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que CPI do Crime Organizado rejeitou relatório que pedia indiciamento de
ministros do STF e do PGR
O
relatório final da CPI do Crime Organizado, que pedia o indiciamento de três
ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), e do procurador-geral da
República, Paulo Gonet, foi rejeitado pela comissão, por 6 votos a 4, na noite
desta terça-feira (14/4).
O
parecer apresentado pelo relator, o senador Alessandro Vieira (MDB-SE),
afirmava que Alexandre de Moraes, José Dias Toffoli e Gilmar Mendes, além de
Gonet, cometeram crimes de responsabilidade ao lidar com o caso do Banco Master
e de seu proprietário, Daniel Vorcaro.
Crimes
de responsabilidade não são crimes penais comuns. Tratam-se de infrações
político-administrativas, que podem levar, em última análise, à perda do cargo
e à inabilitação para o exercício de função pública.
A
votação na CPI aconteceu após três membros da comissão serem trocados durante a
tarde por parlamentares governistas, que tendiam a votar contra o indiciamento.
Sergio
Moro (PL-PR) e Marcos do Val (Avante-ES) foram substituídos por Teresa Leitão
(PT-PE) e Beto Faro (PT-PA), e Soraya Thronicke (PSB-MS), antes suplente, virou
titular no lugar de Jorge Kajuru (PSB-GO).
As
mudanças foram definidas pelos líderes dos blocos parlamentares, que determinam
a composição das CPIs.
Votaram
contra o relatório Teresa Leitão, Beto Faro, Soraya, Humberto Costa (PT-CE),
Rogério Carvalho (PT-SE) e Otto Alencar (PSD-BA). A favor, além de Vieira,
votaram Eduardo Girão (Novo-CE), Magno Malta (PL-ES) e Esperidião Amin (PP-SC).
O presidente da CPI, Fabiano Contarato (PT-ES), não se posicionou.
Antes
da votação, analistas ouvidos pela BBC avaliaram que as trocas tinham o
objetivo de inviabilizar o indiciamento dos ministros e do PGR.
Eles
também já haviam sinalizado que um indiciamento era improvável e, mesmo que
acontecesse, a decisão de iniciar processos de cassação contra ministros do
Supremo e o PGR cabe ao presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP)
Há
dezenas de pedidos de impeachment contra integrantes do STF aguardando sua
decisão. "Parece que o presidente do Senado não tem nenhum interesse ou
não vê qualquer motivo para dar prosseguimento a qualquer dos vários pedidos de
impeachment no momento", disse à BBC News Brasil João Pedro Pádua,
professor de Direito Processual Penal da Universidade Federal Fluminense (UFF).
A
criminalista Marina Coelho Araújo, professora do Insper e vice-presidente do
Instituto dos Advogados de São Paulo, também considerava remota a possibilidade
da CPI gerar consequências práticas para os ministros.
Em
entrevista à BBC antes da votação, ela pontou que o relatório final não trouxe
elementos novos em relação ao que já havia sido, como o controverso contrato do
escritório de advocacia da esposa de Moraes, Viviane de Barci, com o Master, e
supostas conversas indevidas entre o ministro e o banqueiro Daniel Vorcaro.
Em sua
avaliação, o relator se precipitou ao indiciar os ministros do STF e o PGR
quando a fraude do Master ainda está sendo investigada pela Polícia Federal.
Vorcaro, inclusive, negocia um acordo de delação com a PF.
"Eu
penso que a CPI não tem elementos para indiciar ninguém por enquanto. Existe
uma investigação em curso. Não acho que estamos já com certeza de tudo que
efetivamente aconteceu", ela havia dito.
Veja
abaixo o que o relatório aponta que cada um dos envolvidos teria feito — e por
que isso poderia ser considerado irregular.
Eles
negaram qualquer irregularidade e afirmaram não ter mantido relações com o
Master ou com Vorcaro que pudessem comprometer suas funções. A BBC News Brasil
pediu um posicionamento de cada um deles sobre o relatório de Vieira.
