quarta-feira, 15 de abril de 2026

O impeachment de Dilma Rousseff: 10 anos da votação que mudou o Brasil

No dia 17 de abril de 2016, o Brasil acompanhou a votação do segundo pedido de impeachment de um presidente da República desde a redemocratização do país. Diferente do ocorrido com Fernando Collor (PRN) em 1992, que renunciou ao cargo antes da votação final, o processo contra Dilma Rousseff (PT) chegou até o fim, e o período foi marcado por polêmicas e ataques misóginos à então presidente, reeleita pela maioria dos votos nas eleições de 2014.

A Câmara dos Deputados aprovou a abertura do processo por 367 votos a favor e 137 contra, com sete abstenções. Com transmissão em rede nacional, parte das justificativas de voto apresentadas a favor do impeachment eram carregadas de discurso de ódio, ataques pessoais à presidente e até apologia ao crime, como a fala do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), que era deputado federal na época, dedicou seu voto ao Carlos Alberto Brilhante Ustra, que foi torturador de Rousseff durante a ditadura militar. Após a votação, o processo seguiu para o Senado Federal e foi concluído em 31 de agosto de 2016, a ex-presidente foi afastada definitivamente do cargo.

Em entrevista ao Pauta Pública, o ex-deputado federal e pré-candidato à vaga na Câmara dos Deputados por São Paulo pelo PT, Jean Wyllys, relembra o clima daquele dia em que também foi ofendido por Bolsonaro com falas homofóbicas e reagiu com uma cusparada. Após este evento, ele passou a sofrer ameaças e decidiu renunciar ao que seria seu terceiro mandato pelo PSOL. Wyllys analisa elementos que transformaram a votação em um espetáculo político. Segundo ele, a própria organização do plenário teria sido alterada para a votação, com a instalação de uma passarela central que obrigava os parlamentares a se deslocarem até um ponto de votação visível, em um formato diferente do habitual.

“Ele [Eduardo Cunha, ex-presidente da Câmara dos Deputados, que conduziu a votação]  montou um cenário para que você desfilasse e fosse lá na frente para dar o voto. Não bastava tirar a Dilma do poder, era preciso um ritual de humilhação. [Neste caso], o componente da misoginia foi imprescindível”, afirma.

<><> Leia os principais pontos da conversa:

•        Este ano faz 10 anos da cusparada que você deu em Bolsonaro, e tanta coisa aconteceu desde então. Eu queria te pedir para fazer uma retrospectiva: como você vê esse episódio hoje, depois desses 10 anos e de tudo o que aconteceu?

Olha, esse episódio foi ressignificado ao longo do tempo. Hoje você pode dizer que é uma cusparada, ou, como a gente diz na Bahia, uma “cuspida invejada”. Mas ainda segue sendo uma cuspida também muito odiada. Muita gente reagiu mal.

Fazendo uma retrospectiva, na verdade, eu ter cuspido na cara de Bolsonaro naquela noite foi o ápice de um conjunto de indignações que vinham se acumulando em mim desde os movimentos para tirar Dilma do poder, os movimentos de extrema direita que ocuparam as ruas. Movimentos que começaram em 2013, com uma reivindicação mais ou menos justa, que era o Passe Livre, e que depois se transformou no Brasil Livre e no Movimento Brasil Livre, esse movimento de extrema direita financiado pela direita brasileira.

Eu era deputado federal, no meu segundo mandato, pelo PSOL; portanto, eu fazia, do ponto de vista político, uma espécie de oposição de esquerda ao governo Dilma. Só que, ao meu ver, eu saí dessa posição de oposição para me colocar em defesa da legalidade, da democracia, do Estado de Direito. Principalmente para o cumprimento das normas e me colocar contra a mistificação e a mentira. Porque a cobertura mediática naquele momento confundia a investigação da Lava Jato com os desacertos do governo Dilma e ficou tudo confundido no imaginário, e principalmente com misoginia. Porque a misoginia era um componente fundamental para fazer essa liga.

