quinta-feira, 16 de abril de 2026

Ximena Goldman: Com a derrota no Irã, Trump está mais fraco do que nunca

Apenas um dia depois de o presidente Trump anunciar o cessar-fogo com o Irã, começaram a aparecer as fissuras no frágil acordo. Por enquanto, ninguém pode garantir qual rumo a guerra tomará, mas mais de um mês após seu início, ela já causou danos graves tanto ao governo de Trump quanto à legitimidade dos Estados Unidos no cenário internacional, expondo as vulnerabilidades de um império em declínio. Trump agora precisa enfrentar as consequências políticas de ter iniciado uma das guerras mais impopulares da história dos Estados Unidos, a pouco mais de meio ano das eleições de meio de mandato, nas quais seu partido pode sofrer derrotas significativas. As repercussões da guerra também contribuem para o crescente descontentamento popular. Desde a revolta contra o ICE em Minneapolis até as manifestações massivas do No Kings, com forte sentimento antibelicista, a oposição a Trump e à ultradireita continua crescendo.

Seja qual for o rumo que a guerra tome, é justo dizer que Trump foi derrotado politicamente no Irã. Essa derrota evidencia o fracasso de sua estratégia de “paz por meio da força” e “América em primeiro lugar” como forma de conter o declínio da hegemonia do imperialismo estadunidense. A guerra no Irã foi uma demonstração tremenda de “força” sem estratégia, resultando em uma das humilhações mais significativas do imperialismo dos Estados Unidos na história recente. Robert Pape expressou a magnitude desse fracasso com suas próprias palavras. Nos últimos quarenta dias, Washington intensificou gradualmente sua pressão, ampliando alvos, aumentando o ritmo e elevando as ameaças. Em cada etapa, esperava-se que o aumento da força gerasse obediência. Não foi o que aconteceu. Em vez disso, cada escalada gerou contrapressão: sobre os mercados de energia, sobre os aliados e, em última instância, sobre a própria tomada de decisões dos Estados Unidos. Esse é o padrão do fracasso estratégico. Não se trata de um único erro, mas de uma sequência na qual mais força produz menos controle.

Além disso, o fracasso dos Estados Unidos em derrotar o Irã levanta sérias dúvidas sobre sua capacidade de desafiar e conter a China, que, naturalmente, possui um exército muito superior ao do Irã. De fato, a China parece ter desempenhado um papel fundamental ao pressionar o Irã em direção a um cessar-fogo desfavorável para os Estados Unidos, e provavelmente se beneficiará com maior influência dentro e sobre os Estados da região. Por enquanto, não está claro qual agenda a burguesia imperialista dos Estados Unidos seguirá no cenário mundial após a era Trump. No entanto, com a guerra israelense contra o Líbano ainda em andamento e novas contradições surgindo diariamente, a situação permanece muito aberta. O cessar-fogo ainda precisa ser negociado e há muito em jogo, mas, qualquer que seja o resultado, é evidente que as consequências da guerra recente terão repercussões de longo prazo difíceis de prever.

<><> A ascensão de JD Vance e da ala isolacionista da coalizão de Trump

Como é amplamente conhecido, a guerra no Irã abalou novamente o movimento MAGA. Marjorie Taylor Greene e Alex Jones, entre outros, classificaram o presidente como incompetente e exigiram sua destituição com base na 25ª Emenda. Enquanto isso, figuras influentes do MAGA como Tucker Carlson, Candace Owens e Joe Rogan vêm difundindo entre dezenas de milhões de seguidores a ideia de que Trump trabalha para Israel e trai os interesses dos Estados Unidos. Embora essas divisões dentro da base do MAGA sejam importantes, ainda não afetaram os níveis mais altos da liderança da extrema direita no poder. Até o momento, as diferentes facções dentro do governo, incluindo a ala mais isolacionista de Vance, não se distanciaram de Trump, mas as fissuras começam a aparecer. A incapacidade de Trump de atingir qualquer um de seus objetivos na guerra expôs a fragilidade da lógica expansionista de um setor do trumpismo e colocou Vance e a ala isolacionista da coalizão trumpista em uma posição mais favorável. Não é coincidência, por exemplo, que seja Vance — e não Hegseth ou Rubio — quem lidera as negociações com Teerã no Paquistão neste fim de semana. No entanto, o fortalecimento da ala isolacionista da coalizão de Trump não garante uma mudança na política externa. Ainda é muito possível que, em uma tentativa de reafirmar o poder dos Estados Unidos, Trump opte por ações ainda mais agressivas na América Latina, como parte de sua “Doutrina Donroe”. Apesar da postura atual do exército dos Estados Unidos em relação ao Oriente Médio, a América Latina continua sendo um alvo prioritário para o secretário de Estado Marco Rubio e outros setores mais belicistas da administração Trump. Cuba permanece sob ameaça, e o exército dos Estados Unidos vem desenvolvendo infraestrutura e acumulando tropas e recursos no Equador e no Panamá.

