Famílias
entre juros abusivos e endividamento
Uma das
principais causas das dificuldades enfrentadas pelo governo Lula para reduzir
seus índices de desaprovação reside no elevado índice de endividamento das
famílias e pelos também altos indicadores de inadimplência. De acordo com a
pesquisa mais recente organizada pela Confederação Nacional do Comércio
(PEIC/CNC), em março de 2026 havia 80,4% das famílias com dívidas, ao passo que
29,6% delas estavam com o endividamento em atraso.
O
quadro destas variáveis demonstra de forma evidente o próprio estado das
desigualdades sociais e econômicas de nosso país. O percentual de famílias
endividadas aumenta à medida em que se reduz o nível de renda dos grupos
familiares. Assim, por exemplo, o percentual para famílias de rendimentos entre
0 e 3 salários-mínimos (sm) mensais atinge 83%, ao passo que para aqueles
grupos familiares com renda mensal superior a 10 sm o percentual cai para 70%.
<><>
Endividamento, inadimplência e condições de pagamento
Quando
a variável questionada é o nível de inadimplência, a diferença fica ainda
maior. Para as famílias de 0 a 3 sm, o índice de atraso no pagamento das
dívidas é 38%, ao passo que se vê reduzido para 15% no caso do segmento de
renda mais alta. Para a pergunta relativa à impossibilidade de honrar as
dívidas, o grupo da base da pirâmide aponta para 18% do total de famílias, ao
passo que os grupos de mais de 10 sm registram apenas 4,5%.
<><>
Endividamento e inadimplência: níveis recordes
Esta
realidade promove um comprometimento significativo da renda dos indivíduos e
das famílias com o cumprimento de obrigações de natureza financeira. Assim,
percebe-se uma redução do impacto de anúncios promovidos pelo governo, a
exemplo do crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) ou da redução dos índices
de desemprego. O fato concreto é que, apesar de tais indicadores
macroeconômicos, na realidade de seu cotidiano, as pessoas não sentem
plenamente os efeitos de tais avanços. Os elevados níveis de endividamento,
combinados com a existência de taxas de juros estratosféricas, dificultam a
conversão de tais melhorias nos indicadores gerais em sensações mais positivas
no bem-estar e na qualidade de vida dos indivíduos.
O
governo parece ter se dado conta desse fenômeno, ainda que de forma bastante
tardia. Com as pesquisas de opinião e as sondagens eleitorais apontando para o
crescimento das dificuldades para Lula em outubro próximo, algumas propostas
começam a ser ventiladas e anunciadas. A mais recente diz respeito a uma fala
do novo Ministro da Fazenda, Dario Durigan. Em meio a uma entrevista recheada
de pérolas neoliberais e de compromisso explícito com políticas do
austericídio, o ex dirigente da big tech Meta no Brasil, ventilou a hipótese de
o governo liberar o uso de recursos do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço
(FGTS) para o cumprimento das obrigações em atraso.
<><>
FGTS não se destina a isso
Ora,
trata-se de uma medida bastante inadequada para os fins a que se propõe. O FGTS
é um fundo constituído por recursos dos próprios trabalhadores e tem por
objetivo o atendimento de necessidades outras, de médio e de longo prazo. A sua
criação, logo depois do golpe militar de 1964, veio na tentativa de promover a
compensação da eliminação da estabilidade no emprego – uma importante conquista
dos trabalhadores existente até então. Assim, a ideia era que os recursos
pudessem ser acessíveis aos assalariados nos momentos em que fossem demitidos
de seus empregos. A Caixa Econômica Federal (CEF) é a instituição financeira
responsável pela gestão dos recursos do fundo. De acordo com as definições
legais, percebe-se que:
(…)
“Missão do FGTS: Constituir e preservar a reserva financeira do trabalhador e
fomentar investimentos nas áreas de habitação, saneamento e infraestrutura para
a melhoria da qualidade de vida da população brasileira.” (…)
Além
desta incongruência de natureza essencial, outro aspecto a ser levantado
refere-se ao fato de que a eventual liberação de recursos do FGTS atenderia às
necessidades apenas de uma parcela bastante reduzida das famílias endividadas.
