quinta-feira, 16 de abril de 2026

Em nome de “Deus”: para o regime Trump, levar martírio ao Irã é missão divina

Deus abençoou esta guerra contra os infiéis.

Deus ressuscitou o líder encarregado da missão divina.

O inimigo representa as forças do mal e Deus disse que o mesmo deve ser aniquilado.

Deus está do nosso lado, e quem se opor por definição é cúmplice do diabo.

Essas mensagens não provêm do Irã — cuja população o secretário de Estado estadunidense, Marco Rubio, classificou como “fanáticos religiosos lunáticos” ou “clérigos radicais”, conforme repetiu na semana passada. São declarações do próprio governo dos EUA, que cada vez mais descreve sua “missão” com termos religiosos.

Há alguns dias, na Casa Branca, a assessora espiritual do presidente estadunidense, Paula White — uma pastora cristã ultradireitista — comparou o mandatário com Jesus Cristo durante uma reunião de Páscoa com outros 100 líderes religiosos:

O senhor foi traído, preso e falsamente acusado, é um padrão familiar que nosso Senhor e Salvador nos mostrou. Mas não terminou aí para ele, e não termina aí para o senhor. Deus sempre teve um plano… Pela sua ressurreição, senhor, o senhor se levantou — porque ele foi vitorioso, o senhor foi vitorioso.Paula White

Trump observou tudo isso sem problema. Vale lembrar que no dia de sua posse presidencial, o republicano declarou: “Fui salvo por Deus para tornar a América grande novamente.”

Em 5 de abril, esse comandante-chefe “sagrado” emitiu uma mensagem repleta de palavrões ameaçando o governo iraniano de que, se não abrisse o estreito de Ormuz, a população do país persa viveria “o inferno”. Assinou a mensagem com “louvado seja Allah” e seu nome. Seguramente deixou perplexos muitos cristãos e judeus ao emitir a declaração em pleno dia de Páscoa e na semana da Páscoa judaica.

Seu secretário de Guerra, Pete Hegseth, tatuado com a Cruz de Jerusalém e outros símbolos das Cruzadas, durante um de seus serviços religiosos que celebra mensalmente no Pentágono ofereceu uma oração na qual pediu a Deus que “quebre os dentes dos ímpios” e que guie as armas contra os “inimigos do bem e de nossa grande nação”. No início da guerra contra o Irã, pediu que os estadunidenses rezassem pela vitória “todos os dias, ajoelhados, com sua família, em suas escolas e em suas igrejas, em nome de Jesus Cristo.”

Quando convocou ministros de Defesa do hemisfério ocidental, Hegseth lhes disse que enfrentavam uma “prova essencial”: se “nossas nações serão e permanecerão… nações cristãs sob Deus.”

O reverendo direitista e aliado de Trump, Franklin Graham, pregando em um serviço militar no Pentágono na época do Natal, disse que as pessoas costumam pensar em “Deus como um Deus do amor”, e em seguida acrescentou: “Mas vocês sabiam que Deus também odeia, vocês sabiam que Deus também é um Deus da guerra?”

Um representante federal, Andy Ogles, recentemente circulou uma imagem feita com inteligência artificial dele e dos secretários de Guerra e de Estado vestidos como cruzados em frente ao Capitólio, com a frase: “Esta é uma batalha do bem contra o mal. Temos que reafirmar que nossa nação foi construída sobre princípios cristãos.”

A presença do cristianismo nacionalista direitista nas mais altas esferas do poder e o uso dessa retórica estão cada vez mais presentes e explícitos, não se limitando apenas ao poder federal, mas atingindo também governos estaduais e locais, com severas consequências contra direitos e liberdades civis de mulheres, minorias raciais, a comunidade gay, imigrantes e a cultura. Soma-se a isso a retórica e a política bélicas da superpotência. Enquanto isso, pesquisas recentes calculam que apenas um terço dos estadunidenses participa ou simpatiza com o nacionalismo cristão.

papa Leão XIV, sem mencionar nomes, pareceu responder a tudo isso em seu país em uma de suas mensagens de Páscoa, ao afirmar: Deus “não escuta as orações daqueles que fazem guerra, mas as rejeita, dizendo ‘ainda que façam muitas orações, não escutarei: suas mãos estão cheias de sangue’”.

O governo dos Estados Unidos, porém, segue repetindo a frase “Deus está do nosso lado”. Não é uma novidade, mas a situação nunca havia chegado a um ponto tão fanático e lunático.

