quarta-feira, 15 de abril de 2026

Maria Luiza Falcão: BRICS+ e a ordem em disputa - o mundo já não cabe mais em uma hegemonia

A trégua provisória entre Estados Unidos e Irã não encerra a guerra. Ela expõe algo mais profundo: a incapacidade crescente de Washington de impor soluções duradouras nos termos que historicamente definiu. O que se vê não é o fim de um conflito, mas a revelação de um limite — e, com ele, a abertura de um espaço.

É nesse espaço que o debate sobre o papel do BRICS ganha densidade.

Um artigo recente de Jim O'Neill sugere que o conflito no Oriente Médio pode deslocar o equilíbrio estratégico em direção ao eixo asiático e oferecer ao BRICS+ a oportunidade de se afirmar como liderança inevitável da nova ordem global. A formulação é provocativa — e parcialmente correta. Mas precisa ser reposicionada.

O ponto central não é que os BRICS+ estejam prestes a substituir os Estados Unidos como novo centro hegemônico. O ponto é outro: o mundo já não comporta mais uma hegemonia única.

<><> O esgotamento da centralidade americana

Durante décadas, a ordem internacional funcionou sob uma premissa relativamente estável: os Estados Unidos eram capazes de combinar poder militar, capacidade financeira e legitimidade política para arbitrar crises e estruturar consensos.

Esse arranjo claramente já não se sustenta.

A guerra envolvendo o Irã deixou isso evidente. A intervenção ocorreu sem planejamento estratégico claro, sem construção de coalizão política robusta e, sobretudo, sem capacidade de produzir um desfecho estável. O resultado não é vitória — é contenção de danos.

Esse tipo de atuação tem consequências sistêmicas. Quando a principal potência global demonstra capacidade de iniciar conflitos, mas não de resolvê-los, abre-se um vazio de governança. E vazios de governança não permanecem vazios por muito tempo.

Eles são ocupados.

<><> BRICS+: não hegemonia, mas centralidade

É nesse contexto que o BRICS+ deve ser compreendido.

Não como um bloco coeso pronto para "governar o mundo", mas como uma plataforma de coordenação entre grandes economias emergentes que passam a ter papel crescente na definição dos termos da ordem internacional.

A ampliação recente do grupo — formalizada na cúpula de Joanesburgo, em 2023, e consolidada ao longo de 2024 com a entrada de países como Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Irã, Egito e Etiópia — alterou qualitativamente a natureza do BRICS. O bloco passa a incorporar alguns dos principais produtores de energia do mundo, reunindo uma parcela significativa da oferta global de petróleo e gás, algo que, na prática, aproxima sua configuração de um arranjo com peso comparável ao da OPEP no plano energético. Não deixa de ser irônico que esse movimento ocorra justamente dentro de um agrupamento cujo acrônimo — BRIC — foi cunhado, no início dos anos 2000, por Jim O'Neill, então economista do Goldman Sachs, para designar um conjunto de economias emergentes com potencial de crescimento.

O que era uma categoria analítica transforma-se, agora, em uma articulação política com implicações estratégicas reais. O BRICS+ deixa de ser apenas um fórum econômico e passa a incorporar, de forma mais direta, dimensões centrais da geopolítica contemporânea: energia, rotas comerciais, segurança e autonomia frente a mecanismos de sanção e pressão externa.

Isso não transforma o bloco em uma aliança militar. Mas amplia sua capacidade de articulação política.

E, no mundo que emerge, essa capacidade é decisiva.

<><> Um mundo pós-hegemônico

A leitura mais produtiva, portanto, não é a de uma "substituição" de hegemonia, mas a de uma transição para um sistema mais fragmentado, negociado e instável — um mundo pós-hegemônico.

Nesse cenário, o BRICS+ tende a desempenhar três funções centrais.

A primeira é oferecer um espaço de coordenação entre países que não se veem mais representados pelas instituições tradicionais de governança global. Fundo Monetário Internacional (FMI), Banco Mundial e até mesmo a Organização das Nações Unidas (ONU) carregam hoje déficits evidentes de legitimidade.

