Por
que a luz do celular não está prejudicando seu sono
Passei
as últimas semanas usando um par de óculos especiais de segurança, de cor
laranja, três horas antes de dormir.
Feitos
de plástico grosso e desconfortável, eles mostram o mundo com um brilho âmbar
sem graça, dificultando observar tudo o que seja azul.
Mas não
parei por aí. Cobri as janelas com cortinas blackout e desliguei todas as
minhas lâmpadas, uma por uma. No seu lugar, iluminei meu apartamento apenas com
velas.
Minha
rotina de sono foi alterada, mas foi para um experimento. Descobri o que
acontece quando você elimina a luz azul.
O mundo
entrou em pânico nos últimos 10 anos em relação a esse demônio fotocromático. E
o terror só aumenta.
Ficamos
sabendo que nossos celulares, TVs, computadores, tablets e luzes de LED nos
expõem a uma quantidade prejudicial de luz azul — uma faixa de alta energia do
espectro visível de luz. Isso supostamente prejudica o nosso sono,
desestabilizando os ritmos naturais de luz do dia que influenciam o nosso
relógio biológico.
A
ciência confirma algumas dessas afirmações, mas estudos e análises recentes
indicam que tudo é um pouco mais complicado.
Na
verdade, existem boas chances de que tenhamos incorrido em sérios erros
conceituais sobre este tema. E especialistas agora dizem ser improvável que a
luz do seu celular esteja prejudicando o seu sono.
As
pesquisas se contradizem. Aquelas funções projetadas para reduzir a luz azul do
celular à noite, por exemplo, provavelmente nos ajudam muito pouco a dormir
melhor.
Mas a
iluminação da vida moderna realmente pode ter enormes efeitos sobre a qualidade
do sono. Quais medidas podem fazer a diferença?
Eu
queria saber a verdade. Por isso, chamei os especialistas e mergulhei na
ciência.
E, para
ver se eu conseguiria perceber a diferença, tomei todas as providências
necessárias para mergulhar em noites sem qualquer traço de luz azul. E me
concentrei em conselhos práticos que todos nós podemos seguir, sem óculos com
cores esquisitas.
Este
pode ser o segredo para uma boa noite de sono.
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A tela do mal?
O
pânico do público com a luz azul começou com um estudo de 2014. Nele, metade
dos 12 participantes leram em um iPad antes de dormir, enquanto os demais leram
livros físicos.
Os
usuários do iPad demoraram mais tempo para adormecer, sentiram mais sono no dia
seguinte e produziram menos melatonina.
Os
pesquisadores afirmaram que a culpa era do brilho emitido pela tela de LED do
iPad, que produz quantidade desproporcional de luz mais azul, no extremo
superior do espectro.
Sob
circunstâncias específicas, a luz enriquecida com azul prejudica o nosso ritmo
circadiano (o marca-passo natural do corpo), que usa a luz do dia para ajudar a
determinar quando começamos a nos sentir cansados. E pesquisas subsequentes
aparentemente confirmaram as descobertas.
Parece
simples, certo? Mas não é.
"Foi
um trabalho incrivelmente enganoso", conta o professor de Psiquiatria e
Ciências Comportamentais Jamie Zeitzer, da Universidade de Stanford, nos
Estados Unidos. Ele estuda os efeitos da luz sobre o sistema circadiano.
Zeitzer
afirma que a ciência não era ruim, o problema é que ela levou as pessoas a
tirar más conclusões.
É
verdade que as nossas telas são mais azuis.
As
telas e lâmpadas modernas usam LEDs, que não conseguem produzir luz branca
pura. Por isso, elas usam LEDs azuis e cobrem parte deles com uma substância
chamada fósforo amarelo. O azul e o amarelo se misturam e enganam o seu
cérebro, que enxerga o branco. Mas o azul a mais é sempre emitido.
A luz
azul realmente pode influenciar o nosso sono. Zeitzer explica que isso ocorre
principalmente porque temos nos olhos uma proteína sensível à luz chamada
melanopsina, que participa do sistema do sono.
"A
melanopsina é uma proteína sensível ao azul, o que basicamente significa que
ela é mais sensível à luz azul", segundo ele.
A
melanopsina também reage à luz de outras cores, embora o efeito do azul seja um
pouco mais forte.
"Mas
a quantidade de luz emitida pelas nossas telas, na verdade, é
inexpressiva", prossegue o professor.
O caso
é que as condições adotadas por muitos estudos realizados com a luz azul não
refletem a nossa vida real.
