quinta-feira, 16 de abril de 2026

Por que o FMI prevê que Brasil crescerá mais por causa da guerra no Irã

O Fundo Monetário Internacional (FMI) revisou para baixo suas projeções para a economia global e alertou que a guerra no Oriente Médio pode levar o mundo a um cenário próximo de recessão — especialmente se o conflito se prolongar e provocar novos choques nos preços de energia.

No relatório Panorama Econômico Mundial (WEO, na sigla em inglês), divulgado em abril, o FMI reduziu a estimativa de crescimento global para 2026 de 3,3% para 3,1%. Ao mesmo tempo, elevou sua projeção para o Brasil, prevendo uma expansão de 1,9% neste ano — acima da estimativa anterior.

No relatório do ano passado, o cenário era diferente: o FMI descrevia uma economia global relativamente estável, ainda que 'modesta', após uma sequência de choques, com crescimento em torno de 3% e expectativa de continuidade desse ritmo.

O principal risco então vinha da escalada de tensões comerciais (especialmente tarifas dos Estados Unidos), vistas como um "choque negativo de oferta" capaz de reduzir produtividade, aumentar custos e frear a atividade.

Agora, em 2026, o foco sai da fragmentação comercial e passa para um choque geopolítico ligado à guerra, com impacto direto sobre energia e cadeias de suprimento.

À primeira vista, pode parecer contraditório que um conflito com efeitos negativos para a economia mundial beneficie, ainda que marginalmente, um país específico. Mas, segundo o próprio FMI, há uma explicação clara: o papel do Brasil como exportador de commodities, especialmente energia.

O ponto de partida da análise do FMI é o impacto direto do conflito sobre os preços internacionais. A guerra no Oriente Médio, uma região central para a produção e o transporte de petróleo, tende a provocar interrupções na oferta e aumentar a incerteza nos mercados.

No cenário-base do Fundo, os preços de energia devem subir de forma relevante. O petróleo, por exemplo, é projetado para registrar alta significativa em 2026, refletindo justamente as dificuldades de produção e transporte na região.

Esse choque de preços se espalha pela economia global.

Energia mais cara também encarece transporte, produção industrial e alimentos — especialmente em países dependentes de importações. Por isso, o FMI destaca que economias importadoras de commodities tendem a ser as mais prejudicadas, enfrentando inflação mais alta, desvalorização cambial e perda de renda.

<><> Por que o Brasil se beneficia no curto prazo

É nesse contexto que aparece o caso brasileiro. Diferentemente de muitos países emergentes, o Brasil é considerado pelo FMI um exportador líquido de energia— ou seja, vende mais petróleo e derivados ao exterior do que compra.

Isso significa que, quando os preços internacionais sobem, o país tende a receber mais receitas com exportações. Esse efeito melhora os chamados "termos de troca" (a relação entre preços de exportação e importação), e pode impulsionar o crescimento econômico.

O próprio relatório resume esse mecanismo ao afirmar que a guerra deve ter "um pequeno efeito líquido positivo" sobre o Brasil em 2026, elevando o crescimento em cerca de 0,2 ponto percentual.

Esse tipo de impacto não é exclusivo do Brasil. O FMI indica que, de forma geral, economias exportadoras de energia ou commodities podem ter revisões positivas ou neutras de crescimento, em contraste com perdas mais acentuadas em países importadores.

Apesar desse efeito positivo inicial, o FMI enfatiza que o benefício é modesto e tende a se dissipar rapidamente.

Isso ocorre porque os impactos negativos da guerra sobre a economia global acabam se espalhando. Com o tempo, a desaceleração do crescimento mundial reduz a demanda por exportações brasileiras. Ao mesmo tempo, o aumento de custos de insumos — como fertilizantes, fortemente ligados ao mercado internacional — pressiona a produção doméstica.

O relatório aponta ainda que condições financeiras mais restritivas, com juros mais altos no mundo, podem limitar investimentos e consumo. Por isso, o efeito positivo observado em 2026 tende a ser revertido.

Segundo o FMI, em 2027 esses fatores devem prevalecer, levando a uma redução do crescimento brasileiro em relação às projeções anteriores.

<><> Um mundo mais frágil

O pano de fundo dessa dinâmica é um cenário global mais incerto e frágil. O FMI avalia que a guerra interrompeu uma trajetória de crescimento relativamente estável e introduziu novos riscos para a economia mundial.

