Oliveiros
Marques: CPI do crime organizado e os interesses ocultos
Causa,
no mínimo, estranheza - para não dizer perplexidade - que um relatório de
Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) criada para investigar o crime
organizado não tenha proposto o indiciamento de um único integrante de facções
criminosas, das tantas que sabemos existir no Brasil afora. Tampouco tenha
avançado sobre agentes econômicos de alta influência, mesmo diante de
evidências públicas, como as reveladas na operação Carbono Oculto, que
apontaram o uso de fintechs como instrumentos de lavagem de dinheiro pelo crime
organizado.
Uma CPI
que ignora o núcleo central do problema - o elo entre o crime e seus mecanismos
de financiamento - levanta uma pergunta inevitável: a serviço de quem ou de que
interesses estava o relatório apresentado? A rejeição do documento pela própria
comissão, nesse contexto, não apenas se justifica, como se impõe como medida de
preservação institucional.
É nesse
cenário que ganha relevância a reflexão proposta pelo ministro Dias Toffoli
acerca do possível abuso de poder - aqui, em sua dimensão política. Quando
parlamentares desviam uma CPI de sua finalidade constitucional de investigar
fatos determinados para construir narrativas, selecionar alvos e omitir outros,
estamos diante de algo que ultrapassa o debate parlamentar e adentra o campo
jurídico. Trata-se de um tema que, sem dúvida, merece análise aprofundada por
juristas, especialmente à luz do equilíbrio entre poderes e da integridade das
instituições democráticas.
Há,
ainda, um componente metodológico preocupante. A tentativa de transformar o
relatório em uma espécie de “power point em Word” - evocando práticas já
conhecidas da turma lavajatista - revela a persistência de uma lógica baseada
mais em factoides do que em consistência de provas. Mais em “convicções”, do eu
em fatos. Essa estratégia, amplamente criticada no passado recente, mostrou-se
danosa ao devido processo legal e ao próprio sistema de justiça. Sua reedição,
ainda que sob novas roupagens, deve ser firmemente rechaçada.
No
plano político, é razoável supor que adversários do relator, especialmente em
seu estado de origem, já estejam avaliando caminhos para questionar sua conduta
na Justiça Eleitoral. O uso de uma CPI como plataforma de projeção pessoal ou
de perseguição seletiva buscando criar colchões para narrativas eleitorais pode
configurar, em tese, abuso de poder político - matéria que encontra guarida no
debate sobre o ordenamento jurídico eleitoral brasileiro.
Mais
grave, porém, é o precedente institucional que se desenha. Quando uma CPI -
instrumento essencial de fiscalização - é utilizada de forma distorcida,
inclusive para atacar membros de outros poderes, há um claro desvio de função.
Esse tipo de prática não apenas compromete a credibilidade do Parlamento, como
também fragiliza os mecanismos democráticos de fiscalização e controle.
Ir além
e classificar esse movimento como parte de um “golpe continuado” pode parecer,
à primeira vista, retórico. No entanto, quando se observa a repetição de
estratégias que tensionam instituições, deslegitimam divergências e
instrumentalizam estruturas de Estado para fins políticos, o alerta deixa de
ser exagero e passa a ser prudência.
A
democracia não se corrói apenas por rupturas abruptas, mas também por erosões
graduais. E é justamente nesses episódios, aparentemente técnicos ou
regimentais, que se escondem os sinais mais preocupantes.
• Rogério Carvalho critica CPI do Crime
Organizado: “virou instrumento de vingança”
O líder
do PT no Senado, Rogério Carvalho, criticou o relatório da CPI do Crime Organizado, que foi derrubado na
terça-feira (14) por 6 votos a quatro. O documento propunha o indiciamento de
ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), como Gilmar Mendes, Alexandre de
Moraes e Dias Toffoli, além do procurador-geral da República, Paulo Gonet, mas
deixava de fora membros de facções criminosas e o banqueiro preso Daniel
Vorcaro, do Banco Master.
O
relator, senador Alessandro Vieira, explicou que os indiciamentos ocorreram
devido a supostos crimes de responsabilidade, e não por supostos crimes comuns.
Contudo, a explicação não convenceu a bancada do PT na CPI, que fechou questão
contra o relatório.
"Como
é que você faz uma CPI do Crime Organizado e não tem um indiciamento de um
membro de organização criminosa?", disse Carvalho a jornalistas.
"Essa foi uma CPI em que os criminosos que eram objeto da investigação não
foram indiciados", acrescentou.
Segundo
o senador, a CPI foi transformada em um "instrumento de vingança".
"Não
posso colocar como indiciado um ministro do STF porque ele deu uma liminar a
uma pessoa em uma convocação, por isso colocaram o Gilmar Mendes. O Gonet tem a
ver o quê com o Banco Master?", finalizou.
• Derrotado em CPI, Alessandro Vieira
critica STF e fala em maturidade institucional
O
relator da CPI do Crime Organizado, senador Alessandro Vieira (MDB-SE),
criticou integrantes do Supremo Tribunal Federal (STF) após a rejeição de seu
relatório final e afirmou que o Brasil ainda alcançará maturidade institucional
para investigar a atuação de ministros da corte.
