Como
culto liderado por pastor negro que falava a 'língua dos anjos' deu origem ao
movimento evangélico há 120 anos
Chamado
de Reavivamento da Rua Azusa, uma série de cultos evangélicos realizada há 120
anos em um templo abandonado da Igreja Metodista Africana em Los Angeles, na
Califórnia, foi o catalisador do movimento pentecostal, vertente carismática e
fundamentalista que se espalhou por diversos segmentos do cristianismo ao longo
do século 20.
À
frente do grupo estava um religioso afro-americano, filho de ex-escravizados: o
pastor William Joseph Seymour (1870-1922). Entre os participantes — pouco mais
de 50 pessoas, conforme relatos da imprensa da época —, a maioria era formada
por imigrantes pobres e negros, em um tempo de intensa segregação racial nos
Estados Unidos.
"O
movimento da rua Azusa é considerado, por alguns pesquisadores, um marco não
somente para o meio evangélico, mas uma renovação do cristianismo moderno,
tanto por sua abrangência quanto impacto", diz o cientista da religião
Kenner Terra, pastor da Igreja Batista de Água Branca, autor do livro Coragem
para Ser e membro da Rede Latino-Americana de Estudos Pentecostais. "É
tratado como o marco inicial do pentecostalismo moderno."
"O
pentecostalismo é um movimento inescapável hoje. É o movimento cristão
majoritário no Brasil dentro da vertente protestante", diz o teólogo Yago
Martins, pastor batista e autor do livro Arruinados pelo Amor de Deus, entre
outros.
"E
o fenômeno que aconteceu em Azusa é certamente o marco inicial do
pentecostalismo evangélico. Mesmo que antes houvesse algumas expressões de
caráter aparentemente carismático, nunca havia sido no mesmo grau de
intensidade e de centralidade."
"Havia
outros focos de avivamento acontecendo no mesmo período. Mas foi Azusa que
explodiu. E a razão é histórica e teológica", diz o teólogo Mac Anderson,
pastor fundador da Family Church em Goiânia e autor do livro O Deus que Habita
em Mim.
"O
que aconteceu ali foi diferente de tudo o que o protestantismo havia visto. Não
havia ordem de culto, não havia pregador fixo, não havia hierarquia visível. O
Espírito Santo conduzia e qualquer pessoa, negra, branca, mulher, imigrante,
analfabeta, podia se levantar e falar."
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Falar em línguas
Na raiz
do movimento está a crença divina em um fenômeno chamado de glossolalia —
conhecido no meio religioso como "dom de línguas". Trata-se de uma
manifestação de linguagem em que o indivíduo, tomado por fervor religioso,
começa a emitir vocalizações e sons em uma língua completamente desconhecida.
Quem crê costuma atribuir isso à presença de Deus, consequência do chamado
batismo do Espírito Santo. Por isso, o fenômeno também é chamado de
"língua dos anjos".
O
pastor Seymour era entusiasta da ideia — embora, pessoalmente, nunca tivesse
vivido essa experiência.
Nascido
em Centerville, na Louisiana, ele foi criado na fé batista e relatou que tinha
visões de cunho religioso desde a infância. Na juventude, viveu em Indiana e
Ohio, e alternou-se em empregos menos qualificados — trabalhou em restaurante e
foi porteiro de uma companhia ferroviária, por exemplo. Em paralelo, estudava
teologia e frequentava denominações protestantes.
Em 1905
ele se mudou para Houston, no Texas. Ali nasceria sua obsessão pela
glossolalia. Ele aprendeu sobre o fenômeno porque começou a frequentar a escola
bíblica criada pelo pregador Charles Fox Parham (1873-1929), um personagem
envolto em controvérsias, mas cuja teologia é vista como a principal
fundamentação para o pentecostalismo.
Como
era negro, Seymour não foi autorizado a assistir às aulas de dentro da sala —
ouvia as lições do corredor.
No
cerne da doutrina estava o entendimento de que o tal dom das línguas era a
prova da efetivação do batismo com o Espírito Santo.
É uma
ideia fundamentalista que vem da Bíblia. De forma geral, o cristianismo entende
Deus como uma entidade única em essência — afinal, é uma religião monoteísta —
mas que se manifesta em três pessoas distintas e inseparáveis: o pai, criador;
o filho, Jesus Cristo; e o Espírito Santo.
Segundo
os textos do evangelho, João Batista dizia que batizava com água, marcando
assim a conversão, mas um dia viria alguém, o Messias, que batizaria "com
o fogo do Espírito Santo".
