O
que é food noise? Ciência explica o pensamento constante em comida
Para um
número crescente de pessoas, pensamentos persistentes sobre comida são como um
ruído de fundo constante. Esse fenômeno vem sendo chamado de food noise, ou
“barulho de comida”, em livre tradução. O termo ganhou força nas redes sociais,
onde usuários passaram a usá-lo para descrever uma preocupação constante com o
que comem. E também chamou a atenção de profissionais de saúde.
Pesquisas
buscam entender se esse comportamento representa algo diferente de conceitos já
conhecidos na literatura científica. Um dos principais exemplos é o artigo
publicado em julho de 2025 na revista Nutrition & Diabetes.
Apoiando-se
em relatos anedóticos de pacientes, os autores estabelecem o food noise como
“pensamentos persistentes sobre comida que são percebidos pelo indivíduo como
indesejados e/ou disfóricos e que podem causar prejuízos, incluindo problemas
sociais, mentais ou físicos”. Os pesquisadores, porém, recomendam novas
análises para refinar essa definição, aprimorar os métodos de mensuração e
avaliar estratégias terapêuticas para o manejo dos sintomas.
Apesar
das tentativas de definição e da criação de métodos de mensuração, não há
consenso científico sobre o conceito ou utilidade clínica. Há quem questione se
o termo apenas renomeia experiências já conhecidas na psicologia e na nutrição,
como ruminação, pensamentos intrusivos ou efeitos da restrição alimentar, ou se
descreve um fenômeno novo.
“É uma
coisa novíssima e que emerge no contexto dos análogos de GLP-1”, avalia a
nutricionista Marle Alvarenga, autora de um capítulo sobre o tema em livro que
será lançado em maio, no 12º Congresso de Nutrição Comportamental, em São
Paulo.
Ao
buscar o tema na literatura científica, Alvarenga encontrou pouco mais de uma
dezena de estudos publicados, o primeiro deles em 2023. Em sua avaliação, isso
reforça o caráter recente do conceito. Por enquanto, ela se mantém cética
quanto à necessidade de caracterizar o fenômeno como uma categoria própria.
“Não é garantido dizer que algo existe só porque está todo mundo falando”,
afirma a nutricionista.
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Restrição alimentar
Uma das
explicações mais prováveis para pensamentos persistentes sobre comida está na
restrição alimentar. Inanição e dietas rígidas são conhecidas por aumentar a
preocupação com comida e alterar o funcionamento psicológico. Instrumentos como
o Inventário de Sintomas de Restrição, descrito em um artigo de 2017, incluem
explicitamente a “preocupação com comida e comer” entre os componentes
observados nesses contextos.
“O
comer restritivo traz uma ideia que chamamos de restrição cognitiva. Você pode
não estar passando fome, mas fica o tempo inteiro dizendo ‘eu não posso comer,
estou com vontade, mas não posso comer, preciso me controlar’”, explica Marle
Alvarenga.
Esse
padrão se relaciona à cultura contemporânea de vigilância constante sobre a
alimentação e o corpo. Nesse contexto, sentir fome passa a ser interpretado
como falha individual, ao mesmo tempo em que há exposição constante a estímulos
alimentares — na internet, na televisão e em notificações de aplicativos de
delivery.
“As
pessoas estão tentando inverter a explicação. Em vez de achar que têm problemas
com a comida porque têm dificuldade de gerenciar a exposição à comida, elas
acham que comem demais porque pensam em comida", analisa a especialista.
A
regulação do apetite é complexa e tem bases fisiológicas. Há um mecanismo
cerebral responsável por regular a fome e a disposição para comer, que funciona
por meio da interação entre dois circuitos distintos: o da “fome física”,
ligado às necessidades energéticas do organismo, e o do “comer por prazer”,
associado ao apetite hedônico.
Pensamentos
persistentes sobre comida podem refletir adaptações metabólicas à restrição
alimentar ou ao emagrecimento. Quando o organismo perde peso ou enfrenta
períodos de privação, há aumento de hormônios que estimulam a fome e redução
daqueles que promovem saciedade, intensificando a necessidade de comer.
“Isso é
um mecanismo compensatório fisiológico para restaurar o equilíbrio energético,
ou seja, para facilitar o reganho do peso”, explica o endocrinologista Gustavo
Daher, do Einstein Hospital Israelita.
Além
dessas adaptações hormonais, os circuitos que regulam a alimentação respondem a
estímulos externos. Segundo Daher, o sistema de recompensa exerce papel central
no desejo e nos pensamentos sobre comida — sobretudo em contextos de abundância
alimentar e forte exposição a estímulos visuais e olfativos.
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Fenômeno distinto
Essa
combinação de mecanismos fisiológicos e estímulos ambientais ajuda a explicar
por que certos alimentos ocupam espaço recorrente no pensamento de alguns.
“A
pessoa acaba pensando o tempo todo em comida”, afirma a psicóloga Fátima
Vasques, do Ambulim (Programa de Transtornos Alimentares), do Instituto de
Psiquiatria da USP. “Ela come agora e já está planejando a próxima refeição.
Tem muita dificuldade de parar de pensar nesses alimentos, principalmente os
que a gente chama de altamente palatáveis [como ultraprocessados ricos em
gordura, açúcar ou sal].”
Para
Vasques, porém, esse padrão não se confunde necessariamente com outros
transtornos alimentares já descritos na literatura clínica, que têm como
característica fundamental a preocupação excessiva com o próprio peso e o
formato corporal. “Tudo gira em torno desse contexto. No food noise, não há
essa preocupação com o corpo, a pessoa vai em busca de recompensa para sentir
prazer ou aliviar alguma coisa", analisa.
