Restaurantes
brasileiros são os únicos da América Latina com três estrelas Michelin
Na
edição mais recente do Guia Michelin, anunciada na segunda-feira (13/4/2026), o
Brasil alcançou um feito inédito na região: os restaurantes Evvai e Tuju, ambos
em São Paulo, se tornaram os primeiros da América Latina a receber três
estrelas — a classificação máxima da publicação francesa.
Segundo
o guia, a conquista representa um "marco" para a gastronomia
brasileira e latino-americana, posicionando os estabelecimentos como
referências globais e consolidando o país no topo da alta cozinha no
continente.
Mas,
afinal, o que significa chegar a esse nível — e o que faz um restaurante
conquistar uma estrela Michelin?
A
distinção, cercada de prestígio e também de mistério, ganhou espaço até na
cultura pop recente. Na nova temporada da Emily in Paris, por exemplo, o arco
do chef Gabriel gira em torno da ambição de conquistar uma estrela para o seu
restaurante. Do filme The Menu à série The Bear, produções recentes exploram a
pressão e o simbolismo por trás dessa consagração.
"Mesmo
para nós, o Guia Michelin é um tanto obscuro", afirma Julia Sedefdjian – a
mais jovem chef da França a receber uma estrela Michelin, aos 21 anos.
"Não é como se tivéssemos uma grade de avaliação à nossa frente."
Mas,
considerando o silêncio e o anonimato dos inspetores do guia, talvez as
melhores pessoas para fornecer uma noção do que realmente é preciso para ganhar
uma estrela Michelin sejam os próprios chefs.
O Guia
Michelin surgiu humildemente em 1900, como um guia gratuito para os clientes
dos pneus Michelin. Ele indicava postos de gasolina, hotéis e restaurantes.
A
hierarquia das três estrelas surgiu apenas em 1931. Uma estrela indicava
estabelecimentos que, segundo a publicação, valiam a pena serem visitados. Duas
estrelas recomendavam desviar do caminho até eles e três estrelas significavam
que eles valiam toda uma viagem.
O guia
atual é cercado de mistério. Um número não divulgado de inspetores analisa mais
de 40 mil restaurantes, em mais de 30 países.
Somente
a França tem 639 restaurantes com estrelas Michelin. Destes, 75 têm duas
estrelas e apenas 30 ostentam as três estrelas.
Os
nebulosos critérios de concessão das estrelas aos restaurantes são mais claros
para o chef Maxime Bouttier. Ele trabalhou por 15 anos em cozinhas estreladas
de toda a França, além do frugal Les 110 de Taillevant, em Londres.
"Sei
como você pode conseguir uma estrela", disse o chef. Ele ganhou a primeira
estrela pouco depois de abrir seu próprio restaurante em Paris, o Géosmine, em
março de 2024.
Ele
menciona alguns "códigos", como toalhas de mesa brancas e música
suave de piano ao fundo. São itens que alguns restaurantes procuram atender.
Quando
Sedefdjian abriu, também em Paris, seu restaurante estrelado Baieta, em 2018, a
chef investiu de propósito em belas louças e um estoque de vinhos compatível na
adega. Ela chegou a abrir o restaurante no mesmo lugar onde, antes, ficava o
restaurante Itinéraires, que recebeu a estrela Michelin.
Mas a
jornada de Sedefdjian em busca do estrelato começou muito antes, quando ela
tinha apenas 14 anos. Ela cursava a escola de culinária e trabalhava como
estagiária no restaurante fino l'Aphrodite, quando ele ganhou sua primeira
estrela.
"Eu
vi o que era ter um chef que havia esperado pela sua estrela por anos, até
finalmente conseguir", relembra ela. "É algo mágico. Eu me lembro
como se fosse ontem e a estrela nem era minha."
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Sigilo total
Especialistas
do setor de restaurantes podem ter suspeitado da revelação de que a
"inspetora" Marianne era uma impostora, na quarta temporada de Emily
em Paris. Afinal, quando o assunto é uma inspeção do Michelin, os chefs são
sempre mantidos no escuro.
