Genes
no sangue podem indicar grau de depressão no futuro, aponta estudo
Neurônios
e glóbulos brancos são células muito diferentes em formato, função e até mesmo
em sua localização no organismo. Mas pesquisadores da USP (Universidade de São
Paulo) descobriram que, em pessoas com depressão, alguns genes aparecem
igualmente desregulados nos dois tipos celulares.
Além de
reforçar o caráter sistêmico da depressão, com repercussões que vão além da
saúde mental, a descoberta, publicada na revista Scientific Reports,
possibilita o desenvolvimento, no futuro, de exames de sangue capazes de
identificar o tipo e grau de depressão.
A
investigação foi apoiada pela Fapesp por meio de quatro projetos (18/18886-9,
24/21635-9, 23/07806-2 e 23/06086-6).
“Mapeamos
essa rede de genes que dá a dinâmica de interação entre os sistemas imunológico
e nervoso. A depressão é um fenômeno sistêmico, ou seja, que se espalha pelo
corpo inteiro. E o sistema imune é um dos sistemas que descentralizam essa
condição, espalhando-a para além do sistema nervoso central. Até por isso, não
é raro que uma pessoa com depressão possa apresentar outras manifestações, como
inflamações cutâneas ou perda de apetite, por exemplo”, afirma Otávio
Cabral-Marques, professor da Faculdade de Medicina da USP e coordenador da
investigação.
Para
chegar a esse mapeamento de genes, os cientistas analisaram os dados de mais de
3 mil amostras de sangue provenientes de bancos públicos dos Estados Unidos, da
Alemanha e da França. A partir dos dados, identificaram mudanças na expressão
de genes nos glóbulos brancos (células de defesa) de pacientes com transtorno
depressivo maior.
Dos
1.383 genes alterados, 73 também são tradicionalmente associados à conexão
entre neurônios (sinapse), como transmissão de neurotransmissores e formação de
conexões neurais. No caso dos glóbulos brancos, esses genes participam de vias
imunológicas e inflamatórias por todo o organismo. Dezoito desses genes
permitem distinguir de forma consistente pacientes com depressão de indivíduos
sem o transtorno.
Cada
indivíduo tem um genoma único com a sequência de todo o material genético do
organismo. O que diferencia um neurônio de um leucócito, ou uma célula da pele
de uma cardíaca, é a ativação genética, ou seja, os genes que são
"ligados" ou "desligados" conforme a função, condição ou
ambiente em que aquela célula está inserida.
“É um
estudo de ciência de dados que ainda precisa ser confirmado biologicamente, mas
ele abre possibilidades interessantes para o desenvolvimento futuro de um
painel para identificar genes presentes em células do sistema imune circulantes
no sangue e que estão envolvidos com a depressão. Como o sangue é mais
acessível que o tecido cerebral, os genes identificados servem como indicadores
biológicos da presença e severidade da depressão", conta Anny Silva Adri,
que desenvolveu o estudo como parte de sua pesquisa de doutorado.
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Uma doença sistêmica
O grupo
de pesquisadores tem investigado a relação entre sistema imunológico e
neurológico. Em um estudo recente, eles demonstraram em modelo animal o papel
de um único gene (PAX-6), presente tanto em neurônios quanto em glóbulos
brancos, como preditor de depressão (leia mais em: agencia.fapesp.br/56846).
“O que
temos visto nesses estudos é que existe uma conexão muito grande entre o
sistema imunológico e neurológico criada por essa rede de genes que estamos
investigando. Tudo está muito ligado e a divisão entre esses sistemas é apenas
para fins didáticos", avalia Cabral-Marques.
O
pesquisador ressalta que a conexão entre inflamação periférica (no sangue) e
sintomas centrais (no cérebro) abre caminho para tratamentos que abordem a
inflamação para aliviar sintomas depressivos.
O
mapeamento de genes mostrou haver uma forte conexão entre a depressão e outras
doenças. “A análise sugere que esses mesmos genes estão envolvidos em
comorbidades vasculares e inflamatórias comuns à depressão. A depressão não
está localizada apenas no cérebro, mas afeta o organismo de forma integrada e
molecular”, conta Adri.
