Como
a Hungria derrubou a ultradireita
“Conseguimos.
Libertamos a Hungria e recuperamos nosso país”, proclamou na noite de ontem, às
margens do Rio Danúbio, Peter Magyar, candidato do Tisza (Partido Respeito e
Liberdade), que acabava de vencer as eleições parlamentares do país. Dezenas de
milhares de pessoas, a maioria jovens, estavam reunidas para ouvi-lo. Magyar
derrotou Viktor Orban, que ocupou o posto de primeiro-ministro por 16 anos.
Nesse período, o país viveu uma sequência de contrarreformas políticas que
deformou o sistema eleitoral, subordinou o Judiciário ao partido governante (o
Fidesz) e corroeu direitos civis.
Liderado
por Magyar, um dissidente do orbanismo, o Tisza superou estas barreiras e está
próximo de formar uma maioria de dois terços no Parlamento, que se confirmada
lhe permitirá reverter as medidas autoritárias. Até a manhã de hoje, as
apurações asseguravam-lhe 137 cadeiras, contra apenas 55 do Fidesz. Nada menos
de 77% dos eleitores compareceram às urnas, um recorde absoluto no país e um
índice elevadíssimo para sistemas em que o voto não é obrigatório.
Embora
habitada por apenas 10 milhões de habitantes (metade da região metropolitana de
São Paulo), a Hungria tornou-se há anos um baluarte da extrema-direita. Orbán
foi participantes ativo das reuniões internacionais da CPAC (Conferência de
Ação Política Conservadora), que reuniram entre outros Donald Trump, Javier
Milei, Marine Le Pen e os Bolsonaro). Promoveu em março deste ano, em
Budapeste, um encontro europeu do agrupamento. “Estamos combatendo pela alma do
Ocidente, declarou na ocasião, investindo contra os não-brancos, os imigrantes,
o Islã e os movimentos LGBT+. Encontrou-se diversas vezes com Jair Bolsonaro,
que chegou a refugiar-se na embaixada húngara em Brasília numa das ocasiões em
que temeu ser preso. Recebeu, às vésperas da eleição deste fim de semana, uma
visita especial do vice-presidente dos EUA, J.D.Vance, que compareceu a
diversos atos de sua campanha. Num deles, Vance colocou ao vivo a voz de Donald
Trump, que cravou: “I love Orbán”. Foi inútil.
No
texto a seguir, publicado originalmente na revista digital espanhola Sin
Permiso, o sociólogo húngaro Imre Szijarto apresenta os desafios que o sistema
político e a sociedade civil húngara terão de superar, para se livrarem da
herança autoritária de Orbán. Relata os métodos do antigo primeiro-ministro.
Mostra como Magyar serviu-lhe uma dose de seu próprio veneno. Debate os dilemas
da esquerda, muito enfraquecida. E sustenta que só a mobilização social será
capaz de empurrar o país adiante, exigindo do novo governante – ele mesmo um
homem de centro-direita — que cumpra seu programa democratizador.
As
eleições de domingo finalmente destituíram Viktor Orbán do poder. As forças de
oposição uniram-se em torno do candidato da oposição, Péter Magyar, menos por
acreditarem em sua plataforma do que por desespero diante da deriva autoritária
do país.
Desde
que o partido de extrema-direita Fidesz, de Viktor Orbán, chegou ao poder com
uma vitória esmagadora em 2010, as instituições democráticas da Hungria têm
enfrentado pressão constante. Orbán chamou sua vitória de “revolução nas urnas”
e passou a desmantelar sistematicamente a maioria dos mecanismos institucionais
de controle do seu poder pessoal. Adotou uma nova Constituição. Colocou o
Tribunal Constitucional sob controle partidário, mudou o sistema eleitoral e
redesenhou os distritos eleitorais para dar ao seu partido uma vantagem
significativa.
Há
mais. Orbán usou seu poder político para enriquecer amigos e familiares,
consolidou a maior parte do mercado de mídia nas mãos de seus aliados,
transformou a TV pública em uma ferramenta de propaganda e instrumentalizou o
Estado para intimidar ONGs, acadêmicos, sindicatos e os remanescentes da
imprensa independente e silenciosa.
