Em
nome de “Deus”: para o regime Trump, levar martírio ao Irã é missão divina
Deus
abençoou esta guerra contra os infiéis.
Deus
ressuscitou o líder encarregado da missão divina.
O
inimigo representa as forças do mal e Deus disse que o mesmo deve ser
aniquilado.
Deus
está do nosso lado, e quem se opor por definição é cúmplice do diabo.
Essas
mensagens não provêm do Irã — cuja população o secretário de
Estado estadunidense, Marco Rubio, classificou como “fanáticos religiosos
lunáticos” ou “clérigos radicais”, conforme repetiu na semana passada. São
declarações do próprio governo dos EUA, que cada vez mais descreve sua “missão”
com termos religiosos.
Há
alguns dias, na Casa Branca, a assessora espiritual do presidente
estadunidense, Paula White — uma pastora cristã ultradireitista — comparou o
mandatário com Jesus Cristo durante uma reunião de Páscoa com outros 100
líderes religiosos:
O
senhor foi traído, preso e falsamente acusado, é um padrão familiar que nosso
Senhor e Salvador nos mostrou. Mas não terminou aí para ele, e não termina aí
para o senhor. Deus sempre teve um plano… Pela sua ressurreição, senhor, o
senhor se levantou — porque ele foi vitorioso, o senhor foi vitorioso.Paula White
Trump
observou tudo isso sem problema. Vale lembrar que no dia de sua posse
presidencial, o republicano declarou: “Fui salvo por Deus para tornar a América
grande novamente.”
Em 5 de
abril, esse comandante-chefe “sagrado” emitiu uma mensagem repleta de palavrões
ameaçando o governo iraniano de que, se não abrisse o estreito de Ormuz, a
população do país persa viveria “o inferno”. Assinou a mensagem com “louvado
seja Allah” e seu nome. Seguramente deixou perplexos muitos cristãos e judeus
ao emitir a declaração em pleno dia de Páscoa e na semana da Páscoa judaica.
Seu
secretário de Guerra, Pete Hegseth, tatuado com a Cruz de Jerusalém e outros
símbolos das Cruzadas, durante um de seus serviços religiosos que celebra
mensalmente no Pentágono ofereceu uma oração na qual pediu a Deus que “quebre
os dentes dos ímpios” e que guie as armas contra os “inimigos do bem e de nossa
grande nação”. No início da guerra contra o Irã, pediu que os estadunidenses
rezassem pela vitória “todos os dias, ajoelhados, com sua família, em suas
escolas e em suas igrejas, em nome de Jesus Cristo.”
Quando
convocou ministros de Defesa do hemisfério ocidental, Hegseth lhes disse que
enfrentavam uma “prova essencial”: se “nossas nações serão e permanecerão…
nações cristãs sob Deus.”
O
reverendo direitista e aliado de Trump, Franklin Graham, pregando em um serviço
militar no Pentágono na época do Natal, disse que as pessoas costumam pensar em
“Deus como um Deus do amor”, e em seguida acrescentou: “Mas vocês sabiam que
Deus também odeia, vocês sabiam que Deus também é um Deus da guerra?”
Um
representante federal, Andy Ogles, recentemente circulou uma imagem feita com
inteligência artificial dele e dos secretários de Guerra e de Estado vestidos
como cruzados em frente ao Capitólio, com a frase: “Esta é uma batalha do bem
contra o mal. Temos que reafirmar que nossa nação foi construída sobre
princípios cristãos.”
A
presença do cristianismo nacionalista direitista nas mais altas esferas do
poder e o uso dessa retórica estão cada vez mais presentes e explícitos, não se
limitando apenas ao poder federal, mas atingindo também governos estaduais e
locais, com severas consequências contra direitos e liberdades civis de
mulheres, minorias raciais, a comunidade gay, imigrantes e a cultura. Soma-se a
isso a retórica e a política bélicas da superpotência. Enquanto isso, pesquisas
recentes calculam que apenas um terço dos estadunidenses participa ou simpatiza
com o nacionalismo cristão.
O papa Leão XIV, sem mencionar
nomes, pareceu responder a tudo isso em seu país em uma de suas mensagens de
Páscoa, ao afirmar: Deus “não escuta as orações daqueles que fazem guerra, mas
as rejeita, dizendo ‘ainda que façam muitas orações, não escutarei: suas mãos estão
cheias de sangue’”.
O
governo dos Estados Unidos, porém, segue repetindo a frase “Deus está do nosso
lado”. Não é uma novidade, mas a situação nunca havia chegado a um ponto tão
fanático e lunático.
