Como
a mineração devasta a saúde indígena
Entre
os dias 5 e 10 de abril, ocorreu em Brasília a 22ª edição do Acampamento Terra
Livre (ATL), evento anual organizado pela Articulação dos Povos Indígenas do
Brasil (APIB). Foram cerca de 7 mil participantes, que compuseram quase 200
delegações de povos originários de todas as regiões do Brasil. Neste ano, o
evento se propôs a debater a luta para garantir os direitos territoriais frente
à ganância das grandes empresas e daqueles que escolhem o lucro em detrimento
do meio ambiente.
Entre
atividades culturais e religiosas e plenárias de debate, as marchas promovidas
pelo acampamento foram o ponto alto. Elas marcaram as manchetes e cumpriram
papel de chamar atenção nacional às denúncias feitas pelos povos indígenas.
Multinacionais estrangeiras, Big Techs, os setores do agronegócio (chamados
pelos manifestantes de agrofascismo), mineradoras e, principalmente, o
Congresso ganharam o título de “Inimigos dos Povos”.
Contudo,
é necessário observar ainda mais a fundo os tensionamentos que se intensificam
em 2026 e que colocam em xeque os territórios indígenas, que são, também, parte
fundamental do meio ambiente. O Brasil é o segundo maior detentor das chamadas
terras raras, zonas em que se encontram dispersos materiais essenciais à
produção tecnológica do Vale do Silício e da indústria armamentista. Atrás
apenas da China, estima-se que 21% das reservas globais desses minérios estejam
em território nacional. A extração desses minerais servirá à soberania
brasileira ou para fragilizar ainda mais o meio ambiente e a vida dos povos
indígenas?
<><>
Lobby mineral e saúde indígena
Além da
pressão feita por agroexportadoras pela privatização de rios para a criação de
hidrovias e pela invasão de reservas para a construção de rodovias e ferrovias,
intensifica-se também o interesse de empresas mineradoras sobre os recursos
naturais presentes no Brasil. A demanda em questão é reforçada para alimentar o
novo mercado que se consolida pelo crescimento exponencial das Big Techs e pelo
aprofundamento dos conflitos armados internacionais.
No ATL,
então, veio à luz a denúncia do lobby trilionário das mineradoras, que batalham
pelo afrouxamento da legislação ambiental e, consequentemente, pela autorização
de invadir e devastar áreas de reserva destinadas aos povos originários.
Divulgado no dia 8 de abril, o relatório “Desmascarando o Lobby Mineral em
Terras Indígenas no Brasil” aponta que cerca de US$ 493 bilhões (R$ 2,5
trilhões) foram destinados por grandes bancos a mineradoras entre 2016 e 2024.
O processo de transição energética e termos como “sustentabilidade” e
“descarbonização” são utilizados para legitimar os ataques. Entre as principais
beneficiárias estão Vale, BHP e Glencore, apoiadas por investidores como
BlackRock, Vanguard e Capital Group.
O
relatório também mostra como a mineração se tornou um problema de saúde pública
para as populações indígenas, com a contaminação dos rios por metais pesados. O
resultado é o adoecimento das populações originárias, com relatos crescentes de
problemas neurológicos e malformações congênitas devido ao consumo de peixes
contaminados. O documento reforça que essas não são apenas “externalidades
negativas”, mas consequências diretas de uma política de Estado que prioriza o
lucro de empresas em detrimento da vida.
Em
números, o cenário se torna ainda pior. No Pará, laudos toxicológicos de 2025
revelaram que 98,5% do povo Xikrin estava contaminado por metais como níquel e
cromo, consequência direta do rompimento de contenção de rejeitos no Rio
Cateté. Entre as crianças de 0 a 10 anos desse povo, todas apresentaram metais
pesados no organismo. O ocorrido diz respeito a uma mina de níquel operada pela
Vale S.A., que seguiu em funcionamento mesmo sob risco de impactos
socioambientais, com aval do ministro do STF Dias Toffoli.
Entre
os yanomami, que têm seu território localizado em Roraima, 95% das amostras de
fios de cabelo coletadas apresentam alta concentração de mercúrio. O relatório
aponta também a investigação feita pelo Ministério Público Federal durante a
grave crise sanitária que assolou o Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI)
Yanomami, consequência direta da necropolítica de Jair Bolsonaro.
