Luís
Nassif: A morte de Bebianno e a técnica do assassinato sem rastro
Ex-lutador
de jiu-jitsu, Bebianno era conhecido por seus hábitos saudáveis — não bebia nem
fumava — e por seu histórico de boa saúde.
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Peça 1 – os métodos dos porões
A falta
de uma justiça de transição deu sobrevida ao que de pior a ditadura gerou: os
assassinos dos porões. Uma de suas especialidades era a de liquidar adversários
com uma técnica de disfarce do assassinato.
O
Código 12 foi a designação utilizada pelo regime militar brasileiro (1964–1985)
dentro do sistema de informações e repressão política.
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Era um
código de classificação de prioridade de vigilância usado pelos órgãos de
segurança do Estado — especialmente o SNI (Serviço Nacional de Informações), o
DOPS e o DOI-CODI — para catalogar e monitorar indivíduos considerados
“subversivos” ou ameaças ao regime.
O
código indicava que a pessoa era alvo de atenção especial e permanente dos
aparatos de repressão.
O
sistema de fichas e códigos era parte da doutrina de segurança nacional,
importada em grande medida da Escola Superior de Guerra e influenciada pela
Escola das Américas (EUA). Cada órgão repressor mantinha arquivos cruzados
sobre militantes, jornalistas, religiosos, artistas e qualquer pessoa suspeita
de oposição ao regime.
Os
repressores brasileiros foram formados por duas escolas.
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A Escola das Américas
A
Escola das Américas foi fundada em 1946 no Panamá. Dedicava-se a desenvolver
métodos de contrainformação, interrogatórios com torturas, execução sumária,
guerra psicológica, inteligência militar. Oficiais e soldados de países
latino-americanos eram ensinados a subverter a verdade, silenciar
sindicalistas, militantes do clero e jornalistas.
A
estrutura intelectual americana veio da National War College de Washington, que
serviu de modelo direto para a criação da Escola Superior de Guerra (ESG)
brasileira — onde se formulou a Doutrina de Segurança Nacional que depois virou
lei em 1968.
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A escola francesa
Foi
desenvolvida na guerra da Argélia. O cérebro foi o coronel Roger Trinquier,
maior ideólogo francês de guerra suja, cujo argumento central era que “a
tortura é um elemento importante na guerra moderna contrarrevolucionária”.
Os
historiadores que estabeleceram os nexos entre as práticas aplicadas durante
esses conflitos e as que se viram depois na Argentina, Uruguai, Chile e Brasil
chegam a uma conclusão clara: o aperfeiçoamento do choque elétrico, a
radiografia das agendas dos detidos, os sequestros em plena noite, a tortura
sistemática, a guerra psicológica, os desaparecimentos, o uso de arquivos e os
voos da morte são técnicas transmitidas pelos oficiais franceses.
A
técnica do assassinato sem deixar pistas foi importada diretamente da Guerra da
Argélia (1954–1962), onde foi sistematizada pelo general francês Paul
Aussaresses e teorizada pelo coronel Roger Trinquier.
Aussaresses
esteve no Brasil em 1973, a convite da ditadura, como adido militar à embaixada
da França. Um de seus amigos mais íntimos era o então coronel João Batista
Figueiredo, do SNI. O general francês também conviveu com o delegado Sérgio
Fleury. E deu aulas de tortura e desaparecimento de opositores políticos em
Brasília, Manaus e outros lugares.
O
Destacamento de Operações Internas (DOI) do Brasil remonta ao Détachement
Opérationnel de Protection (DOP) de criação francesa.
O
pesquisador Rodrigo Nabuco de Araújo, autor de Diplomatas de Farda, conclui que
“a doutrina da guerra revolucionária foi um elemento-chave para preparar a
organização e a estruturação dos serviços de informação brasileiros, que foram
calcados nos serviços de informações franceses durante a Guerra da Argélia”. Os
militares do 2º Exército em São Paulo se inspiraram amplamente nas sessões
administrativas especiais da guerra colonial francesa para estruturar a
Operação Bandeirantes.
Os
receptores brasileiros foram General João Figueiredo e delegado Sérgio Fleury,
que aplicaram as teses no DOI-CODI e no esquadrão da morte.
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Peça 2 – as mortes suspeitas
Há um
conjunto de mortes, no mesmo espaço de tempo, dadas como acidentes ou doenças.
Com o tempo, apurou-se que em algumas delas ocorreu assassinato comprovado.
Outras ainda estão sob investigação.
* Morte
de Zuzu Angel em acidente de carro. A estilista Zuzu tornou-se a maior ativista
brasileira contra a ditadura.
