O
labirinto da política devora mulheres fortes
Na
mitologia grega, Ariadne era filha do Rei Minos de Creta. Quando o herói entrou
no labirinto para enfrentar o Minotauro foi ela quem entregou o fio (o único
caminho de volta à luz). Sem Ariadne não haveria saída, no entanto a versão que
a tradição consagrou celebra a vitória de Teseu e marginaliza Ariadne que foi
abandonada e deixada na ilha de Naxos pelo “herói” que ela ajudou a salvar.
O Ceará
tem seu próprio labirinto e um Minotauro para chamar seu. A fera do pragmatismo
eleitoral que devora lideranças autênticas no centro dos acordos masculinos de
poder. O estado tem suas Ariadnes: mulheres que carregam o fio, que conhecem o
caminho, que são usadas até o momento em que se tornam inconvenientes. Maria
Luiza Fontenele foi a primeira. Em 1985, ao ser eleita prefeita de Fortaleza,
tornou-se a primeira mulher a comandar uma capital brasileira por um partido de
esquerda, o sistema respondeu com o único método que conhece diante de mulheres
que não pedem licença para ocupar o poder: o cerco, o isolamento e o apagamento
progressivo. Quarenta anos depois, Luizianne Lins é o capítulo mais recente
desse método que o sistema cearense nunca abandonou.
A
desfiliação de Luizianne Lins do Partido dos Trabalhadores em abril de 2026,
rumo à Rede Sustentabilidade, não é um movimento migratório partidário. É o
desfecho de um estrangulamento (programático, deliberado e de gênero) que durou
décadas e que encerra um ciclo de trinta e sete anos de militância. Para
compreender a política cearense recente, é preciso observar que essa
desfiliação não resulta de um gesto impulsivo ou de um conflito menor. Trata-se
do desfecho de um longo processo de esvaziamento, no qual um partido que nasceu
orgânico e contestador passou a operar como uma peça acoplada a um projeto
centralizado.
Luizianne
emergiu das bases estudantis da Universidade Federal do Ceará, marcando sua
trajetória com a ocupação da reitoria em 1991. Nos transportes coletivos e nas
emissoras de rádio de Fortaleza, ela conquistou a reputação de arengueira e
arrochada, adjetivos que designam a firmeza de quem não recua em disputas.
Durante seus mandatos como prefeita, entre 2005 e 2012, materializou projetos
focados nas periferias fortalezenses, a exemplo do Hospital da Mulher. O
isolamento começou a se desenhar em 2011, quando se opôs à instalação do
estaleiro Promar Ceará para proteger a comunidade de pescadores locais,
divergindo frontalmente do então governador Cid Gomes.
Como
deputada federal, essa mesma disposição se traduziu em uma atuação consistente
na defesa de direitos humanos, com centralidade no enfrentamento à exploração
sexual de crianças e adolescentes, tema que ela ajudou a retirar da zona de
silêncio no Ceará, confrontando uma cultura historicamente permissiva. Anos
depois, a repercussão global do caso Jeffrey Epstein funcionou como uma espécie
de lente tardia sobre essa luta, revelando em escala internacional aquilo que
em Fortaleza já vinha sendo denunciado como estrutura, redes, cumplicidades e
naturalização da violência.
O
estrangulamento progrediu de divergências locais para constrangimentos
patrocinados pelo próprio estado. Em janeiro de 2024, durante o lançamento do
campus do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) em Fortaleza, Luizianne
foi impedida de subir ao palco onde estava o presidente Luiz Inácio Lula da
Silva. A assessoria da deputada classificou a restrição como violência
política, evidenciando a recusa em acolher uma aliada histórica enquanto
adversários recentes dividiam os holofotes. O mesmo veto invisível se repetiu
em abril de 2026, na inauguração dos alojamentos do ITA, evento do qual ela
esteve ausente após ser barrada de uma conversa privada com o presidente na
noite anterior.
A
fratura foi verbalizada de forma transparente no podcast As Cunhãs, conduzido
pelas jornalistas Inês Aparecida, Hébely Rebouças e Kamila Fernandes. No
episódio 267, após retornar de uma missão humanitária em Gaza, Luizianne nomeou
aquilo que, até então, se apresentava em sinais dispersos. “Foi um processo de
isolamento que o PT passou e que eu sabia que ia acontecer”, afirmou, ao
relatar a condução interna das decisões partidárias. A fala não se limitou ao
plano individual. Ao observar que “tem uma boa parte da militância que não tá
satisfeita”, a deputada apontou que o conflito atravessava o partido. A leitura
encontrou eco no que já vinha sendo registrado pela imprensa local, que
indicava o choque com o grupo político liderado por Camilo Santana como fator
determinante para sua saída e para a redefinição das candidaturas no Ceará .
A
pacificação imposta ao campo progressista tem rostos definidos e metodologias
precisas. A entrevista do presidente Lula à TV Cidade, na primeira semana de
abril de 2026, serviu como a chancela definitiva para o afastamento de
Luizianne. Lula justificou que alianças políticas demandam sacrifícios de
espaços e sacramentou o destino da ex-prefeita com uma frase objetiva:
“Luizianne teve tudo no partido que quis”. Luizianne já não se sacrificou o
suficiente pelo partido? Essa formulação desconsiderou um capital eleitoral de
décadas da deputada, sinalizando que o diretório nacional havia escolhido
preservar a estabilidade dos acordos com os grupos dominantes locais.
Todo
labirinto tem um arquiteto. A estrutura que hoje dita as regras é ancorada no
camilismo. Camilo Santana (ex-governador e ex-ministro da Educação) consolidou
um modelo de forte presença administrativa e capacidade aglutinadora que
alterou o eixo de poder no estado. O partido cresceu, ocupou gabinetes,
acumulou influência institucional. E sacrificou o debate democrático interno.