Em cenários mais adversos, com conflito prolongado e preços de petróleo acima de US$ 100 por barril, o impacto pode ser significativamente mais severo. O Fundo projeta que o crescimento global poderia cair para até 2,5% — ou mesmo próximo de 2% em um cenário extremo, o que historicamente se aproxima de uma recessão global.

Além do choque direto de preços, há efeitos indiretos importantes: aumento da inflação, deterioração das condições financeiras e maior aversão ao risco nos mercados. Esses fatores tendem a atingir com mais força países emergentes e economias mais vulneráveis.

<><> O que explica a diferença entre países

A análise do FMI deixa claro que o impacto da guerra não é uniforme. Ele depende principalmente de três fatores: se o país é exportador ou importador de energia, qual o grau de exposição a choques externos, como preços de alimentos e fertilizantes, e a capacidade de resposta econômica, incluindo política fiscal e monetária.

No caso brasileiro, a combinação de exportações de commodities, reservas internacionais robustas e menor dependência de dívida externa em moeda estrangeira ajuda a amortecer o impacto inicial do choque.

Mas o próprio Fundo ressalta que essas condições não eliminam os riscos — apenas os tornam mais administráveis no curto prazo.

¨      Por que a economia cresce, mas o dinheiro não sobra? Por Luís Nassif

Os dados e tabelas mostram que o Brasil passa por um momento econômico bastante positivo, com queda do desemprego e aumento da renda média. Entretanto, para muitas famílias, a sensação é de que a conta simplesmente não fecha.

Como explica a economista Juliane Furno, o cenário atual é marcado por um grande “descompasso”: existe uma falha grave na tradução dos números do PIB para o bem-estar social. 

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A percepção de piora econômica, mesmo com a inflação sob controle, é o reflexo de uma renda que cresce no papel, mas é drenada antes mesmo de chegar à despesa.

<><> Quando os Dados não Enchem o Prato

Esqueça os manuais que mandam apenas “cortar o cafezinho”. Em 2026, a educação financeira tornou-se uma ferramenta bruta de sobrevivência. Segundo Victor Pagani, diretor adjunto do DIEESE, as famílias brasileiras operam hoje sob uma “estratégia de guerra”.

“Para quem ganha perto de um salário mínimo, cortar gastos significa cortar serviços essenciais como água/luz/gás ou cortar a própria alimentação. Então, não tem de onde cortar”, pontua Pagani. “Somado a isso, tivemos o advento das bets, totalmente desreguladas, e que provavelmente contribuíram para o aumento dessa situação de endividamento das famílias, sobretudo das mais pobres”.

Dentro desse contexto, a educação financeira não está nos conceitos transmitidos por muitos economistas e especialistas nas redes sociais, e sim na decisão entre os gastos essenciais e urgentes.

É a adoção de táticas como frequentar a “xepa” da feira, ou substituir a compra de alimentos frescos por ultraprocessados, mais baratos e menos nutritivos, ou gerenciar o atraso de contas de consumo — como água e luz — em um rodízio perigoso para evitar o corte de serviços básicos enquanto tentam escapar da “bola de neve” dos juros.

A fotografia atual das finanças domésticas mostra o tamanho do desafio estrutural que enfrentamos:

  • Percentual de famílias endividadas: 80,2% (maior nível desde 2010).
  • Percentual de inadimplentes (contas em atraso): 29,6%.
  • Comprometimento da renda com o serviço da dívida: 29,2% (quase um terço do salário vai direto para o sistema financeiro).

(Fonte: CNC/Bacen, Fev/2026)

<><> A Taxa Selic: A “Visita Indesejada” no Orçamento Familiar

Recentemente, o Comitê de Política Monetária (Copom) reduziu a taxa Selic de 15% para 14,75% ao ano. Embora o movimento pareça positivo, ele carrega um peso histórico: foi o primeiro corte desde maio de 2024. O Brasil ainda ostenta um dos maiores juros reais do mundo, funcionando como um freio de mão puxado para quem precisa de crédito.

A Selic alta impacta diretamente o seu dia a dia:

  • Encarecimento do crédito: Empréstimos como CDC, consignados e financiamentos de veículos permanecem proibitivos.
  • Impacto no custo das dívidas antigas: A queda lenta da taxa básica não alivia de imediato o estoque de dívidas já contraídas, dificultando a quitação.
  • Desestímulo ao emprego e investimento: Com juros altos, as empresas investem menos, travando a criação de postos de trabalho e a circulação de riqueza real.