A segunda é ampliar as possibilidades de financiamento, comércio e cooperação fora dos circuitos dominados pelo Ocidente. O debate sobre uso de moedas locais, por exemplo, não é apenas técnico — é profundamente político.

Se há um pilar que ainda sustenta a centralidade dos Estados Unidos, ele não está apenas no poder militar, mas na posição do dólar como moeda de reserva global. É essa condição que permite financiar déficits em larga escala, impor sanções com alcance extraterritorial e projetar poder econômico mesmo em contextos de fragilidade política.

Mas esse pilar começa a ser tensionado.

A ampliação do BRICS+ e a crescente articulação entre seus membros trazem à tona um movimento ainda incipiente, mas estrutural: a busca por alternativas ao dólar nas transações comerciais e financeiras. Não se trata, ao menos por ora, de substituição direta, mas de diversificação deliberada. Acordos bilaterais em moedas locais, mecanismos de compensação fora do sistema dominado pelo Ocidente e discussões sobre novos instrumentos de liquidação internacional indicam que o tema deixou de ser periférico.

A própria presença de grandes produtores de energia dentro do BRICS+ amplia essa possibilidade. A ideia — ainda seletiva, mas cada vez mais recorrente — de precificação de petróleo em moedas alternativas, como o renminbi (yuan), recoloca a moeda no centro da disputa geopolítica.

Isso não significa o colapso do dólar. Sua profundidade financeira e seu papel como ativo de segurança permanecem incomparáveis no curto prazo. Mas significa algo talvez mais relevante: o início de um processo em que a hegemonia monetária deixa de ser incontestada. E, uma vez questionada, ela nunca volta a ser a mesma.

A terceira é funcionar como instância de mediação em crises internacionais, especialmente naquelas em que o Ocidente aparece como parte do problema, e não como solução.

Nenhuma dessas funções, isoladamente, constitui hegemonia. Mas, juntas, redesenham o sistema.

<><> China, Índia e os limites da convergência

O artigo de O'Neill acerta ao destacar o papel crescente da China e da Índia. Ambas ganham centralidade em um contexto de deslocamento do eixo dinâmico da economia global para o Indo-Pacífico.

Mas há um ponto que não pode ser ignorado: o BRICS+ não é um bloco homogêneo.

China e Índia têm interesses distintos, trajetórias diferentes e, em alguns casos, rivalidades históricas. Isso vale para outros membros do grupo. Essa heterogeneidade não é um detalhe — é uma característica estrutural.

Paradoxalmente, é também uma das suas forças.

Porque o que o BRICS oferece não é uniformidade, mas possibilidade de negociação sem tutela externa.

<><> O que está realmente em jogo

A guerra no Oriente Médio não está apenas redesenhando equilíbrios regionais. Ela está acelerando um processo mais amplo: a reconfiguração da ordem internacional.

O que está em curso não é a ascensão de um novo império, mas o enfraquecimento da ideia de que um único centro pode organizar o mundo.

Nesse processo, o BRICS+ emerge menos como substituto e mais como sintoma — sintoma de um sistema que já não funciona como antes e que busca, ainda de forma incompleta e contraditória, novos arranjos.

A ordem que vem pela frente será mais complexa, menos previsível e mais disputada.

Mas uma coisa parece cada vez mais clara: ela não será mais unipolar.

<><> E há um dado adicional que torna essa transição incontornável

Sob a presidência da Índia em 2026, o BRICS+ se aproxima de sua próxima cúpula de líderes em um momento em que a ordem internacional já não consegue ocultar seu esgotamento. Não se trata de mais uma reunião diplomática. Trata-se da tentativa, ainda em construção, de organizar um novo eixo de poder em um sistema que perdeu sua capacidade de coordenação.

Enquanto os Estados Unidos demonstram capacidade de iniciar guerras, mas não de produzir estabilidade, o restante do mundo deixa de esperar por soluções que já não virão.

Esse é o ponto de ruptura.

O BRICS+ não é uma promessa. É uma resposta.

Uma resposta imperfeita, heterogênea, cheia de tensões internas — mas, ainda assim, uma resposta concreta à falência de um modelo de ordem baseado na centralidade de uma única potência.

