quinta-feira, 16 de abril de 2026

Tradução de “O vazio de poder na Itália”, de Pasolini

Embora o texto seja localizado temporal e geograficamente, é inevitável a tentação de transplantá-lo para a atualidade com múltiplas configurações, e talvez tal impulso venha em decorrência de traumas sociais, políticos e culturais não resolvidos, adormecidos ao longo do século XX — e também anteriores. Soma-se a isso a intensificação de múltiplas crises globais e locais da contemporaneidade. De todo modo, não se trata aqui de anacronismo, mas de um convite à leitura — ao estilo Pasolini — para refletir sobre nossos processos históricos, nacionais e globais, e, talvez, sermos capazes de fazer com que vaga-lumes voltem a aparecer. Segue a tradução:

“A distinção entre fascismo adjetivo e fascismo substantivo remonta nada menos que ao jornal ‘O Politécnico’ [Il Politécnico], isto é, ao imediato pós-guerra…”. Assim começa uma intervenção de Franco Fortini sobre o fascismo (“L’Europeu, 26-12-1974): intervenção que, como se diz, eu subscrevo tudo, e plenamente. Não posso, porém, subscrever o tendencioso começo. De fato, a distinção entre “fascismos” feitas pelo “Politécnico” não é nem pertinente nem atual. Ela poderia valer ainda uma década atrás: quando o regime democrata-cristão [democristiano] era ainda a pura e simples continuação do regime fascista. Mas uma década atrás, “algo” ocorreu. “Algo” que não existia e não era previsível não somente aos tempos do “Politécnico”, mas nem mesmo um ano antes de acontecer (ou mesmo, como veremos, enquanto acontecia).

A comparação real entre “fascismos” não poderia ser feita, portanto, “cronologicamente” entre o fascismo fascista e o fascismo democrata-cristão: mas entre o fascismo fascista e o fascismo radicalmente, totalmente, imprevisivelmente novo que nasceu daquele “algo” que aconteceu uma década atrás.

Porque sou um escritor, e escrevo em polêmica, ou ao menos discuto, com outros escritores, me permita dar uma definição de caráter poético-literário daquele fenômeno que ocorreu na Itália há dez anos. O que servirá para simplificar e a abreviar nosso discurso (e, também, provavelmente a compreendê-lo melhor).

Nos primeiros anos da década de sessenta, por causa da poluição do ar, e, sobretudo, no campo, por causa da poluição da água (os rios azuis e os canais de irrigação transparentes), começaram a desaparecer os vaga-lumes. O fenômeno foi fulminante e fulgurante. Poucos anos depois os vaga-lumes não existiam mais. (São, agora, apenas uma memória, bastante dolorosa, do passado: e um homem ancião que tenha tal lembrança, não pode se reconhecer em meio aos novos jovens, e, portanto, não pode mais ter as belas lembranças do passado). Aquele “algo” que ocorreu há uma década, o chamarei então de “desaparecimento dos vaga-lumes”.

O regime democrata-cristão que teve duas fases absolutamente distintas, que não somente não se pode comparar entre si, implicando uma certa continuidade, pois se tornaram historicamente incomensuráveis. A primeira fase de tal regime (como justamente sempre insistiram em chamá-la os radicais) é aquele que vai do fim da guerra até o desparecimento dos vaga-lumes, a segunda fase é aquela que vai do desaparecimento dos vaga-lumes até hoje. Observemos cada uma.

<>< Antes do desaparecimento dos vaga-lumes. 

A continuidade entre fascismo fascista e fascismo democrata-cristão é completa e absoluta. Permaneço em silêncio sobre isso, que a este propósito, se dizia até então, talvez pontualmente no “Politécnico”: a fraca depuração, a continuidade dos códigos, a violência policial, o desprezo pela Constituição. E me detenho no que foi levado posteriormente numa consciência histórica retrospectiva. A democracia que os antifascistas democrata-cristãos se opunham à ditadura fascista era descaradamente formal.

