quinta-feira, 16 de abril de 2026

A França de Macron e a encruzilhada política da única potência nuclear da Europa Ocidental

Nas últimas semanas, o presidente francês Emmanuel Macron deu declarações descoordenadas sobre o quadro do Oriente Médio, sempre tomando o cuidado de tomar a posição ocidental. Macron – que muito fala, mas nada diz – deixará de ser presidente do seu país no ano que vem, enquanto na última semana viu eleições municipais mandarem sinais trocados: nada radicalmente diferente de 2020, ano do último pleito, mas com algumas nuances. Ainda assim, o público brasileiro se concentrou nas eleições das grandes cidades francesas, que pouco ou quase nada dizem. Os quase 70 milhões de franceses vivem em cidades pequenas. Paris tem pouco mais de dois milhões de habitantes – e caindo! – e é a única cidade com mais de um milhão de habitantes – Marselha gira em torno de 870 mil almas, para se ter uma ideia. E, nas cidades com menos de 100 mil habitantes, a vida tem dramas diferentes.

A França que emergiu das urnas basicamente viu a direita comum ter uma excelente votação, acima do centro e da esquerda, mas muitos leram o resultado pífio da extrema direita como um alento para as presidenciais de 2027. Isso, no entanto, nos parece um erro. Na França, como no Brasil, eleições municipais possuem dinâmicas diferentes do nacional. No caso francês, eleitores tendem menos aos polos em escala local.  Há seis anos, a participação eleitoral foi bem menor, com 44,66% versus os atuais 57%. A França estava muito menos polarizada, com 25% dos eleitos para chefiar o poder local classificados como “sem rótulo”, diferentemente do momento atual. No cenário da última semana, as esquerdas saíram de um quarto dos votos para cerca de um terço, mas as direitas, ainda que a de setores moderados, cresceram, chegando a quase 40%.  O que isso quer dizer?

<><> A França polarizada

Primeiramente, o cenário municipal não muda o fato de que a extrema direita francesa segue na liderança das próximas eleições presidenciais, muito mais forte do que em 2022. Com seu sistema político caótico, os franceses elegem suas lideranças locais a cada seis anos, enquanto as presidenciais são a cada cinco anos. Dito isso, as últimas municipais, em 2020, mostraram um quadro muito menos radicalizado do que as presidenciais de 2022.  Nada mudou muito radicalmente entre 2020 e 2022, e salvo um agravamento da situação mundial, nada deve mudar tanto assim entre 2026 e 2027; apenas que talvez o cenário nacional francês influa mais sobre o local do que o contrário – no que o país europeu talvez se pareça com o Brasil. Mas as direitas avançaram e os eleitores que consignaram apoio nas urnas a algum conservador democrático podem, muito bem, votar na extrema direita no ano que vem.

Em Paris, é verdade, pouco ou nada mudou com a centro-esquerda socialista vencendo. Mas essa hegemonia estabelecida desde o início deste século não tem se repetido em escala francesa. Em 2022, apesar da candidata presidencial socialista ser a própria prefeita parisiense reeleita, a socialista Anne Hidalgo, ela teve apenas pouco mais de 2% dos votos, ficando em uma vexatória sexta colocação na capital francesa. Nacionalmente, boa parte dos eleitores socialistas nas municipais de 2020 preferiram o centro liberal com Macron ou a esquerda radical de Jean-Luc Mélenchon. Depois disso, nas eleições legislativas seguintes, seja em 2022 ou naquelas convocadas pela dissolução da Assembleia Nacional por Macron em 2024, as esquerdas resolveram se reunir em um único bloco, criando uma divisão em três no parlamento. De lá para cá, Macron impôs primeiros-ministros, apesar de seu bloco parlamentar ser o menor dos três, e da esquerda ter maioria relativa. As pesquisas mostram que a extrema direita se fortaleceu de 2024 para cá e, independentemente dos resultados de 2026, ela avançaria mais ainda no parlamento, passando de quase 30% para cerca de 36% do total, roubando votos da direita tradicional e mesmo do centro.  

<><> O que a extrema direita francesa diria? E para onde a França vai?

Enquanto Macron foi pérfido com o genocídio dos palestinos, é ambíguo com Donald Trump, declarando, em particular, apoio à jornada anti-Irã do atual presidente americano, mas sem enviar suas tropas para o Oriente Médio – muito embora o posicionamento revelado, de forma desastrada, do Charles de Gaulle, indique que ele mantém sua marinha dando algum tipo de apoio a americanos e israelenses.