"Nós
trazemos alguém para o laboratório, que é exposto a uma luz muito fraca o dia
todo. Depois, eles recebem uma luz brilhante e estimulante", descreve ele.
Nestas
circunstâncias, a luz azul deixa as pessoas exaltadas, mas isso não reflete a
experiência comum da vida humana.
Depois
de anos de alertas e com milhões de pessoas acionando os filtros de luz azul
embutidos nos seus celulares, a ciência mais recente indica que as telas não
são as principais responsáveis por esse efeito.
Uma
análise recente de 11 estudos concluiu, por exemplo, que a luz das telas atrasa
o sono em, no máximo, cerca de nove minutos. Não é zero, mas também não altera
a nossa vida.
Também
se demonstrou que a quantidade de luz azul emitida pelas telas dos celulares,
laptops e tablets é minúscula, em comparação com a luz azul que recebemos do
Sol.
Um
estudo demonstrou que 24 horas de luz azul dos aparelhos digitais representam
menos de um minuto passado em ambiente aberto. E outras pesquisas concluíram
que ela não é suficiente para alterar os níveis dos hormônios que controlam o
nosso sono.
Então,
por que me sinto tão cansado o tempo todo?
Zeitzer
e outros pesquisadores afirmam que a luz, seja ela azul ou de outras cores,
pode prejudicar o sono de muitas outras formas. E, se eu realmente quisesse
vencer o monstro azul, precisaria fazer uma séria mudança de estilo de vida.
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Saindo do azul
No
primeiro dia do experimento, saí para jantar quando o Sol se pôs. E, perto das
20h30, eu disse que precisava ir para casa. Chegava a hora de me esconder da
luz.
Seguindo
os conselhos dos especialistas em sono, minha preparação extrema para a hora de
dormir começou muito antes que eu fosse para debaixo das cobertas.
Minha
rotina incluía um absurdo par de óculos. Se você usa óculos normais,
provavelmente irá receber revestimentos transparentes especiais, que prometem
filtrar a luz azul. Estudos indicam que eles não fazem muito efeito.
Os
óculos bloqueadores da luz azul não são bonitos. Os de boa qualidade têm
grossas lentes laranja, vermelhas ou âmbar. Elas cobrem toda a visão, para que
a luz não possa entrar pelos lados.
"Você
não deve conseguir ver muito azul", explica Håvard Kallestad, diretor do
grupo de pesquisa do sono e cronobiologia da Universidade de Ciência e
Tecnologia da Noruega.
Meus
óculos especiais de luz azul foram produzidos para pessoas que trabalham com
lasers e precisam proteger os olhos. Eu os coloquei e olhei pela janela.
Uma
loja na minha rua tem um letreiro de neon azul. Com meus óculos, a luz do
letreiro se desvanece. Bingo!
Eu me
sentei no sofá e comecei a pensar nos sacrifícios que faço em prol do
jornalismo.
Pego o
celular e rolo a tela pelo Instagram. Parecia... laranja.
A
questão era observar como a luz afeta o meu sono. Por isso, não mudei meus
hábitos ao celular, TV ou computador.
"Acho
que você precisa transformar seu apartamento em uma caverna", orienta
Kallestad. "Simplesmente bloqueie a entrada da luz e use velas."
As
luzes de LED modernas produzem uma tonelada de luz azul. As antigas lâmpadas
incandescentes produziam muito menos, e as velas são quase livres de azul.
Nunca é
totalmente escuro onde moro, em Nova York, nos Estados Unidos. Por isso, cobri
minhas janelas com cortinas blackout. Apenas meu celular e duas velas com sua
chamas trêmulas me separavam da escuridão total.
Eu
ainda não estava com sono. Seriam duas longas semanas pela frente.
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Durante o dia
Os
especialistas concordam que o que realmente importa é a dose de luz que você
recebe ao longo do dia.
Para o
sono ideal, você precisa de muita luz de manhã e muito menos à noite. A luz
azul conta mais, mas a exposição total é o que realmente faz a diferença.
Por
isso, a solução começa no momento em que você acorda.
Toda
manhã, durante meu experimento, eu me sentei em frente a uma lâmpada que parece
vir do cenário de um filme de ficção científica dos anos 1980. Ela lançava a
luz diretamente sobre o meu rosto, enquanto eu tomava café.
A
lâmpada é pequena. Por isso, Kallestad me orienta a sentar o mais perto dela
possível.
A
lâmpada é projetada para tratar depressão sazonal e a temperatura clínica da
luz é especialmente azul. Demonstrou-se que ela nos deixa mais despertos no
início do dia.