Fundava-se sobre uma maioria absoluta obtida através dos votos de enormes estratos das classes médias e das enormes massas camponesas, geridas pelo Vaticano. Tal gestão do Vaticano era somente possível se fundada sobre um regime totalmente repressivo. Em tal universo os “valores” que contavam eram os mesmos que pelo fascismo: a Igreja, a Pátria, a família, a obediência, a disciplina, a ordem, a economia, a moralidade. Tais “valores” (como do resto, durante o fascismo) eram “também reais”: isto é, pertenciam às culturas particulares e concretas que constituíam a Itália arcaicamente agrícola e paleoindustrial. Mas no momento em que vinham assuntos como “valores” nacionais não poderiam perder senão qualquer realidade, e se tornar atroz, estúpido, repressivo conformismo de Estado: o conformismo do poder fascista e democrata-cristão. Provincianismo, grosseria e ignorância, seja das “elites” que, em nível diverso, das massas, eram iguais tanto durante o fascismo quanto durante a primeira fase do regime democrata-cristão. Paradigmas desta ignorância eram o pragmatismo e o formalismo vaticanos.

Tudo o que resulta claro e inequivocamente hoje, porque se nutriam, por parte dos intelectuais e dos opositores, de insensata esperança. Esperava-se que tudo aquilo não fosse completamente verdade, e que a democracia formal servisse para alguma coisa. Agora, antes de passar a segunda fase, devo dedicar algumas linhas ao momento de transição.

<><> Durante o desaparecimento dos vaga-lumes. 

Neste período a distinção entre fascismo e fascismo operada pelo “Politécnico” poderia ainda funcionar. De fato, seja o grande país que se estava formando dentro do país — isto é, a massa operária e camponesa organizada pelo PCI — sejam os intelectuais mesmo mais avançados e críticos, não tinham notado que “os vaga-lumes estavam desaparecendo”. Eram muito bem informados pela sociologia (que naqueles anos tinha entrado em crise o método de análise marxista): mas eram informações ainda não vividas, em substância formalista. Ninguém poderia suspeitar da realidade histórica que seria o futuro imediato; nem identificar aquilo que então se chamava “bem-estar” com o “desenvolvimento” que deveria realizar na Itália, pela primeira vez, plenamente o “genocídio” do qual no “Manifesto” falava Marx.

<><> Depois do desaparecimento dos vaga-lumes. 

Os “valores” nacionalizados e, portanto, falsificados do velho universo agrícola e paleocapitalista, de repente, não servem mais. Igreja, pátria, família, obediência, ordem, poupança, moralidade não servem mais. E não servem nem mesmo mais como falsos. Sobrevivem no clero-fascismo marginalizado (também o MSI, essencialmente, os repudia). Aqueles que os substituem são os “valores” de um novo tipo de civilização, totalmente “outra” sobre a civilização campesina e paleoindustrial. Esta experiência já foi feita em outros Estados. Mas na Itália essa é totalmente particular, porque se trata da primeira “unificação” realmente sofrida por nosso país; enquanto em outros países ela se sobrepõe com uma certa lógica à unificação monárquica e até ulterior unificação da revolução burguesa e industrial. O trauma italiano do contato entre a “arcaicidade” pluralista e o nivelamento industrial tem, talvez, somente um precedente: a Alemanha antes de Hitler. Também aqui os valores das diversas culturas particulares foram destruídos pela violenta homologação da industrialização: com a consequente formação daquelas enormes massas, não mais antigas (camponesas, artesãs) e não ainda modernas (burguesas), que constituíram o selvagem, aberrante, imponderável corpo da trupe nazista.

Na Itália está acontecendo algo similar: e ainda com maior violência, pois a industrialização dos anos setenta constitui uma “mutação” decisiva também sobre àquela alemã [tedesca] de cinquenta anos atrás. Não estamos mais diante, como todos agora sabem, de “tempos novos”, mas de uma nova época da história humana, daquela história humana na qual os prazos são milenares. Era impossível que os italianos reagissem pior que isso a tal trauma histórico. Se transformaram em poucos anos (especialmente no centro-sul) num povo degenerado, ridículo, monstruoso, criminoso. Basta, portanto, sair pela rua para compreender. Mas, naturalmente, para compreender as mudanças das pessoas, você tem de amá-las. Eu, infelizmente, essa gente italiana, as amei: seja fora dos esquemas de poder (na verdade, em oposição desesperada a eles), seja fora dos esquemas populistas e humanitários. Tratava-se de um amor real, radicado no meu modo de ser. Então vi “com meus sentidos” o comportamento coercitivo do poder de consumo recriar e deformar a consciência do povo italiano, até uma irreversível degradação. Coisa que não ocorreu durante o fascismo fascista, período no qual o comportamento era completamente dissociado da consciência. Em vão o poder “totalitário” iterava e reiterava as suas posições comportamentais: a consciência não era implicada. Os “modelos” fascistas não eram mais que máscaras, para colocar e retirar. Quando o fascismo fascista caiu, tudo se tornou como antes. O vimos também em Portugal: depois de quarenta anos de fascismo, o povo português celebrou o primeiro de maio como se o último tivesse sido celebrado no ano anterior.