¨
Mentiras, fé apocalíptica e a coreografia do desastre na
Casa Branca
Cobrir
o sapateado insano dentro do circo político estadunidense implica
reportar uma mescla de horror e comédia quase diariamente. Às vezes, essa
tarefa suscita a pergunta sobre se esse tipo de loucura é contagiosa: será que
é isso mesmo que estamos reportando ou já enlouquecemos também?
Por
exemplo, na sede central do circo político, de repente há algo estranho: vários
integrantes do gabinete — entre eles os secretários de Estado, de Defesa e de
Comércio — além de assessores e amigos do presidente, usam a mesma marca e
modelo de sapato formal. Ao que parece, o chefe tem uma obsessão por esse
modelo da Florsheim, de 145 dólares, e os presenteia a esses colegas,
aparentemente sem sequer pedir seus números, já que em vários casos ficam
grandes demais. Segundo uma fonte dentro da Casa Branca, todos se sentem
obrigados a usá-los quando o mandatário está presente. Talvez isso explique, em
parte, as decisões tão desconfortáveis que essa superpotência toma.
Enquanto
isso, a primeira-dama fez um discurso durante um evento sobre o “mês da
história da mulher”, no qual se definiu como “visionária” e se apresentou como
exemplo de uma mulher que enfrenta a dificuldade de estar “sozinha no topo”
para ter sucesso como “humanitária”. Afirmou: “Na solidão, minha mente criativa
dança” e elogiou seu trabalho na criação de um documentário sobre si mesma.
O
sapateado insano da cúpula política se evidencia em seus conflitos bélicos, na
crueldade misturada com piadas sinistras, no racismo explícito e na retórica
envolta em religião, chegando inclusive a classificar obscenidades militares
como parte de guerras sagradas. Mais de um comentarista destacou que a loucura
chegou a tal ponto que, embora em termos objetivos a aventura militar
estadunidense no Oriente Médio seja um desastre, a vários dos agentes
governamentais e setores de sua base isso não importa, porque realmente
acreditam que esse caos faz parte do relato bíblico do Armagedom e que estamos
nos dias finais do mundo, que culminarão com o retorno de Jesus Cristo.
No
entanto, desastre ou não, fim do mundo ou não, é importante para muitos no
governo — incluindo o chefe — que eles e seus conflitos bélicos aparentem estar bem. O secretário de
Defesa, Pete Hegseth, ordenou proibir fotógrafos da imprensa no Pentágono de
registrarem sua imagem, porque não gostou das fotos de seu rosto publicadas
(embora não tenha mencionado imagens de seus pés nos sapatos do chefe). Também
criticou a CNN e afirmou que espera que se concretize a compra da empresa
matriz desse canal pelo bilionário David Ellison, amigo de Trump, que também
adquiriu a CBS, onde vem alterando sua linha editorial. Mais grave ainda, o
comandante-chefe continua ameaçando processar jornalistas, seus veículos e até
revogar licenças de certas emissoras de televisão por reportarem o que ele
classifica como “fake news” sobre a forma como Washington conduz a guerra
contra o Irã. Também acusou alguns meios de desejarem que os Estados Unidos
“percam”.
A
propaganda oficial a favor da guerra utiliza vídeos compostos por trechos de
videogames, esportes profissionais, filmes de ação (incluindo Superman, Iron
Man e Top Gun) e até de uma animação, misturados com
imagens reais da ofensiva, nas quais se veem bombas caindo sob o título de
“cortesia da [bandeira] vermelha, branca e azul”, frase de uma canção country
de direita, segundo a AP.
Por
outro lado, segue a luta contra o comunismo em lugares como a Flórida, onde nos
próximos meses estudantes do ensino médio serão obrigados a cursar disciplinas
contra essa ideologia. A medida faz parte de uma iniciativa que instituiu
oficialmente no estado o “Dia das Vítimas do Comunismo”, exigindo ao menos 45
minutos de instrução sobre seus “horrores” e o caráter “destrutivo do
marxismo-leninismo”.
Tudo
isso faz parte da coreografia desse sapateado insano — e letal — ensaiado todos
os dias neste país.
¨
De sussurros a gritos, segue a resistência ao fascismo
nos EUA
A única
coisa que salva o atual momento nos Estados Unidos é que no país
não há silêncio. A colunista Rebecca Solnit escreveu no The
Guardian que “os Estados Unidos estão se autodestruindo”, assinalando
que “é um governo que está sabotando o funcionamento do governo federal… e
jogando no lixo a economia global, as alianças e relações internacionais” e o
meio ambiente, com consequências que durarão décadas.