Um dado técnico explica visualmente por que o aumento do salário não é sentido de fato no bolso da população: a “Boca de Jacaré”. Desde a pré-pandemia, o rendimento médio real do brasileiro cresceu 12%.

No entanto, após o pagamento de dívidas com o Sistema Financeiro Nacional (SFN), esse ganho real despenca para apenas 3%. Ou seja: 9% de todo o ganho real de rendimento da população foi “engolido” pelos bancos e financeiras.

Na prática, o esforço do trabalhador para produzir e ganhar mais não resulta em consumo ou poupança, mas serve para alimentar o rentismo. O SFN “capturou” a melhora da renda, impedindo que o crescimento econômico circule no comércio do bairro.

O cartão de crédito continua sendo o principal ralo financeiro, apontado por 85% das famílias endividadas como o grande problema. O cenário é alarmante: os juros do rotativo saltaram de 330% ao ano em 2021 para 425% ao ano em 2026.

“A gente fala muito da taxa Selic, mas quando a gente vai ver o real patamar dos juros elevados, a alta da Selic resulta em alta dos juros para pessoa física, o tomador do crédito final”, lembra Pagani, do Dieese.

“Se pegarmos a taxa de juros rotativa do cartão de crédito, em janeiro/26 segundo BC, ela estava em média 425% ao ano – e com a alta da Selic ela saltou de 330% em janeiro/21 para 425% em janeiro/26”, afirma o economista. “Mas também tem cheque especial, crédito consignado, consignado, crédito para compra de veículos, motocicletas, todas as taxas de juros aumentam quando BC aumenta a taxa Selic”.

É importante destacar que, embora exista um Teto do Rotativo de 100% implementado pelo governo, ele só vale para dívidas contraídas a partir de janeiro de 2024. 

Isso explica por que a média de juros ainda é tão alta, já que o estoque de dívidas antigas continua sob as regras abusivas de outrora, asfixiando milhões de brasileiros.

Para enfrentar essa crise, o governo federal tem lançado mão de medidas para desafogar o orçamento das famílias:

  • Desenrola: Já promoveu a renegociação de R$ 53 bilhões em dívidas, beneficiando 15 milhões de pessoas.
  • Novo Programa de Reconciliação: Com foco em quem ganha até 3 salários mínimos, o programa prevê o perdão de até 80% das dívidas e refinanciamento do saldo com juros reduzidos.
  • Crédito do Trabalhador: Um robusto programa de consignado vigente desde 2025, que já movimentou R$ 117,1 bilhões, tentando oferecer uma alternativa ao crédito abusivo do varejo.

<><> Dicas Práticas de Sobrevivência Financeira

A educação financeira individual é um passo importante, mas ela não faz milagres diante de um sistema desenhado para concentrar renda.

A política de valorização do salário mínimo está no caminho correto, mas seu efeito é neutralizado pela “boca de jacaré” do sistema financeiro. É urgente que o Banco Central colabore com quedas consistentes e profundas nos juros e que haja uma regulamentação mais rígida contra os juros abusivos.

Sem essas mudanças estruturais, o suor do trabalhador brasileiro continuará servindo apenas para alimentar o lucro recorde dos bancos, enquanto o crescimento da economia segue sem chegar ao prato de quem mais precisa.

Para as famílias que estão no limite, a gestão financeira deve ser tática e analítica:

  1. Priorização Absoluta: O foco deve ser a soberania alimentar e as contas que geram interrupção de serviço (água, luz e gás). A alimentação da família e a manutenção do teto são inegociáveis.
  2. Troca de Dívida “Cara” por “Barata”: Se o endividamento no rotativo ou cheque especial é insustentável, buscar linhas como o consignado ou o novo “Crédito do Trabalhador” é o caminho. Contudo, fica o alerta: o consignado é uma ferramenta de alívio, mas não é milagrosa; as taxas ainda pesam e devem ser usadas com cautela extrema.
  3. Uso Estratégico de Programas Sociais: O Bolsa Família e o Gás para Todos não são apenas auxílios, são pilares de manutenção da alimentação mínima. Use-os para proteger o prato de comida enquanto renegocia as dívidas bancárias.

 

Fonte: BBC News Brasil/Jornal GGN

 

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