Denúncias
revelam que a estrutura de saúde da região foi capturada por interesses
políticos ligados ao lobby mineral. O relatório cita o senador Mecias de Jesus
e seu filho, o deputado federal Jhonatan de Jesus (Republicanos-RR), que
indicaram coordenadores do DSEI. O órgão tornou-se alvo de denúncias de desvios
de medicamentos e até da troca de vacinas por ouro proveniente do garimpo
ilegal. O resultado foi a morte de ao menos 570 crianças yanomami e a
desarticulação da resistência local diante do garimpo ilegal.
<><>
As críticas à AgSUS na saúde indígena
As
críticas à gestão da saúde indígena, contudo, não se limitam a mecanismos e
políticas deixadas pelo governo Bolsonaro. A Agência Brasileira de Apoio à
Gestão do Sistema Único de Saúde (AgSUS) também é alvo de forte rejeição por
parte da Apib, que identifica nela uma ameaça à autonomia e à eficácia do
Subsistema de Saúde Indígena. Criada em 2019 pelo governo Bolsonaro, quando
ainda era chamada Adaps (Agência de Desenvolvimento da Atenção Primária à
Saúde), o órgão em questão, por vezes, funciona paralelamente ao Ministério da
Saúde, mas sem a demanda por concursos e com indicações diretas do governo.
Entre
os principais problemas apontados está a violação do direito de consulta livre,
prévia e informada aos povos indígenas. A agência foi instituída sem que o
governo assegurasse esse direito, descumprindo a Convenção nº 169 da
Organização Internacional do Trabalho.
Há
também preocupação com o esvaziamento e a fragilização da Secretaria Especial
de Saúde Indígena (Sesai). Foi a partir das mudanças na agência estabelecidas
em 2023 que o órgão passou a ser responsável pela administração direta das
unidades de saúde indígenas. Há, então, uma preocupação sobre a retirada da
autoridade hierárquica direta do Ministério da Saúde e da secretaria em questão
sobre a execução dos serviços, transformando-os em meros órgãos fiscalizadores.
Além disso, a Apib aponta preocupação também sobre uma possível captura
política da agência, incapacidade técnica dos contratados e um processo de
municipalização da saúde indígena.
<><>
A organização e a luta dos povos indígenas
O
enfoque na defesa do meio ambiente é o debate dominante nas edições do evento.
É necessário entender, portanto, a delicadeza e o aumento de tensão que se
concentram no ano de 2026. Há, primeiramente, a dinamicidade esperada de um ano
eleitoral, com maior disposição de escuta e ação por parte de toda a
institucionalidade, movida pela intenção de reeleição. Essa característica não
se limita ao campo que ocupa a situação no Executivo, mas também leva o
“Centrão” e a direita a rifarem, com ainda mais disposição, os direitos básicos
da população em troca do apoio das empresas em questão.
Mesmo
diante de tantos ataques, o movimento indígena tem se mostrado um dos mais
dinâmicos e organizados do país no período recente. Nos últimos anos, ações
como a ocupação da Secretaria de Educação do Pará e do terminal da Cargill
foram exemplos de mobilizações vitoriosas contra ataques estaduais e federais
aos direitos dos povos e seus territórios, além da mobilização constante contra
o Marco Temporal, a Ferrogrão e as falsas soluções previstas na COP-30, sediada
em Belém do Pará no ano passado. Essa é a disposição e organização de luta de
um dos setores mais atacados e negligenciados da história do país.
Com a
responsabilidade de levar adiante o enfrentamento aos polos mais lucrativos e
poderosos da economia global, os povos indígenas demonstram que a luta pela
terra não diz respeito apenas à sobrevivência de seus povos, mas à defesa das
condições mínimas de vida para toda a sociedade. Em um cenário marcado pelo
avanço do extrativismo predatório e pela
captura das instituições por interesses privados, eles seguem apontando, com
mais certeza do que qualquer governo ou empresa, que não existe transição energética,
desenvolvimento ou democracia possíveis sobre territórios devastados e
populações condenadas ao adoecimento e à morte.
Fonte:
Por Sophia Vieira, em Outra Saúde

Nenhum comentário:
Postar um comentário