* Morte
de JK, em acidente de carro.
* Morte
de Carlos Lacerda, de infarto agudo.
* Morte
de João Goulart, de infarto agudo. Nos dois casos, há suspeitas da troca de
remédios.
*
Atentado no Riocentro: a intenção era promover o atentado e atribuir às forças
de esquerda.
*
Assassinato de Vladimir Herzog, passando por suicídio.
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Peça 3 – o Código 12 em 8 de janeiro
A
técnica foi mantida ao longo das décadas entre o fim do regime militar e o
golpe de 8 de janeiro.
A
Polícia Federal revelou um plano denominado “Punhal Verde e Amarelo”, elaborado
com nível técnico militar detalhado, cujo objetivo era assassinar o presidente
eleito Lula, o vice-presidente eleito Alckmin e o ministro Alexandre de Moraes.
A data fixada para a execução era 15 de dezembro de 2022 — três dias após a
diplomação de Lula no TSE e antes da posse.
Os
alvos eram identificados por codinomes: Lula era “Jeca”, Alckmin era “Joca” e
Moraes era “Professora”.
O
documento com o planejamento operacional foi elaborado pelo general Mário
Fernandes e impresso no Palácio do Planalto em 9 de novembro de 2022 — quando
Bolsonaro ainda residia no Palácio da Alvorada, para onde o material foi
levado. Uma segunda impressão foi feita no Planalto em 6 de dezembro de 2022.
Em 3 de
dezembro de 2022, foram habilitados chips telefônicos utilizados na ação
criminosa “Copa 2022”, em nomes de terceiros, em uma Lojas Americanas de
Uberlândia. O grupo se comunicava via Signal com codinomes para dificultar o
rastreamento.
## Os
métodos planejados
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Para Lula — envenenamento
Para a
execução do presidente Lula, o plano considerava, “dada sua vulnerabilidade de
saúde e ida frequente a hospitais, a possibilidade de utilização de
envenenamento ou uso de químicos para causar um colapso orgânico”. O método
planejado para Lula é tecnicamente
idêntico ao que laudos periciais argentinos identificaram no caso de Jango em
1976, e ao que foi ensinado pelos instrutores franceses como técnica de
eliminação “sem rastros”.
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Para Moraes — arsenal de guerra
O
documento especificava o armamento a ser utilizado na captura e execução de
Moraes: uma metralhadora, quatro fuzis, quatro pistolas e um lança-granada.
Também foram consideradas outras condições para o assassinato, como uso de
artefato explosivo ou envenenamento.
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Os presos e a cadeia de comando
Foram
presos quatro integrantes dos “kids pretos” — elite de combate do Exército
treinada para operações sigilosas e ambientes politicamente sensíveis — e um
policial federal: o general de brigada da reserva Mário Fernandes, o
tenente-coronel Hélio Ferreira Lima, o major Rafael Martins de Oliveira, o
major Rodrigo Bezerra Azevedo e o policial federal Wladimir Matos Soares.
Investigações
apontam que reuniões estratégicas ocorreram na casa do general Braga Netto,
ex-ministro e aliado de Bolsonaro. Participaram dessas reuniões Mauro Cid e
outros militares. A liderança do grupo seria atribuída aos generais Braga Netto
e Augusto Heleno, que coordenariam um “Gabinete de Crise” para gerenciar o país
após a execução do golpe.
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Peça 4 – as mortes inexplicadas
A
partir desse histórico, há a necessidade de uma releitura de algumas mortes do
período.
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Gustavo Bebbiano
Gustavo
Bebianno foi o primeiro ministro de Bolsonaro (Secretaria-Geral da Presidência)
e um dos principais articuladores da campanha de 2018. Foi demitido dois meses
após a posse, tornando-se um crítico aberto do governo.
Bebianno
morreu na madrugada de 14 de março de 2020, vítima de infarto fulminante,
quando estava em seu sítio em Teresópolis (RJ), acompanhado do filho e do
caseiro. Foi levado ao hospital, mas não resistiu. Tinha 56 anos.
Ex-lutador
de jiu-jitsu, Bebianno era conhecido por seus hábitos saudáveis — não bebia nem
fumava — e por seu histórico de boa saúde. Dias antes de morrer, planejava
concorrer à Prefeitura do Rio pelo PSDB nas eleições de 2020.
Em
dezembro de 2019, disse que se sentia ameaçado: “O presidente Jair Bolsonaro é
uma pessoa que tem muitos laços com policiais no Rio de Janeiro. Policiais bons
e ruins. Me sinto, sim, vulnerável e sob risco constante.”