A extrema direita francesa, no entanto, se reinventou nos últimos anos ao abrandar excessos retóricos, enquanto se mantém contra imigrantes, busca narrativas democráticas para sua islamofobia, mas abandona um certo ideário desenvolvimentista para a economia, enquanto flerta com neoliberais para gerir a economia. A burguesia francesa, que antes via com um misto de desprezo e medo seus fascistoides, hoje achou um espaço para ela. O mais importante é que Marine Le Pen, antes candidata do seu partido e hoje inelegível, agora flerta com Israel, em uma ironia muito bizarra e curiosa que parece se repetir entre a extrema direita europeia. Já a esquerda francesa parece ser incapaz de se unir para o que importa, as presidenciais, mas fatores geopolíticos contam bastante, com os socialistas e alguns verdes defendendo de forma moderada, ou não se opondo, à barbárie ocidental no Oriente Médio.

O macronismo está rachado entre sua ala mais liberal e moderna, e um certo conservadorismo moderado liderado por Édouard Philippe, prefeito reeleito de Le Havre e ex-premiê sob a presidência de Macron – que procura se apresentar, no entanto, como nem de esquerda nem de direita, e tampouco de centro, em uma fórmula tão manjada quanto universal das eleições das democracias representativas.

Com a política de cerco e pressão sobre a Rússia em frangalhos – sobretudo pela dependência agora redobrada da energia russa para a Europa –, e os avanços nacionais contra as práticas neocoloniais em África, a França, cuja importância para o mundo contemporâneo é central, parece em compasso de espera para uma grande tempestade. Só resta a voz digna de Mélenchon, o último dos tribunos do povo a talvez espernear contra o inevitável. 

¨      Países da OTAN não são parceiros, mas dispensáveis para EUA, reconhece político francês

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, não quer mais garantir a viabilidade da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), disse à mídia Philippe de Villiers, ex-deputado francês do Parlamento Europeu.

Villiers salientou que os Estados Unidos consideram os países-membros da OTAN apenas como peças descartáveis.

"A OTAN está à beira da morte e precisamos explicar o motivo. Como o pai fundador não deseja mais essa união, ele não reconhecerá seu filho. A OTAN, porém, é seu filho, filho dos EUA, criado para escravizar a Europa", ressaltou.

Segundo ele, um dos motivos da virada de Trump foi a deterioração de suas relações com as elites europeias, em particular com a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen.

Nesse contexto, o ex-deputado apontou que alguns eventos se tornaram fatais ou desastrosos para a OTAN.

Conforme detalhou o político, houve um "jogo de golfe" com Ursula von der Leyen, que o aplaudiu com seu clube, mas em quem ele agora está batendo, impondo taxas alfandegárias.

Em outras palavras, Villiers concluiu que os países da OTAN não são mais parceiros, mas sim dispensáveis para Washington.

Em meio ao conflito no Oriente Médio, a OTAN enfrenta uma grave crise. Trump chamou a OTAN de "tigre de papel" sem os Estados Unidos e criticou duramente os aliados do bloco militar por não apoiarem Washington no confronto com Teerã.

A Alemanha e a França também se recusaram a participar de operações para desbloquear o estreito de Ormuz, e a chefe da diplomacia europeia, Kaja Kallas, afirmou que os países da União Europeia não estão prontos para enviar uma frota para a região.

De acordo com o chefe do Ministério da Guerra dos EUA, Pete Hegseth, Trump decidirá sobre o futuro da OTAN após o fim do conflito com o Irã.

¨       OTAN pode chegar ao fim nos próximos 10 anos, diz ex-chefe do bloco

A Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) não existirá necessariamente para sempre, e não é um fato que a aliança ainda existirá daqui a dez anos, disse à mídia dinamarquesa o ex-chefe da OTAN Jens Stoltenberg.

Stoltenberg lembrou que em 2018, durante seu primeiro mandato, o presidente dos EUA, Donald Trump, ameaçou retirar o país da OTAN.

"Não é um fato que a OTAN estará sempre presente. Ela não permanecerá necessariamente nos próximos dez anos", ressaltou.

Nesse contexto, ele salientou que, durante a primeira presidência de Trump, os Estados Unidos permaneceram na OTAN, mas isso não se repetirá necessariamente desta vez. Além disso, o funcionário enfatizou que ninguém pode dizer com certeza qual é a probabilidade de os EUA se retirarem da OTAN.

No entanto, Stoltenberg concluiu que, quando o presidente norte-americano faz tais declarações, elas devem ser levadas a sério. No dia 1º de abril, Trump anunciou que estava considerando seriamente retirar o país da OTAN, depois que a aliança se recusou a ajudar Washington em sua operação contra o Irã.

Ele chamou a reação dos aliados ao pedido relevante de "mancha indelével" e ressaltou que os Estados Unidos não precisam da ajuda dos países da OTAN, que, segundo ele, estão fazendo de tudo para não a fornecer.

¨      Ataque da Ucrânia atinge estrutura petrolífera ligada aos EUA, afirma Rússia

Suspensas as negociações trilaterais para pôr fim às hostilidades, enquanto o mediador, Estados Unidos, segue afundado em sua agressão contra o Irã, a guerra travada por Rússia e Ucrânia continua seu curso.

