quinta-feira, 16 de abril de 2026

Reynaldo José Aragon: Minerais críticos - a guerra já começou e querem que você acredite que acabou

Enquanto parte do debate celebra acordos e fala em vitória, fatos recentes mostram um cenário muito mais complexo e preocupante, com articulações externas, movimentos fora da esfera federal e uma disputa silenciosa pelo controle de recursos, dados e cadeias produtivas estratégicas

Minerais críticos não são um detalhe técnico da transição energética, nem uma nota de rodapé do comércio internacional. São a infraestrutura material do poder no século XXI. É deles que depende uma parte decisiva da indústria de defesa, das baterias, dos semicondutores, dos sistemas digitais avançados, das cadeias de comunicação e da corrida tecnológica que reorganiza a geopolítica global. Por isso, quando esse tema aparece embrulhado em linguagem fácil, promessas grandiosas e euforia apressada, o mais prudente não é comemorar. É desconfiar. O que está em disputa não é apenas a venda de minério. É quem controla a inteligência geológica do território, quem define o ritmo da exploração, quem captura o valor agregado e quem transforma riqueza natural em soberania efetiva. O Brasil possui posição relevante nesse tabuleiro, e justamente por isso virou alvo de um assédio crescente de governos, fundos, empresas e estruturas diplomáticas interessadas em garantir acesso privilegiado a essas reservas e às cadeias futuras que delas podem nascer.

O erro mais perigoso, nesse momento, não é a má-fé escancarada. É a simplificação sedutora. É pegar uma disputa longa, dura e estrutural e apresentá-la como se fosse uma vitória consumada, uma equação já resolvida, um jogo em que bastaria ao Brasil sorrir, assinar e colher dividendos. Não é assim que o poder opera. Estados não se rendem porque mudaram o tom. Potências não abandonam áreas estratégicas porque trocaram pressão aberta por cooperação interessada. Quando um tema dessa magnitude começa a ser tratado como se tudo estivesse sob controle, convém lembrar o óbvio que tanta propaganda tenta esconder: só existe soberania quando um país controla não apenas a jazida, mas a cadeia, o processamento, a tecnologia, os dados e a decisão política sobre o próprio destino. Tudo o que vier antes disso é disputa em aberto. Tudo o que tentar se vender como solução definitiva antes disso é, no mínimo, uma perigosa forma de anestesia.

E é justamente quando se desce do discurso para o terreno concreto que a narrativa simples começa a perder sustentação. Nos últimos meses, o que se viu não foi um recuo das potências interessadas nesses recursos, mas uma intensificação silenciosa de movimentos. Missões diplomáticas voltadas ao setor mineral, eventos organizados com forte presença de atores estrangeiros, articulações diretas com governos estaduais e aproximações com empresas fora de um eixo claramente coordenado pela União. Não se trata de teoria. Trata-se de prática. O tabuleiro está sendo ocupado enquanto ainda se tenta definir, no plano público, qual é exatamente o jogo em curso.

Esse tipo de movimento não é trivial. No caso brasileiro, a Constituição é clara ao estabelecer que os recursos minerais são bens da União. Isso não é um detalhe jurídico. É uma proteção política construída historicamente para impedir que decisões fragmentadas comprometam o interesse nacional. Quando a dinâmica passa a se deslocar para acordos subnacionais, memorandos paralelos e circuitos de negociação que orbitam fora do centro federal, o problema deixa de ser apenas econômico e passa a ser estrutural. Não é só sobre quem investe ou quem compra. É sobre quem define.

Há um ponto ainda mais sensível, quase sempre tratado de forma secundária no debate público, mas central na disputa real. O controle da informação geológica. Mapear, classificar e compreender o potencial mineral de um território não é uma etapa neutra. É a base sobre a qual se constrói toda a cadeia de valor. Quem detém esses dados, quem participa da sua produção e quem estabelece os termos de seu uso passa a operar com uma vantagem decisiva. É nesse nível que a discussão sobre soberania deixa de ser retórica e passa a ser concreta.

Diante disso, o contraste com a euforia de certas narrativas fica evidente. Enquanto se fala em oportunidades, parcerias e ganhos imediatos, a estrutura da disputa avança por camadas mais profundas, menos visíveis e muito mais determinantes. Não há escândalo. Não há ruptura explícita. Há algo mais sofisticado. Um processo gradual de aproximação, influência e construção de presença que, se não for compreendido com precisão, tende a produzir efeitos duradouros. E irreversíveis.