No
programa Roda Viva, 11 dias antes de morrer, Bebianno revelou o plano de Carlos
Bolsonaro de montar uma “Abin paralela”.
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Em síntese:
Um
homem saudável, que dizia temer pela própria vida, que guardava material
comprometedor e morreu dias depois de sua última aparição pública. A causa
oficial é infarto, sem indício forense de crime. O caso permanece, na prática,
sem resposta definitiva.
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Adriano da Nóbrega
Segundo
Paulo Emílio Catta Preta, advogado do miliciano, em 5 de fevereiro de 2020 —
quatro dias antes de ser morto — Adriano lhe telefonou para relatar “medo de um
plano de queima de arquivo” e alegou que “queriam matá-lo, não prendê-lo”.
O
advogado declarou: “Ele me ligou e disse que não adiantaria se entregar porque
ninguém queria a sua prisão, mas sim a sua morte.”
No
domingo 2 de fevereiro de 2020, uma semana antes da operação que resultou em
sua morte, a esposa Júlia Mello Lotufo declarou à revista Veja que ele seria
assassinado: “Meu marido foi envolvido numa conspiração armada pelo governador
do Rio, Wilson Witzel, que queria matar o Adriano como queima de arquivo.”
Conversas
telefônicas grampeadas pela Polícia Civil, no âmbito da Operação Gárgula do MP
do Rio, revelaram que parentes de Adriano também temiam queima de arquivo. Numa
das conversas, uma irmã elogia a postura de Bolsonaro no caso e diz que a morte
de Adriano teria sido ordenada pelo governador Witzel.
Adriano
era o elo central de uma rede que conectava crime organizado e poder político:
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Caso Marielle
Era
apontado pelo MP como chefe do “Escritório do Crime”, organização de onde
partiu o assassinato da vereadora. Ronnie Lessa, condenado pelo crime, era
subordinado da mesma estrutura.
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Rachadinha de Flávio Bolsonaro
Segundo
o MP do Rio, Flávio Bolsonaro financiou e lucrou com construções ilegais
erguidas pela milícia com dinheiro de rachadinha. Contas bancárias controladas
por Adriano foram usadas para abastecer Fabrício Queiroz, ex-assessor de
Flávio.
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Conexão direta com a família
A mãe e
a esposa de Adriano trabalharam no gabinete de Flávio até novembro de 2018,
quando a investigação estourou. Queiroz admitiu que as demitiu justamente para
evitar a ligação pública.
A
operação teve início no dia 8 de fevereiro com cerca de 70 homens, mas foi
finalizada no dia seguinte com a participação de somente 3 homens, destacados
para enfrentar o ex-capitão — conhecido atirador de elite.
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Os laudos contradizem a versão policial
Com
base nas fotos post-mortem e no laudo de necrópsia, especialistas concluíram
que os tiros que atingiram Adriano foram disparados à curtíssima distância. As
fotos revelam um ferimento na cabeça logo abaixo do queixo que pode ter sido um
tiro dado quando ele já estava caído.
Um
especialista em medicina legal, sob anonimato, apontou como possível sinal de
execução o disparo na lateral do corpo, provavelmente feito quando ele estava
com os braços erguidos, em sinal de rendição. Uma queimadura no lado esquerdo
do peito indica que o cano de uma arma de grosso calibre foi encostado no local
— e havia reação vital ao redor, indicando que Adriano ainda estava vivo nesse
momento.
Um
laudo posterior revelou que Adriano foi atingido por uma bala quando estava
deitado — informação que contradiz diretamente a versão dos três policiais
envolvidos de que teria ocorrido troca de tiros.
Relatórios
de inteligência da Polícia Civil do Rio obtidos pelo Intercept revelaram que ao
menos duas pessoas ligadas a Adriano mencionaram o presidente Jair Bolsonaro em
diálogos grampeados sobre a situação do ex-PM. Após essas menções, o MP do Rio
suspendeu os grampos — sem encaminhar as informações à PGR, que teria
prerrogativa de investigar o presidente.
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Peça 5 – os riscos futuros
Esta
semana houve uma boa celebração nos jornalões, com a informação que o Datafolha
registrara empate técnico entre a candidatura de Lula e cada um dos candidatos
da direita. A rigor, não quer dizer muita coisa, pois Lula ainda não colocou
sua candidatura em campo. Mas a comemoração dos jornais mostra esse lado
terrível da irracionalidade brasileira.
Não se
trata de uma disputa civilizada, entre PT e PSDB, como ocorreu em outras fases
da história. Trata-se do risco concreto de colocar no comando do país uma
milícia, com táticas de assassinatos que remontam os porões da ditadura.
Fonte:
Jornal GGN

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