Embora
as eleições sejam tecnicamente livres, estão longe de ser justas. A distorção
sistemática do cenário político em favor do Fidesz resultou em três
supermaiorias consecutivas nas eleições parlamentares de 2014, 2018 e 2022.
Na
votação deste 12 de abril algo distinto ocorreu. Meses antes do pleito, as
pesquisas já prognosticavam a vitória da oposição. Magyar liderava também nas
casas de apostas, o que levou as autoridades a proibir a Polymarket, por
“facilitar jogos de azar ilegais”, logo no início da campanha. Em outro sinal
da indecisão das elites, caíram persistentemente, nas últimas semanas da
campanha, as ações negociadas em bolsa de empresas ligadas a Orbán e seu grupo.
Para
piorar a situação do então primeiro-ministro, uma série de escândalos abalou a
Hungria às vésperas da votação. Em dezembro, vídeos vazados revelaram casos
graves de abuso infantil em orfanatos estatais. Em fevereiro, veio à tona como
o governo permitiu que a Samsung expusesse trabalhadores a produtos químicos
tóxicos em uma fábrica de baterias. Alguns trabalhadores teriam sido obrigados
a trabalhar em turnos rotativos nas áreas mais contaminadas, uma prática que
lembra os trabalhos de limpeza na zona de exclusão de Chernobyl. Em março, um
integrante do Departamento Nacional de Investigação revelou um plano do serviço
secreto do país para infiltrar e enfraquecer o Partido Húngaro (Tisza de
Magyar) por meio de intimidação, chantagem e suborno.
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(Contra)populismo
A
ascensão meteórica de Magyar e do seu Partido Tisza transformou o panorama
político húngaro. Em 2024, o público soube que a presidente Katalin Novák havia
concedido indulto a um homem que cumpria pena de prisão por acobertar abuso
sexual infantil. Magyar ganhou destaque após divulgar uma gravação da sua
esposa, a ministra da Justiça, na qual outros políticos de renome estavam
envolvidos no escândalo.
Poucos
meses depois, o novo partido desse ex-membro do Fidesz, até então pouco
conhecido, conquistou quase 30% dos votos nas eleições europeias de 2024 e
contribuiu para o colapso quase total da fragmentada oposição liberal de
esquerda. O Magyar posicionou-se no centro-direita, adotou uma postura mais
pró-UE e pró-OTAN em política externa e uniu-se ao Partido Popular Europeu,
composto por partidos como a União Democrata Cristã Alemã, no Parlamento
Europeu.
O
Partido Tisza promete algo para cada bloco eleitoral, incluindo cortes de
impostos para contribuintes de baixa renda, aumento das aposentadorias e
pensões, manutenção dos populares incentivos fiscais de Orbán para famílias,
complementados por maiores transferências de renda, além de manter a disciplina
fiscal e evitar grandes déficits. Essas políticas deixariam os húngaros da
classe trabalhadora em melhor situação do que no cenário atual, mas, como o
aumento do imposto de renda para os mais ricos não está na agenda, elas também
manteriam o sistema tributário de Orbán, notoriamente regressivo, praticamente
intacto.
O
programa eleitoral de Tisza promete cortes de impostos, aumento das
transferências e melhoria dos serviços públicos. Sugere ainda que medidas
anticorrupção, um imposto sobre a riqueza dos 0,2% mais ricos, o confisco dos
bens ilícitos dos oligarcas e o acesso a fundos da UE atualmente congelados por
violações do Estado de direito tornarão essas políticas fiscalmente
sustentáveis. Magyar afirma transcender as polarizações tradicionais com
slogans populistas como “Não existe esquerda nem direita, apenas húngaros”. Se
o marxista húngaro G.M. Tamás ainda estivesse entre nós, provavelmente
repetiria sua citação favorita: “Quem não consegue decidir se é de esquerda ou
de direita, está de direita”.