Talvez
o mais importante agora seja que, diante de toda essa destruição, guerras,
repressão e violações, para não falar da anulação de direitos e liberdades
civis, escutam-se gritos e sussurros — ou seja, provas de vida dentro desse
povo estadunidense.
Um dia
após o maior protesto nacional da história dos Estados Unidos (8 a 9 milhões em
mais de 3 mil atos), o “No Kings Day” (Dia do Sem Reis), no fim de
março, as expressões de dissidência e resistência se escutam e se veem em
diversas frentes diante de um governo que está acusando grande parte da
oposição como potenciais “terroristas domésticos” e antipatriotas.
Algumas
das expressões são impulsionadas por artistas veteranos como Jane Fonda, Bruce
Springsteen e outros. Fonda ressuscitou o Comitê pela Primeira Emenda —
organização da qual seu pai, o ator Henry Fonda, participou contra o macartismo
nos anos 1950 — para combater, segundo ela, o retorno das mesmas forças
obscuras do passado. “Somos artistas, comediantes, escritores e contadores de
histórias — gente que centrou suas vidas na crença de que as histórias podem
salvar vidas, que o humor desarma tiranos, que a arte perdura mais que os
impérios e que a voz humana, erguida em protesto, é uma das forças mais
duradouras na história”, afirma o Comitê.
Springsteen
está no início de uma turnê nacional explicitamente dedicada à resistência em
todas as frentes — guerras, batidas antimigrantes, censura, ataques a minorias
— contra os ocupantes da Casa Branca, denunciando o governo como
“corrupto, incompetente, racista… e traiçoeiro”. Ao iniciar a turnê em seu
concerto em Los Angeles, declarou diante da arena lotada: “Convocamos o poder
justo da arte e da música, do rock & roll, em tempos perigosos” para o
resgate da democracia e de seus ideais no país.
Outros
gritos de resistência são liderados por pessoas até agora anônimas no cenário
público, mas que agora se atrevem a enfrentar injustiças intoleráveis, por
exemplo, a detenção e o encarceramento de milhares de crianças. É o caso da
iniciativa “10 mil mães”, que busca fechar o Centro de Detenção Dilley, no
Texas, onde estão detidos crianças e seus pais imigrantes, esforço no qual
também estão lutando os deputados mexicano-estadunidenses Joaquin Castro e Greg
Casar. Outros lideram esforços como as vigílias semanais de ativistas,
religiosos e familiares de detidos contra a chamada Alcatraz dos Jacarés, na
Flórida, e o Centro de Detenção Federal no Brooklyn.
Há
também um grupo de dançarinos que se apresenta diante do renomeado Centro
Trump-Kennedy e do Monumento a Lincoln, em Washington. Com camisetas com
fragmentos dos arquivos do pedófilo Epstein, sobretudo os relacionados com
Trump, o time apresentou uma dança
furiosa e delicada sobre a violação da inocência, com olhos vendados até o
final.
E agora
há combinações de figuras políticas veteranas e das novas gerações, e seus
aliados. É o caso do senador Bernie Sanders — o Davi contra o Golias
oligárquico —, do novo prefeito socialista democrático de Nova York, Zhoran
Mamdani, e da grande dirigente sindical, presidenta do sindicato dos
comissários de bordo, Sara Nelson, em apoio ao fortalecimento e à ampliação do
sindicalismo nos Estados Unidos como uma chave na luta democrática e na
resistência contra a direita.
A
história deste momento neste país não pode ser contada sem os gritos e
sussurros, e enquanto esse for o caso, há (alguma) esperança.
¨
Maioria dos estadunidenses acredita que Trump não tem
plano na guerra contra Irã, aponta pesquisa
A
maioria dos cidadãos nos Estados Unidos – 62% – acredita que o presidente
norte-americano Donald Trump não tem um plano claro referente à guerra
contínua contra o Irã,
enquanto 66% sustentam que a Casa Branca não explicou as motivações militares,
de acordo com uma pesquisa feita pela emissora CBS News em
parceria com a YouGov, divulgada na segunda-feira (13/04).
O
levantamento, realizado entre 8 e 10 de abril com 2.387 adultos e tem uma
margem de erro de 2,4 pontos percentuais, não apresentou melhora em relação a
março, de acordo com a CBS. “Ao descrever seus sentimentos sobre o
conflito recente, os norte-americanos mencionam muito mais preocupação,
estresse e raiva do que segurança ou confiança”, aponta.