Em
nota, o presidente do STF, Edson Fachin, repudiou a inclusão dos colegas da
Corte entre os indiciados pelo relatório. Ele reconheceu as Comissões
Parlamentares de Inquérito como "uma garantia fundamental da
democracia", mas criticou o que chamou de "desvios de finalidade
temática" da CPI, que "enfraquecem os pilares democráticos e ameaçam
os direitos fundamentais de qualquer cidadão".
"Ninguém
está acima da lei, e os direitos fundamentais prescritos na Constituição devem
ser integralmente observados. A independência do Poder Legislativo deve ser
preservada na apuração de fatos, sempre com responsabilidade e
pertinência", afirmou.
"Este
Tribunal está ciente de que cabe a todos respeitar a independência e a
autonomia dos poderes da República, como é da secular tradição de nossas
instituições", acrescentou Fachin.
Mais
cedo, o ministro Gilmar Mendes criticou o relator da CPI em uma publicação no X
e disse que o pedido de indiciamento não tinha base legal. Já Toffoli afirmou
durante sessão do STF que o parecer de Vieira era "completamente
infundado" e tinha como objetivo conquistar votos.
A
Procuradoria Geral da República não vai se expressou.
O
ministro do STF Flávio Dino, que não estava entre os acusados pela CPI, saiu em
defesa dos colegas: "Críticas e investigações devem ser feitas, sem
dúvida. Mas com respeito à dignidade das pessoas e com preservação das
instituições da democracia, pois sem elas não existem direitos fundamentais nem
futuro para a nação".
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Dias Toffoli
O
relatório de Vieira afirma que Dias Toffoli, que deixou a relatoria do caso em
fevereiro, atuou no processo mesmo tendo relação pessoal e financeira com os
investigados, o que violaria o princípio da imparcialidade.
Segundo
o documento, há registros de que o ministro tenha mantido uma relação de
proximidade com o banqueiro. Uma evidência disso seriam as conexões financeiras
envolvendo a Maridt, empresa da qual Toffoli admitiu ser sócio, e o fundo
Arleen, que é ligado ao investidor Fabiano Zettel, investigado no caso e
cunhado de Vorcaro.
O
relatório também afirma que Toffoli teria favorecido o banqueiro restringindo
investigações e centralizando provas. Isso teria acontecido em janeiro, quando
o ministro determinou que todo o material apreendido em uma operação da Polícia
Federal (PF) contra Vorcaro ficasse retido e lacrado no STF, ao invés de ser
enviado para análise dos investigadores da PF, como é comum nessas operações.
A
Procuradoria-Geral da República (PGR) entrou com um pedido para que o material
ficasse com o Ministério Público, e então Toffoli voltou atrás, determinando
que as provas ficassem sob a custódia do órgão.
Mas o
ministro surpreendeu novamente ao escolher quais seriam os quatro peritos da PF
com acesso para analisar o que havia sido apreendido. A decisão causou
estranhamento entre integrantes da PGR e da PF.
"É
importante frisar: o crime de responsabilidade do art. 39, 2, da Lei nº
1.079/1950 consuma-se pelo simples ato de julgar sob suspeição. Não é
necessário demonstrar que a decisão foi favorável ao investigado, nem que houve
acordo ou trato explícito entre o magistrado e a parte", diz o relatório
da CPI.
Durante
uma sessão da Segunda Turma do STF nesta terça-feira, Toffoli criticou o texto
apresentado pelo senador Alessandro Vieira e disse que o parecer era
"completamente infundado" e tem como "único e nítido"
objetivo conseguir votos.
"Isso
pode levar não só a sanções em outras áreas, como vossa excelência [Gilmar
Mendes] já mencionou, quando disse a respeito da atuação do Ministério Público,
mas também da Justiça Eleitoral. E a Justiça Eleitoral não faltará em punir
aqueles que abusam do seu poder para obter votos em proselitismo
eleitoral", disse.
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Alexandre de Moraes
O
relatório também aponta que há indícios de proximidade entre Alexandre de
Moraes e Daniel Vorcaro, incluindo supostos encontros e viagens do ministro em
aeronaves ligadas ao banqueiro.
