Sportswashing:
de Hitler a Trump
Quando
se iniciaram os Jogos Olímpicos em Berlim, no dia 1º de agosto de 1936, muitos
eram os Tarnschriften, panfletos camuflados usados para denunciar
os horrores do III Reich, distribuídos pelas ruas alemãs. Meses antes, nos
Estados Unidos, ocorriam manifestações explícitas contrárias à realização dos
jogos em território nazista, já sob vigência das leis antissemitas de
Nuremberg, o que dava o tom da tensão presente naquele ano no mundo.
A
figura de Jeremiah
Mahoney, presidente da União Atlética Amadora (AAU), liderava o
movimento pelo boicote à participação da delegação estadunidense em Berlim.
Além da solidariedade aos judeus, denunciava que cristãos não arianos,
comunistas e todo tipo de oposição ao regime alemão também eram alvo de
perseguição. O pleito de Mahoney não foi aprovado por muito pouco, sendo
derrotado em votação na AAU por apenas dois votos. Avery Brundage, chefe do
Comitê Olímpico Americano (AOC), foi o protagonista na defesa da legitimidade
dos Jogos e da participação estadunidense, contando também com a inércia de
Roosevelt, fiel à Lei de Neutralidade de 1935
Na
Europa, a resistência a Hitler parecia mobilizar mais corações e mentes.
Carregando a bandeira dos verdadeiros ideais olímpicos de paz e fraternidade,
fora criado um Comitê Olímpico Popular em 1º de maio de 1936, Dia dos
Trabalhadores. Este comitê organizaria a Olimpíada Popular em
Barcelona, com início marcado para o dia 19 de julho daquele ano. Cerca de dez
mil atletas e vinte e cinco mil espectadores se deslocaram à Catalunha para
estar nesse evento, que contava com o apoio financeiro e institucional também
da Espanha e da França.
Dois
dias antes do início da Olimpíada Popular, um levante liderado
por Francisco Franco e Emílio Mola se iniciou no Protetorado de Marrocos e se
estenderia por todo o território do Estado Espanhol nos dias subsequentes. A
tentativa de golpe de Estado fascista resultou na Guerra Civil Espanhola, que
durou até 1939, culminando na vitória dos golpistas e na destruição tanto do
governo popular de Santiago Quiroga quanto do governo autônomo catalão de Lluís
Companys.
Cerca
de 200 a 300 atletas ficaram em Barcelona para apoiar o governo republicano
contra o golpe fascista. Foram peças-chave para a formação das Brigadas
Internacionais, destacamentos de soldados estrangeiros que atuaram em
solidariedade aos ibéricos. Somaram-se a atletas catalães, como Antonio
Cánovas, jovem nadador do movimento desportivo operário local, que atuou em
diversas frentes de batalha até 1939.
Os
livros de história pouco falam da resistência esportiva ao nazismo e ao
fascismo dos anos 1930, mas lembram muito a política de não intervenção das
maiores potências europeias. Tal política foi crucial para consolidar o franquismo na
Península Ibérica. Enquanto Hitler não hesitava em apoiar Franco, mesmo tendo
assinado o Pacto de Não Intervenção de 1936, Léon Blum,
presidente do Conselho de Ministros da França, seria impedido de apoiar a Segunda
República Espanhola, tanto por pressão de alas conservadoras francesas
quanto do governo britânico, que preferiam ver a República sucumbir aos
golpistas a arriscar uma aliança dos espanhóis com os soviéticos.
A
chamada política de não intervenção europeia e neutralidade norte-americana foi
uma das principais razões, senão a principal, para que o expansionismo nazista
resultasse na Segunda Guerra Mundial, maior tragédia humanitária da história,
com cerca de 80 milhões de mortos. Se tivesse ocorrido, já em 1936, uma aliança
entre países como Reino Unido, EUA e URSS pelo boicote às Olimpíadas em solo
alemão, possivelmente teria se antecipado o inevitável confronto da humanidade
com sua
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Sportswashing: conceito e história
O que
vimos em Berlim é o que hoje chamamos de sportswashing (traduzindo:
lavagem, ou limpeza, pelo esporte), que ocorre quando um determinado regime
utiliza o esporte como forma de limpar sua imagem. No caso de Hitler, o
objetivo era blindar sua imagem diante dos absurdos cometidos tanto no período
das Olimpíadas quanto nos períodos seguintes — do apoio a Franco ao Holocausto.