No que diz respeito a Israel e sua relação com os Estados Unidos, a situação é extremamente complexa para o regime bipartidário. Mesmo com o Irã representando um obstáculo sério às aspirações dos Estados Unidos e de Israel, Israel conseguiu impor sua própria agenda, aproveitando a guerra com o Irã para expandir suas fronteiras para o sul do Líbano. Israel possui um plano para o Oriente Médio que os Estados Unidos não compartilham, o que significa que travam essa guerra com objetivos distintos. A relação entre o regime bipartidário e Israel vem sendo questionada não apenas pela direita anti-Israel cada vez mais vocal, mas também pela esquerda, com o forte movimento pró-Palestina que levou centenas de milhares de judeus da diáspora a romper com o sionismo. A ala isolacionista da ultradireita pode ter se beneficiado do resultado da guerra, mas o futuro permanece incerto. A classe dominante dos Estados Unidos “testou” a doutrina de Trump para enfrentar os efeitos do declínio americano, mas Trump demonstrou que sua abordagem é insustentável. Longe de fortalecer o imperialismo dos Estados Unidos, a guerra entre Estados Unidos e Israel contra o Irã acelerou seu declínio ao expor suas vulnerabilidades.

<><> As ações de Trump no Irã expõem os pontos mais frágeis do imperialismo dos Estados Unidos

O Irã venceu politicamente esta primeira fase de uma guerra que o exército dos Estados Unidos nunca desejou. Isso desencadeou uma das piores crises entre um presidente e as forças armadas na história recente, com altos oficiais, preocupados com o uso de armas nucleares, ameaçando desobedecer às ordens de Trump. A crise militar, sobre a qual analistas e centros de estudos vinham alertando há anos, tornou-se evidente para aliados, amigos e inimigos dos Estados Unidos. O Irã controla efetivamente a distribuição de 40% do petróleo em uma economia global profundamente interconectada e interdependente e, como possível resultado do cessar-fogo, pode obter controle total do Estreito de Ormuz. As negociações também incluem a possibilidade de suspender sanções primárias e secundárias, além de reparações financeiras e outras concessões. Embora o Irã pareça ter muito a ganhar nas negociações, os Estados Unidos não conseguiram promover uma verdadeira mudança de regime nem instalar uma liderança mais alinhada. Na verdade, o regime iraniano demonstrou ser ainda mais resistente. Embora não existisse um movimento pacifista organizado nos Estados Unidos, a maioria dos americanos, incluindo muitos eleitores de Trump, se opunha fortemente à guerra. De fato, nenhuma outra guerra na história foi travada com tão pouco apoio popular. A recente mobilização do No Kings foi um aviso de que o sentimento antibelicista pode se manifestar nas ruas. Trump não quer enfrentar as massas porque foi derrotado em Minneapolis, e a resistência ainda em desenvolvimento, junto com a ameaça de uma intensificação da luta de classes, pode limitar seriamente sua agenda no futuro. Do ponto de vista da classe trabalhadora, Minneapolis demonstrou que Trump pode ser derrotado.