Afinal, só têm direto ao fundo os trabalhadores assalariados com carteira
assinada e com contrato empregatício sob as regras da CLT. Isto significa que
estão fora desse universo os servidores públicos (municipais, estaduais e
federais), os informais e precários, os microempresários, os aposentados e
pensionistas de toda ordem e os desempregados. Ainda que os levantamentos
disponíveis não ofereçam informações sobre a percentagem de assalariados no
total de endividados e inadimplentes, com certeza eles não devem ser a parcela majoritária.
Na
verdade, o governo deveria adotar para esse universo de famílias de baixa renda
procedimento similar ao que faz todos os anos com os devedores da União.
Trata-se dos conhecidos programas de refinanciamento das dívidas tributárias do
grande capital, ainda que também sejam contempladas as médias e as pequenas
empresas. São os REFIS lançados pela Receita Federal do Brasil (RFB) e pela
Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional. (PGFN). Estes programas terminam por
estimular a sonegação e a evasão fiscais por parte das grandes empresas, uma
vez que se tornaram rotinas anuais que beneficiam especialmente aquelas que não
cumprem com suas obrigações tributárias de forma legal e correta.
<><>
REFIS para grande capital. E para os mais pobres?
Os
programas preveem cancelamento das multas por atraso no pagamento e uma redução
significativa até mesmo nos valores do principal das obrigações dos grandes
devedores. Além disso, após o cálculo do valor devido, os órgãos do governo
federal oferecem parcelamento em até 15 anos (180 mensalidades) sem juros.
Assim, são montantes bilionários que deixam de ser arrecadados anualmente pelo
Tesouro Nacional em benefício dos maus pagadores. Ora, se a intenção é promover
algum grau de isonomia junto aos diferentes setores da sociedade, seria de se
esperar que um governo dirigido pelo Partido dos Trabalhadores oferecesse
programas de políticas públicas dirigidos aos grupos mais vulneráveis incluindo
benefícios semelhantes àqueles concedidos ao grande capital.
Por
outro lado, é importante alertar para mudanças mais recentes verificadas nos
próprios processos de endividamento das famílias. Além do impacto provocado por
obrigações como contas de água, luz e telefone, outras como carnês de
financiamento de consumo de bens e boletos diversos junto ao sistema
financeiro, passaram a ganhar relevo nas estruturas das despesas mensais de
indivíduos e famílias os valores gastos em apostas esportivas (as chamadas
“bets”). Alguns estudos chegam a afirmar que esse grupo assume a condição de
maior responsável pelos índices de endividamento e inadimplência. Ao não
estabelecer limites e mecanismos de regulamentação efetiva sobre esse novo
setor da economia, o governo deixa de contar com outro importante instrumento
para reduzir os fatores que mais contribuem para o endividamento.
Finalmente,
é fundamental que a política monetária sofra uma expressiva mudança de rota,
por meio da redução da taxa referencial de juros. Além da redução da SELIC
seria necessário também que o Ministério da Fazenda orientasse os bancos
estatais sob sua jurisdição a reduzirem os “spreads” praticados nas operações
de crédito junto a empresa e indivíduos. Não faz sentido que Banco do Brasil,
Caixa Econômica Federal, Banco do Nordeste e Banco da Amazônia pautem seu
comportamento no segmento bancário mimetizando a estratégia do oligopólio da
banca privada.
Faltam
pouco mais de 6 meses para as eleições. É fundamental que Lula oriente sua
equipe para a adoção de medidas concretas e urgentes para reduzir sua
desaprovação nas pesquisas de opinião. E isso passa por anunciar propostas
concretas para amenizar o impacto do endividamento e da inadimplência no
cotidiano das famílias. Não basta apenas ajudar o grande capital. É fundamental
que o governo coloque recursos à disposição de amplos setores da base da nossa
pirâmide da desigualdade para esse fim.
Fonte:
Por Paulo Kliass, em Outras Palavras

Nenhum comentário:
Postar um comentário