Pré-natal:
1 em cada 5 gestantes não recebe cuidado mínimo no Brasil
Embora
quase todas as gestantes brasileiras realizem pelo menos uma consulta de
pré-natal, uma em cada cinco não atinge o mínimo de sete consultas recomendadas
pelo Ministério da Saúde, desde 2024, para o acompanhamento seguro da gestação.
A
diferença na cobertura entre a primeira e a sétima consulta — que cai de 99,4%
para 78,1% — atinge desproporcionalmente mulheres sem escolaridade, indígenas,
adolescentes e moradoras da Região Norte.
Os
dados são de um estudo nacional conduzido por pesquisadores do Centro
Internacional de Equidade em Saúde da Universidade Federal de Pelotas
(ICEH/UFPel), em parceria com a Umane, organização que atua pelo fortalecimento
da saúde pública, e estão disponíveis Observatório da Saúde Pública.
O
levantamento se baseia em mais de 2,5 milhões de nascimentos registrados no
Sistema de Informações sobre Nascidos Vivos (SINASC) do Ministério da Saúde em
2023.
Segundo
os pesquisadores, o sistema de saúde consegue captar quase todas as gestantes,
mas ainda falha em garantir a continuidade do cuidado, sobretudo entre os
grupos mais vulneráveis.
“O
Brasil praticamente universalizou o acesso ao início do pré-natal, mas ainda
não consegue garantir que esse cuidado se mantenha até o final da gestação,
deixando para trás populações já vulneráveis”, afirma a pesquisadora Luiza
Eunice Sá da Silva, do ICEH/UFPel.
Para
Evelyn Santos, gerente de investimento e impacto social da Umane, o estudo
revela um cenário preocupante, mas também contribui para qualificar o debate
público sobre as desigualdades no acesso ao pré-natal.
“Nesse
contexto, a sociedade civil tem um papel estratégico como aliada do poder
público, tanto no fortalecimento de políticas e iniciativas que promovam a
equidade quanto no acompanhamento de sua implementação, contribuindo para que
essas soluções alcancem, de fato, quem mais precisa”, afirma.
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Principais marcadores da exclusão
A
escolaridade é um dos principais fatores que determinam quem consegue completar
as sete consultas de pré-natal. Enquanto 86,5% das mulheres com maior nível de
instrução (12 anos ou mais) atingem esse patamar, menos da metade das mulheres
sem escolaridade (44,2%) consegue alcançar o cuidado mínimo recomendado.
Ao
longo das diferentes faixas de escolaridade, a desigualdade acumulada chega a
25 pontos percentuais entre os extremos. No recorte racial, a exclusão indígena
é a mais severa. Em comparação com os 84,3% das mulheres brancas que concluem
as sete consultas, somente 51,5% das indígenas alcançam o mesmo patamar,
seguidas por pretas (75,7%) e pardas (75,3%).
O dado
mais crítico é a perda de acompanhamento: entre a primeira e a sétima consulta,
a cobertura indígena cai 46,2 pontos percentuais (p.p.). — uma queda três vezes
superior à observada entre mulheres brancas (15,3 p.p.). Na prática, em quase
metade dos casos, o acesso inicial da gestante indígena não se converte em
acompanhamento adequado.
Na
intersecção entre escolaridade e raça/cor da pele, as desigualdades se
aprofundam: 19% das indígenas sem escolaridade completam sete consultas,
enquanto 88,7% das brancas com 12 anos ou mais concluem o pré-natal.
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Desigualdades de região e faixa etária
As
disparidades também se refletem no território e na idade materna. A Região
Norte tem a cobertura mais baixa, com 63,3% das gestantes chegando às sete
consultas. O melhor resultado aparece no Sul (85%), seguido por Sudeste
(81,5%), Centro-Oeste (77%) e Nordeste (76,1%).
Entre
as adolescentes menores de 20 anos, apenas 67,7% realizam o ciclo completo,
índice significativamente inferior aos 82,6% observados entre mulheres acima de
35
anos.
Essa diferença de quase 20 pontos percentuais reforça a vulnerabilidade das
mães jovens no acesso à saúde integral.