Eu acho até que setores do PT meio que entregaram a Dilma de mão e não fizeram nada. Então, o lado das pessoas contra o impeachment era um lado menor, mas se você olhava do ponto de vista étnico-racial, eram os pretos, os sem terra, as mulheres feministas e o movimento LGBT que estavam deste lado. No lado direito eram os brancos, vestidos de verde e amarelo abrindo champanhe. Quando eu me arrumei para sair naquele domingo, eu lembrei de um cardigan vermelho que eu tinha e o coloquei. Até porque a gente estava vivendo uma estupidez que até havia uma criminalização do vermelho.

•        Como você avalia o momento da votação?

Além da divisão da Esplanada em dois lados, havia um lado à direita que era majoritariamente branco, financiado pela Fiesp [Federação das Indústrias do Estado de São Paulo], com ônibus fretados pelo agronegócio. Eles tinham muito mais gente. Para criar um clima nacional de humilhação, não bastava tirar a Dilma do poder, era preciso um ritual de humilhação.

O presidente da Câmara, Eduardo Cunha, foi quem deu o seguimento ao processo de impeachment, com ódio, porque Dilma começou a investigar a corrupção da qual ele fazia parte. Dilma, honesta que era, não abria mão da sua honestidade e foi adiante. É provável que Eduardo Cunha ainda tenha lucrado com a noite do impeachment, porque ele contratou uma empresa para mudar a arquitetura interna do plenário Ulysses Guimarães.

No plenário, tem o lado direito e o lado esquerdo e duas tribunas. A votação poderia ser exatamente assim como é sempre, com qualquer votação. Quando você é de direita, você vai para a tribuna da direita, e você vai para a esquerda quando você é de esquerda. Ele contratou uma empresa que mudou essa arquitetura, construiu uma passarela no meio, uma passarela suspensa. Então, você subia nessa passarela que seguia do fundo do plenário até a frente do plenário.  Essa passarela terminava numa espécie de círculo, onde estava o microfone. Você ia naquele círculo e votava. Ele montou realmente um cenário para humilhar, para que você desfilasse e fosse lá e humilhasse Dilma. A gente viu aquela sequência de votos pavorosa.

A Globo suspendeu toda a sua programação, apoiando o golpe contra Dilma, apoiando Eduardo Cunha e cobriu toda a votação do processo de impeachment. Ou seja, não bastava humilhar Dilma ali no lugar dela, mas tratava-se de humilhá-la nacionalmente.

E aí o componente da misoginia foi imprescindível. Nenhum homem, nem Collor, que foi um um notório corrupto, foi deposto dessa maneira. Era e é uma mulher honesta que estava sendo deposta, porque, claro, eles queriam implementar um programa econômico que não era o dela, que não foi aprovado nas urnas, mas, ao mesmo tempo, tinha esse ódio da mulher.

•        Agora, o Bolsonaro foi preso, mas a extrema direita, inclusive o bolsonarismo, não deixou de existir. Temos eleições este ano, e algumas pesquisas mostram Flávio Bolsonaro crescendo nas intenções de voto. Como você avalia esse cenário no Brasil?

Há dois movimentos que me preocupam. O primeiro é o da imprensa tradicional, hegemônica no Brasil, que tem se colocado ao lado de Flávio Bolsonaro, a ponto de, muitas vezes, omitir seu sobrenome nas notícias. Essa imprensa, que pertence a setores da classe dominante, já se aliou outras vezes a projetos autoritários e pode fazê-lo novamente, mesmo com o risco de levar o país à instabilidade.

Estamos falando de trocar um cenário de estabilidade econômica, com crescimento e bons indicadores sociais, por um projeto liderado por um aventureiro, filho de alguém condenado por tentativa de golpe. E há também o papel das big techs, que considero ainda mais perigosas. Uma alteração de algoritmo pode influenciar decisivamente o fluxo de informações às vésperas da eleição, como ocorreu em 2018.