Na
Bíblia este episódio é narrado como posterior à morte de Jesus. No dia de
Pentecostes, é narrado que o Espírito Santo desceu sobre os apóstolos que
estavam reunidos. E uma das consequências foi que eles teriam adquirido a
capacidade de falar em novas línguas.
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Movimento de Santidade
Para o
teólogo e historiador Gerson Leite de Moraes, professor na Universidade
Presbiteriana Mackenzie, cada qual a seu modo, Parham e Seymour representam os
marcos fundantes do pentecostalismo contemporâneo. "São duas maneiras de
enxergar o movimento", afirma.
"A
figura de Seymour é muito interessante e por isso se coloca sobre ele o momento
axial do pentecostalismo", diz Moraes. "A gente está falando de um
sujeito negro, filho de ex-escravizados e que tem uma experiência religiosa que
faz dele símbolo de uma religiosidade baseada na experiência, na emoção, na
abertura ao sobrenatural."
A essa
altura Seymour tinha 35 anos e já atuava como pastor em uma pequena igreja do
chamado Movimento de Santidade, uma linha cristã que já pregava a necessidade
de um batismo espiritual para que o crente tivesse uma vida santa em plenitude
e fosse "regenerado" pela fé — e, assim, obtivesse a garantia de
salvação eterna.
De
acordo com o historiador e teólogo Vinicius Couto, presbítero da Igreja do
Nazareno e professor na Faculdade Evangélica de São Paulo, esse Movimento de
Santidade é que precisa ser entendido como o pontapé inicial do pentecostalismo
contemporâneo. "Para eles, a ideia de receber o Espírito Santo vinha na
noção de uma santificação", contextualiza. "E isso seria evidenciado
pelo falar em línguas."
"Seymour
aprendeu essa doutrina com o que o Parham ensinava", lembra Couto.
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De Houston para Los Angeles
Uma
mulher afro-americana que vivia em Los Angeles, na Califórnia, viajou para
Houston para visitar parentes. Em sua cidade, ela frequentava uma igreja do
mesmo movimento — uma dissidência californiana criada depois de que um grupo de
oito famílias afro-americanas foi expulso da comunidade batista a que
pertenciam.
Essa
protestante teria ficado encantada com a pregação de Seymour, sobretudo pela
sua ênfase às manifestações do Espírito Santo e à glossolalia. Alguns meses
depois, por conta dela, o Movimento de Santidade de Los Angeles fez um convite
para que o pastor fosse até lá realizar cultos e pregações.
Ele
chegou lá em 22 de fevereiro de 1906. Logo em seus primeiros sermões, já deixou
claro que o falar em línguas era a comprovação da presença do Espírito Santo. A
veemência com a qual ele defendia esse ponto acabou incomodando parte da
comunidade. No domingo seguinte, quando voltou ao templo, Seymour encontrou a
porta fechada com cadeado.
Mas
Seymour já havia conquistado alguns seguidores e um pequeno grupo deles parecia
disposto a formar uma dissidência do movimento cristão. A partir de então eles
passaram a se reunir diariamente, na casa de um desses crentes. Nas orações, o
que mais pediam era pelo chamado batismo no Espírito Santo.
Segundo
os relatos da época, no dia 9 de abril houve a primeira manifestação da
glossolalia no grupo — que rezava fervorosamente há cinco semanas e se
auto-infligia rigorosos jejuns. No dia seguinte, outros seis integrantes do
grupo experimentaram o mesmo fenômeno. Seymour falaria em línguas apenas no dia
12 de abril.
A
notícia rapidamente se espalhou pela vizinhança, com contornos de milagre. A
varanda da casa onde eles se reuniam passou a juntar pequenas aglomerações de
curiosos, sobretudo afro-americanos e latinos. Gradualmente, episódios de
glossolalia se tornavam recorrentes também entre essa pequena, mas barulhenta,
assembleia.
"Eles
gritaram por três dias e três noites", escreveu o historiador
norte-americano Harold Vinson Synan (1934-2020), no livro The Century of the
Holy Spirit (O Século do Espírito Santo, em tradução livre). "Pessoas
vinham de todos os lugares. No dia seguinte, não era mais possível chegar perto
da casa."
De
acordo com ele, "a cidade inteira se comoveu" e a gritaria era
tamanha que até a estrutura da casa foi afetada.
Seymour
e seus companheiros entenderam que era preciso um espaço mais adequado.