É ridículo, então, que Fortini retroceda a distinção entre fascismo e fascismo do primeiro pós-guerra: a distinção entre o fascismo fascista e o fascismo desta segunda fase do poder democrata-cristão não somente não tem comparações em nossa história, mas provavelmente em toda a história.

Eu, todavia, não escrevo o presente artigo apenas para polemizar sobre este ponto, embora isso muito me importa. Escrevo o presente artigo, na realidade, por uma razão muito diversa. Aqui está.

Todos os meus leitores sabem certamente da mudança dos poderosos democrata-cristãos: em poucos meses, se tornaram máscaras fúnebres. É verdade: continuam distribuindo radiantes sorrisos, de uma sinceridade incrível. Nas suas pupilas se coagula de verdade, bendita luz de bom humor. Quando não se tratam da sedutora luz da argúcia e da astúcia. Coisa que os eleitores apreciam, parece, tanto quanto a plena felicidade. Além disso, os nossos poderosos continuam seus motivados discursos incompreensíveis; nos quais flutuam “flatus vocis” das habituais promessas estereotipadas. Na realidade, são precisamente máscaras. Estou certo que, ao levantar aquelas máscaras, não se encontram nem mesmo uma pilha de osso ou de cinzas: estaria apenas o nada, o vazio. A explicação é simples: hoje, na realidade, na Itália há um dramático vazio de poder. Mas este é o ponto: não um vazio de poder legislativo ou executivo, não um vazio de poder dirigente, nem, enfim, um vazio de poder político em qualquer sentido tradicional. Mas um vazio de poder em si.

Como chegamos a este vazio? Ou, melhor, “como chegaram a ele os homens de poder?”. A explicação, ainda, é simples: os homens de poder democrata-cristãos passaram da “fase dos vaga-lumes” à “fase do desaparecimento dos vaga-lumes” sem perceber. Por mais que se possa parecer próximo à criminalidade, sua inconsciência sobre este ponto foi absoluta; não suspeitaram minimamente que o poder, que detinham e gerenciavam, não estava simplesmente sofrendo uma “normal” evolução, mas mudando radicalmente a sua natureza.

Eles se iludiram acreditando que em seu regime tudo seria substancialmente igual: que, por exemplo, poderiam contar eternamente com o Vaticano: sem perceber que o poder, que eles mesmos continuavam a deter e gerir, não sabia mais o fazer com o Vaticano como centro de vida camponesa, retrógrada, pobre. Se iludiram de poder contar eternamente com um exército nacionalista (como exatamente seus predecessores fascistas): e não enxergavam que o poder, que eles mesmos continuavam a deter e gerir, já manobrava para lançar a base de novos exércitos transnacionais, quase polícias tecnocráticas. E o mesmo se diz para a família, obrigada, sem solução de continuidade dos tempos do fascismo, à poupança, à moralidade: agora o poder dos consumos impõem essa mudança radical no sentido da modernidade, até aceitar o divórcio, e agora, potencialmente, todo o restante, sem mais limites (ou ao menos até aos limites consentidos da permissividade do novo poder, pior que totalitário enquanto violentamente totalizante).

Os homens do poder democrata-cristãos sofreram tudo isso, acreditando que administravam e, sobretudo, que manipulavam-no. Não perceberam que era “outro”: incomensuravelmente não apenas a eles, mas a toda uma forma de civilização. Como sempre (crf. Gramsci) apenas na língua eram aparentes os sintomas. Na fase de transição — ou seja, “durante” o desaparecimento dos vaga-lumes — os homens de poder democrata-cristãos quase mudaram bruscamente o modo de expressar-se, adotando uma linguagem completamente nova (de resto, incompreensível como o latim): especialmente Aldo Moro: isto é (por uma enigmática correlação) aquele que aparece como o menos implicado de todos nas coisas horríveis que aconteceram, organizada de ‘69 até hoje, na tentativa, até agora formalmente bem-sucedido, de conservar o poder.

