Ximena
Goldman: Com a derrota no Irã, Trump está mais fraco do que nunca
Apenas
um dia depois de o presidente Trump anunciar o cessar-fogo com o Irã, começaram
a aparecer as fissuras no frágil acordo. Por enquanto, ninguém pode garantir
qual rumo a guerra tomará, mas mais de um mês após seu início, ela já causou
danos graves tanto ao governo de Trump quanto à legitimidade dos Estados Unidos
no cenário internacional, expondo as vulnerabilidades de um império em
declínio. Trump agora precisa enfrentar as consequências políticas de ter
iniciado uma das guerras mais impopulares da história dos Estados Unidos, a
pouco mais de meio ano das eleições de meio de mandato, nas quais seu partido
pode sofrer derrotas significativas. As repercussões da guerra também
contribuem para o crescente descontentamento popular. Desde a revolta contra o
ICE em Minneapolis até as manifestações massivas do No Kings, com forte
sentimento antibelicista, a oposição a Trump e à ultradireita continua
crescendo.
Seja
qual for o rumo que a guerra tome, é justo dizer que Trump foi derrotado
politicamente no Irã. Essa derrota evidencia o fracasso de sua estratégia de
“paz por meio da força” e “América em primeiro lugar” como forma de conter o
declínio da hegemonia do imperialismo estadunidense. A guerra no Irã foi uma
demonstração tremenda de “força” sem estratégia, resultando em uma das
humilhações mais significativas do imperialismo dos Estados Unidos na história
recente. Robert Pape expressou a magnitude desse fracasso com suas próprias
palavras. Nos últimos quarenta dias, Washington intensificou gradualmente sua
pressão, ampliando alvos, aumentando o ritmo e elevando as ameaças. Em cada
etapa, esperava-se que o aumento da força gerasse obediência. Não foi o que
aconteceu. Em vez disso, cada escalada gerou contrapressão: sobre os mercados
de energia, sobre os aliados e, em última instância, sobre a própria tomada de
decisões dos Estados Unidos. Esse é o padrão do fracasso estratégico. Não se
trata de um único erro, mas de uma sequência na qual mais força produz menos
controle.
Além
disso, o fracasso dos Estados Unidos em derrotar o Irã levanta sérias dúvidas
sobre sua capacidade de desafiar e conter a China, que, naturalmente, possui um
exército muito superior ao do Irã. De fato, a China parece ter desempenhado um
papel fundamental ao pressionar o Irã em direção a um cessar-fogo desfavorável
para os Estados Unidos, e provavelmente se beneficiará com maior influência
dentro e sobre os Estados da região. Por enquanto, não está claro qual agenda a
burguesia imperialista dos Estados Unidos seguirá no cenário mundial após a era
Trump. No entanto, com a guerra israelense contra o Líbano ainda em andamento e
novas contradições surgindo diariamente, a situação permanece muito aberta. O
cessar-fogo ainda precisa ser negociado e há muito em jogo, mas, qualquer que
seja o resultado, é evidente que as consequências da guerra recente terão
repercussões de longo prazo difíceis de prever.
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A ascensão de JD Vance e da ala isolacionista da coalizão de Trump
Como é
amplamente conhecido, a guerra no Irã abalou novamente o movimento MAGA.
Marjorie Taylor Greene e Alex Jones, entre outros, classificaram o presidente
como incompetente e exigiram sua destituição com base na 25ª Emenda. Enquanto
isso, figuras influentes do MAGA como Tucker Carlson, Candace Owens e Joe Rogan
vêm difundindo entre dezenas de milhões de seguidores a ideia de que Trump
trabalha para Israel e trai os interesses dos Estados Unidos. Embora essas
divisões dentro da base do MAGA sejam importantes, ainda não afetaram os níveis
mais altos da liderança da extrema direita no poder. Até o momento, as
diferentes facções dentro do governo, incluindo a ala mais isolacionista de
Vance, não se distanciaram de Trump, mas as fissuras começam a aparecer. A
incapacidade de Trump de atingir qualquer um de seus objetivos na guerra expôs
a fragilidade da lógica expansionista de um setor do trumpismo e colocou Vance
e a ala isolacionista da coalizão trumpista em uma posição mais favorável. Não
é coincidência, por exemplo, que seja Vance — e não Hegseth ou Rubio — quem
lidera as negociações com Teerã no Paquistão neste fim de semana. No entanto, o
fortalecimento da ala isolacionista da coalizão de Trump não garante uma
mudança na política externa. Ainda é muito possível que, em uma tentativa de
reafirmar o poder dos Estados Unidos, Trump opte por ações ainda mais
agressivas na América Latina, como parte de sua “Doutrina Donroe”. Apesar da
postura atual do exército dos Estados Unidos em relação ao Oriente Médio, a América
Latina continua sendo um alvo prioritário para o secretário de Estado Marco
Rubio e outros setores mais belicistas da administração Trump. Cuba permanece
sob ameaça, e o exército dos Estados Unidos vem desenvolvendo infraestrutura e
acumulando tropas e recursos no Equador e no Panamá.
