claramente em teses benéficas ao crime organizado.
• Alessandro Vieira: Entre a pirotecnia do
“Shazam!” e a irresponsabilidade institucional. Por Luís Nassif
O
relatório da CPI do Crime Organizado, assinado pelo senador Alessandro Vieira,
é um monumento à demagogia e um exercício perigoso de irresponsabilidade.
Vieira, um político que parece enxergar na relatoria de uma CPI o anel do
Shazam! — imaginando-se dotado de poderes sobrenaturais para indiciar sem
provas — produziu uma peça de ficção jurídica que atenta contra a estabilidade
das instituições.
É de
uma leviandade absoluta a tentativa de indiciamento de três Ministros da
Suprema Corte e do Procurador-Geral da República. Trata-se de uma fanfarronice
que ignora o rigor dos fatos em nome do espetáculo. Em nenhum trecho do
documento o relator aponta um único fato objetivo que comprove o beneficiamento
do Banco Master por qualquer um dos magistrados. O texto limita-se a reciclar o
que há de pior no submundo das fofocas jornalísticas.
Criminaliza-se
o dever: o relatório cita o “incômodo” de delegados da PF com decisões de Dias
Toffoli que visavam, exclusivamente, interromper vazamentos ilegais de
inquéritos sigilosos. Ou seja, tenta-se transformar uma decisão moralizadora em
crime para proteger a prática contumaz da ilegalidade. Se o Master financiou um
resort frequentado por Toffoli, temos uma questão de ordem ética — e um
delegado de carreira como Vieira deveria ter o discernimento jurídico básico
para separar deslizes éticos de tipos penais.
O
relatório é, em essência, uma ferramenta de omissão planejada e chantagem
institucional, sustentada por três grandes falhas estruturais:
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1. O “Buraco Negro” dos Governadores e o Silêncio sobre os RPPS
O
relatório elegeu o BRB (Ibaneis Rocha) como alvo por ser um front político
conveniente. No entanto, silencia covardemente sobre a exposição massiva dos
Regimes Próprios de Previdência Social (RPPS) de diversos estados e municípios
— o verdadeiro combustível que inflou o Master.
• A Omissão Consciente: O Master captou
bilhões de fundos de previdência de servidores em administrações de variados
matizes políticos:
o Rio de Janeiro (Cláudio Castro): ~R$ 970
milhões via Rioprevidência.
o Amapá (Clécio Luís): ~R$ 400 milhões.
o Amazonas (Wilson Lima): ~R$ 50 milhões.
o Prefeituras: Maceió/AL, Cajamar/SP e São
Roque/SP (somas que superam R$ 270 mi).
• O Motivo: Investigar esses nomes
revelaria que a blindagem do Master era capilarizada, unindo governadores na
busca por rentabilidades artificiais (os famosos 140% do CDI).
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2. O “Eixo XP”
O
relatório ataca o Banco Central, mas protege o canal de escoamento. O colapso
do Master é, antes de tudo, um escândalo de distribuição financeira.
• A Conexão Omitida: Grandes plataformas,
como a XP Investimentos, foram as principais distribuidoras de títulos do
Master, atingindo 1,6 milhão de CPFs.
• O Incentivo Perverso: Vieira evitou
tocar nas taxas de rebate pagas a assessores para “empurrar” papéis de alto
risco ao pequeno investidor. Enfrentar o lobby da Faria Lima não estava nos
planos do senador.
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3. O Triângulo Master-Reag-Besc
O
documento cita pagamentos a escritórios, mas foge da autópsia financeira do
“como” a lavagem ocorria.
• A Operação: O Master emprestava para
empresas de fachada, que aplicavam em fundos da Reag Investimentos, que, por
sua vez, adquiriam títulos podres do antigo Besc a preços inflados.
• A Falha de Prova: Sem periciar esses
fluxos, Vieira estacionou na “suspeita de lobby” (imoral, mas de difícil
condenação), fugindo da caracterização de fraude financeira estruturada.