A questão já não é mais se o mundo será multipolar.

A questão é que ele já é.

E aqueles que insistirem em operar como se a ordem anterior ainda estivesse de pé não apenas interpretarão mal o presente — estarão, sobretudo, incapacitados de disputar o futuro.

¨      China amplia controles de exportação e pressão geoeconômica antes de encontro com Trump, diz mídia

A China quase triplicou o uso de controles de exportação nos últimos cinco anos, segundo um relatório que aponta a disposição de Pequim em usar seu peso nas cadeias globais de suprimentos às vésperas das negociações entre Xi Jinping e o presidente dos EUA, Donald Trump.

De acordo com Financial Times, Pequim está usando seu peso nas cadeias de suprimentos para estabelecer novos controles de exportação após a divulgação de novas regulamentações que permitem punir empresas estrangeiras por conduzirem auditorias prévias em fornecedores chineses e impor proibições de saída a indivíduos que violem as regras.

O relatório da Câmara de Comércio da União Europeia na China mostra que o país anunciou 30 restrições de exportação entre 2021 e 2025, ante apenas 11 nos cinco anos anteriores. Desde 2020, Pequim passou a adotar controles "geoeconômicos", voltados a objetivos geopolíticos, explorando gargalos globais — como o domínio sobre terras raras — e usando medidas econômicas para pressionar outros países.

Essas ações se intensificaram em resposta às restrições impostas pelos EUA a produtos como semicondutores, culminando no uso chinês de controles sobre minerais críticos para forçar Trump a aceitar uma trégua na guerra comercial.

Para a União Europeia (UE), embora alguns controles sejam justificáveis por razões de segurança, há risco de uma "corrida para o fundo do poço" caso grandes potências continuem a instrumentalizar o comércio.

Segundo a apuração, o relatório destaca que a China vê nesses instrumentos uma forma de demonstrar a Trump e a outros líderes estrangeiros que está disposta a retaliar tentativas de limitar o acesso chinês a mercados, insumos industriais e tecnologias.

O país, que registrou superávit comercial recorde de US$ 1,2 trilhão (cerca de R$ 5,99 trilhões) no ano passado, depende das exportações líquidas para sustentar o crescimento em meio à fraqueza doméstica e ao investimento estatal em setores avançados.

Pequim vem ampliando seu arcabouço legal de contramedidas desde 2020, com leis sobre controle de exportações, investimento estrangeiro, comércio e combate a sanções. Essas normas formalizam práticas já usadas em episódios anteriores, como o corte de terras raras ao Japão em 2010 e o bloqueio a importações australianas após a demanda por uma investigação sobre a origem do coronavírus.

A nova rodada de controles, o Regulamento sobre Segurança Industrial e da Cadeia de Suprimentos, em vigor desde 31 de março, é considerada uma das mais abrangentes.

Advogados consultados pela apuração afirmaram que as medidas ampliam a capacidade de Pequim de responder a regulações norte-americanas que imponham novas limitações à cadeia de suprimentos chinesa.

Especialistas alertam que restringir as auditorias prévias, no entanto, pode ser contraproducente, pois impede compradores internacionais de aplicar padrões de qualidade e de trabalho reconhecidos globalmente.

¨      Governo firma acordo com China para desenvolver inteligência artificial nacional

O governo brasileiro formalizou um acordo de cooperação com a China para desenvolver inteligência artificial nacional, com foco em ampliar a soberania digital e fortalecer a infraestrutura tecnológica voltada ao funcionamento do Estado. A iniciativa envolve o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), o Serpro e a empresa chinesa iFlytek.

A parceria foi oficializada na última sexta-feira (10) e integra a estratégia de cooperação tecnológica entre Brasil e China, com o objetivo de posicionar a inteligência artificial como uma infraestrutura crítica para o setor público.

O ministro interino do MCTI, Luis Fernandes, destacou o caráter estratégico da iniciativa diante das transformações globais impulsionadas pela tecnologia. “Este protocolo se insere na cooperação estratégica entre Brasil e China em ciência e tecnologia. Estamos diante de uma revolução baseada em inteligência artificial, e os países que não desenvolverem capacidade própria ficarão dependentes de tecnologias externas, em um contexto em que o acesso pode ser limitado”, afirmou.