Diante desse profundo descontentamento anti-Trump e de uma importante derrota política e militar, é muito provável que os democratas obtenham grandes ganhos nas eleições de meio de mandato. No entanto, o ódio a Trump não deve ser automaticamente confundido com entusiasmo pelos democratas, como mostram claramente as pesquisas. O Partido Democrata continua sendo uma alternativa pouco atraente e sem inspiração para amplos setores da população. Nesse contexto, os democratas também não têm alternativa à política externa de Trump. Eles se opuseram à guerra, mas não fizeram nada sério para detê-la. A classe dominante dos Estados Unidos como um todo reconhece o declínio histórico do país. O que a estratégia fracassada de Trump demonstra é que nem o Partido Republicano nem os democratas têm, até o momento, uma alternativa. Talvez o setor mais bem posicionado para capitalizar o descontentamento contra ambos os partidos seja a ala dissidente do Partido Democrata, que busca uma solução populista de esquerda: um estado de bem-estar social sem guerras e com fronteiras fechadas, onde os trabalhadores americanos possam aspirar a uma melhoria gradual e reformista de suas condições de vida, sem alterar a essência da dominação capitalista ou imperialista. No entanto, isso é uma utopia irreal em uma era de crises, guerras e revoluções.

A classe trabalhadora e os oprimidos devem se preparar para os efeitos do declínio dos Estados Unidos e aproveitar as derrotas de seus opressores. Do Irã a Minneapolis, o denominador comum de nossas lutas é que somos explorados e oprimidos pelo mesmo sistema imperialista administrado pela classe dominante — a “turma de Epstein” — que está nos levando à barbárie. A luta contra Trump, a extrema direita e o imperialismo, tanto em nível global quanto nacional, reside em uma resistência liderada pelos trabalhadores e pelos jovens, e no crescente sentimento anti-imperialista que está criando raízes entre a vanguarda nos Estados Unidos.

¨      EUA-Irã: do fracasso nas negociações ao bloqueio e o impasse estratégico. Por Juan Chingo

O fracasso das conversas entre Estados Unidos e Irã em Islamabad abriu uma nova fase, marcada pela escalada e pela manutenção de canais de comunicação entre Teerã e Washington. Após mais de vinte horas de negociações sem resultados, a resposta de Washington foi o início de um bloqueio naval orientado a restringir o tráfego de petroleiros iranianos no estreito de Ormuz e seus acessos no Golfo Pérsico e no mar de Omã.

<><> Porque as negociações fracassaram

O colapso em Islamabad não foi produto de desacordos menores, mas de uma incompatibilidade estrutural entre as posições de Washington e Teerã.

>>> Três eixos bloquearam qualquer avanço:

Em primeiro lugar, o controle do estreito de Ormuz. Para Irã, não é só um ativo estratégico, como também é a garantia material de qualquer acordo futuro. A experiência acumulada - e a desconfiança profunda para com os Estados Unidos, especialmente sob a presidência de Trump - levou Teerã a priorizar mecanismos de poder efetivo ao invés de compromissos formais. Em segundo lugar, o programa nuclear. Washington insistiu em condições maximalistas: a eliminação completa do material enriquecido, a proibição de novas atividades durante anos - ou mesmo décadas - e o fim do enriquecimento dentro do Irã. Para Teerã, isso equivale a uma capitulação. Em terceiro lugar, o marco regional. Irã rechaça acordos parciais e defende que qualquer entendimento deve abarcar o conjunto do cenário, incluindo o Líbano e sua relação com Israel. Estados Unidos, por sua vez, busca compartimentar os conflitos e obter concessões específicas.

No Findo, o desacordo é também sobre a sequência. Washington exige concessões imediatas em troca de alívios graduais; Teerã exige reciprocidade simultânea. Essa assimetria faz com que seja inviável qualquer compromisso. Da perspectiva iraniana, os Estados Unidos tentam obter pela via diplomática aquilo que não conseguiram pela via militar. Essa percepção reforça a negativa em ceder em questões consideradas estratégicas.

<><> O impasse estratégico de Trump

Por enquanto, a via militar mostrou limites claros. Após semanas de bombardeios intensivos por parte dos Estados Unidos e de Israel, não chegou-se a destruir as principais capacidades do Irã e nem alterar decisivamente o equilíbrio estratégico. A ideia de forçar uma mudança de regime mediante a superioridade aérea voltou a demonstrar sua ineficácia. A via diplomática, em sua primeira tentativa, ficou bloqueada pelas próprias condições impostas por Washington, muitas destas alinhadas com as posições mais duras do governo israelense. O resultado é um impasse: escalar implica riscos crescentes; retroceder implica em admitir o fracasso.