A
ascensão do Magyar coincidiu com, e contribuiu para, o declínio fatal de
diversas formações liberais de esquerda. Muitos partidos menores, como o
Partido Socialista Húngaro, o Movimento Momentum (neoliberal), o Jobbik
(antigamente de extrema-direita), o Partido Verde e o Diálogo, do prefeito de
Budapeste, Gergely Karacsony, estão entre os afetados. O Partido Verde anunciou
que não participaria das eleições deste ano para aumentar as chances do Tisza
pôr fim ao longo governo de Orbán. Embora a maioria dos esquerdistas e liberais
tenha reservas em relação ao Tisza, a maioria dos principais formadores de
opinião liberais tende a reconhecer que esta não é uma eleição democrática
normal e que Magyar pode ser sua única chance de impedir uma deriva ainda maior
ao autoritarismo.
A
promessa de Magyar de restaurar os padrões democráticos básicos parece ser
suficiente para mobilizar liberais desesperados em torno dele, enquanto sua
retórica nacionalista lhe permite conquistar apoio entre eleitores socialmente
conservadores nos redutos rurais do Fidesz. Os dois pequenos partidos à
esquerda de Magyar que ainda estão em atividade são a Coalizão Democrática do
ex-primeiro-ministro Ferenc Gyurcsány, cujas políticas de austeridade
impopulares contribuíram diretamente para a primeira supermaioria de Orbán, e o
satírico Partido do Cão de Duas Caudas.
Em
muitos aspectos, o segredo do sucesso de Magyar reside em fazer Orbán “provar
do próprio veneno”, defendendo um novo estilo de populismo adaptado à era do
TikTok. Orador carismático, ele frequentemente evoca as lutas heroicas das
revoluções húngaras de 1848 e 1956, enquanto contrapõe os “húngaros comuns” à
elite cleptocrática de Orbán.
Inicialmente,
Magyar publicava vídeos curtos de si mesmo em situações cotidianas: na cozinha,
na academia ou na barbearia. No entanto, à medida que a campanha eleitoral se
aproximava, seu conteúdo passou a apresentar uma imagem mais de estadista.
Enquanto
Orbán cultiva o apoio de outros líderes antiliberais na região, como o
primeiro-ministro eslovaco Robert Fico, Magyar retrata isso como uma traição às
minorias de língua húngara nos países vizinhos, apresentando-se como um
nacionalista mais credível do que Orbán. Em relação à imigração, o Tisza
promete manter políticas restritivas, incluindo a cerca de arame farpado ao
longo da fronteira sul da Hungria, mas critica o governo por permitir que
empresas multinacionais contratem trabalhadores migrantes de fora da UE com
vistos temporários.
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Sociedade civil e mobilização de massas
A atual
oportunidade de democratização da Hungria não decorre apenas de mudanças na
política partidária. Depende também da capacidade da sociedade civil de se
mobilizar, tanto para evitar manipulação eleitoral quanto para garantir que
Magyar cumpra sua palavra quando estiver no poder. Mobilizações em massa já
desempenharam um papel significativo na criação do cenário que levou à derrota
de Orbán. Em março de 2025, já em declínio nas pesquisas, o governante anunciou
uma ampla repressão aos remanescentes da mídia independente e da sociedade
civil na Hungria. Ele também alertou os organizadores da Parada do Orgulho LGBT
de Budapeste que qualquer dinheiro ou esforço gasto no evento do ano seguinte
seria um desperdício.
O
efeito desses anúncios foi o oposto do que o governo pretendia. Em vez de
aterrorizar os atores da sociedade civil e forçá-los à submissão, o espectro de
uma deriva rumo a uma autocracia aberta os revigorou. A mobilização subsequente
obrigou o governo a reconsiderar sua prometida “limpeza de primavera”.
Para
piorar ainda mais a situação para o governo, a Parada do Orgulho LGBT de
Budapeste não só aconteceu apesar da proibição oficial e das ameaças, como se
tornou uma das maiores manifestações públicas da história recente da Hungria.
Embora
a proibição da parada provavelmente tivesse como objetivo pressionar Magyar a
tomar uma posição sobre uma questão controversa, ele se manteve fora da
polêmica, permitindo que o prefeito do Partido Verde, Karácsony, assumisse a
liderança para tornar a proibição de Orbán inexequível.