Ao
longo da história, é possível constatar que, antes e depois de Hitler, a
prática de usar a visibilidade positiva dos esportes para esconder medidas e
regimes impopulares foi frequente e explorada de diversas formas. Para
Mussolini, a vitória na Copa do Mundo da Itália, em 1934, era uma demonstração
da eficácia do regime fascista. Em 1970, a vitória da seleção brasileira na
Copa do Mundo no México, associada à ferrenha censura da imprensa no país,
amenizou a insatisfação popular com a ditadura civil-militar, estratégia
repetida e ampliada pelos argentinos em 1978.
Outros
exemplos, já no período recente, devem ser mencionados. Mansour bin Zayed Al
Nahyan, acionista majoritário do Abu Dhabi United Group, dos Emirados Árabes
Unidos (EAU), comprou, em 2008, o clube inglês Manchester City por 200 milhões
de libras (hoje cerca de R$ 1,5 bilhão). De lá para cá, o City se consolidou
como uma das mais fortes equipes de futebol do planeta, vencendo diversos
torneios nacionais e internacionais. Enquanto isso, os EAU conquistaram, em 2024, o “título”
de ter realizado o segundo maior julgamento injusto da história, o que ilustra a
postura do país de criminalizar ativistas por democracia e direitos humanos.
A Qatar Sports Investments (QSI) é a pessoa
jurídica criada pelo Governo do Catar para investimentos em esportes ou,
podemos assumir, a operadora do sportswashing catari. Fundada
em 2004, comprou o clube Paris Saint-Germain por 50 milhões de euros em 2011.
Desde então, investiram cerca de R$ 2,2 bilhões
somente em contratações de jogadores, a exemplo de Messi, Mbappé e Neymar Jr., o
que eventualmente culminou na primeira conquista da Liga dos Campeões do clube,
em 2025. Nesse período, o país manteve a tutela masculina e a submissão
jurídica das mulheres aos homens, a repressão à comunidade LGBTQIAP+, além de
acumular inúmeras denúncias de violações
humanitárias contra migrantes nas obras preparatórias da Copa do Mundo de 2022.
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Donald Trump e a necessária resistência através do esporte
Da
mesma maneira que percebemos a eficácia do uso dos esportes por parte de
tiranias para esconder o que elas realmente são, as resistências a esses
regimes também são capazes de entrar em campo, a fim de anular a agenda
perversa que alia opressão a ilusão, coerção a consenso, e violência a
disfarce.
A menos
de seis meses do início da vigésima terceira Copa do Mundo de seleções de
futebol masculino, a jornalista do UOL Milly Lacombe
defendeu o boicote ao evento, justificado pela prisão de Nicolás Maduro —
à época presidente venezuelano — e pela coerência da FIFA, que baniu a Rússia
de suas competições por conta da agressão à Ucrânia.
O caso
russo de sportswashing chama a atenção por denotar a
apropriação do conceito como forma de contrapropaganda a um adversário
econômico e armamentista dos EUA. Os holofotes voltados às contradições do
regime de Vladimir Putin nos noticiários estadunidenses não foram, até o
momento, minimamente replicados sob os atos de profunda beligerância de Trump,
em menos de dezoito meses de seu segundo mandato.
Dois
momentos em 2025 reforçam a capacidade dos esportes como instrumento de soft
power, o exercício do poder geopolítico fora do uso militar. Menos de um
mês antes de invadir a Venezuela e sequestrar Maduro, Trump recebera da FIFA, o
“Prêmio da Paz da FIFA”, entregue pessoalmente pelo presidente da entidade,
Gianni Infantino.
No dia
9 de janeiro, após o ocorrido na Venezuela, Trump declarou que os EUA precisavam
“fazer alguma coisa na Groenlândia, quer eles gostem ou não”], confirmando
comunicados da assessoria da Casa Branca que apontavam para um plano de
anexação do território, atualmente pertencente à Dinamarca. Justificando que
sua ação evitaria que o local fosse tomado por chineses ou russos, o presidente
estadunidense fez uma ameaça inédita a um país associado à Organização do
Tratado do Atlântico Norte (OTAN).