No que
diz respeito a Israel e sua relação com os Estados Unidos, a situação é
extremamente complexa para o regime bipartidário. Mesmo com o Irã representando
um obstáculo sério às aspirações dos Estados Unidos e de Israel, Israel
conseguiu impor sua própria agenda, aproveitando a guerra com o Irã para
expandir suas fronteiras para o sul do Líbano. Israel possui um plano para o
Oriente Médio que os Estados Unidos não compartilham, o que significa que
travam essa guerra com objetivos distintos. A relação entre o regime
bipartidário e Israel vem sendo questionada não apenas pela direita anti-Israel
cada vez mais vocal, mas também pela esquerda, com o forte movimento
pró-Palestina que levou centenas de milhares de judeus da diáspora a romper com
o sionismo. A ala isolacionista da ultradireita pode ter se beneficiado do
resultado da guerra, mas o futuro permanece incerto. A classe dominante dos
Estados Unidos “testou” a doutrina de Trump para enfrentar os efeitos do
declínio americano, mas Trump demonstrou que sua abordagem é insustentável.
Longe de fortalecer o imperialismo dos Estados Unidos, a guerra entre Estados
Unidos e Israel contra o Irã acelerou seu declínio ao expor suas
vulnerabilidades.
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As ações de Trump no Irã expõem os pontos mais frágeis do imperialismo dos
Estados Unidos
O Irã
venceu politicamente esta primeira fase de uma guerra que o exército dos
Estados Unidos nunca desejou. Isso desencadeou uma das piores crises entre um
presidente e as forças armadas na história recente, com altos oficiais,
preocupados com o uso de armas nucleares, ameaçando desobedecer às ordens de
Trump. A crise militar, sobre a qual analistas e centros de estudos vinham
alertando há anos, tornou-se evidente para aliados, amigos e inimigos dos
Estados Unidos. O Irã controla efetivamente a distribuição de 40% do petróleo
em uma economia global profundamente interconectada e interdependente e, como
possível resultado do cessar-fogo, pode obter controle total do Estreito de
Ormuz. As negociações também incluem a possibilidade de suspender sanções primárias
e secundárias, além de reparações financeiras e outras concessões. Embora o Irã
pareça ter muito a ganhar nas negociações, os Estados Unidos não conseguiram
promover uma verdadeira mudança de regime nem instalar uma liderança mais
alinhada. Na verdade, o regime iraniano demonstrou ser ainda mais resistente. Embora
não existisse um movimento pacifista organizado nos Estados Unidos, a maioria
dos americanos, incluindo muitos eleitores de Trump, se opunha fortemente à
guerra. De fato, nenhuma outra guerra na história foi travada com tão pouco
apoio popular. A recente mobilização do No Kings foi um aviso de que o
sentimento antibelicista pode se manifestar nas ruas. Trump não quer enfrentar
as massas porque foi derrotado em Minneapolis, e a resistência ainda em
desenvolvimento, junto com a ameaça de uma intensificação da luta de classes,
pode limitar seriamente sua agenda no futuro. Do ponto de vista da classe
trabalhadora, Minneapolis demonstrou que Trump pode ser derrotado.
Diante
desse profundo descontentamento anti-Trump e de uma importante derrota política
e militar, é muito provável que os democratas obtenham grandes ganhos nas
eleições de meio de mandato. No entanto, o ódio a Trump não deve ser
automaticamente confundido com entusiasmo pelos democratas, como mostram
claramente as pesquisas. O Partido Democrata continua sendo uma alternativa
pouco atraente e sem inspiração para amplos setores da população. Nesse
contexto, os democratas também não têm alternativa à política externa de Trump.