O
documento também menciona um possível benefício indireto que Moraes poderia ter
por meio do escritório de advocacia de sua esposa, Viviane Barci de Moraes, que
manteve um contrato de R$ 129 milhões com o Master até a liquidação da
instituição financeira.
"Tem-se
a configuração de um circuito fechado em que o investigado financia,
simultaneamente, a remuneração da cônjuge e o transporte pessoal do magistrado
— situação que compromete de forma irremediável a aparência de
imparcialidade", diz o relatório da CPI.
Segundo
informações vazadas do inquérito que apura as fraudes bilionárias no banco,
Vorcaro e Moraes teriam se encontrado em algumas ocasiões em 2025. As menções a
esses encontros aparecem em mensagens trocadas pelo banqueiro com sua então
namorada, extraídas do celular de Vorcaro pela investigação.
Além
disso, segundo reportagens do jornal O Globo, a Polícia Federal teria
conseguido recuperar mensagens enviadas pelo investigado ao ministro em 17 de
novembro, dia em que o banqueiro foi preso pela primeira vez.
O
ministro negou ter recebido as mensagens, argumentando que uma perícia feita
pela área técnica do STF do material vazado da investigação teria comprovado
que o destinatário não seria ele. Esse material foi recebido da PF pela
Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) que investiga as fraudes do
INSS.
O
jornal O Globo publicou outra reportagem refutando a alegação do ministro, em
que diz que as informações repassadas à CPMI não são as mesmas às quais o
periódico teve acesso.
O
escritório de advocacia, por sua vez, disse em nota que trabalhou em diversas
áreas para o Master, incluindo "administrativa, análise consultiva e
estratégica de inquéritos policiais, ações penais, inquéritos civis e ações
civis públicas", mas que Barci de Moraes "nunca conduziu nenhuma
causa para o Master no âmbito do STF".
O
jornal Folha de S.Paulo revelou que Moraes e sua esposa teriam viajado em
aeronaves de uma empresa de Vorcaro, a Prime Aviation. Na ocasião, o gabinete
do ministro disse, por meio de nota, que "as ilações da fantasiosa matéria
são absolutamente falsas".
"O
ministro Alexandre de Moraes jamais viajou em nenhum avião de Daniel Vorcaro ou
em sua companhia e de Fabiano Zettel, a quem nem conhece", acrescentou a
manifestação.
O
escritório de Viviane Barci de Moraes disse à Folha que "contrata diversos
serviços de taxi aéreo, e que entre os que já foram em algum momento
contratados está o da empresa Prime Aviation". "Em nenhum dos voos em
aeronaves da Prime Aviation em que viajaram integrantes do escritório, no
entanto, estiveram presentes Daniel Vorcaro ou Fabiano Zettel."
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Gilmar Mendes
O
relatório de Vieira sustenta que Gilmar Mendes anulou a quebra de sigilo de uma
empresa ligada a Toffoli e determinou a inutilização de dados da investigação,
mesmo sem ser o relator do caso.
"O
ministro utilizou sua posição na Corte para, por via de manobra processual que
subverteu as regras de distribuição regimental, neutralizar investigação
parlamentar que atingia a empresa do colega de turma, determinando inclusive a
destruição de dados já remetidos por órgãos de controle", diz o relatório
da CPI.
Em nota
na rede X, Mendes afirmou que o pedido de indiciamento "flerta com
arbitrariedades, como a criminalização de decisões que concedem habeas corpus
diante de abuso de poder".
Mendes
criticou o relator da CPI por não ter "promovido sequer a quebra de
sigilos de milicianos ou integrantes das facções que controlam territórios no
Rio de Janeiro".
Para
Mendes, "é no mínimo perturbador que o relator, enquanto integrante de
carreira policial, tenha fechado olhos para seus colegas que, traindo a boa
imagem da instituição, cruzaram para o lado sombrio das milícias".
Antes
de entrar na política, o relator da CPI, senador Alessandro Vieira (MDB-SE),
fez carreira como policial civil.
"O
relatório revela verdadeira cortina de fumaça, ao deixar de enfrentar o grave
problema a que se propôs e ao dedicar-se a engrossar a espuma midiática contra
o STF, na expectativa de produzir dividendos eleitorais para certos atores
políticos", afirmou Mendes.