Encontraram um velho barracão no número 312 da rua Azusa, dentro do então gueto
da população negra em Los Angeles. Como o local havia sido um templo da Igreja
Metodista Episcopal Africana, já tinha condições de receber o grupo para as
orações e os cultos. Media mais de 400 metros quadrados.
Era uma
construção precária. Depois de ter funcionado como igreja, havia sido armazém,
depósito, pequena hospedaria, loja de lápides e até curral de gado.
Eles
alugaram o imóvel e, depois de um mutirão de limpeza — havia sobras de madeira
e outros materiais acumulados em todos os cantos — realizaram o primeiro
encontro no dia 14 de abril de 1906. Este é o marco do episódio histórico que
acabou conhecido como Reavivamento da Rua Azusa.
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Orações fervorosas
A nova
igreja foi denominada Missão de Fé Apostólica.
As
fontes não são unânimes, mas informações apontam que até o início de maio, de
300 a 1,5 mil pessoas passaram pelo local e participaram das fervorosas orações
cheias de manifestações de glossolalia. Os cultos aconteciam praticamente de
hora e hora e atraíam gente de diversas denominações cristãs, como batistas e
presbiterianos.
Chamava
a atenção o fato de que ali estavam, juntos, brancos e negros, latinos e outros
imigrantes, mulheres e crianças. "O pentecostalismo iniciado no século 20
e fruto da religiosidade daqueles que estavam excluídos: os mais pobres, os
analfabetos, os deserdados", diz Moraes.
"Pessoas
de vários lugares dos Estados Unidos e de outros países foram testemunhar e se
juntar ao que estava acontecendo em Los Angeles. Alguns voltaram para suas
regiões e igrejas anunciando a mensagem 'pentecostal'", comenta Terra.
O
cientista da religião enumera alguns fatores que ajudaram na disseminação do
pentecostalismo experimentado ali: a defesa do falar em línguas, os relatos de
ações sobrenaturais, e "um senso de urgência diante do final dos
tempos".
Essas
ideias se espalharam no meio evangélico. Novas comunidades cristãs foram
formadas. Igrejas tradicionais também acabaram influenciadas.
"Além
disso, entre algumas igrejas tradicionais que não se tornaram oficialmente
carismáticas ou mesmo não romperam com suas instituições, as expressões
fervorosas do culto e linguagem pentecostais geraram mudanças litúrgicas e
práticas dos fieis", pontua ele.
Houve
muitas críticas. Jornais chamavam o grupo de "seita barulhenta" e de
"estranha doutrina" praticando "fanáticos ritos", com
"teorias loucas". Vizinhos passam a reclamar do volume alto das
orações.
Ciente
da repercussão do que fazia o seu ex-aluno, o religioso Parham também criticou.
"Horrível, uma vergonha terrível", disse ele, segundo consta no livro
The Charismatic Century: The Enduring Impact of the Azusa Street Revival (O
Século Carismático: o Impacto Duradouro do Reavivamento da Rua Azusa, em
tradução livre), escrito pelo pastor Jack William Hayford (1934-2023). Parham
teria definido o fenômeno como "uma louca imitação do Pentecostes".
"Parham
chamou as reuniões de 'truques' e ficou consternado com a mistura racial",
diz Anderson. "Pregou que Deus estava desgostoso com aquele estado de
coisas e passou o resto da vida denunciando Azusa como falsa."
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Inclusão racial e voz para todos
"A
forma de culto e o discurso sobre o Espírito Santo, defendidos e vividos no
movimento liderado por Seymour, ao mesmo tempo em que atraíam, também foram
vistos com muita desconfiança e preconceito, não só pela pouca ordem litúrgica
e expressões interpretadas como esdrúxulas pelos demais protestantes, mas,
especialmente, por romper barreiras de classe, étnicas e raciais",
assinala Terra, frisando o fato de que, contrariando o status da época, na
comunidade de Seymour, um pastor afro-americano, conviviam brancos, negros e
latinos.
Se por
um lado o grupo de Seymour incentivava a participação de todos, por outro,
havia críticas quanto a um despreparo teológico. Couto diz que havia uma
postura de que não era preciso estudar com afinco as escrituras antes da
pregação, porque o Espírito Santo iria inspirar os oradores, por exemplo.
Ao
mesmo tempo, histórias de supostos milagres, com doentes sendo curados,
aumentam a fama do local. O efeito de Azusa foi contagioso. "As pessoas
que chegavam lá, de toda parte, atraídas pelas notícias, saíam transformadas e
iam pregar o que haviam vivido", conta Anderson.