A
importância dessa participação massiva vai muito além de uma demonstração de
solidariedade com a comunidade LGBTQ+ da Hungria. Líderes autoritários têm
fortes incentivos para se manterem no poder a qualquer custo, especialmente em
uma cleptocracia como a Hungria, onde a perda do controle do sistema judiciário
poderia expor as elites corruptas a processos criminais. Nesse contexto, a
marcha também sinalizou que qualquer tentativa de subverter as eleições seria
uma aposta arriscada, que poderia não dar certo, principalmente para aqueles
com fundos substanciais em contas bancárias no exterior.
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A estrada traiçoeira à frente
Apesar
da conjuntura favorável de uma oposição forte e uma sociedade civil mobilizada,
o caminho da Hungria para a democratização permanece estreito e traiçoeiro. O
campo de Orbán recorreu a artimanhas sujas por desespero.
Magyar
alertou o público de que um kompromat ao estilo russo poderia
ser usado contra ele. Ele suspeita que alguém o filmou secretamente em uma
situação íntima. No atual clima geopolítico, táticas de intimidação sobre a
escalada da guerra na Ucrânia foram também ensaiadas, para levar parte dos
eleitores a apoiar o governo. O Fidesz divulgou um vídeo gerado por
inteligência artificial que retratava a execução pública de prisioneiros de
guerra, insinuando que a Hungria poderia envolver-se no conflito caso os eleitores
levassem um novo governo ao poder.
No
domingo de Páscoa, uma semana antes da votação, as autoridades sérvias
alegadamente descobriram um plano para explodir um gasoduto crucial para o
abastecimento energético da Hungria. Tanto Magyar como um antigo agente de
contraespionagem sugeriram que a ameaça à segurança, convenientemente
cronometrada, poderia ser uma operação de falsa bandeira destinada a dar a
Orbán uma vantagem de última hora.
Embora
em grande parte isolado dentro da UE, Orbán ainda conta com aliados poderosos
no exterior, de Moscou a Washington. A Conferência de Ação Política
Conservadora (CPAC) deste ano, na Hungria, reuniu figuras importantes da
extrema-direita internacional, como Javier Milei, Alice Weidel, Eduardo
Bolsonaro e Geert Wilders. Donald Trump assegurou a Orbán seu “apoio total e
irrestrito”; Benjamin Netanyahu agradeceu-lhe por “defender a civilização
ocidental contra essa onda de muçulmanos radicais e fanáticos”. JD Vance chegou
a visitar a Hungria apenas cinco dias antes da eleição para apoiar Orbán,
alertando também para uma possível interferência de “Bruxelas”.
Mesmo
com uma mudança de governo, a democratização está longe de ser garantida.
Reverter a maioria das mudanças antidemocráticas introduzidas por Orbán exigirá
uma supermaioria parlamentar. Um novo governo também terá que governar ao lado
de milhares de apoiadores do Fidesz profundamente enraizados em instituições em
todos os níveis da administração estatal.
Os
primeiros resultados sugerem que uma supermaioria para o Tisza não é
impossível. Tal resultado permitiria ao novo governo implementar as reformas
institucionais necessárias para restabelecer o Estado de Direito, como a
restauração da independência dos tribunais superiores, a remoção de nomeações
políticas do sistema judicial que atualmente garantem a impunidade de agentes
corruptos e a adesão à Procuradoria Europeia. Contudo, também poderia levar
Magyar a tentar assumir o controle da mesma estrutura de poder construída por
Orbán e a estabelecer-se como o próximo líder autoritário da Hungria.
Neste
clima de incerteza, as organizações da sociedade civil que impediram a Hungria
de deslizar para um cenário “bielorrusso” em 2026 devem permanecer vigilantes.
Elas precisarão pressionar o governo húngaro a implementar as reformas
aprovadas pelos eleitores.
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Um momento de risco e oportunidade
As
próximas semanas reservam riscos significativos e oportunidades históricas para
os democratas húngaros. A saída de Orbán não será uma vitória para a esquerda.
No entanto, é um duro golpe para a extrema-direita global e pode oferecer uma
esperança muito necessária aos cidadãos de democracias fragilizadas em todo o
mundo.
Fonte:
Por Imre Szijarto, no Sin Permiso | Tradução: Antonio Martins, em Outras
Palavras

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