¨      Mentiras, fé apocalíptica e a coreografia do desastre na Casa Branca

Cobrir o sapateado insano dentro do circo político estadunidense implica reportar uma mescla de horror e comédia quase diariamente. Às vezes, essa tarefa suscita a pergunta sobre se esse tipo de loucura é contagiosa: será que é isso mesmo que estamos reportando ou já enlouquecemos também?

Por exemplo, na sede central do circo político, de repente há algo estranho: vários integrantes do gabinete — entre eles os secretários de Estado, de Defesa e de Comércio — além de assessores e amigos do presidente, usam a mesma marca e modelo de sapato formal. Ao que parece, o chefe tem uma obsessão por esse modelo da Florsheim, de 145 dólares, e os presenteia a esses colegas, aparentemente sem sequer pedir seus números, já que em vários casos ficam grandes demais. Segundo uma fonte dentro da Casa Branca, todos se sentem obrigados a usá-los quando o mandatário está presente. Talvez isso explique, em parte, as decisões tão desconfortáveis que essa superpotência toma.

Enquanto isso, a primeira-dama fez um discurso durante um evento sobre o “mês da história da mulher”, no qual se definiu como “visionária” e se apresentou como exemplo de uma mulher que enfrenta a dificuldade de estar “sozinha no topo” para ter sucesso como “humanitária”. Afirmou: “Na solidão, minha mente criativa dança” e elogiou seu trabalho na criação de um documentário sobre si mesma.

O sapateado insano da cúpula política se evidencia em seus conflitos bélicos, na crueldade misturada com piadas sinistras, no racismo explícito e na retórica envolta em religião, chegando inclusive a classificar obscenidades militares como parte de guerras sagradas. Mais de um comentarista destacou que a loucura chegou a tal ponto que, embora em termos objetivos a aventura militar estadunidense no Oriente Médio seja um desastre, a vários dos agentes governamentais e setores de sua base isso não importa, porque realmente acreditam que esse caos faz parte do relato bíblico do Armagedom e que estamos nos dias finais do mundo, que culminarão com o retorno de Jesus Cristo.

No entanto, desastre ou não, fim do mundo ou não, é importante para muitos no governo — incluindo o chefe — que eles e seus conflitos bélicos aparentem estar bem. O secretário de Defesa, Pete Hegseth, ordenou proibir fotógrafos da imprensa no Pentágono de registrarem sua imagem, porque não gostou das fotos de seu rosto publicadas (embora não tenha mencionado imagens de seus pés nos sapatos do chefe). Também criticou a CNN e afirmou que espera que se concretize a compra da empresa matriz desse canal pelo bilionário David Ellison, amigo de Trump, que também adquiriu a CBS, onde vem alterando sua linha editorial. Mais grave ainda, o comandante-chefe continua ameaçando processar jornalistas, seus veículos e até revogar licenças de certas emissoras de televisão por reportarem o que ele classifica como “fake news” sobre a forma como Washington conduz a guerra contra o Irã. Também acusou alguns meios de desejarem que os Estados Unidos “percam”.

A propaganda oficial a favor da guerra utiliza vídeos compostos por trechos de videogames, esportes profissionais, filmes de ação (incluindo SupermanIron Man e Top Gun) e até de uma animação, misturados com imagens reais da ofensiva, nas quais se veem bombas caindo sob o título de “cortesia da [bandeira] vermelha, branca e azul”, frase de uma canção country de direita, segundo a AP.

Por outro lado, segue a luta contra o comunismo em lugares como a Flórida, onde nos próximos meses estudantes do ensino médio serão obrigados a cursar disciplinas contra essa ideologia. A medida faz parte de uma iniciativa que instituiu oficialmente no estado o “Dia das Vítimas do Comunismo”, exigindo ao menos 45 minutos de instrução sobre seus “horrores” e o caráter “destrutivo do marxismo-leninismo”.

Tudo isso faz parte da coreografia desse sapateado insano — e letal — ensaiado todos os dias neste país.

¨      De sussurros a gritos, segue a resistência ao fascismo nos EUA

A única coisa que salva o atual momento nos Estados Unidos é que no país não há silêncio. A colunista Rebecca Solnit escreveu no The Guardian que “os Estados Unidos estão se autodestruindo”, assinalando que “é um governo que está sabotando o funcionamento do governo federal… e jogando no lixo a economia global, as alianças e relações internacionais” e o meio ambiente, com consequências que durarão décadas.