Alguns
analistas podem apontar uma mera coincidência entre a legitimação da maior
entidade esportiva do mundo — que organiza um torneio com 5 bilhões de
telespectadores,
números drasticamente superiores aos do Super Bowl — e a escalada violenta do
governo estadunidense. Contudo, mesmo sendo belicamente inferiores aos EUA, os
europeus foram capazes de obrigar Trump a mudar seu discurso sobre a
Groenlândia no dia 21 de janeiro, no Fórum Econômico Mundial, assumindo que não
iria usar a força no território e sinalizando um possível acordo pacífico
bilateral – obviamente, rejeitado pelos europeus.
A
inferioridade bélica europeia pouco importou diante da poderosa ameaça de
boicote de seleções como França, Inglaterra e Alemanha à Copa do Mundo nos EUA.
Mesmo políticos conservadores do Velho Continente foram resolutos no
enfrentamento à ameaça de invasão à Groenlândia. Simon Hoare, parlamentar do
Reino Unido, ao ser indagado sobre os riscos de um boicote de sua seleção
nacional, cravou: “agora precisamos combater fogo com fogo”.
Após o
vergonhoso recuo na questão europeia, a Casa Branca mudou seu foco para um país
menos relevante no futebol mundial: o Irã. Classificado para o torneio, o país islâmico anunciou em 11 de março
sua desistência da competição. A atitude sequer foi um boicote, mas
apenas uma forma de preservar a segurança e a integridade física de seus
atletas, visto que o país vem sendo duramente atacado militarmente por EUA e
Israel desde o dia 28 de fevereiro. A resposta da FIFA não foi acolher o
país agredido e sancionar os EUA, o país agressor, mas sim ameaçar punir a
seleção iraniana por não participar do evento.
A
campanha até o momento desastrosa da aliança israelito-americana contra o país
islâmico torna a limpeza de imagem da Copa ainda mais
relevante para o Tio Sam. Com o menor índice de popularidade desde que retornou
a Washington como presidente, o republicano de extrema-direita caiu de 47% para
25% de aprovação em menos de dois anos. Ao final de 2026, estão previstas as
eleições de midterm, focadas na renovação do parlamento, e Trump
precisa muito que a competição mundial de seleções seja perfeita. Mesmo assim,
ainda que Infantino invente um novo Prêmio da Paz para ele,
dificilmente o presidente se recuperará da vergonha na antiga Pérsia.
Apenas quatro dias foi o intervalo
entre o primeiro míssil lançado pelos russos na Ucrânia, no dia 24 de fevereiro
de 2022, e a decisão da FIFA e da UEFA de banir a seleção russa e seus clubes
de competições europeias e mundiais. A ferocidade dos jornais
norte-americanos e europeus à época é destacável como exemplo singular na
discussão sobre sportswashing. Pela cobertura jornalística ianque,
a Copa do Mundo na Rússia em 2018 foi exemplo de limpeza de imagem pelo esporte
— conforme apontou Musa Okwonga no artigo This World Cup, Remember the
Russian People para o New York Times, em que localiza o
evento como uma vitória de relações públicas para Putin, enquanto este
silenciava opositores e minorias. Ao menos nesse caso, toda a pressão possível
do mundo do esporte foi feita para forçar os russos a abandonarem sua ofensiva
militar.
No
exemplo de Trump, embora já seja possível mapear vozes dissonantes denunciando
o uso da Copa do Mundo para esconder as mazelas de seu governo, não há qualquer
perspectiva de boicote ao torneio por seleções protagonistas, justificada pelo
covarde bombardeio ao Irã. Pelo contrário: uma semana depois de iniciada a
ofensiva ilegal trumpista, o capitão da última campeã da Copa do Mundo, o argentino Lionel Messi, juntou-se a
outros atletas para entregar a Trump uma bola comemorativa e uma camisa do
Inter Miami, atual campeão da Major League Soccer.
Ainda
que a atitude aparentemente bajuladora de Messi e suas companhias em relação ao
presidente tenha sido defendida por muitos pelo seu caráter protocolar — visto
tratar-se de uma tradição da liga de futebol do país —, o discurso de Trump não
deu brechas para que o evento fosse tratado como tal. Na frente de diversos ídolos latinos,
ele defendeu a ofensiva contra os iranianos e sugeriu uma invasão a Cuba.