Naquele momento, houve um impacto direto sobre as subjetividades do eleitorado nas semanas finais, o que não foi captado pelas pesquisas. Isso explica resultados inesperados, como a derrota de Dilma para o Senado em Minas Gerais e a ascensão de figuras como Wilson Witzel no Rio de Janeiro.

Por isso, é fundamental que o TSE (Tribunal Superior Eleitoral) e os TREs (Tribunais Regionais Eleitorais)  estabeleçam mecanismos de controle e acordos com as plataformas digitais para evitar esse tipo de interferência. Precisamos garantir que o processo eleitoral não seja distorcido por desinformação em massa.

Além disso, não podemos normalizar figuras como Flávio Bolsonaro. Em 17 de abril de 2016, houve uma normalização quando Jair Bolsonaro dedicou seu voto a um torturador. Aquilo teve consequências diretas no que vimos depois, inclusive na eleição de 2018 e na condução da pandemia. Não podemos permitir que isso se repita.

•        Eleições: a derrota anterior. Por Ricardo Queiroz Pinheiro

Uma pesquisa de segundo turno feita em abril mede um estado de ânimo. Não mede outubro, urna e voto real. A distinção parece óbvia, mas aparentemente não é, porque a cada sondagem que sai a cena se repete com precisão cômica: a imprensa fabula a desistência de Lula, converte Haddad em substituto e decreta o esgotamento de uma candidatura que ainda não começou de fato. A esquerda entra em colapso existencial — descabela-se, antecipa a derrota, age como se o processo eleitoral tivesse sido encerrado por uma amostra de dois mil entrevistados em abril.

Há um problema empírico nisso, além do estético. Em 1993, eu era um peão do Datafolha (trabalhava no arquivo) e ouvia estatísticos e cientistas políticos afirmarem: levantamentos de intenção de voto ganham capacidade preditiva real a dois ou três meses do pleito. Antes disso, o erro é estruturalmente maior, o campo ainda está aberto, alianças se formam, candidaturas se consolidam, fatos entram e saem.

Sete meses antes, a pesquisa é uma fotografia, não profecia do Eden ou do fim do mundo . Lê o humor do momento. É o purgatório impreciso. Não sentencia o resultado.

No Brasil de 2026, isso importa mais do que de costume, porque a eleição sequer entrou em sua fase ativa. O registro de candidaturas fecha em agosto, a propaganda começa em agosto, o primeiro turno é em outubro. Toda a fase em que a campanha opera com intensidade real ainda está por vir.

O Datafolha mostrou empate técnico entre Lula e Flávio Bolsonaro num cenário de segundo turno, 46% a 45%, dentro da margem de erro. Isso diz algo concreto: a disputa é competitiva, o desgaste do governo existe, o quadro está apertado. Vale atenção. O que não vale é transformar empate em rendição e desespero, ou especulação jornalística partidarizada em horizonte político. A pesquisa acende um sinal. Não emite um laudo.

O mais revelador não é o dado ou o fato ensejado. É exatamente o que ele provoca. A reação já vem em tom terminal antes mesmo de haver o que terminar. A ansiedade ocupa o lugar da análise, qualquer oscilação vira colapso, qualquer empate vira derrota anunciada. A sondagem deixa de ser instrumento de leitura e passa a funcionar como gatilho de pânico. Politicamente, esse movimento só desarma quem já entra em cena convencido de que vai perder.

O ciclo é reincidente e vicioso: a cada pesquisa desfavorável, o mesmo ritual de autopunição coletiva, a derrota se torna mais certa e antecipada cada pesquisa . A história eleitoral brasileira é pródiga em exemplos do contrário. Quem vai à urna em outubro não é o eleitor de abril é outro, fruto uma campanha que ainda não aconteceu.

O resultado é incerto, mas é cedo para o desespero.