Eles se opuseram à guerra, mas não fizeram nada sério para detê-la. A classe
dominante dos Estados Unidos como um todo reconhece o declínio histórico do
país. O que a estratégia fracassada de Trump demonstra é que nem o Partido
Republicano nem os democratas têm, até o momento, uma alternativa. Talvez o
setor mais bem posicionado para capitalizar o descontentamento contra ambos os
partidos seja a ala dissidente do Partido Democrata, que busca uma solução
populista de esquerda: um estado de bem-estar social sem guerras e com
fronteiras fechadas, onde os trabalhadores americanos possam aspirar a uma
melhoria gradual e reformista de suas condições de vida, sem alterar a essência
da dominação capitalista ou imperialista. No entanto, isso é uma utopia irreal
em uma era de crises, guerras e revoluções.
A
classe trabalhadora e os oprimidos devem se preparar para os efeitos do
declínio dos Estados Unidos e aproveitar as derrotas de seus opressores. Do Irã
a Minneapolis, o denominador comum de nossas lutas é que somos explorados e
oprimidos pelo mesmo sistema imperialista administrado pela classe dominante —
a “turma de Epstein” — que está nos levando à barbárie. A luta contra Trump, a
extrema direita e o imperialismo, tanto em nível global quanto nacional, reside
em uma resistência liderada pelos trabalhadores e pelos jovens, e no crescente
sentimento anti-imperialista que está criando raízes entre a vanguarda nos
Estados Unidos.
¨
EUA-Irã: do fracasso nas negociações ao bloqueio e o
impasse estratégico. Por Juan Chingo
O
fracasso das conversas entre Estados Unidos e Irã em Islamabad abriu uma nova
fase, marcada pela escalada e pela manutenção de canais de comunicação entre
Teerã e Washington. Após mais de vinte horas de negociações sem resultados, a
resposta de Washington foi o início de um bloqueio naval orientado a restringir
o tráfego de petroleiros iranianos no estreito de Ormuz e seus acessos no Golfo
Pérsico e no mar de Omã.
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Porque as negociações fracassaram
O
colapso em Islamabad não foi produto de desacordos menores, mas de uma
incompatibilidade estrutural entre as posições de Washington e Teerã.
>>>
Três eixos bloquearam qualquer avanço:
Em
primeiro lugar, o controle do estreito de Ormuz. Para Irã, não é só um ativo
estratégico, como também é a garantia material de qualquer acordo futuro. A
experiência acumulada - e a desconfiança profunda para com os Estados Unidos,
especialmente sob a presidência de Trump - levou Teerã a priorizar mecanismos
de poder efetivo ao invés de compromissos formais. Em segundo lugar, o programa
nuclear. Washington insistiu em condições maximalistas: a eliminação completa
do material enriquecido, a proibição de novas atividades durante anos - ou
mesmo décadas - e o fim do enriquecimento dentro do Irã. Para Teerã, isso
equivale a uma capitulação. Em terceiro lugar, o marco regional. Irã rechaça
acordos parciais e defende que qualquer entendimento deve abarcar o conjunto do
cenário, incluindo o Líbano e sua relação com Israel. Estados Unidos, por sua
vez, busca compartimentar os conflitos e obter concessões específicas.
No
Findo, o desacordo é também sobre a sequência. Washington exige concessões
imediatas em troca de alívios graduais; Teerã exige reciprocidade simultânea.
Essa assimetria faz com que seja inviável qualquer compromisso. Da perspectiva
iraniana, os Estados Unidos tentam obter pela via diplomática aquilo que não
conseguiram pela via militar. Essa percepção reforça a negativa em ceder em
questões consideradas estratégicas.
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O impasse estratégico de Trump
Por
enquanto, a via militar mostrou limites claros. Após semanas de bombardeios
intensivos por parte dos Estados Unidos e de Israel, não chegou-se a destruir
as principais capacidades do Irã e nem alterar decisivamente o equilíbrio
estratégico. A ideia de forçar uma mudança de regime mediante a superioridade
aérea voltou a demonstrar sua ineficácia. A via diplomática, em sua primeira
tentativa, ficou bloqueada pelas próprias condições impostas por Washington,
muitas destas alinhadas com as posições mais duras do governo israelense. O
resultado é um impasse: escalar implica riscos crescentes; retroceder implica
em admitir o fracasso.
Neste
contexto, o bloqueio naval já em curso aparece como uma saída intermediária.