Para o
epidemiologista e coautor do estudo, Cesar Victora, os resultados confirmam a
Hipótese da Equidade Inversa, segundo a qual novos avanços em saúde tendem a
beneficiar
primeiro os grupos mais favorecidos.
“Sete
consultas não são um número arbitrário, mas o mínimo necessário para acompanhar
o ritmo acelerado da vida intrauterina. Sem esse monitoramento regular,
perdemos a oportunidade de tratar precocemente condições como infecções,
hipertensão e diabetes gestacional”, explica Victora.
O
pesquisador alerta que, ao elevar o padrão de qualidade do cuidado, o país
corre o risco de ampliar as desigualdades se não houver estratégias específicas
para os
grupos
mais distantes da meta. Os dados ganham relevância em um contexto em que o país
ainda busca reduzir mortes maternas evitáveis.
Como o
pré-natal é a principal estratégia para identificar e prevenir complicações na
gestação, quando o acompanhamento é interrompido, aumentam os riscos de parto
prematuro, baixo peso ao nascer e outras condições graves, especialmente entre
mulheres em situação de vulnerabilidade.
Diante
desse cenário, os pesquisadores defendem que a equidade deve ser o eixo central
das políticas públicas de saúde. O fortalecimento da busca ativa de gestantes
com
baixa escolaridade na atenção primária e a ampliação de estratégias
culturalmente adequadas para populações indígenas surgem como prioridades
urgentes.
Isso
inclui a preparação de equipes multidisciplinares e a melhoria da logística em
territórios de difícil acesso. Além disso, o estudo aponta para a necessidade
de um acolhimento diferenciado que garanta a permanência de adolescentes no
pré-natal, removendo barreiras sociais e geográficas.
Para os
autores, o enfrentamento das desigualdades regionais, com reforço na
infraestrutura das redes de cuidado nas regiões Norte e Nordeste, é passo
fundamental para garantir que o avanço nos parâmetros de saúde chegue, de fato,
a todas as brasileiras.
• Fiocruz: dois terços das gestantes já
sofreram violência obstétrica no RJ
Aproximadamente
dois terços das gestantes no Rio de Janeiro já relataram ter sofrido pelo menos
um tipo de violência obstétrica, segundo estudo "Nascer no Brasil",
da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). O trabalho foi lançado na quarta-feira (3)
com dados inéditos sobre gestação, parto e nascimento no estado do Rio de
Janeiro.
Além
das informações sobre violência obstétrica, a pesquisa reúne dados exclusivos
sobre o perfil das puérperas, características das maternidades, adequação ao
pré-natal, amamentação, saúde mental materna, além de taxas de cesarianas,
partos vaginais e boas práticas. Os resultados foram publicados em uma série
com sete artigos na Revista de Saúde Pública da Universidade de São Paulo
(USP).
O
levantamento envolveu 29 maternidades públicas e privadas localizadas em 18
municípios fluminenses, com o total de 1.923 mulheres entrevistadas durante a
internação para o parto ou por perda fetal, e foram obtidas informações de
cadernetas de gestante e de prontuários de puérperas e recém-nascidos.
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Segundo
a pesquisa, entre os tipos de violência obstétrica, toques vaginais inadequados
foram os mais relatados (46%), seguido por negligência (31%), abuso psicológico
(22%), estigma e discriminação (8%) e abuso físico (3%). Foi constatada
desigualdade na ocorrência do problema, com maior vulnerabilidade entre
mulheres em condições socioeconômicas desfavoráveis.
Também
foram observadas disparidades relacionadas ao estigma e discriminação de acordo
com algumas características demográficas, como cor de pele preta e mulheres sem
companheiro, bem como abuso físico e toques vaginais inadequados entre mulheres
com idade acima de 35 anos e escolaridade inferior a 12 anos de estudo.
Mulheres
primíparas [que estão dando à luz pela primeira vez], que entraram em trabalho
de parto, com trabalho de parto prolongado e que tiveram parto vaginal, também
apresentaram maiores prevalências de violência obstétrica em algumas das
dimensões investigadas.