Neste contexto, o bloqueio naval já em curso aparece como uma saída intermediária. Sua lógica é clara: aumentar o custo para o regime iraniano sem cruzar - no entanto - a fronteira de uma confrontação direta renovada. Mas sua viabilidade é duvidosa. Requereria operar em proximidade às costas iranianas, expondo as forças estadunidenses a ataques em um ambiente altamente hostil, enquanto que o Irã conservaria a capacidade de responder ampliando o conflito até infraestruturas energéticas, portuárias e, inclusive, usinas de dessalinização que são críticas para outros países do Golfo. Além disso, implica - de fato - na possibilidade de interceptação de navios de outros países, incluindo China, Índia ou Paquistão, consequentemente com risco de ampliação do conflito Neste contexto, a margem para incidentes não controlados - interceptações, ataques a navios ou erros de cálculo - se reduzem drasticamente, elevando o risco de uma escalada repentina.

Mais ainda: o limite para perdas estadunidenses é extremamente baixo. Só a hipóteses de danos graves a um navio contratorpedeiro, ou da inutilização de um porta-aviões por ataque com drones ou mísseis, já configuraria uma catástrofe militar e política de grande escala. A isto se soma o impacto econômico. O bloqueio, ao restringir a oferta em um mercado já tensionado, empurra os preços do petróleo nas alturas, alimentando a inflação global, e , em particular, nos Estados Unidos. A pressão que se busca exercer sobre o Irã pode traduzir-se rapidamente em um forte custo político interno para Trump. E, além disso, estrangular a economia iraniana não é algo tão simples. Teerã desenvolveu canais alternativos que amortizam o impacto das sanções, desde o corredor ferroviário com a Asia, até a crescente via do mar Cáspio. Ao invés de colapso imediato, o cenário mais provável seria de uma adaptação prolongada. Em todo caso, um bloqueio naval contra o Irã é pouco provável que o obrigue à capitulação. Se semanas de ataques militares intensivos não conseguiram provocar uma mudança estratégica fundamental, custa imaginar como um bloqueio por si só poderia dar lugar a um resultado diferente.

<><> Isolamento político crescente

O impasse estratégico tem seu correlato político. Tanto Trump como Netanyahu enfrentam um isolamento cada vez mais marcado, mas no caso estadunidense, este isolamento adquire uma profundidade particular: já não é só internacional, como também é interno, institucional e, inclusive, ideológico, tendendo a se agravar à medida que a escalada se materializa e começa a se refletir em tensões crescentes dentro do próprio establishment estadunidense.

No plano internacional, aliados tradicionais tem evitado alinhar-se plenamente com a escalada. As tensões com as potências europeias são evidentes, enquanto que atores como a Coreia do SUl tem expressado críticas abertas às ações israelenses. Ao mesmo tempo, qualquer tentativa de interromper o comércio marítimo iraniano ameaça tensionas as relações com os principais países da Asia, ampliando os riscos do conflito. No entanto, o dado mais significativo é a crise aberta entre Washington e a Santa Sé, um enfrentamento sem precedentes na história recente, que reflete o grau de decomposição política atravessando a estratégia estadunidense. O ponto de inflexão se produziu em janeiro quando o núncio apostólico [representante diplomático do Vaticano - Ndt.] nos Estados Unidos foi convocado ao Pentágono, em um episódio extraordinário que revela o nível de tensões entre as partes. As críticas do Papa à ideia de guerras "jutas" e à retórica de destruição total - incluída a referência implícita a uso de arma nuclear - chocam diretamente com a lógica de escalada da administração de Trump.

Este conflito golpeia no coração da base política do próprio Trump. O presidente chegou ao poder com forte apoio do eleitorado católico - principalmente hispânico -, e esse respaldo mostra sinais de erosão. As tensões com o Vaticano abrem uma fratura em um bloco chave, enquanto também alimentam uma crise dentro da própria administração: o vice presidente JD Vance, recentemente convertido ao catolicismo, manifestou reservas frente à guerra, enquanto Marco Rubio se viu obrigado a equilibrar seu pertencimento religioso com seu papel político. Mas a crise vai ainda mais longe. Começa a emergir uma preocupação que toca um nervo crítico do aparato militar: a legitimidade das ordens em um contexto de escalada extrema, incluindo cenários como o uso de arma nuclear. Setores do próprio estamento militar e religioso colocaram que determinadas ordens poderiam ser moralmente questionáveis e, inclusive, desobedecidas. O espectro de tensões dentro das forças armadas - incluindo episódios de indisciplina e mal estar - introduz um elemento adicional de incerteza. Em outras palavras, a coesão interna do aparato militar deixa de ser um dado garantido.