Sua lógica é clara: aumentar o custo para o regime iraniano sem cruzar - no
entanto - a fronteira de uma confrontação direta renovada. Mas sua viabilidade
é duvidosa. Requereria operar em proximidade às costas iranianas, expondo as
forças estadunidenses a ataques em um ambiente altamente hostil, enquanto que o
Irã conservaria a capacidade de responder ampliando o conflito até
infraestruturas energéticas, portuárias e, inclusive, usinas de dessalinização
que são críticas para outros países do Golfo. Além disso, implica - de fato -
na possibilidade de interceptação de navios de outros países, incluindo China,
Índia ou Paquistão, consequentemente com risco de ampliação do conflito Neste
contexto, a margem para incidentes não controlados - interceptações, ataques a
navios ou erros de cálculo - se reduzem drasticamente, elevando o risco de uma
escalada repentina.
Mais
ainda: o limite para perdas estadunidenses é extremamente baixo. Só a hipóteses
de danos graves a um navio contratorpedeiro, ou da inutilização de um
porta-aviões por ataque com drones ou mísseis, já configuraria uma catástrofe
militar e política de grande escala. A isto se soma o impacto econômico. O
bloqueio, ao restringir a oferta em um mercado já tensionado, empurra os preços
do petróleo nas alturas, alimentando a inflação global, e , em particular, nos
Estados Unidos. A pressão que se busca exercer sobre o Irã pode traduzir-se
rapidamente em um forte custo político interno para Trump. E, além disso,
estrangular a economia iraniana não é algo tão simples. Teerã desenvolveu
canais alternativos que amortizam o impacto das sanções, desde o corredor
ferroviário com a Asia, até a crescente via do mar Cáspio. Ao invés de colapso
imediato, o cenário mais provável seria de uma adaptação prolongada. Em todo
caso, um bloqueio naval contra o Irã é pouco provável que o obrigue à
capitulação. Se semanas de ataques militares intensivos não conseguiram
provocar uma mudança estratégica fundamental, custa imaginar como um bloqueio
por si só poderia dar lugar a um resultado diferente.
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Isolamento político crescente
O
impasse estratégico tem seu correlato político. Tanto Trump como Netanyahu
enfrentam um isolamento cada vez mais marcado, mas no caso estadunidense, este
isolamento adquire uma profundidade particular: já não é só internacional, como
também é interno, institucional e, inclusive, ideológico, tendendo a se agravar
à medida que a escalada se materializa e começa a se refletir em tensões
crescentes dentro do próprio establishment estadunidense.
No
plano internacional, aliados tradicionais tem evitado alinhar-se plenamente com
a escalada. As tensões com as potências europeias são evidentes, enquanto que
atores como a Coreia do SUl tem expressado críticas abertas às ações
israelenses. Ao mesmo tempo, qualquer tentativa de interromper o comércio
marítimo iraniano ameaça tensionas as relações com os principais países da
Asia, ampliando os riscos do conflito. No entanto, o dado mais significativo é
a crise aberta entre Washington e a Santa Sé, um enfrentamento sem precedentes
na história recente, que reflete o grau de decomposição política atravessando a
estratégia estadunidense. O ponto de inflexão se produziu em janeiro quando o
núncio apostólico [representante diplomático do Vaticano - Ndt.] nos Estados
Unidos foi convocado ao Pentágono, em um episódio extraordinário que revela o
nível de tensões entre as partes. As críticas do Papa à ideia de guerras
"jutas" e à retórica de destruição total - incluída a referência
implícita a uso de arma nuclear - chocam diretamente com a lógica de escalada
da administração de Trump.
Este
conflito golpeia no coração da base política do próprio Trump. O presidente
chegou ao poder com forte apoio do eleitorado católico - principalmente
hispânico -, e esse respaldo mostra sinais de erosão. As tensões com o
Vaticano abrem uma fratura em um bloco chave, enquanto também alimentam uma
crise dentro da própria administração: o vice presidente JD Vance, recentemente
convertido ao catolicismo, manifestou reservas frente à guerra, enquanto Marco
Rubio se viu obrigado a equilibrar seu pertencimento religioso com seu papel
político. Mas a crise vai ainda mais longe. Começa a emergir uma preocupação
que toca um nervo crítico do aparato militar: a legitimidade das ordens em um
contexto de escalada extrema, incluindo cenários como o uso de arma nuclear.