É nesse ponto que a discussão precisa subir de nível. Porque o que está em curso não é apenas uma disputa por acesso a recursos naturais, mas pela posição do Brasil dentro da divisão internacional do trabalho no século XXI. Extrair e exportar não é soberania. Processar parcialmente também não. A história econômica mostra, de forma insistente, que o poder se concentra nos elos superiores da cadeia, onde estão o refino avançado, a transformação industrial, o domínio tecnológico, o design, a propriedade intelectual e a capacidade de decidir o destino da produção.

Minerais críticos não fogem a essa lógica. Ao contrário, a intensificam. Sem controle sobre essas etapas, o país corre o risco de repetir, em nova chave, um padrão antigo. Vender base material e recomprar valor agregado. Fornecer insumo estratégico e importar tecnologia. Participar da riqueza sem comandá-la. É por isso que a simples existência de reservas, por mais relevantes que sejam, não resolve o problema. Ela apenas define o ponto de partida da disputa.

É nesse intervalo entre o que se tem e o que se constrói que entram as narrativas simplificadoras. Ao transformar uma negociação em solução, uma aproximação em conquista e uma possibilidade em realidade, elas produzem um efeito específico. Não informam. Organizam percepções. Criam uma sensação de clareza onde ainda há indefinição, de estabilidade onde há movimento, de controle onde há disputa. E fazem isso de forma eficiente justamente porque oferecem algo que o debate técnico não oferece com facilidade. Conforto.

Na superfície, tudo parece razoável. Há interesse internacional, há capital disponível, há promessas de investimento e desenvolvimento. Mas, em geopolítica, a forma é tão importante quanto o conteúdo. Quem propõe, em que condições, com quais instrumentos, em que ritmo e com quais contrapartidas. São essas perguntas que definem o resultado. E são justamente essas perguntas que desaparecem quando o tema é reduzido a uma narrativa de oportunidade imediata.

É aqui que a dimensão psicológica da disputa se torna inevitável. Porque, quando um tema complexo começa a circular em versões simplificadas, com respostas rápidas e conclusões antecipadas, o que está em jogo não é apenas o conteúdo, mas o comportamento coletivo diante dele. Não é preciso má-fé para produzir esse efeito. Basta reduzir o problema ao que ele ainda não é e oferecer ao público uma sensação de entendimento que substitui a necessidade de investigação.

A percepção de que “agora vai”, de que “desta vez acertamos”, de que “está tudo encaminhado” tem um impacto direto. Ela diminui a tensão, reduz a urgência e desloca a atenção. Em vez de ampliar o debate sobre como estruturar uma política nacional de minerais críticos, com controle estatal, coordenação federal, domínio tecnológico e estratégia industrial de longo prazo, o foco passa a ser a celebração de possibilidades. O que deveria gerar vigilância passa a produzir relaxamento.

Esse deslocamento é sutil, mas decisivo. Porque a disputa real não acontece no plano das declarações, mas na construção concreta das condições que definem quem manda e quem executa. Quando a sociedade perde a capacidade de perceber que o processo ainda está aberto, ela também perde a capacidade de intervir sobre ele. E, nesse tipo de disputa, a ausência de pressão organizada costuma ser preenchida por interesses já estruturados, com objetivos claros e capacidade de ação muito superior.

Não se trata de negar a importância de investimentos, parcerias ou avanços institucionais. Trata-se de compreender o momento. O Brasil ainda não definiu plenamente o seu modelo para os minerais críticos. Ainda não consolidou uma cadeia integrada sob controle nacional. Ainda não estabeleceu, de forma inequívoca, as regras que garantam que a riqueza do subsolo se traduza em soberania efetiva. Tudo isso está em construção. E é justamente por isso que a ideia de que o problema já foi resolvido não ajuda. Ela desarma.

O que se exige, portanto, não é entusiasmo, mas lucidez. A criação de instrumentos estatais fortes, a construção de uma política industrial consistente, a coordenação federativa sob comando da União e o domínio progressivo das etapas mais avançadas da cadeia não são efeitos automáticos de boas intenções nem de anúncios pontuais. São resultado de disputa, de planejamento e de decisão política sustentada no tempo. Sem isso, qualquer promessa de ganho imediato tende a se dissipar no mesmo ritmo em que se forma.

