Estudo
descobre proteína que protege células de defesa e evita inflamações
Estudo
conduzido por pesquisadores da USP (Universidade de São Paulo) identificou um
mecanismo fundamental para a sobrevivência e função das células de defesa,
revelando como os linfócitos T preservam seu material genético mesmo sob
condições extremas de estresse oxidativo, estado que normalmente causaria danos
severos ao DNA.
A
investigação demonstrou que a proteína XPC, que atua diretamente em reparo de
lesões no genoma, também desempenha um papel central no processo de
diferenciação dos linfócitos. A descoberta amplia a compreensão sobre o
funcionamento do sistema imunológico e abre novas frentes de pesquisa para o
estudo de doenças autoimunes, infecciosas e câncer.
O
estudo – apoiado pela FAPESP e publicado na Nature Communications – foi
coordenado pelo professor Niels Olsen Saraiva Câmara, do Departamento de
Imunologia do Instituto de Ciências Biomédicas da USP.
O
trabalho contou ainda com a colaboração de cientistas das universidades
federais do Rio de Janeiro (UFRJ), de Goiás (UFG) e de São Paulo (Unifesp), das
universidades de Mainz e Rostock, na Alemanha, e da Harvard Medical School, nos
Estados Unidos.
No
estudo, os pesquisadores investigaram os linfócitos T, células que circulam
continuamente pelo organismo em busca de ameaças. Quando reconhecem estruturas
de microrganismos — os chamados antígenos —, são ativados e passam por um
processo intenso de multiplicação e especialização, formando um “exército” de
células. Entre elas, estão as Th17.
As
células Th17 são fundamentais na defesa contra bactérias e fungos,
especialmente em superfícies como intestino e pele. “Elas produzem uma proteína
chamada IL-17, que atua como mensageira entre as células do sistema
imunológico. Essa proteína promove a inflamação, ajudando o organismo a
combater essas infecções”, explica Jefferson Antônio Leite, primeiro autor do
estudo, cujo doutorado foi orientado por Câmara.
Apesar
de essenciais para a defesa do organismo, as células Th17 também podem causar
problemas. Quando a produção de IL-17 é excessiva ou desregulada, ocorre uma
inflamação exacerbada, que promove doenças autoimunes. Leite cita como exemplos
a psoríase, o diabetes tipo 1 e as doenças inflamatórias intestinais, como a
colite ulcerativa e a doença de Crohn.
Tanto
no combate a infecções quanto no contexto dessas doenças, essas células passam
por um processo de multiplicação acelerada. Como consequência, acumulam danos
causados por radicais livres (estresse oxidativo).
“Até
então, não se sabia como essas células lidavam com o estresse oxidativo gerado
durante sua ativação. O que mostramos é que as células Th17 utilizam uma
proteína de reparo de DNA, chamada XPC, para controlar esse estresse. Quando as
células não têm a XPC, elas acumulam mais dano no DNA e não conseguem se tornar
uma célula Th17 funcional”, afirma o pesquisador.
As
células Th17 são naturalmente pró-inflamatórias. Ou seja, quando funcionam
corretamente, promovem inflamação como parte da resposta de defesa do
organismo.
Em um
modelo experimental de inflamação intestinal, camundongos com esse sistema de
reparo de DNA funcional desenvolveram colite, pois suas células Th17 estavam
ativas e capazes de induzir inflamação. Já os animais sem a proteína XPC não
apresentaram inflamação, porque essas células não conseguiam se diferenciar nem
funcionar adequadamente. Na prática, isso indica que o reparo de DNA é
fundamental para que essas células cumpram seu papel pró-inflamatório.
Além
disso, a ausência da proteína XPC levou essas células a adquirir
características de linfócitos T reguladores (Treg) – um tipo celular que ganhou
destaque recente com o Prêmio Nobel de Fisiologia ou Medicina de 2025. Ao
contrário das Th17, as Treg exercem um papel anti-inflamatório, ajudando a
conter respostas imunes exacerbadas. “Os linfócitos Th17 têm alta plasticidade.
Dependendo do microambiente, podem deixar de produzir IL-17 e passar a produzir
citocinas anti-inflamatórias”, explica Leite.
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Doença genética rara
A
proteína XPC já era conhecida no contexto do xeroderma pigmentoso, uma doença
genética rara e hereditária. Pacientes com essa doença possuem mutações que
impedem o funcionamento dessa proteína de reparo de DNA, o que os torna
extremamente suscetíveis ao câncer de pele por causa dos danos causados pela
radiação ultravioleta da luz solar.
“Os
danos no DNA podem gerar mutações que, por sua vez, levam ao câncer. Por isso,
pacientes com xeroderma pigmentoso desenvolvem muitos tumores nas regiões
expostas à luz solar, principalmente na face, muitas vezes ainda antes dos dez
anos de idade”, explica o professor Carlos Frederico Martins Menck, coautor do
estudo e referência na pesquisa sobre a doença.
Para
Menck, o principal avanço do trabalho está na conexão entre dois campos que
tradicionalmente caminharam separados: reparo de DNA e imunologia. “O sistema
imunológico precisa do sistema de reparo para funcionar direito”, resume.
O
estudo também abre caminho para explicar outros sintomas observados nesses
pacientes. Segundo Leite, “estudos clínicos indicam maior suscetibilidade a
infecções, especialmente urinárias”. Esse quadro pode estar relacionado às
células Th17, essenciais para a defesa em superfícies mucosas, como o trato
geniturinário. “A gente acredita que essas células não estão funcionando
corretamente nesses pacientes”, afirma.
Menck
sugere que as implicações vão além. Como o sistema imunológico também atua no
controle de tumores, sua falha pode ter um efeito duplo nesses pacientes: o
aumento de mutações favorece o surgimento de tumores, enquanto a capacidade de
combate das células de defesa é reduzida. “Se eles têm mais geração de células
tumorais e uma defesa pior, é óbvio que vão desenvolver mais tumores”, explica.
O
pesquisador destaca ainda que a conversão de células Th17 para um perfil
semelhante ao de Treg pode agravar esse cenário, já que linfócitos T
reguladores tendem a favorecer o crescimento tumoral ao suprimir a resposta
imune antitumoral.
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Próximos passos
Com os
resultados em mãos, o grupo agora busca avançar do modelo animal para humanos.
Uma das principais frentes é investigar o sistema imunológico de pacientes com
xeroderma pigmentoso. “Vamos começar a estudar o sistema imunológico desses
pacientes – algo que praticamente não existe na literatura”, afirma Leite. Até
agora, a equipe já reuniu uma coorte de dez pacientes, o que já representa um
avanço, considerando a raridade da doença.
Outra
linha de pesquisa envolve o potencial terapêutico da descoberta, especialmente
em doenças inflamatórias. A ideia é testar estratégias para inibir o XPC de
forma direcionada em células Th17, reduzindo a inflamação ou até reprogramando
essas células para um perfil regulador.
“Conseguimos,
por exemplo, usar terapias gênicas para silenciar um gene específico”, explica
Leite. Em modelos pré-clínicos, o grupo pretende modificar essas células em
laboratório e reintroduzi-las no organismo, abordagem conhecida como terapia
autóloga.
Os
pesquisadores também pretendem explorar o papel do XPC em outros contextos,
como doenças autoimunes, câncer e resposta a vacinas. Resultados preliminares
já indicam que camundongos sem essa proteína, quando induzidos a desenvolver
esclerose múltipla, não apresentam sinais da doença.
“Esse
trabalho abriu um leque de possibilidades”, diz Leite. “Agora estamos
explorando essas diferentes vertentes.”
Fonte:
CNN Brasil

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