O
silêncio dos campeões da MLS foi o cenário perfeito para legitimar e normalizar
o que está por vir para o continente americano. Além da possível invasão
militar a Cuba — que enfrenta o pior bloqueio econômico desde a revolução de
1959 —, a Casa Branca declarou que facções criminosas brasileiras, como o PCC
(Primeiro Comando da Capital) e o CV (Comando Vermelho), são organizações
terroristas[16]. Isso,
associado a um acordo de cooperação firmado em
agosto de 2025 entre EUA e Paraguai para combater o terrorismo e o crime
organizado na região (o que inclui a construção de uma base militar em solo
paraguaio), são sintomas de um novo estágio do Big Stick. Trata-se
do imperialismo clássico de Theodore Roosevelt, do início do século XX, e que
se apresentou em diversas versões de lá para cá: desde os golpes militares
durante a Guerra Fria até a política de tarifaço de Trump no ano passado,
adotada como retaliação à condenação de Jair Bolsonaro.
Estamos
em ano eleitoral no Brasil — com as pesquisas apontando, no momento em que
publicamos este artigo, um empate técnico entre Lula e Flávio Bolsonaro —, e o
centro da propaganda eleitoral no país passa hoje pelas redes sociais.
Considerando que quase todas as plataformas são controladas por aliados do
presidente estadunidense, o cenário é crítico. A megalomania de Trump pode
culminar em uma intervenção direta na soberania nacional brasileira, seja
militarmente pelo Paraguai ou interferindo nos algoritmos de Facebook,
Instagram, e outras redes. Se isso acontecer, deveremos agradecer a
Gianni Infantino e a Lionel Messi por bajularem o tirano, tal qual
conservadores franceses, ingleses e norte-americanos fizeram com Hitler,
estendendo-lhe um tapete vermelho, nas Olimpíadas de Berlim, em 1936.
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Como a ditadura nazista usava o esporte para seus
objetivos
Regime
comandado por Hitler via exercícios físicos como forma de aumentar a
produtividade e o espírito de luta. Valores olímpicos eram estranhos à sua
ideologia, mas governo usou Jogos de Berlim em 1936 como propaganda. Os
nazistas em geral usavam outro termo para se referir ao esporte:
"educação física". O objetivo principal era promover a saúde e a
eficiência – para uma economia produtiva e estar apto para a guerra. Os
esportes individuais ficavam em segundo plano. Tratava-se do coletivo, da
massa, do chamado volkskörper ("corpo nacional"),
para o qual cada alemão, como indivíduo, deveria contribuir da melhor maneira
possível. Fiel à ideologia nazista, o que sempre importava era a força e a
capacidade de se defender.
"Os
fracos devem ser massacrados", diz uma citação atribuída a Adolf Hitler. "Nos meus campos de treinamento,
crescerá uma juventude que assustará o mundo. Quero uma juventude violenta,
dominadora, destemida e cruel. (...) Eu os treinarei em todos os exercícios
físicos." Esses exercícios físicos eram obrigatórios em muitas
organizações coletivas nazistas, como a Juventude Alemã (DJ) e a Juventude
Hitlerista (HJ), entre outras. Também era recomendado se tornar membro de um
clube esportivo.
Na
Juventude Hitlerista, mas também no esporte escolar, os exercícios físicos
serviam, especialmente entre os garotos, para formar um comportamento militar e
de soldado e selecionar os jovens que mais tarde poderiam ser considerados para
posições de liderança na Wehrmacht, as Forças Armadas da Alemanha nazista. Mas
os nazistas tinham uma visão crítica de competições esportivas internacionais,
especialmente em sua fase inicial. "Isso representava a
internacionalidade, o movimento olímpico, a união, a compreensão
internacional", diz o historiador Ansgar Molzberger, da Universidade Alemã
de Esportes de Colônia, à DW. "Isso foi rejeitado por motivos
ideológicos".
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Por que os nazistas ainda sediaram os Jogos Olímpicos em 1936?
Os Jogos Olímpicos foram
concedidos a Berlim pelo Comitê Olímpico Internacional (COI) em 1931, ainda
durante a República de Weimar. Os nazistas na
época eram claros oponentes do movimento olímpico, o que eles admitiam
abertamente. A ideia cosmopolita dos Jogos Olímpicos era incompatível com sua
visão de mundo. Competições atléticas com membros das "nações
inimigas" da Primeira Guerra Mundial iam contra seu
senso de honra. E eles rejeitavam, por racismo, os regulamentos do
COI segundo os quais judeus e negros eram iguais a outras raças.