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Paulo Gonet
Já
quanto ao procurador-geral da República, o relatório de Vieira acusa Gonet de
cometer crime de responsabilidade ao se omitir de investigar Toffoli e Moraes,
mesmo diante de indícios que considera robustos.
"Diante
desse quadro probatório — público, documentado e de amplo conhecimento —, o
Procurador-Geral da República não adotou nenhuma providência concreta no
sentido de promover a investigação e a eventual responsabilização das
autoridades envolvidas", diz o relatório
"A
inércia do PGR contrasta frontalmente com a atuação proativa da Polícia
Federal, que produziu relatórios circunstanciados, deflagrou operações e
executou prisões no curso das mesmas investigações — evidenciando que a
paralisia não decorreu de insuficiência probatória, mas de decisão deliberada
do chefe do Ministério Público Federal de não exercer as atribuições que a
Constituição lhe confere com exclusividade", continuou Vieira.
• Gilmar Mendes pede à PGR que Alessandro
Vieira seja investigado por abuso de autoridade na CPI do Crime Organizado
O
ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Gilmar Mendes solicitou que a
Procuradoria-Geral da República (PGR) investigue o senador Alessandro Vieira
por possível abuso de autoridade relacionado à condução da Comissão Parlamentar
de Inquérito (CPI) do Crime Organizado. O pedido ocorre após a rejeição do
relatório final da comissão, que incluía o indiciamento de magistrados da
corte.
O
relatório elaborado por Vieira propunha responsabilizar Gilmar Mendes,
Alexandre de Moraes e Dias Toffoli por supostos vínculos com o caso do Banco
Master — acusações negadas pelos ministros. O documento acabou rejeitado pelo
colegiado por 6 votos a 4 na noite de terça-feira (14), perdendo, assim, sua
validade jurídica.
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Críticas ao desvio de finalidade da CPI
Gilmar
Mendes afirmou que a atuação do senador pode ter extrapolado o objetivo inicial
da CPI, que era investigar o crime organizado. Para o ministro, houve desvio de
finalidade, o que pode configurar ilícito previsto na legislação.
Em
manifestação pública, ele declarou que os excessos cometidos devem ser
analisados com rigor pela PGR. “Esse desvio de finalidade suscita preocupação.
E esse desvio de finalidade não é algo inocente. É crime. Está na lei de abuso
de autoridade”, afirmou durante sessão da Segunda Turma do STF.
A
representação formal será encaminhada à Procuradoria, que poderá decidir sobre
a abertura de investigação. Como o procurador-geral da República, Paulo Gonet,
também foi citado no relatório da CPI — sob alegação de omissão —, há
possibilidade de o caso ser conduzido por um substituto dentro do órgão.
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Repercussão no STF e possíveis impactos eleitorais
Durante
a mesma sessão, o ministro Dias Toffoli apontou que a conduta do senador pode
ter implicações não apenas jurídicas, mas também eleitorais. Segundo ele, a
atuação poderia ser interpretada como abuso de poder com finalidade eleitoral.
“E esse
voto é antidemocrático. É um voto corrupto”, afirmou Toffoli ao comentar o
caso. O presidente do STF, Edson Fachin, divulgou nota pública em apoio aos
colegas mencionados no relatório. No texto, ele afirmou que o uso indevido de
CPIs <><> representa risco às instituições democráticas e aos
direitos fundamentais.
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Contexto político e reação do senador
A
rejeição do relatório foi resultado de articulações políticas que envolveram
ministros do STF, o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o
presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP).
Após o
encerramento dos trabalhos da CPI, Alessandro Vieira afirmou que a proposta de
indiciamento de autoridades foi o principal ponto de divergência entre os
integrantes da comissão. Em publicação nas redes sociais, declarou: “Numa
democracia, você respeita o resultado das votações mesmo quando ele não lhe é
favorável”. O senador também mencionou mudanças na composição da comissão
durante a votação do relatório. “Essas movimentações fazem parte das
estratégias regimentais, mas apontar seu impacto é necessário”, escreveu.
Fonte:
BBC News Brasil/Brasil 247

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