Talvez o mais importante agora seja que, diante de toda essa destruição, guerras, repressão e violações, para não falar da anulação de direitos e liberdades civis, escutam-se gritos e sussurros — ou seja, provas de vida dentro desse povo estadunidense.

Um dia após o maior protesto nacional da história dos Estados Unidos (8 a 9 milhões em mais de 3 mil atos), o “No Kings Day” (Dia do Sem Reis), no fim de março, as expressões de dissidência e resistência se escutam e se veem em diversas frentes diante de um governo que está acusando grande parte da oposição como potenciais “terroristas domésticos” e antipatriotas.

Algumas das expressões são impulsionadas por artistas veteranos como Jane Fonda, Bruce Springsteen e outros. Fonda ressuscitou o Comitê pela Primeira Emenda — organização da qual seu pai, o ator Henry Fonda, participou contra o macartismo nos anos 1950 — para combater, segundo ela, o retorno das mesmas forças obscuras do passado. “Somos artistas, comediantes, escritores e contadores de histórias — gente que centrou suas vidas na crença de que as histórias podem salvar vidas, que o humor desarma tiranos, que a arte perdura mais que os impérios e que a voz humana, erguida em protesto, é uma das forças mais duradouras na história”, afirma o Comitê.

Springsteen está no início de uma turnê nacional explicitamente dedicada à resistência em todas as frentes — guerras, batidas antimigrantes, censura, ataques a minorias — contra os ocupantes da Casa Branca, denunciando o governo como “corrupto, incompetente, racista… e traiçoeiro”. Ao iniciar a turnê em seu concerto em Los Angeles, declarou diante da arena lotada: “Convocamos o poder justo da arte e da música, do rock & roll, em tempos perigosos” para o resgate da democracia e de seus ideais no país.

Outros gritos de resistência são liderados por pessoas até agora anônimas no cenário público, mas que agora se atrevem a enfrentar injustiças intoleráveis, por exemplo, a detenção e o encarceramento de milhares de crianças. É o caso da iniciativa “10 mil mães”, que busca fechar o Centro de Detenção Dilley, no Texas, onde estão detidos crianças e seus pais imigrantes, esforço no qual também estão lutando os deputados mexicano-estadunidenses Joaquin Castro e Greg Casar. Outros lideram esforços como as vigílias semanais de ativistas, religiosos e familiares de detidos contra a chamada Alcatraz dos Jacarés, na Flórida, e o Centro de Detenção Federal no Brooklyn.

Há também um grupo de dançarinos que se apresenta diante do renomeado Centro Trump-Kennedy e do Monumento a Lincoln, em Washington. Com camisetas com fragmentos dos arquivos do pedófilo Epstein, sobretudo os relacionados com Trump, o time apresentou uma dança furiosa e delicada sobre a violação da inocência, com olhos vendados até o final.

E agora há combinações de figuras políticas veteranas e das novas gerações, e seus aliados. É o caso do senador Bernie Sanders — o Davi contra o Golias oligárquico —, do novo prefeito socialista democrático de Nova York, Zhoran Mamdani, e da grande dirigente sindical, presidenta do sindicato dos comissários de bordo, Sara Nelson, em apoio ao fortalecimento e à ampliação do sindicalismo nos Estados Unidos como uma chave na luta democrática e na resistência contra a direita.

A história deste momento neste país não pode ser contada sem os gritos e sussurros, e enquanto esse for o caso, há (alguma) esperança.

¨      Maioria dos estadunidenses acredita que Trump não tem plano na guerra contra Irã, aponta pesquisa

A maioria dos cidadãos nos Estados Unidos – 62% – acredita que o presidente norte-americano Donald Trump não tem um plano claro referente à guerra contínua contra o Irã, enquanto 66% sustentam que a Casa Branca não explicou as motivações militares, de acordo com uma pesquisa feita pela emissora CBS News em parceria com a YouGov, divulgada na segunda-feira (13/04).  

O levantamento, realizado entre 8 e 10 de abril com 2.387 adultos e tem uma margem de erro de 2,4 pontos percentuais, não apresentou melhora em relação a março, de acordo com a CBS. “Ao descrever seus sentimentos sobre o conflito recente, os norte-americanos mencionam muito mais preocupação, estresse e raiva do que segurança ou confiança”, aponta.