Mas ela
também preparava meus olhos para evitar o azul à noite.
"Quanto
mais luz você conseguir durante o dia, menos impacto terá a luz noturna",
explica Zeitzer.
O mundo
pré-pandemia expunha as pessoas a muito mais luz do que elas imaginavam. Havia
o Sol durante a jornada para o trabalho, as lâmpadas fluorescentes penetrantes
do escritório e a caminhada para almoçar.
Agora,
muitos de nós saímos da cama e nos sentamos para trabalhar nas mesmas condições
de iluminação até irmos dormir. E o nosso corpo não consegue diferenciar o dia
da noite.
Sair de
casa corrige isso mais rápido do que qualquer lâmpada.
Mesmo
em um dia cinzento, Zeitzer afirma que, provavelmente, conseguiremos cerca de
10 mil lux (a unidade que mede a intensidade da luz). E um dia de sol pode
atingir 100 mil lux.
Em
termos de comparação, nossa sala de estar provavelmente tem cerca de 100 lux. E
o telefone celular atinge apenas 50 a 80 lux, segundo Zeitzer, e ainda menos
quando reduzimos o seu brilho.
"Saia
de casa, se puder, e use a lâmpada se precisar", orienta Kallestad.
Mesmo
uma caminhada de 30 minutos pela manhã faz uma grande diferença.
E, se
você puder sair novamente depois das 15 horas, Zeitzer afirma que os efeitos
serão surpreendentes, firmando ainda mais o seu relógio corporal e reduzindo
diretamente sua sensibilidade à luz noturna.
Se você
trabalha em casa, outra dica parece um tanto contraintuitiva. Ligue suas luzes
fortes durante o dia e comece a desligá-las à noite.
"A
verdadeira solução para a exposição à luz é o contraste", segundo Zeitzer.
Por
isso, ficar grudado nas telas e preso dentro de casa o dia todo, afastado do
brilho da luz solar natural que promove o sono, é prejudicial.
Mas a
luz azul que vem das telas contribui pouco com o nosso estilo de vida como um
todo. O problema real, segundo Zeitzer, é como passamos nosso tempo no celular
e laptop antes de irmos para a cama.
"É
muito mais o conteúdo, não a luz, que mantém as pessoas acordadas com esses
aparelhos", explica o professor.
E
também pode depender, antes de tudo, da sua sensibilidade à luz, que varia de
uma pessoa para outra.
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Azulando
Uso um
rastreador do sono para monitorar meu repouso. Ele não tem qualidade suficiente
para ciência de verdade, mas fornece uma indicação aproximada.
A
qualidade do meu sono aparentemente não mudou muito durante o experimento. Mas
observei algumas diferenças.
Mais
para o final da segunda semana, eu me senti mais motivado para ir para a cama
no horário certo e aparentemente adormeci com mais facilidade.
A
quantidade de tempo que passei dormindo não se alterou significativamente até o
final do experimento, mas o horário em que adormeci e me levantei de manhã
passou a ser um pouco mais consistente.
Será
que isso se deveu ao bloqueio da luz azul? É difícil dizer, mas pareceu uma
grande vitória.
O que
posso dizer é que comecei a aguardar ansiosamente minhas noites à luz de velas.
E é possível que isso, por si só, tenha feito diferença.
Quando
algo "faz parte do processo antes de ir para a cama, pode servir de
indicação psicológica muito forte, ajudando seu corpo a relembrar o que você
deve fazer em seguida", explica Zeitzer.
O mesmo
vale para as funções de atenuação automática, que limitam parte da luz azul do
celular.
"Na
verdade, aquilo não funciona muito bem, mas o que pode acontecer, quando temos
um desses filtros ou se usarmos óculos bloqueadores do azul à noite, é que isso
sirva como uma espécie de indicação de condicionamento pavloviana para algumas
pessoas."
"Quando
a cor da tela muda ou você coloca os óculos, o seu cérebro começa a entender
que está na hora de se aprontar para dormir", explica o professor.
Se você
vier dormir aqui em casa, não me verá com os óculos bloqueadores da luz azul.
Abandoná-los foi um enorme alívio, mas talvez eu mantenha as velas acesas.
Thomas
Germain é jornalista sênior de tecnologia da BBC. Ele escreve (em inglês) a
coluna Keeping Tabs e é um dos apresentadores do podcast The Interface. Seu
trabalho revela os sistemas ocultos que conduzem sua vida digital e como você
pode viver melhor dentro deles.
Fonte:
BBC Future

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