Na madrugada de 6 de abril, a Rússia atacou com mísseis e drones várias regiões da Ucrânia, com bombardeios concentrados nas regiões de Dnipropetrovsk e Kharkiv. No porto de Odessa, um míssil ou fragmento do mesmo atingiu um edifício residencial, causando a morte de três pessoas e 17 feridos. Os projéteis russos também caíram sobre a cidade de Sloviansk, o que segundo especialistas seria parte dos preparativos para um dos pontos-chave da ofensiva das tropas russas nos próximos meses.

A Ucrânia, por sua vez, lançou drones contra os portos do território russo de Krasnodar: Novorossiysk, Anapa, Gelendzhik e Sochi, na costa do mar Negro. Segundo o governador de Krasnodar, Veniamin Kondratiev, seis edifícios multifamiliares e duas casas sofreram danos, resultando em oito pessoas feridas. “Caíram fragmentos de drones abatidos em algumas empresas”, acrescentou.

<><> Guerra de informação por ofensiva contra-petrolífera

Uma das infraestruturas petrolíferas do porto de Novorossiysk tornou-se, no dia 6 de abril, o principal alvo dos ataques ucranianos, em meio a informações confusas sobre qual instalação foi atingida.

O Ministério da Defesa russo informou que a Ucrânia atacou instalações do Consórcio de Gasodutos e Oleodutos do Cáspio. Formado por Rússia (31% das ações), Cazaquistão (21%) e, o restante, por empresas privadas, entre elas a estadunidense Chevron (com 15%), o consórcio administra cerca de 80% do petróleo que o Cazaquistão exporta.

“O regime de Kiev atacou de forma deliberada as instalações da empresa internacional de transporte de petróleo, Consórcio de Gasodutos e Oleodutos do Cáspio, com o objetivo de infligir o máximo dano econômico a seus principais acionistas: empresas dos Estados Unidos e do Cazaquistão”, indicou a pasta russa em comunicado. O governo do Cazaquistão assinalou, porém, que “como resultado do incidente, o volume de exportação de petróleo” cazaque não foi afetado.

De acordo com Olga Stefanishina, embaixadora ucraniana em Washington, citada pela imprensa de seu país, em janeiro passado a Casa Branca pediu a Kiev que não bombardeasse infraestruturas energéticas onde houvesse “interesses estadunidenses”.

O comando militar da Ucrânia sustenta que seus projéteis atingiram o terminal petrolífero Shejsaris, no mesmo porto de Novorossiysk, que é utilizado pela empresa russa TransNeft, acompanhando seu relatório com vídeos que mostram um grande incêndio. Um agente do Serviço de Segurança Ucraniano assegurou à agência Reuters que seis das sete plataformas do terminal Shejsaris sofreram danos, assim como o centro do sistema de dutos e a estação de medição.

Além disso, o comandante-chefe das forças de aeronaves e navais não tripuladas do exército ucraniano, Robert Brovdi, afirmou ter atingido a fragata lançadora de mísseis Almirante Makarov, o navio de guerra russo mais importante na região desde o afundamento, em abril de 2022, do Moskva, até então o navio-insígnia da Marinha russa no mar Negro. O Ministério da Defesa não confirmou a informação.

O mesmo funcionário ucraniano disse que foi destruída uma plataforma marítima de extração de gás, em um ataque de acordo com a estratégia de Kiev de minar as capacidades de refino, armazenamento e exportação tanto de gás quanto de petróleo, que constituem sua principal fonte de receitas para financiar sua “operação militar especial”.

¨      Putin oferece ao Irã mediação da Rússia para solução diplomática com EUA-Israel

Ao falar por telefone no dia 12 de abril com seu homólogo iraniano, Masoud Pezeshkian, o presidente da Rússia, Vladimir Putin, “reiterou a disposição de Moscou de seguir contribuindo para a busca de uma solução política e diplomática para o conflito”, provocado pela agressão dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã. Além disso, segundo o comunicado divulgado pelo escritório de imprensa do Kremlin, o mandatário russo se dispôs a “realizar esforços de mediação no interesse de estabelecer uma paz justa e duradoura no Oriente Médio”.

“Com esse propósito, a Rússia continuará de modo ativo os contatos com todos os seus parceiros na região”, acrescentou Putin.

Por sua vez, o presidente do Irã declarou: “Ao comentar as negociações entre Irã e Estados Unidos que ocorreram em Islamabad em 11 de abril, expressou seu reconhecimento pela posição de princípios da Rússia, no âmbito internacional, para alcançar uma desescalada da situação”. Pezeshkian “também agradeceu a ajuda humanitária concedida pela Rússia ao povo iraniano.”

Os presidentes “se mostraram favoráveis a continuar fortalecendo todos os aspectos das relações de boa vizinhança entre Rússia e Irã.”

Pezeshkian felicitou Putin e todos os cristãos ortodoxos da Rússia, por ocasião da Páscoa, que foi celebrada na nação russa no dia 12 de abril.

 

Fonte: Opera Mundi/Sputnik Brasil/Diálogos do Sul Global

 

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