A
declaração ocorre em meio a um embate direto entre o parlamentar e membros do
Supremo, após o pedido de indiciamento de magistrados.Segundo reportagem da
Folha de S.Paulo, Vieira respondeu às críticas feitas por ministros do STF e
classificou as manifestações como tentativas de intimidação. Ele afirmou que
não cederá a pressões ao exercer seu mandato parlamentar.
“As
pessoas que estão sentadas na Suprema Corte não são donas do país. [...] Eu não
me curvo à ameaça. Não me curvava cidadão, não me curvava delegado, não vou me
curvar como senador da República”, afirmou.
O
relatório apresentado por Vieira propunha o indiciamento dos ministros
Alexandre de Moraes, Dias Toffoli e Gilmar Mendes, sob a alegação de
envolvimento no caso do Banco Master e de suposta blindagem de investigações
internas. No entanto, o documento foi rejeitado por 6 votos a 4, após
articulação política que envolveu integrantes do STF, o governo Lula (PT) e o
presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP).
Após a
derrota, o relator voltou a criticar a postura dos magistrados. “Ministros
confundem a instituição com a própria figura humana e se colocam numa condição
de não suscetíveis de erro. Isso não corresponde à realidade. Eles podem errar,
e daqui a pouco vamos ter maturidade de fazer essas apurações”, afirmou.
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Troca de críticas entre senador e ministros
As
declarações de Vieira foram feitas após manifestações públicas de ministros do
STF. Gilmar Mendes afirmou à Folha causar “espécie que o relator tenha se
esquecido de indiciar seus colegas de milícia”, em referência à carreira do
senador como delegado da Polícia Civil. O ministro também classificou o pedido
como um “erro histórico”.
Já Dias
Toffoli criticou duramente o relatório, afirmando que ele configura abuso de
poder e pode resultar em inelegibilidade. Segundo o ministro, o texto é
“completamente infundado” e tem como “único e nítido” objetivo obter votos. Ele
acrescentou: “A Justiça Eleitoral não faltará em punir aqueles que abusam do
seu poder para obter votos em proselitismo eleitoral”.
Em
resposta, Vieira acusou os ministros de utilizarem ameaças como instrumento
político. “O ministro Gilmar e mais vocalmente o ministro Toffoli verbalizaram
diretamente a ameaça de cassação, processamento e etc., por conta disso que a
gente está fazendo aqui. E aí eu fico pensando que democracia essa turma
defende, porque a defesa da democracia já serviu de biombo para um monte de
canalhices”, disse.
O
senador também criticou o que chamou de interferência do STF em outros poderes.
“Se habituaram a atravessar a rua, a interferir nesta Casa, a interferir na
Casa vizinha, a fazer manifestações que são de cunho claramente político e
também, infelizmente, mais recentemente, a usar da ameaça como expediente”,
declarou.
Ele
ainda defendeu o direito de questionamento institucional. “Por que há de
existir no Brasil uma categoria que não pode ser admoestada, que não pode ser
questionada de forma técnica e respeitosa? Não há aqui nenhuma palavra de
ofensa, de agressão nem aos membros do Supremo, nem aos seus familiares, muito
menos à instituição; mas, de novo, renovam a mesma estratégia. [...] Nós
precisamos enfrentar o abuso, essa tirania, dentro dos limites democráticos”,
afirmou.
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Relatório rejeitado e próximos passos
Vieira
também criticou as articulações que levaram à rejeição de seu relatório e
afirmou que a investigação sobre o Supremo pode ter sido adiada, mas não será
evitada. Para ele, o país ainda alcançará condições institucionais para esse
tipo de apuração.
Em
publicação nas redes sociais, o senador destacou que, em uma democracia, o
resultado das votações deve ser respeitado, mesmo quando desfavorável. Ele
também ressaltou que caberá ao presidente da CPI decidir o destino do material
reunido durante os trabalhos.
Caso o
relatório tivesse sido aprovado, o pedido de indiciamento seria encaminhado à
presidência do Senado, que poderia avaliar a abertura de processos por crime de
responsabilidade contra os ministros citados. No entanto, o presidente do
Senado, Davi Alcolumbre, já havia sinalizado resistência a esse tipo de
procedimento.
• Inelegibilidade de Alessandro Vieira
ganha força no STF após relatório de CPI pedir indiciamento de ministros
A
possibilidade de inelegibilidade do senador Alessandro Vieira (MDB-SE) passou a
ser considerada por integrantes do Supremo Tribunal Federal (STF), após a
repercussão de seu relatório na CPI do Crime Organizado. A movimentação ocorre
em meio à reação de ministros que se sentiram diretamente atingidos pelo
documento e pode influenciar a disputa eleitoral ao Senado em Sergipe.