"A
notícia se espalhou bastante e logo a participação nos cultos se tornou
internacional", afirma Couto.
Com a
ajuda de colaboradores, Seymour editou um periódico para divulgar sua teologia.
Era o jornalzinho The Apostolic Faith, distribuído gratuitamente. Inicialmente,
a tiragem era de 5 mil exemplares — no auge, chegou a ser de 40 mil.
A
Missão de Fé Apostólica seguiu em evidência por quase 10 anos. Em 1915 o
interesse popular já era pequeno e a igreja se tornou apenas mais uma pequena
comunidade cristã de Los Angeles. Seymour seguiu à frente até sua morte, de
ataque cardíaco em setembro de 1922. A congregação ainda funcionaria por mais
nove anos, quando o prédio foi perdido por dívidas. A antiga igreja acabaria
demolida, dando lugar a um centro cultural e comunitário.
"Seymour
morreu em relativa obscuridade, sem reconhecimento, sem herança
institucional", lamenta Anderson. "Mas o fogo não apagou. O legado de
Azusa ainda está vivo."
Especialistas
reconhecem que o protagonismo negro no movimento explica, ao menos em parte, os
gestos, movimentos e sons que estão na base do pentecostalismo.
"Inegavelmente, a espiritualidade afro-americana, perpassada por
oralidade, fervor e musicalidade, com raízes nas populações africanas
escravizadas, modelou o pentecostalismo e desenvolveu suas formas de
culto", diz Terra.
"Outro
ponto importante a se destacar é a corporeidade afro-americana como ponto
importante da maneira como o início do movimento pentecostal desenvolveu suas
experiências, o que sempre esteve presente entre os pentecostais."
"As
feições religiosas afro-americanas, incluindo o canto congregacional, a oração
fervorosa e a liberdade de expressão emocional no culto na rua Azusa tiveram
forte influência das igrejas negras americanas", comenta ele.
"Muitas
das expressões físicas das experiências exageradamente extemporâneas de
recebimento de Espírito acabam sendo visualmente semelhantes ao que encontramos
[nas religiosidades de matriz africana]", analisa Martins.
Naquele
período de segregação racial, havia nos Estados Unidos diversas igrejas
protestantes frequentadas apenas por negros. Nelas, em fenômeno parecido com o
sincretismo ocorrido em determinados grupos do Brasil, danças, cantos e rituais
originados em religiões de matriz africana foram ressignificados sob uma
perspectiva cristã. O fenômeno Azusa, com participação maciça de gente oriunda
dessas igrejas, bebeu nessa fonte.
"Sem
sombra de dúvidas há influência africana. Ainda que os praticantes digam que
não, quem olha de fora como pesquisadora sabe que o pentecostalismo deve sua
religiosidade também a uma longa tradição das religiosidades africanas. Muitas
coisas são incorporadas. Há um sincretismo, um caldo de culturas que ajuda a
formar o pentecostalismo que conhecemos", comenta Moraes.
E o
pentecostalismo acabou sendo acolhedor para as minorias. "A presença
maciça dos afrodescendentes tem a ver com a liberdade teológica encontrada no
movimento pentecostal", analisa Couto. "O pentecostalismo é uma
proposta teológica bastante popular e de massa." Por conta disso, ele
acredita que os grupos minoritários acabam atraídos porque ali "começam a
ter a sensação de ter voz". "É uma teologia inclusiva",
acrescenta.
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Legado
Se é
inegável que o avivamento da Azusa está na base do pentecostalismo
contemporâneo, é difícil dizer quais denominações atualmente bebem nessa fonte.
Segundo o teólogo Anderson, o movimento de Los Angeles já era conhecido em 50
países diferentes ainda naquela primeira década do século 20. E hoje 500
milhões de cristãos no mundo todo são "herdeiros espirituais" de
Azusa.
"O
movimento carismático que floresceu décadas depois, já dentro de igrejas
históricas, tem raízes diretas em Azusa", argumenta ele.
"No
Brasil, o rastro é direto. A Assembleia de Deus, hoje a maior denominação
evangélica do país, tem suas raízes ligadas a missionários escandinavos que
passaram por Azusa ou foram influenciados pelo movimento. O que aconteceu num
galpão de estábulo em Los Angeles chegou ao Belém do Pará em 1911 e não parou
mais", conta Anderson.
Fonte:
BBC News Brasil

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