"Nós
nunca sabemos da visita dos inspetores", afirma Sedefdjian. "Quando
eles se apresentam, isso só ocorre depois que eles comeram. E frequentemente –
muito frequentemente – eles não se apresentam."
Mas
existem algumas indicações retratadas quase à perfeição no filme Pegando Fogo
(2015). Nele, o gerente do restaurante comenta com o chef alguns comportamentos
estranhos. Ele fala de dois clientes, um deles pedindo o menu degustação e o
outro, à la carte. Eles também pediram uma meia garrafa de vinho e – o mais
importante – colocaram um garfo no chão.
"Nós
costumávamos dizer que eles colocavam talheres no chão para ver se o garçom os
retirava rapidamente", conta Sedefdjian.
Os fãs
de O Urso suspeitam que a série brincou com a mesma ideia na terceira
temporada, quando Richie observa um garfo no salão de jantar.
Mas, no
Baieta, não houve garfo. Na verdade, se aquele cliente solitário na casa dos 40
anos não tivesse se apresentado após o jantar, Sedefdjian não teria ficado
sabendo da sua visita.
"Você
sempre acha que será uma pessoa mais idosa com um caderninho de
anotações", ela conta.
Depois
da inspeção, a maioria dos chefs toma conhecimento da situação das suas
estrelas em uma cerimônia rodeada de publicidade. Mas, para os novos
restaurantes, Sedefdjian conta que "alguém do guia liga para informar
você".
A chef
descreve sua expectativa à medida que se aproximava a data da cerimônia:
"Eu comecei a dizer para mim mesma: 'Não é possível. Eles não vão ligar.
Eles nunca vão ligar.'"
Até
que, um dia antes da cerimônia, um número desconhecido surgiu no seu telefone.
"Meu
coração começou a acelerar", ela conta. "Era alguém do guia, ligando
para dizer: 'Quero informar você que a sua estrela irá brilhar
novamente.'"
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Novos padrões
Bouttier
também começou seu caminho rumo ao estrelato aos 14 anos.
Quando
ele declarou seu desejo de cozinhar profissionalmente, sua mãe o pressionou
para que frequentasse a escola de hotelaria.
"É
muita teoria, sentado em uma cadeira", ele conta. "Se eu queria ficar
na cozinha, era porque eu estava cansado de ficar na cadeira!"
Eles
então chegaram a um acordo. Bouttier iria procurar um estágio em um restaurante
estrelado. Quinze anos depois, ele abriu o Géosmine, sabendo que queria uma
estrela – mas no seu estilo.
"Não
temos toalhas de mesa", afirma ele. "Nossos garçons calçam botas.
Nossa trilha sonora é de raps dos anos 80. Nada parecido com que deveríamos ter
feito para conseguir uma estrela."
Ainda
assim, Bouttier ganhou uma estrela menos de um ano depois da abertura do
restaurante, em abril de 2023.
Sua
experiência não é um caso único, segundo a chef formada, instrutora de
culinária e guia gastronômica Allison Zinder.
"O
que observei nos últimos 10 anos é um enfoque muito maior nos ingredientes, nas
técnicas e no que está no prato do que nos pratos em si", segundo ela.
"Ficou muito mais simplificado. É menos questão de toalhas de mesa."
No
badalado 11º arrondissement (bairro) de Paris, Bouttier segue os passos dos
seus vizinhos pioneiros – como Bertrand Grébaut, dono do restaurante Septime.
Ele ganhou sua primeira estrela em 2014, com garçons de tênis e aventais azuis.
Outro
exemplo é o chef Iñaki Aizpitarte. Sua estrela de 2018 no restaurante Le
Chateaubriand foi conquistada sem nenhuma toalha de mesa à vista.
Os
pratos evoluíram para além do que Bouttier classificava de "demonstração
de técnica". Neles, muitas vezes, "você nem mesmo reconhecia o
ingrediente original".