De
acordo com a coluna do jornalista Caio Junqueira, da CNN Brasil, interlocutores
da Corte avaliam que o caso pode avançar de forma acelerada. Um deles afirmou
que o senador “não terá mais paz” após ter solicitado o indiciamento de três
ministros do STF — Alexandre de Moraes, Dias Toffoli e Gilmar Mendes — além do
procurador-geral da República, Paulo Gonet. O relatório acabou rejeitado pelo
colegiado por 6 votos a 4.
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Reação no STF e críticas ao relatório
Nos
bastidores do Supremo, ministros apontam que Alessandro Vieira teria
ultrapassado o escopo da CPI, que tinha como objetivo investigar o crime
organizado. A avaliação predominante é de que o documento teria sido utilizado
com viés político, em um contexto de pré-candidatura à sua reeleição para o
Senado.
Outro
ponto de crítica é a ausência de pedidos de indiciamento contra integrantes de
facções criminosas como o PCC e o Comando Vermelho. Um ministro ouvido pela
reportagem classificou essa omissão como contraditória diante do foco da
comissão.
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Representação à PGR pode acelerar processo
A
reação institucional deve se materializar com o envio de uma representação à
Procuradoria-Geral da República (PGR), que deverá ser protocolada pelo ministro
Gilmar Mendes. A principal acusação é de possível abuso de poder por parte do
senador ao incluir autoridades no relatório.
O
incômodo de Gilmar Mendes também envolve sua citação no documento. Vieira o
incluiu por causa de uma decisão de habeas corpus que suspendeu a quebra de
sigilo de uma empresa ligada à família de Dias Toffoli.
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Impactos no cenário eleitoral
A
participação de um ministro decano na representação e a análise pela PGR podem
acelerar o andamento do caso, o que levanta dúvidas sobre os efeitos no
calendário eleitoral. Especialistas ouvidos pela CNN Brasil destacam que uma
eventual inelegibilidade dependeria da conclusão do processo até 15 de agosto,
prazo final para o registro de candidaturas.
Caso
haja condenação após esse prazo, mas antes das eleições, o nome do senador
ainda poderá aparecer nas urnas se houver possibilidade de recurso. Já uma
decisão definitiva impediria sua participação no pleito. Se o julgamento
ocorrer depois da votação, há risco de impedimento da diplomação em caso de
vitória.
No
cenário político de Sergipe, Alessandro Vieira figura entre os principais nomes
na disputa pelo Senado, tendo como adversários o ex-deputado André Moura
(União) e o senador Rogério Carvalho (PT).
• Gilmar reage a Zema após ex-governador
defender prisão de ministros
O
ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Gilmar Mendes ironizou o
ex-governador de Minas Gerais Romeu Zema (Novo) ao reagir às declarações em que
o político defende o afastamento e até a prisão de integrantes da Corte.
Em
postagem no X, Gilmar afirmou que “é, no mínimo, irônico ver quem já geriu o
Estado de Minas Gerais atacar o STF e os seus membros” após ter solicitado ao
Tribunal o adiamento do pagamento de dívidas com a União.
“A
contradição é latente: quando o STF profere decisões que garantem o fluxo de
caixa ou suprem omissões do Legislativo local, a Corte é acessada como agente
necessário ao funcionamento da máquina estatal”, escreveu Gilmar.
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E o
decano do STF prosseguiu: “Afinal, ninguém recorreria sucessivamente a um
Tribunal cuja legitimidade não reconhecesse. Contudo, basta que a Corte
contrarie interesses políticos desse grupo para que o pragmatismo jurídico dê
lugar a chavões vazios de ‘ativismo judicial’ e a ataques à honra dos
ministros”.
Gilmar
pontuou que entende isso como a “política do utilitarismo”. “O STF serve como
escudo fiscal e contábil, mas é tratado como vilão quando decide conforme a
Constituição — e não conforme a conveniência de ocasião”, assinalou.
A
declaração ocorreu após Zema defender que os ministros Dias Toffoli e Alexandre
de Moraes sejam afastados do STF e presos.
Em
evento realizado em São Paulo, Zema afirmou que o Brasil vive “crise moral” e
atribuiu parte desse cenário a ministros do STF. “Dias Toffoli e Alexandre de
Moraes não merecem só processo de impeachment, merecem prisão”, disse o
ex-chefe do Palácio da Liberdade.
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Dívidas
Em
fevereiro, por decisão do ministro Nunes Marques, o STF suspendeu por 180 dias
ação em que Minas Gerais busca equalizar sua dívida com a União, de acordo com
sua capacidade de pagamento.
A
medida adotada pelo ministro visa permitir o avanço das tratativas
administrativas para a adesão do estado ao Programa de Pleno Pagamento das
Dívidas dos Estados (Propag).
Em
agosto de 2024, Nunes Marques homologou o acordo para permitir a adesão do
estado ao Regime de Recuperação Fiscal (RRF), que visava auxiliar entes da
Federação em situação de desequilíbrio financeiro.
O
acordo previa a retomada do pagamento das parcelas da dívida e a adoção de
medidas estruturantes para o ingresso no programa. Em janeiro de 2025, o RRF
foi substituído pelo Propag, instituído pela Lei Complementar nº 212/2025.
Fonte:
Brasil 247

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