Minerais críticos não admitem improviso. Eles atravessam defesa, energia, tecnologia e soberania informacional. Não há atalhos. Ou o país organiza essa agenda como projeto nacional, com capacidade de decisão sobre dados, território, tecnologia e destino produtivo, ou continuará orbitando cadeias controladas por outros. Entre uma coisa e outra existe um intervalo estreito, que é justamente onde estamos agora.

É nesse intervalo que as ilusões custam mais caro. Porque não produzem apenas erro de diagnóstico. Produzem atraso. E, em disputas dessa natureza, o tempo é um recurso estratégico tão valioso quanto o próprio minério.

A guerra já começou. E ela não será decidida por quem comemora primeiro. Será decidida por quem compreende o que está em jogo antes que seja tarde demais.

•        Energia e IA: para tirar o Brasil da pasmaceira. Por Luiz Martins de Melo

A guerra entre os EUA e Israel contra o Irã é um alerta para o Brasil: a energia continua sendo uma vulnerabilidade estratégica crítica. Mas enfrentar essa vulnerabilidade é um desafio que vai muito além da dependência de combustíveis fósseis importados. A verdadeira fonte da vulnerabilidade do Brasil é um sistema energético fundamentalmente incompatível com o poder econômico do século XXI.

A geopolítica hoje é cada vez mais moldada por duas forças intrinsecamente ligadas: energia e Inteligência Artificial (IA). Centros de dados convertem energia em computação, que forma a base do poder econômico e estratégico. A IA, em larga escala, equivale assim à infraestrutura crítica, com as economias que transformam energia em “inteligência” obtendo de forma mais eficiente uma vantagem decisiva.

Estados Unidos e China disputam atualmente a liderança em IA. Seus modelos divergem significativamente. O modelo chinês baseia-se em uma combinação de coordenação sistêmica (estado-plataforma) — que reconhece as interconexões entre energia, infraestrutura e capacidade digital — e intensa competição em nível empresarial e de mercado.

Crucialmente, a China não está apenas transformando seu sistema energético: está expandindo-o. Investimentos massivos em energia solar, eólica, armazenamento e redes elétricas estão reduzindo o custo marginal da eletricidade (o custo de produzir uma unidade adicional), criando condições favoráveis para a implantação em larga escala da IA. Essa expansão é fortalecida por uma arquitetura financeira que canaliza créditos de baixo custo para infraestrutura e indústria, acelerando a redução de custos e a adoção ampla.¹

Empresas chinesas de IA já começam a traduzir custos de energia mais baixos e maior eficiência do sistema em computação dramaticamente mais barata. Empresas como MiniMax e Moonshot supostamente cobram cerca de US$ 2-3 por milhão de tokens de saída — as unidades básicas de texto gerado por IA e uma medida padrão do uso de computação — em comparação com cerca de US$ 15 para os principais modelos dos EUA. Isso reduz diretamente o custo de implantar IA em larga escala.

Embora esse modelo ainda esteja longe de ser perfeito, como demonstram os gargalos da rede, os desequilíbrios regionais entre geração e demanda e a dependência contínua do carvão para estabilizar a oferta², sua lógica subjacente é forte. Além de competir na fronteira tecnológica, a China busca implantar capacidades de IA da forma mais ampla possível.

Para isso, a China não exporta principalmente computação bruta, que outros teriam de transformar em aplicações utilizáveis. Em vez disso, exporta produtos nos quais a tecnologia digital está incorporada, como veículos elétricos, ferramentas industriais de automação e equipamentos de telecomunicações. Em outras palavras, exporta eletricidade transformada não apenas em conhecimento e tecnologia, mas em capacidade industrial e produtos inovadores.

Os EUA, por outro lado, estão focados diretamente na fronteira tecnológica, com um pequeno número de empresas, apoiadas por mercados de capitais profundos, investindo em escala sem precedentes em chips avançados, grandes modelos e infraestrutura em nuvem. Embora esse modelo se destaque em inovação radical, também gera altos custos, capacidade concentrada e acesso limitado à computação.

O modelo americano também é altamente — e cada vez mais — intensivo em energia. O Laboratório Nacional Lawrence Berkeley estima que a demanda por data centers pode crescer de 176 terawatt-horas em 2023 para 325-580 TWh até 2028, representando 6,7-12% do consumo total de eletricidade dos EUA. Já a disponibilidade de energia está se tornando uma restrição vinculante.