No
entanto, os que estavam no poder rapidamente reconheceram – especialmente
Hitler – a oportunidade que os Jogos ofereciam para se apresentarem ao mundo
como um Estado jovem, aberto e amante da paz. "Eles fizeram uma
reviravolta de tirar o fôlego", diz o historiador Molzberger. "Assim
como rejeitaram estritamente até o final da era de Weimar o movimento olímpico,
com seus ideais de entendimento entre os povos e internacionalidade, eles agora
se apresentavam como os grandes apoiadores do movimento olímpico." Além
disso, eles queriam usar os Jogos para demonstrar seus pontos fortes, boa
organização e sucesso esportivo.
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Havia algum esporte particularmente promovido pelos nazistas?
"Um
esporte que pode ser explicitamente destacado no contexto escolar foi o boxe,
que os nazistas tornaram obrigatório para meninos mais velhos", diz
Molzberger. "Todos tinham que aprender boxe nos esportes escolares." Esportes
coletivos, como futebol e handebol, continuaram existindo, mas a ênfase sempre
foi no aspecto combativo. "O que importava era a capacidade de se
defender, de ousar fazer algo em conjunto", disse Molzberger. "Isso
devia ser enfatizado repetidamente também por meio de esportes coletivos."
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Como era o esporte para mulheres e meninas?
As
atividades esportivas para mulheres também eram fortemente influenciadas pela
ideologia. As mulheres eram limitadas principalmente ao papel de mães e donas
de casa. Para cumprir bem essas funções, elas também deviam treinar seus
corpos, melhorar sua saúde e condicionamento físico e fortalecer sua
disciplina. A Liga das Meninas Alemãs (BDM), organizada para meninas de 10 a 18
anos, também oferecia exercícios físicos que tinham como objetivo treinar as
meninas não apenas fisicamente, mas também ideologicamente, e prepará-las para
seu futuro papel na sociedade.
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Judeus podiam praticar esportes?
Pouco
depois da tomada do poder pelos nazistas, foi aprovada uma lei em 7 de abril de
1933 segundo a qual os funcionários públicos deveriam ser de
ascendência ariana; caso contrário, não poderiam mais trabalhar no serviço
público. O chamado "parágrafo ariano" foi gradualmente expandido para
excluir os judeus da vida profissional e social, afetando médicos, estudantes,
os serviços de rádio, a imprensa, os teatros e outras instituições e
associações culturais. O parágrafo também se aplicava a clubes esportivos, mas
a liderança do Reich inicialmente não exigiu consistentemente sua implementação
tendo em vista os Jogos Olímpico de 1936 – eles não
queriam manchetes negativas e dar razões para um possível cancelamento dos
Jogos ou boicotes. Mas houve críticas e pedidos de boicote mesmo assim,
que se intensificaram após as Leis Raciais de Nurembergue serem
aprovadas em 1935, que mais tarde formaram a base legal para a perseguição e o extermínio dos judeus.
No
entanto, muitos clubes e associações esportivas nos quais a liderança era
particularmente fiel ao regime nazista implementaram o parágrafo ariano
desde o início, por conta própria e em obediência antecipada. Por exemplo, a
Associação Alemã de Ginástica, na época a maior associação esportiva alemã, com
1,5 milhão de membros, excluiu os judeus apenas um dia após a aprovação
da lei. Outras associações, como de natação, remo e esqui, seguiram o
exemplo. A Federação Alemã de Futebol (DFB) reagiu de forma menos radical e
permitiu que os judeus continuassem jogando. No entanto, eles não tinham mais
permissão para ocupar cargos de liderança em clubes de futebol. Um exemplo
proeminente é Kurt Landauer, que foi presidente do Bayern de Munique por muitos anos
durante o período de Weimar e teve que deixar seu cargo em 1933. Como resultado
das exclusões, os clubes esportivos judaicos cresceram muito entre 1933 e 1936,
com novos associados. Entretanto, quando os Jogos Olímpicos de 1936 terminaram,
a situação dos judeus na Alemanha piorou. "Depois dos Jogos, já era
possível tirar a máscara", diz o historiador Ansgar Molzberger. "Com
o início da perseguição aos judeus propriamente dita a partir de 1938, o
esporte judaico também foi consistentemente destruído."
Fonte:
Por Vinicius Almeida Ribeiro de Miranda, no Le Monde/DW Brasil

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