Embora
possa se sobrepor a quadros clínicos conhecidos, o fenômeno não corresponde
automaticamente a um diagnóstico psiquiátrico. Em alguns casos, contudo, pode
evoluir para transtornos alimentares. Um deles é o TCA (Transtorno da Compulsão
Alimentar), que se caracteriza por episódios recorrentes de consumo de grandes
quantidades de comida, com a sensação de perda de controle.
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E os inibidores de apetite?
A
popularização do termo food noise coincidiu com a disseminação de medicamentos
conhecidos como agonistas GLP-1 Esses fármacos imitam a ação do glucagon tipo
1, hormônio produzido no intestino após a alimentação, que tem entre suas
funções sinalizar ao organismo que já houve ingestão suficiente de comida.
Esses
fármacos atuam justamente nos circuitos cerebrais envolvidos na fome e na
recompensa alimentar. Ao ativar receptores de GLP-1 em regiões do cérebro
responsáveis pelo controle do apetite — como o hipotálamo e áreas associadas ao
sistema de recompensa —, eles reduzem a motivação para comer.
“É
basicamente um hormônio que traz saciedade. Além disso, por retardar o
esvaziamento gástrico, essas medicações podem aumentar sinais periféricos de
saciedade, como a distensão do estômago. Isso resulta em diminuição da ingestão
alimentar e do food noise, interferindo tanto nos circuitos da fome física
quanto nos hedônicos”, observa o endocrinologista.
Pesquisas
recentes começaram a investigar de forma sistemática os efeitos desses
medicamentos sobre comportamentos alimentares. Publicado em 2025 na Nature, um
ensaio clínico de fase 1 acompanhou o uso de tirzepatida (princípio ativo do
Mounjaro, da farmacêutica Eli Lilly) em adultos com sobrepeso ou obesidade ao
longo de seis semanas. Foram observadas reduções em escalas de apetite, desejo
alimentar e impulsividade, além de mudanças nas respostas cerebrais a
diferentes categorias de alimentos.
No
mesmo ano, uma meta-análise reunindo cinco estudos com 182 participantes com
TCA associou os agonistas de GLP-1 a maior perda de peso e melhora
significativa nos escores de compulsão alimentar, embora os autores tenham
observado heterogeneidade em alguns resultados. Diante da quantidade ainda
limitada de evidências — especialmente sobre outros transtornos alimentares e
os efeitos de longo prazo dessas medicações —, os pesquisadores recomendaram
novos ensaios clínicos mais abrangentes.
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Problematização da fome
Na
prática clínica, Alvarenga observa que a redução do food noise causada pelos
agonistas de GLP-1 muitas vezes vem acompanhada de uma problematização da
própria sensação de fome — algo comum em outras fases da medicina do
emagrecimento. “Na década de 1990, eu atendia pacientes que usavam anfetamina e
me falavam a mesma coisa. Não usavam o termo food noise, mas diziam que ‘com
esse remédio não penso mais em comida’”, conta.
Para
Fátima Vasques, do Ambulim, a diminuição do ruído percebida por alguns
pacientes não significa que o problema esteja resolvido. Isso porque alimentos
altamente palatáveis estimulam o sistema de recompensa dopaminérgico,
aumentando a atenção dirigida à comida. “Eles geram um desejo antecipatório que
aumenta a motivação para comer”, afirma. “Então vem o medicamento, tira isso e
a pessoa perde peso. Mas quando o tratamento é interrompido, volta o ruído,
porque não curou a causa principal.”
Embora
reconheça que os análogos de GLP-1 podem reduzir sintomas como episódios de
compulsão alimentar, o endocrinologista do Einstein afirma que os medicamentos
não modificam crenças distorcidas sobre corpo, peso e comida. Tampouco promovem
mudanças comportamentais sustentáveis de maneira independente. Além disso, como
em qualquer tratamento farmacológico, os efeitos variam entre indivíduos. “O
manejo ideal é multidisciplinar, envolvendo acompanhamento nutricional,
psicoterapia e, quando indicado e possível, medicamentos como os agonistas de
GLP-1, sempre como complemento”, orienta Gustavo Daher bond.
Nesse
contexto, entram as abordagens psicoterapêuticas. Segundo Vasques, uma das
estratégias mais utilizadas é a terapia cognitivo-comportamental (TCC), voltada
a questionar os pensamentos que estruturam a relação do paciente com o corpo, o
peso e a alimentação. Outra opção é a terapia do esquema, que busca compreender
crenças emocionais formadas ao longo da vida, principalmente por experiências
repetitivas. Em muitos casos, essas crenças se associam a sentimentos de
rejeição, abandono ou desvalor, que podem levar o indivíduo a buscar alívio
imediato na comida. “Existem outros componentes emocionais que vão levar o
indivíduo nessa busca por ter prazer, por ter alívio”, explica a psicóloga.
Para a
nutricionista Marle Alvarenga, o primeiro passo diante dessa queixa deveria ser
acolher o paciente e discutir os fatores que podem estar por trás do problema.
“O maior gatilho para pensar em comida de maneira intrusiva são o comer
restritivo, a mentalidade de dieta, esse ambiente com comida ultraprocessada
superdisponível e o estigma em relação ao peso”, pontua. Quando se fala em
alimentação equilibrada, não se trata apenas do que está no prato, mas também
de como nos relacionamos com a comida. E essa se torna uma questão cada vez
mais complexa para os indivíduos e para a ciência.
Fonte:
CNN Brasil

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