Os modelos dos EUA e da China têm uma coisa em comum: ambos refletem o reconhecimento de que a IA agora é um determinante-chave do poder econômico. O que a China vê mais claramente é que energia abundante é essencial para a adoção da IA.

O Brasil parece estar perdido no caminho a percorrer. Tendo uma matriz energética limpa com capacidade para ter papel relevante, poderia, no futuro, estar em posição entre os líderes mundiais, pelo menos no lado energético da equação. Mas essa ambição tem sido consistentemente minada pela fragmentação, pela incerteza regulatória e pela ausência de uma estratégia industrial coerente que enfatize o fornecimento de eletricidade abundante e de baixo custo. Como resultado, a expansão do fornecimento de energia, redes e armazenamento tem sido insuficiente, e os preços da eletricidade permanecem persistentemente mais altos do que em economias concorrentes.³

Mas isso não é apenas um problema de custo, é uma ameaça estrutural à competitividade brasileira. À medida que o Brasil não atinge suas metas climáticas, também continuará ficando para trás na integração da energia e da capacidade digital. Isso o deixará cada vez mais dependente dos EUA para IA de fronteira e da China para a modernização industrial. A guerra na Ucrânia e no Irã, as tarifas dos EUA e outros fatores já mostraram o quão arriscadas podem ser tais dependências.

Embora o Brasil não possa replicar nem o modelo chinês nem o americano, pode internalizar a lição central da estratégia da China: a transição energética não é apenas sobre sustentabilidade, mas também sobre escala, custo e transformação industrial. Para isso, o Brasil terá de superar restrições institucionais formidáveis, o desafio de coordenar um sistema grande e heterogêneo, alinhando infraestrutura, financiamento e incentivos locais.⁴

Mas o Brasil enfrenta problemas adicionais: mercados de capitais fragmentados, regras de auxílio estatal e capacidade fiscal limitada podem desacelerar investimentos e impedir que projetos atinjam a escala necessária para entregar reduções tangíveis nos custos. O volume total de capital é apenas parte do desafio. Para causar impacto, o investimento deve ser suficientemente coordenado e direcionado.

Isso exige, para começar, mecanismos de redução de riscos, contratos de longo prazo e estruturas regulatórias previsíveis que apoiem uma alocação mais eficaz de capital privado. Além disso, os instrumentos de apoio do Estado devem assumir um papel central na aglomeração de investimentos, ajudando a superar a fragmentação. Por fim, nos casos em que projetos tenham valor estratégico claro, deve haver maior flexibilidade nas regras fiscais e de auxílio estatal. O objetivo não é escolher entre estatizar ou privatizar, mas sim desenhar um contexto de política industrial em que a coordenação pública e o capital privado se reforcem mutuamente.

O Brasil nunca terá os abundantes recursos de combustíveis fósseis dos EUA, mas, ao aumentar o investimento em sua infraestrutura energética e organizar esse capital de forma eficaz, poderá alcançar a diversificação energética e a redução de custos vistas na China. Isso protegeria o Brasil de picos nos preços da energia, como os provocados pela guerra do Irã. Também é um pré-requisito para que o país consiga competir na corrida econômica definidora do nosso tempo: construir a capacidade de transformar eletricidade em tecnologia e inovação.

Um exemplo que mostra a falta de política industrial: o excesso de investimentos em fontes renováveis, com subsídios caros e desnecessários, levou o setor elétrico, desde 2024, a enfrentar uma rara “crise” de excedente de eletricidade — e os preços não caem. Mas isso é o de menos. Diariamente, entre 9h e 14h, esse excedente pode chegar a 20 GW, como no dia 30 de março. Se a média for da ordem de 12 GW, já seria potência suficiente para recarregar baterias, todos os dias e gratuitamente, de no mínimo 200 mil ônibus elétricos e construir uma indústria para isso⁵. Mais uma oportunidade perdida?

Soberania nacional significa autonomia tecnológica e capacidade de oferecer serviços públicos à cidadania que aumentem a coesão social e política. Sem energia barata e disponível para todos, isso não se consegue. Energia é a principal infraestrutura transversal de serviços públicos que viabiliza o fortalecimento do estado de bem-estar social e a formação da esperança na transformação da sociedade atual para uma mais civilizada, igualitária e democrática.

 

Fonte: Brasil 247/Outras Palavras

 

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