Camilo, ao mesmo tempo que é Minos, também é Dédalo, não apenas encomendou o
labirinto, ele também o projeta. Define os corredores, administra as entradas e
saídas, articula a atração de quadros recém-chegados de siglas de centro e
transforma a legenda num mecanismo de sustentação eleitoral onde certas
trajetórias simplesmente não têm passagem. Nesse processo, figuras como José Guimarães,
que operaram a máquina por anos, descobriram que o arquiteto não divide a
planta com ninguém, nem mesmo com quem ajudou a construir as paredes. Guimarães
acreditou ser Dédalo, mas acabou como Ícaro: voou perto do sol do poder e
terminou por cair.
É nesse
cenário de asfixia da militância de base e do compromisso programático que a
desfiliação de intelectuais e defensores dos direitos humanos, a exemplo da
saída do advogado e professor Marcelo Uchôa, adquire um sentido de sintoma,
demonstrando que a agremiação perde a adesão de seus teóricos quando a máquina
administrativa sobrepuja a formação política.
As
movimentações recentes da base governista ilustram o peso da capacidade de
entrega em detrimento da identidade ideológica. A figura de Chagas Vieira,
ex-secretário da Casa Civil e operador central do governo Elmano de Freitas,
exemplifica o perfil valorizado nessa nova fase. É um dos homens do palácio,
encarregado de manter o labirinto em funcionamento, abrir as passagens
convenientes, bloquear as saídas indesejadas e assegurar que o tributo político
chegue ao destino. Sem origem nas lutas operárias, ele migrou para o Partido
Democrático Trabalhista (PDT) em abril de 2026, assumindo a função de assegurar
a influência governista dentro de uma legenda esvaziada. A disputa latente
entre o Partido dos Trabalhadores e o Partido Socialista Brasileiro (PSB) também
revela a tolerância do sistema com práticas ilícitas.
O
tratamento dado ao deputado federal Júnior Mano, filiado ao PSB e apoiado por
Cid Gomes para o Senado, explicita essa contradição. Júnior Mano é o foco
principal da Operação Underhand, deflagrada pela Polícia Federal para
investigar fraudes em licitações e desvios de emendas parlamentares. As
investigações apontam que empresas vinculadas ao grupo cobravam taxas de doze a
quinze por cento para liberar recursos direcionados a campanhas. Com mais de 54
milhões de reais bloqueados judicialmente, ele mantém sua viabilidade política
intacta e recebe o endosso público das lideranças. Mano é a prova de que o
sistema cearense não se move prioritariamente contra aquilo que é eticamente
grave, se move prioritariamente elimina quem compromete a moral do sistema, mas
contra aquilo que desorganiza seus acordos. Quando há utilidade eleitoral até
suspeitas graves podem ser administradas. Portanto, o que este labirinto pune é
a dissidência que ameaça sua estabilidade.
O cerco
às lideranças insurgentes revela uma ordem fundamentalmente sustentada em
privilégios de gênero. O debate público estadual absorve os rompantes
masculinos como manifestações autênticas de liderança. O recorrente choro de
Camilo Santana em palanques alencarinos, sobretudo durante o rompimento com a
família Ferreira Gomes em 2022 foi lido pelos analistas locais como uma
demonstração de humanidade, reafirmando que homens no poder possuem a permissão
social para expressar vulnerabilidade sem perder o status de comando. Em
contraste profundo, mulheres na mesma arena enfrentam a constante necessidade
de justificar sua existência e suas posições.
A
vice-governadora Jade Romero evidencia a sofisticação da deslegitimação
machista. Com atuação prévia na Secretaria das Mulheres e ampla formação
administrativa, sua capacidade técnica esbarra nas barreiras impostas por
observadores políticos. Em 2026, sua articulação para integrar a União
Progressista foi rapidamente interpretada nos noticiários como a manobra de um
cacique partidário. A reação foi precisa, quando Jade declarou que não é ponto
de referência de homem nenhum e classificou as insinuações como pura misoginia.
A filósofa Miranda Fricker chamaria esse movimento de injustiça hermenêutica,
ou seja, quando faltam conceitos coletivos para interpretar a experiência da
mulher que exerce poder, o sistema simplesmente a traduz para uma linguagem que
já conhece: a da subordinação.
Seu
regresso ao Partido dos Trabalhadores logo após a saída de Luizianne foi
tratado pelas cúpulas como uma peça de reposição visual para encobrir o vácuo
deixado pela ex-prefeita, como se o labirinto exigisse, após o sacrifício de
uma mulher insubmissa, a oferta imediata de outra presença feminina capaz de
restaurar a aparência de normalidade. Não se tratava de redistribuir poder, mas
de administrar a imagem: um tributo simbólico à fera, suficiente para conter a
ruptura sem tocar na estrutura que a produziu. Enquanto os dirigentes
masculinos projetam estratégias de longo prazo com liberdade irrestrita. A
saída de antigas militantes denuncia a falência de um modelo em que as decisões
migram dos fóruns partidários para gabinetes restritos, moldando um cenário
onde as presenças femininas são formalmente toleradas desde que renunciem ao
exercício pleno da autonomia e do poder.
O
Minotauro, aqui, não é um homem só. É a própria lógica do sistema político
cearense, que cerca, isola e depois devora aqueles que ameaçam sua ordem. Os
personagens mudam, os operadores se alternam, os arquitetos disputam a planta,
mas a fera permanece a mesma: devora lideranças autênticas, sobretudo quando
femininas e poupa tudo aquilo que for útil à sua sobrevivência.
Fonte:
Por Sara Goes e Paola Jochimsen, em Outras Palavras

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