Em vez
disso, as mesas atualmente com estrelas Michelin oferecem "pratos muito
mais rústicos, com muito mais cozinha por trás deles", segundo o chef.
"Muitos
molhos, muitas preparações preliminares, mas, no prato, o visual parece muito
mais simples. Muito mais acessível."
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Reviravolta
Para os
donos de restaurantes, ganhar uma estrela Michelin pode virar a mesa da noite
para o dia.
O
l'Aphrodite fechou temporariamente para transformar sua cozinha corredor em uma
grand cuisine. Já Maxime Bouttier simplificou seus pratos em um único menu de
preço fixo. Mas as mudanças mais palpáveis estavam além do seu controle.
"Temos
agora uma clientela estrelada, que é muito mais barulhenta", segundo ele.
O chef relembra, por exemplo, clientes que ficaram horrorizados quando souberam
que não poderiam trazer "cães do tamanho de vacas" para jantar.
Para
Julia Sedefdjian, a principal mudança é de mentalidade: "ela traz um tipo
diferente de disciplina".
O Urso
e Pegando Fogo mostram os possíveis prejuízos deste tipo de ambiente para a
saúde mental e o estilo de vida.
"Você
precisa fazer muitos – muitos – sacrifícios", afirma Bouttier. Ele
reconheceu que sua própria natureza meticulosa o transformou em uma pessoa com
quem "não é fácil trabalhar".
Nos
últimos anos, os chefs observaram maior atenção aos ingredientes e técnicas do
que à atmosfera dos restaurantes na avaliação para o Guia Michelin.
"Tenho
apenas 32 anos, mas meu estilo de administração é da escola antiga", ele
conta. "Se você entra às oito horas, você está na cozinha às oito horas.
Se você quiser tomar café e se trocar, você chega às 7h40."
A
pressão só é superada pelo próximo objetivo de Bouttier: a segunda estrela
Michelin.
Para
chegar lá, ele acredita que irá precisar contratar mais funcionários e renovar
sua cozinha. Ele vai reduzir o número de clientes de 30 para 22, o que
significa aumento de preços. Mas vai valer a pena.
"Todos
os lugares onde me diverti enquanto jantava, na minha vida, eram lugares com
duas estrelas", afirma Bouttier. E ele destaca que, como chef, duas
estrelas ainda deixam espaço para crescimento. Mas, "se você tiver três
estrelas, poderá perder todas".
O
contraponto à alegria de ganhar uma estrela Michelin é a dor de perder uma
delas.
A
possível perda da sua terceira estrela Michelin foi mencionada como uma
possível motivação para a morte do chef Bernard Loiseau por suicídio, em 2003.
E, depois de perder sua terceira estrela Michelin em 2019, o chef Marc Veyrat
exigiu sua exclusão completa do guia.
Por
isso, talvez não seja surpresa observar que o chef Gabriel de Emily em Paris
(atenção: spoiler!) fica tão aliviado ao saber, na quarta temporada, que ele
não ganhou sua estrela, afinal.
Os
chefs destacam que a conquista de uma estrela Michelin pode ser fruto de uma
grande dose de pressão.
"Sempre
fui motivada [pela pressão]", afirma Sedefdjian. "Mas posso entender
por que existem chefs por aí que dizem que os obstáculos são grandes
demais."
Para
Bouttier, o segredo é manter tudo em perspectiva. Para ela, os chefs que ficam
cegos pelas estrelas "são pessoas que esquecem sua identidade. Eles irão
cozinhar por anos apenas para ter aquela estrela, esquecendo todo o
resto."
Mas os
dois jovens chefs mantêm sua integridade culinária em primeiro lugar.
"A
estrela é uma recompensa pela disciplina e pela qualidade do trabalho e isto é
o que importa, segundo Bouttier. "É o caminho que leva você até a estrela,
não a estrela em si."
"Nós
cozinhamos como queremos cozinhar", acrescenta Sedefdjian. "Temos que
gostar disso, nossos clientes têm que gostar disso. E, se o Michelin gostar,
melhor ainda."
Fonte:
BBC Travel

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