•        A máquina, o sonho e as duas interpretações do Datafolha

Existem duas maneiras de interpretar a nova pesquisa Datafolha divulgada hoje. A primeira é se impressionar com a direita. A segunda é se impressionar com a esquerda. Mesmo com toda a máquina de propaganda conservadora — com rádios, TVs, portais e influenciadores nadando em dinheiro dos grandes empresários —, um setor da sociedade permanece mobilizado em defesa de princípios de justiça social, igualdade, soberania e direitos democráticos.

É difícil explicar essa resiliência — de Lula e de toda a esquerda — diante de décadas de ataques, manipulações e profecias de aniquilamento.

Como dizia João Cabral de Melo Neto: “É difícil defender, só com palavras, a vida.”

Quem são esses 70 milhões de brasileiros que apoiam Lula hoje no segundo turno?

São as famílias de baixa renda espalhadas pelo Brasil inteiro.

São as mulheres, numa vantagem que sempre foi impressionante e que reflete um processo real de empoderamento.

É a classe média cosmopolita e progressista das grandes cidades, que também partilha o sonho de um Brasil soberano, independente e desenvolvido.

São os brasileiros mais velhos, que têm memória: lembram de FHC, Collor, ditadura. O aumento da longevidade no Brasil, a propósito, beneficiou Lula — há mais gente com sessenta anos hoje do que havia antes, e essa geração acumulou experiência suficiente para saber o que não quer de volta.

Os números confirmam essa força. Lula aparece com 26% na pesquisa espontânea — cerca de 40 milhões de pessoas que têm o seu nome na cabeça agora, sem ninguém sugerir. No primeiro turno, chega a 39%, o equivalente a mais de 60 milhões de eleitores. E no segundo turno, 45% — os 70 milhões que seguram a onda da esquerda contra Flávio Bolsonaro, que aparece com 46%.

É com esses 70 milhões — e com a máquina na mão — que se ganha o jogo. Mas a máquina só funciona se você entender que o tempo é relativo. Como dizia Einstein, ele se comprime conforme a pressão da gravidade. Numa eleição, a gravidade é total: seis meses podem conter 20 anos de história. É o momento de projetar as próximas décadas.

Esperemos, todavia, que o governo consiga fugir da armadilha politiqueira e antipática de cobrar gratidão. É maravilhoso lembrar dos hospitais, estradas e programas criados pelo governo. Mas o povo sempre pode rebater com o que não foi criado. Além disso, não é inteligente tratar o povo como se ele fosse portador de uma dívida política.

O voto não é um pagamento por serviços prestados — é sobretudo uma aposta no futuro. O modelo de comunicação baseado unicamente em inaugurações de obras locais está repetitivo e não aponta horizontes para as grandes realizações que o país espera.

Lula não pode se restringir a mobilizar a atenção de pequenos nichos. Ele tem que liderar um projeto de transformação nacional.

O governo deveria, além disso, desenvolver uma imagem um pouco mais independente e autônoma em relação à figura de Lula. O país precisa de um grande projeto de mobilidade sobre trilhos e de um grande projeto de universalização da energia solar, com bateria inclusa — solar de dia, energia armazenada de noite.

As empresas elétricas vão reclamar. Paciência. O povo precisa de energia barata, e a China já tem essa tecnologia pronta. O plano é simples: imposto zero para importar placa e bateria da China, trazer tudo para cá e mandar nossos estudantes para lá. Eles aprendem engenharia solar na prática e voltam para montar fábrica aqui. Porque hoje, no Brasil, ninguém domina isso.

Lula não gosta de trem, e esse é o erro que pode custar a eleição. O povo passa quatro horas por dia espremido em ônibus. O dia em que a esquerda defender o trem e a ferrovia nacional, ela quebra o preconceito de quem acha que o PT só olha para o passado. O trem é o símbolo do futuro que o eleitor quer conquistar.

Energia solar, trem, e um sonho nacional de desenvolvimento.

É assim que a frente ampla democrática pode sair dos 45% e vencer.

 

Fonte: Por Andrea DiP, Sofia Amaral, Ricardo Terto, Stela Diogo e Thaís Santana, da Agência Pública/Outras Palavras/O Cafezinho

 

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