A pesquisa também aponta que, se a guerra terminasse agora, poucos norte-americanos considerariam como um sucesso para o país. “Isso porque há coisas que eles consideram importantes para os Estados Unidos fazerem — incluindo abrir o Estreito de Ormuz para o acesso ao petróleo, garantir que o povo iraniano esteja livre e parar permanentemente os programas nucleares do Irã — que sentem que ainda não foram cumpridas”, explica a CBS.

No domingo (12/04), o presidente Trump fez um reconhecimento atípico do impacto político de sua decisão de atacar o Irã, ao afirmar que os preços do petróleo e da gasolina poderiam permanecer elevados até as eleições de meio de mandato de novembro. Inicialmente, o mandatário sustentava que a alta seria apenas um fenômeno temporário.

“Pode ser assim, ou igual, ou talvez um pouco mais alto, mas deveria ser mais ou menos o mesmo”, declarou o republicano à conservadora Fox News quando questionado sobre o assunto. De acordo com informações do GasBuddy, o preço médio de um galão de gasolina comum em postos nos Estados Unidos ultrapassou quatro dólares (quase 20 reais) durante os primeiros dias de abril.

Na segunda-feira (13/04), após o fracasso nas negociações com Teerã, o Comando Central do Exército dos Estados Unidos implementou o bloqueio do tráfego marítimo de navios de ou para portos iranianos — incluindo os do Golfo Árabe e do Golfo de Omã. Também falou em interditar embarcações que pagassem taxas para atravessar o Estreito de Ormuz.

Os mercados responderam: a WTI Oil abriu 10% e ultrapassou US$ 105 (R$ 525) por barril após a notícia do fracasso das negociações em Islamabad.

¨      Xi Jinping apresenta plano de quatro pontos para paz no Oriente Médio

O presidente da China, Xi Jinping, apresentou uma proposta de quatro pontos voltada à promoção da paz e da estabilidade no Oriente Médio, informou a agência estatal chinesa Xinhua nesta terça-feira (14/04).

O documento foi discutido durante um encontro sobre a situação do Golfo com o príncipe herdeiro de Abu Dhabi, Khaled bin Mohamed bin Zayed Al Nahyan, realizado em Pequim.

Segundo a proposta, o plano se baseia em quatro princípios centrais: o respeito à coexistência pacífica entre os países, a observância do direito internacional, o respeito à soberania nacional e a coordenação entre desenvolvimento e segurança.

Durante a reunião, Xi destacou especialmente a importância do respeito à soberania dos países da região. “A soberania, a segurança e a integridade territorial dos países do Golfo no Oriente Médio devem ser sinceramente respeitadas”, afirmou.

O presidente ressaltou ainda que a China terá um papel construtivo nas negociações de paz e que o plano também apoia a criação de uma estrutura de segurança comum e cooperativa na região.

O encontro ocorreu em meio ao aumento das tensões no Oriente Médio, após as negociações do último fim de semana entre Washington e Teerã não terem resultado em um acordo para encerrar o conflito.

<><> Estreito de Ormuz

Nesta terça-feira (14), três navios petroleiros ligados ao Irã entraram no Golfo Pérsico pelo Estreito de Ormuz. O Peace Gulf, com bandeira do Panamá, está a caminho do porto de Hamriyah, nos Emirados Árabes Unidos, e, antes disso, dois petroleiros sancionados pelos EUA já haviam atravessado a passagem.

Como os três navios que transitaram pelo estreito não estavam se dirigindo a portos iranianos, eles não são afetados pelo bloqueio dos EUA. O petroleiro Handy Murlikishan está a caminho do Iraque e outro petroleiro sancionado, o Rich Starry, será o primeiro a atravessar o estreito e sair do Golfo desde o início do bloqueio, de acordo com dados da LSEG e da Kpler.

A China advertiu que adotará “contramedidas” se o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, implementar as novas tarifas que ameaçou caso Pequim forneça ajuda militar ao Irã na guerra no Oriente Médio.

O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores chinês, Guo Jiakun, disse que Washington “intensificou as operações militares e impôs um bloqueio seletivo, o que vai apenas exacerbar as tensões, enfraquecerá um acordo de cessar-fogo já frágil e comprometerá ainda mais a segurança da passagem no Estreito. É um comportamento perigoso e irresponsável”, afirmou.

 

Fonte: Diálogos do Sul GlobalOpera Mundi

 

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