Setores do próprio estamento militar e religioso colocaram que determinadas
ordens poderiam ser moralmente questionáveis e, inclusive, desobedecidas. O
espectro de tensões dentro das forças armadas - incluindo episódios de
indisciplina e mal estar - introduz um elemento adicional de incerteza. Em
outras palavras, a coesão interna do aparato militar deixa de ser um dado
garantido.
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O custo para a classe trabalhadora e a oposição ao guerreirismo
Enquanto
a escalada avança, os custos recaem de maneira desproporcional sobre a classe
trabalhadora, tanto na região como a nível global.
No
Oriente Médio, as consequências são diretas: milhares de mortos, destruição de
infraestruturas e economias devastadas. No Irã e no Líbano, a população paga o
preço imediato da guerra. À escala global, o impacto se canaliza através da
energia e outras matérias primas. A disrupção no estreito de Ormuz - e a ameaça
sobre Bab el-Mandeb - pressiona a alta dos preços de petróleo e gás. Isto se
traduz em inflação, perda de poder aquisitivo e deterioração das condições de
vida. Mas esse processo não é excepcional, senão é cada vez mais estrutural. As
guerras e tensões internacionais se multiplicam em um contexto de crise da
ordem global: a guerra na Ucrânia se prolonga como um conflito de desgaste com
dezenas de milhares de vítimas; Israel atua sem freio em Gaza; e o rearme se
acelera da Europa ao Pacífico, onde se concentra cada vez mais poder militar
frente a China.
A
aceleração da crise hegemônica do imperialismo estadunidense está aprofundando
essa dinâmica. Mais guerras, mais competição entre potências e uma corrida
armamentista em expansão. Desde Janeiro, Trump atacou ou ameaçou Venezuela,
Cuba, Groenlândia e Irã. Os governos europeus e estadunidense que apoiaram o
genocídio em Gaza, não hesitam em justificar as vítimas civis agora no Irã e o
número de mortos na Ucrânia. E é nesta guerra que estão obcecadas as potências
europeias. Estão se preparando para a guerra com a Rússia e redobrando o rearme
e o serviço militar obrigatório em todo o continente. O resultado é claro: mais
gasto militar, mais tensões, mais risco de guerra. E esse custo não é pago
pelas elites que tomam as decisões, é a classe trabalhadora que paga, através
da inflação, deterioração das condições de vida e, em última instância, a possibilidade
de ser arrastada a conflitos colocando-a para enfrentar trabalhadores de outros
países.Por isso, a oposição ao guerreirismo é uma necessidade vital: rechaçar
desde o início uma lógica que obriga as maiorias a pagar com seu nível de vida
- e potencialmente com suas vidas - guerras que não respondem aos seus
interesses.
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A luta de classes e a resistência à guerra
Se a
escalada continua, suas consequências não se limitarão ao terreno militar ou
diplomático. A guerra começa ser transportada para o terreno social, e tudo
indica que a resistência não tardará a emergir.
O
primeiro vetor é econômico. O encarecimento do combustível já está gerando
tensões visíveis. Na irlanda, os protestos pelo preço da energia estiveram
perto de paralisar o país, obrigando o governo a recorrer ao exército para
manter abertas as infraestruturas mais importantes, aplicando subsídios
milionários. Mas a Irlanda não é uma exceção, e sim uma prévia. Em um contexto
de inflação energética, endividamento elevado e estancamento, a pressão social
tenderá a expandir-se. França - com antecedentes de explosões pelo custo de
vida - aparece especialmente exposta, enquanto que em grande parte da Asia, a
margem fiscal para conter protestos está diretamente limitada. Nos Estados
Unidos, este processo golpeia no centro da estabilidade política. O aumento do
custo de vida, somado ao desgaste de uma guerra sem resultados claros, erode a
base social de Trump. A estratégia de pressão sobre o Irã ameaça voltar-se
contra si mais rapidamente do que debilitar seu adversário.
Mas há
um segundo plano, mais profundo, o da legitimidade. As guerras baseadas em
bombardeios massivos, sem objetivos claros e nem resultados visíveis, tendem a
erodir sua justificação inclusive dentro das próprias sociedades que as
impulsionaram. Ao mesmo tempo, a resistência sob ataque - como começa a se
refletir nos relatos que emergem do Irã - geram um efeito inversos. A medida
que circulem relatos, crônicas e reportagens direto do local, é provável que se
amplifique o repúdio moral crescente frente à guerra. Não só no "Sul
global", como também no coração das próprias potências que impulsionaram a
guerra.
Fonte:
Esquerda Diário

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