<><> O custo para a classe trabalhadora e a oposição ao guerreirismo

Enquanto a escalada avança, os custos recaem de maneira desproporcional sobre a classe trabalhadora, tanto na região como a nível global.

No Oriente Médio, as consequências são diretas: milhares de mortos, destruição de infraestruturas e economias devastadas. No Irã e no Líbano, a população paga o preço imediato da guerra. À escala global, o impacto se canaliza através da energia e outras matérias primas. A disrupção no estreito de Ormuz - e a ameaça sobre Bab el-Mandeb - pressiona a alta dos preços de petróleo e gás. Isto se traduz em inflação, perda de poder aquisitivo e deterioração das condições de vida. Mas esse processo não é excepcional, senão é cada vez mais estrutural. As guerras e tensões internacionais se multiplicam em um contexto de crise da ordem global: a guerra na Ucrânia se prolonga como um conflito de desgaste com dezenas de milhares de vítimas; Israel atua sem freio em Gaza; e o rearme se acelera da Europa ao Pacífico, onde se concentra cada vez mais poder militar frente a China.

A aceleração da crise hegemônica do imperialismo estadunidense está aprofundando essa dinâmica. Mais guerras, mais competição entre potências e uma corrida armamentista em expansão. Desde Janeiro, Trump atacou ou ameaçou Venezuela, Cuba, Groenlândia e Irã. Os governos europeus e estadunidense que apoiaram o genocídio em Gaza, não hesitam em justificar as vítimas civis agora no Irã e o número de mortos na Ucrânia. E é nesta guerra que estão obcecadas as potências europeias. Estão se preparando para a guerra com a Rússia e redobrando o rearme e o serviço militar obrigatório em todo o continente. O resultado é claro: mais gasto militar, mais tensões, mais risco de guerra. E esse custo não é pago pelas elites que tomam as decisões, é a classe trabalhadora que paga, através da inflação, deterioração das condições de vida e, em última instância, a possibilidade de ser arrastada a conflitos colocando-a para enfrentar trabalhadores de outros países.Por isso, a oposição ao guerreirismo é uma necessidade vital: rechaçar desde o início uma lógica que obriga as maiorias a pagar com seu nível de vida - e potencialmente com suas vidas - guerras que não respondem aos seus interesses.

<><> A luta de classes e a resistência à guerra

Se a escalada continua, suas consequências não se limitarão ao terreno militar ou diplomático. A guerra começa ser transportada para o terreno social, e tudo indica que a resistência não tardará a emergir.

O primeiro vetor é econômico. O encarecimento do combustível já está gerando tensões visíveis. Na irlanda, os protestos pelo preço da energia estiveram perto de paralisar o país, obrigando o governo a recorrer ao exército para manter abertas as infraestruturas mais importantes, aplicando subsídios milionários. Mas a Irlanda não é uma exceção, e sim uma prévia. Em um contexto de inflação energética, endividamento elevado e estancamento, a pressão social tenderá a expandir-se. França - com antecedentes de explosões pelo custo de vida - aparece especialmente exposta, enquanto que em grande parte da Asia, a margem fiscal para conter protestos está diretamente limitada. Nos Estados Unidos, este processo golpeia no centro da estabilidade política. O aumento do custo de vida, somado ao desgaste de uma guerra sem resultados claros, erode a base social de Trump. A estratégia de pressão sobre o Irã ameaça voltar-se contra si mais rapidamente do que debilitar seu adversário.

Mas há um segundo plano, mais profundo, o da legitimidade. As guerras baseadas em bombardeios massivos, sem objetivos claros e nem resultados visíveis, tendem a erodir sua justificação inclusive dentro das próprias sociedades que as impulsionaram. Ao mesmo tempo, a resistência sob ataque - como começa a se refletir nos relatos que emergem do Irã - geram um efeito inversos. A medida que circulem relatos, crônicas e reportagens direto do local, é provável que se amplifique o repúdio moral crescente frente à guerra. Não só no "Sul global", como também no coração das próprias potências que impulsionaram a guerra.

 

Fonte: Esquerda Diário

 

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