A
pesquisa também aponta que, se a guerra terminasse agora, poucos
norte-americanos considerariam como um sucesso para o país. “Isso porque há
coisas que eles consideram importantes para os Estados Unidos fazerem —
incluindo abrir o Estreito de Ormuz para o acesso ao petróleo, garantir que o
povo iraniano esteja livre e parar permanentemente os programas nucleares do
Irã — que sentem que ainda não foram cumpridas”, explica a CBS.
No
domingo (12/04), o presidente Trump fez um reconhecimento atípico do impacto
político de sua decisão de atacar o Irã, ao afirmar que os preços do petróleo e
da gasolina poderiam permanecer elevados até as eleições de meio de mandato de
novembro. Inicialmente, o mandatário sustentava que a alta seria apenas um
fenômeno temporário.
“Pode
ser assim, ou igual, ou talvez um pouco mais alto, mas deveria ser mais ou
menos o mesmo”, declarou o republicano à conservadora Fox News quando
questionado sobre o assunto. De acordo com informações do GasBuddy, o preço
médio de um galão de gasolina comum em postos nos Estados Unidos ultrapassou
quatro dólares (quase 20 reais) durante os primeiros dias de abril.
Na
segunda-feira (13/04), após o fracasso nas negociações com Teerã, o Comando
Central do Exército dos Estados Unidos implementou o bloqueio do tráfego marítimo de
navios de
ou para portos iranianos — incluindo os do Golfo Árabe e do Golfo de Omã.
Também falou em interditar embarcações que pagassem taxas para atravessar o
Estreito de Ormuz.
Os
mercados responderam: a WTI Oil abriu 10% e ultrapassou US$ 105 (R$ 525) por
barril após a notícia do fracasso das negociações em Islamabad.
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Xi Jinping apresenta plano de quatro pontos para paz no
Oriente Médio
O
presidente da China, Xi Jinping, apresentou uma proposta de quatro pontos
voltada à promoção da paz e da
estabilidade no Oriente Médio, informou a agência estatal chinesa Xinhua nesta
terça-feira (14/04).
O
documento foi discutido durante um encontro sobre a situação do Golfo com o príncipe
herdeiro de Abu Dhabi, Khaled bin Mohamed bin Zayed Al Nahyan, realizado em
Pequim.
Segundo
a proposta, o plano se baseia em quatro princípios centrais: o respeito à
coexistência pacífica entre os países, a observância do direito internacional,
o respeito à soberania nacional e a coordenação entre desenvolvimento e
segurança.
Durante
a reunião, Xi destacou especialmente a importância do respeito à soberania dos
países da região. “A soberania, a segurança e a integridade territorial dos
países do Golfo no Oriente Médio devem ser sinceramente respeitadas”, afirmou.
O
presidente ressaltou ainda que a China terá um papel construtivo nas
negociações de paz e que o plano também apoia a criação de uma estrutura de
segurança comum e cooperativa na região.
O
encontro ocorreu em meio ao aumento das tensões no Oriente Médio, após as negociações do
último fim de semana entre Washington e Teerã não terem resultado em um acordo
para encerrar o conflito.
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Estreito de Ormuz
Nesta
terça-feira (14), três navios
petroleiros ligados ao Irã entraram no Golfo Pérsico pelo Estreito de Ormuz. O Peace Gulf, com
bandeira do Panamá, está a caminho do porto de Hamriyah, nos Emirados Árabes
Unidos, e, antes disso, dois petroleiros sancionados pelos EUA já haviam
atravessado a passagem.
Como os
três navios que transitaram pelo estreito não estavam se dirigindo a portos
iranianos, eles não são afetados pelo bloqueio dos EUA. O petroleiro Handy
Murlikishan está a caminho do Iraque e outro petroleiro sancionado, o Rich
Starry, será o primeiro a atravessar o estreito e sair do Golfo desde o início
do bloqueio, de acordo com dados da LSEG e da Kpler.
A China
advertiu que adotará “contramedidas” se o presidente dos
Estados Unidos, Donald Trump, implementar as novas tarifas que ameaçou caso
Pequim forneça
ajuda militar ao Irã na guerra no Oriente Médio.
O
porta-voz do Ministério das Relações Exteriores chinês, Guo Jiakun, disse que
Washington “intensificou as operações militares e impôs um bloqueio seletivo, o
que vai apenas exacerbar as tensões, enfraquecerá um acordo de cessar-fogo já
frágil e comprometerá ainda mais a segurança da passagem no Estreito. É um
comportamento perigoso e irresponsável”, afirmou.
Fonte: Diálogos
do Sul GlobalOpera Mundi

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