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Perfil das puérperas
O
"Nascer no Brasil 2 - Pesquisa Nacional sobre Perdas Fetais, Parto e
Nascimento" foi realizado uma década após o lançamento da primeira edição,
que apontou alto índice de cesarianas no sistema de saúde nacional. O estudo
teve como objetivo dimensionar o panorama da saúde obstétrica, com base em
informações sobre as condições socioeconômicas das mulheres, os fatores de
risco gestacionais, o acesso e a qualidade dos serviços de saúde, além das
condições do parto e do nascimento e os principais desfechos maternos e
neonatais, oferecendo um acompanhamento ampliado do cenário da assistência à
saúde sexual e reprodutiva no país.
Segundo
o levantamento, um em cada dez partos aconteceu em adolescentes, enquanto o
dobro ocorreu em mulheres com idade materna avançada, ou seja, 35 anos ou mais.
Segundo as coordenadoras do estudo, os resultados indicam maior complexidade e
requerem melhor qualificação do serviço público.
"As
faixas etárias extremas da vida reprodutiva estão associadas ao aumento de
risco de complicações obstétricas e perinatais. Já a gravidez na adolescência
demanda atenção diferenciada em razão dos maiores riscos de óbito perinatal,
parto prematuro e restrição do crescimento fetal, especialmente nas mais
jovens", afirmam Maria do Carmo Leal, médica e coordenadora do estudo, e
Silvana Granado, enfermeira e coordenadora-adjunta do estudo.
O
estudo também alertou que as adolescentes apresentaram maiores chances de
desfechos perinatais negativos, como óbito perinatal e ter um recém-nascido
prematuro. Já no grupo com idade superior a 35 anos, houve maior chance de
síndromes hipertensivas, diabetes gestacional, descolamento prematuro de
placenta e morbidade materna grave. Em contrapartida, elas receberam mais
orientação sobre a maternidade de referência.
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Desigualdades entre setor privado e público
Entre
as mulheres atendidas no Sistema Único de Saúde (SUS), 80% tiveram acompanhante
em tempo integral. No setor privado, o índice foi de 98%. O uso de analgesia
peridural foi ofertado para apenas 1% das parturientes do SUS, enquanto para as
usuárias do setor privado, o acesso ao procedimento foi de 30%.
"A
oferta de analgesia peridural se associou com o parto vaginal, sendo uma
tecnologia útil para alívio da dor do parto, podendo ser uma aliada na redução
de cesarianas sem indicação clínica", afirmam Maria do Carmo Leal e
Silvana Granado.
Os
dados também apontam que as taxas de cesarianas ainda se mantêm altas, conforme
constatou a primeira edição do estudo, sendo mais frequentes nos municípios do
interior (66%) e no setor privado (85%), principalmente as realizadas antes do
trabalho de parto.
Mulheres
que tiveram filhos no SUS tiveram chance quase dez vezes maior de entrar em
trabalho de parto em comparação com as que tiveram financiamento privado.
"Nesse setor, observou-se que, quando a parturiente entra em trabalho de
parto, ela evolui para um parto vaginal quase tanto como no setor público.
Entretanto, apenas 15% das mulheres da rede privada tiveram parto vaginal e o
modelo da cesariana sem trabalho de parto é o que prevalece", lamentam as
autoras da pesquisa.
Os
dados indicam que, apesar de a cobertura da assistência pré-natal no Rio de
Janeiro ser praticamente universal (98%), a sua adequação foi inferior a 1% no
estado, ao se considerar todas as recomendações do Ministério da Saúde. Do
total de gestantes entrevistadas, 79% iniciaram o acompanhamento médico até a
12ª semana de gestação e 75% realizaram o número mínimo de consultas para a
idade gestacional no parto.
"As
gestantes usuárias do serviço de saúde privado apresentaram melhor desempenho,
evidenciando as desigualdades que persistem no país", observam as autoras
da pesquisa.
Segundo
o estudo, menos de 20% das mulheres receberam todas as orientações
recomendadas: riscos e benefícios sobre tipos de parto, maternidade de
referência e uso de álcool e tabagismo. De acordo com as autoras, a baixa
adequação ao pré-natal pode ser um dos fatores por trás da elevada razão de
mortalidade materna, fetal e perinatal, e de incidência de sífilis congênita no
estado, que é superior à média nacional.
Fonte
CNN Brasil

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