De acordo com o ministro, o acordo também prevê transferência de conhecimento e desenvolvimento conjunto de tecnologias. “O Serpro tem um papel central nesse processo, por ser o operador da infraestrutura nacional de dados públicos e reunir sistemas que sustentam serviços essenciais do Estado, onde essa inteligência será aplicada para melhorar a prestação de serviços à população”, acrescentou.

<><> IA como eixo estruturante do Estado

O protocolo estabelece diretrizes para pesquisa, desenvolvimento e capacitação em inteligência artificial, com foco na criação de modelos de linguagem adaptados ao português brasileiro, sistemas de tradução, soluções de acessibilidade e aplicações em cibersegurança.

A articulação da iniciativa contou com a atuação da Casa Civil. Segundo o secretário-adjunto de Desenvolvimento Produtivo e Inovação, Rodrigo Rodrigues da Fonseca, o projeto tem caráter estratégico para o país. “Essa parceria resulta de um esforço coordenado de construção de sinergias entre os processos de desenvolvimento do Brasil e da China. Aqui estamos estruturando um projeto para o futuro do Brasil, voltado à capacitação de pesquisadores e empresas no desenvolvimento de modelos de linguagem e sistemas de inteligência artificial”, disse.

<><> Papel do Serpro na execução

A implementação técnica ficará sob responsabilidade do Serpro, empresa pública que opera sistemas estruturantes e a infraestrutura de dados do governo. O presidente da instituição, Wilton Mota, destacou a função estratégica da estatal no processo. “O Serpro atua como quem executa a tecnologia no Estado brasileiro, fazendo a ligação entre a pesquisa, a política pública e a entrega para o cidadão”, afirmou.

Segundo ele, a empresa já conta com mais de 300 soluções baseadas em inteligência artificial. “Esse acordo cria condições para avançar de forma acelerada no desenvolvimento dessas soluções, ampliar o uso da inteligência artificial nos serviços oferecidos à população e garantir que a empresa atenda à necessidade do Estado no que se refere à soberania digital no campo da IA”, completou.

<><> Infraestrutura e formação de especialistas

O acordo também prevê a criação de uma infraestrutura nacional de inteligência artificial, incluindo data centers, nuvem segura e plataformas interoperáveis de dados. Além disso, estão previstos programas de capacitação, como intercâmbio de pesquisadores, cursos, visitas técnicas e concessão de bolsas de estudo.

Para o responsável pelo Centro de Excelência em Ciência de Dados e Inteligência Artificial do Serpro, Carlos Rodrigo Lima, o domínio completo da tecnologia é essencial. “Não se trata apenas de utilizar modelos prontos, mas de dominar todo o ciclo de desenvolvimento, da curadoria de dados ao treinamento, avaliação e operação em ambiente de produção. É isso que garante que a inteligência artificial esteja, de fato, a serviço do Estado”, explicou.

<><> Cooperação internacional e autonomia tecnológica

No cenário internacional, a parceria com a iFlytek reforça a cooperação já existente entre Brasil e China na área de ciência e tecnologia. O vice-presidente da empresa, Ji Lin, destacou a importância do acordo. “A inteligência artificial está no centro da transformação tecnológica global, e é importante que os países desenvolvam capacidades ao longo de toda a cadeia. A parceria com o Brasil é uma cooperação importante para avançarmos em pesquisa e acelerar o desenvolvimento de soluções”, afirmou.

O Ministério das Relações Exteriores acompanha a iniciativa. O embaixador Eugênio Vargas Garcia ressaltou a importância do desenvolvimento nacional na área. “A inteligência artificial está no centro da revolução tecnológica, e o Brasil precisa desenvolver capacidades não apenas em IA generativa, mas em toda a cadeia associada a essa tecnologia. No caso dos modelos de linguagem, esse protocolo é importante para fortalecer a cooperação e ampliar a autonomia estratégica do país”, declarou.

 

Fonte: Brasil 247/Sputnik Brasil

 

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