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Conclusão: O Relatório como “Dossiê de Gaveta”
O
trabalho de Alessandro Vieira não busca justiça. Serve para enquadrar o STF em
futuras negociações e isolar Roberto Campos Neto para justificar intervenções
políticas no BC. Ao poupar as plataformas e a cadeia de RPPS, a CPI garante que
o sistema continue operando — apenas aguardando o próximo operador para
substituir o Master.
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As perguntas que restam sem resposta são o veredito final sobre a seriedade
desta CPI:
1. Por que o Master pagou R$ 100 milhões em
consultorias políticas justamente quando o BC discutia a regra dos precatórios?
2. Qual a origem real dos R$ 954 milhões
aportados por Vorcaro no último minuto? Seria o retorno de lucros evadidos?
3. Por que nenhuma corretora explicou por
que continuou vendendo Master mesmo após os alertas de “risco jurídico severo”
do Banco Central em 2024?
Vieira
entregou fofoca fantasiada de relatório; o país continua esperando pela
verdade.
• “Delação de Beto Louco pode abalar a
República mais do que o caso Master”, avalia João Pires
A
delação premiada de Beto Louco, apontado como o principal elo entre a máfia dos
combustíveis e o Primeiro Comando da Capital (PCC), tem o potencial de provocar
um abalo sísmico nas instituições brasileiras, superando em gravidade e
capilaridade o escândalo do Banco Master.
O
alerta é de João Pires, ex-secretário de Proteção e Defesa do Consumidor do Rio
de Janeiro e sobrevivente de um atentado relacionado à sua atuação contra a
máfia dos combustíveis, em entrevista à TV GGN na sexta-feira (10).
“A
delação de Beto Louco tem um potencial de abalar a República tanto quanto o
Banco Master, ou até pior. Estamos falando das 27 unidades da federação. Hoje
não tem uma unidade que esteja ilesa”.
Nesta
sexta-feira (10), Beto Louco protocolou junto ao Ministério Público de São
Paulo sua proposta de delação premiada, no âmbito da Operação Carbono Oculto.
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O elo com Brasília
A
manutenção desse sistema bilionário, explica Pires, dependeria diretamente da
blindagem oferecida por figuras de altíssima influência no Congresso Nacional.
Segundo ele, nomes centrais do União Brasil e do PP aparecem invariavelmente
ligados aos grandes escândalos do país, mencionando a recente união dessas
forças políticas como uma forma de consolidar esse domínio.
“Antônio
Rueda é um dos homens mais poderosos do Brasil e está envolvido em praticamente
todos os grandes escândalos. Ele e o senador Ciro Nogueira são os campeões; não
tem um escândalo em que os dois não estejam envolvidos. Para consolidar essa
dobradinha, União Brasil e PP se unem agora em federação. Muita gente teme
falar desses personagens, mas é preciso dar luz a isso”.
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A engrenagem da corrupção estatal
O
esquema criminoso opera à luz do dia devido ao suborno deliberado de agentes
públicos em cargos estratégicos. Segundo o ex-secretário, a fraude é conhecida
pelos órgãos de controle, mas a fiscalização é travada por uma rede que alcança
secretarias de Fazenda e o Judiciário, garantindo que refinarias e postos
irregulares continuem funcionando via liminares.
“O
poder público sabe muito bem como funciona e sabe como combater. Os grandes
vilões são auditores de receita envolvidos com secretários estaduais de
Fazenda, que operam esquemas de alvará e sonegação na cadeia de distribuição”.
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A verticalização do crime e a blindagem em fintechs
A máfia
também teria avançado para a “verticalização” do setor, controlando desde a
importação e o refino, com destaque para casos como o da Refit – alertado pelo
GGN – até a venda direta ao consumidor em postos administrados por laranjas.
Para lavar o dinheiro e fugir do rastreio do COAF e da Receita Federal, o grupo
utiliza estruturas complexas no mercado financeiro e novas tecnologias.
“Ninguém
movimenta tanta grana sem gente com lastro. Eles utilizam holdings ligadas a
fundos para dificultar o rastreio. Hoje, concentram-se muito nas fintechs pela
dificuldade maior que os órgãos de controle têm de acessar esses dados. Estão
avançando fortemente em comprar postos para escoar e lavar esse dinheiro”.
Fonte:
Jornal GGN

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