Digo formalmente porque, repito, na realidade, os poderosos democrata-cristãos disfarçam com suas manobras de autômatos e seus sorrisos, o vazio. O poder real procede sem eles: não têm mais nas mãos que esses inúteis aparatos que, não tornam real nada além do triste abotoamento duplo [de seus ternos e casacos].

Todavia, na história o “vazio” não pode existir: pode ser predicado somente em abstrato e por absurdo. É provável que os efeitos do “vazio” de qual falo já esteja preenchido, através de uma crise e uma reorganização que não pode não perturbar a inteira nação. Um índice de exemplo disso é a espera “mórbida” de golpe de Estado. Como se se tratasse, portanto, de “substituir” o grupo de homens que assustadoramente governado por trinta anos, levando a Itália ao desastre econômico, ecológico, urbanístico, antropológico.

Na realidade, a falsa substituição desses “cabeças-duras” (não menos, aliás, mais funereamente carnavalesca), implementada através do artificial reforço dos velhos aparatos do poder fascista, não serviria a nada (e fique claro que, em tal caso, a “tropa” seria, já por sua constituição, nazista). O poder real que há uma década os “cabeças-duras” exerceram sem perceber sua realidade: eis algo que poderia ter já preenchido o “vazio” (anulando também a possível participação no governo do grande país comunista que nasceu da ruína da Itália: porque não se trata de “governar”). De tal “poder real” nós temos imagens abstratas e num fundo apocalíptico: não sabemos visualizar quais “formas” ele assumiria substituindo diretamente os servidores que tomaram por uma simples “modernização” de técnicas. De todo modo, quanto a mim (se isso for de algum interesse para o leitor), seja claro: eu, embora multinacional, daria toda a Montedison por um vaga-lume.

¨      Trump critica postura de Meloni na guerra e diz que premiê italiana 'não tem coragem'

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, criticou nesta terça-feira (14/04) a primeira-ministra da Itália, Giorgia Meloni, questionando seu desinteresse em ajudar na guerra contra o Irã, afirmando estar “chocado”, e acrescentando que “achava que ela tinha coragem, mas me enganei”

Em entrevista ao jornal italiano Corriere della Sera, Trump disse que não fala “há muito tempo” com Meloni e lamentou o fato de que, segundo ele, a premiê italiana não está disposta a apoiar os Estados Unidos na Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), nem em “nos ajudar a nos livrar das armas nucleares” do Irã.

Meloni, que até então era considerada uma aliada de Trump, governa a Itália desde outubro de 2022, sendo considerada ao longo dos anos “próxima” do presidente estadunidense, atuando ocasionalmente como mediadora entre posições divergentes dos Estados Unidos e do continente europeu.

No entanto, Trump alegou que a premiê italiano não demonstra preocupação com a possibilidade de o Irã obter uma arma nuclear e “explodir a Itália em dois minutos, se tiver a chance”.

Além disso, o mandatário norte-americano afirmou que não deseja que Meloni se envolva na guerra, que teve início com os ataques de Israel e Estados Unidos contra o Irã, no últimdia 28 de fevereiro.

A declaração acontece após Meloni informar que seu governo suspendeu a renovação automática de um acordo de defesa com Israel, em função da “situação atual” do conflito, especialmente pelo ataque promovido pelas forças de Tel Aviv ao território do Líbano.

O acordo de defesa entre Itália e Israel estabelece formas de cooperação entre ambos os governos, incluindo troca de informações de inteligência, colaboração entre forças armadas, desenvolvimento e compra de tecnologias militares, além de treinamentos conjuntos e apoio na indústria de defesa.

<><> Sobre o papa Leão 14

Ainda nesta terça, Donald Trump criticou Meloni após a premiê italiana sair em defesa do papa Leão 14, allvo de ataques do líder do Partido Republicano.

Na última segunda-feira (13/04), Meloni repudiou as declarações do mandatário norte-americano, que classificou o sumo pontífice, também nascido nos Estados Unidos, como “fraco”.

Trump também acusou Leão 14 de “agir como político”, afirmando que as declarações a respeito dos atuais conflitos bélicos no mundo são “inaceitáveis”.

Apesar de a declaração do líder do Vaticano não apontar diretamente a nenhum conflito bélico específico, foi considerada por boa parte da imprensa internacional como uma referência, principalmente, aos que acontecem na Ásia Ocidental – no Irã, no Líbano e na Palestina.

 

Fonte: Pier Paolo Pasolini (original) e Maurício Brugnaro Júnior (tradução e apresentação), no Le Monde/Opera Mundi

 

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