Os
mesmos genes associados ao transtorno estão ligados a outras doenças, como
bipolaridade, psicoses, ansiedade, hipertensão, doenças arteriais e
inflamatórias, incluindo psoríase. O mapeamento ainda apontou conexões com
manifestações gastrointestinais, disfunção erétil e complicações relacionadas
ao coronavírus.
“A
inflamação e a desregulação molecular não afetam apenas o cérebro, mas se
espalham por diferentes órgãos e sistemas, ampliando o impacto da doença e
sugerindo novas abordagens para diagnóstico e tratamento", afirma a
pesquisadora.
• Mulheres têm carga genética mais alta
para depressão, conclui pesquisa
Mulheres
carregam uma carga genética mais significativa para o Transtorno Depressivo
Maior (TDM) do que homens. É o que indica a maior metanálise já feita sobre
diferenças na depressão entre os sexos. Conduzido por pesquisadores da
Universidade de Queensland, na Austrália, e publicado na Nature Communications
em agosto de 2025, o estudo analisou mais de 195 mil casos.
A
pesquisa também identificou, pela primeira vez, uma variante genética associada
à depressão exclusivamente em homens, localizada no cromossomo X, fornecido
pela mulher no momento da concepção. Os autores observaram que as variantes que
influenciam o TDM no sexo masculino são um subconjunto daquelas encontradas em
mulheres, e que o sexo feminino apresenta uma sobreposição genética maior entre
depressão e características como obesidade e síndrome metabólica.
O
estudo reforça a importância de análises estratificadas por sexo e sugere que
abordagens clínicas futuras, incluindo novos tratamentos, poderão se beneficiar
de estratégias que considerem diferenças genéticas específicas entre homens e
mulheres. “De forma geral, o estudo confirma que a depressão tem uma influência
genética”, afirma o psiquiatra Ricardo Jonathan Feldman, do Einstein Hospital
Israelita. “E é poligênica: vários genes podem contribuir para maior ou menor
risco de desenvolver o transtorno.”
Mas a
genética não determina, sozinha, se uma pessoa terá depressão. “As mulheres têm
mais depressão, epidemiologicamente falando”, destaca Feldman. “São vários
motivos: além da questão genética apontada pelo estudo, há fatores ambientais,
como violência, traumas, desigualdades sociais e salariais, a sobrecarga
cotidiana e influências hormonais.”
Segundo
estatísticas globais, as mulheres têm quase o dobro de risco de desenvolver
depressão em comparação aos homens. De acordo com a Organização Mundial da
Saúde (OMS), cerca de 4% da população mundial vive com depressão — o
equivalente a aproximadamente 332 milhões de pessoas —, incluindo 5,7% dos
adultos (4,6% entre homens e 6,9% entre mulheres) e 5,9% daqueles com 70 anos
ou mais. No Brasil, a Pesquisa Nacional de Saúde de 2019 estimou que 10,2% dos
adultos haviam recebido diagnóstico de depressão, com prevalências de 14,7%
entre mulheres e 5,1% entre homens.
Em
2017, uma metanálise com dados de 3,6 milhões de participantes em mais de 90
países, publicada no Psychological Bulletin, mostrou que essa diferença começa
aos 12 anos, atinge o pico na adolescência — quando meninas podem apresentar
até três vezes mais risco de depressão do que meninos — e se mantém estável ao
longo da vida adulta. A disparidade aparece em diferentes formas de
diagnóstico, culturas e regiões.
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Quatro hipóteses sobre diferenças
A
pesquisa partiu de um impasse: estudos anteriores chegavam a conclusões opostas
sobre o papel da genética na diferença entre homens e mulheres. Alguns sugeriam
que a influência era maior em mulheres; outros não viam diferença nenhuma. A
falta de consenso motivou a nova metanálise. Segundo os autores, a divergência
se deve principalmente ao uso de metodologias distintas, especialmente na
definição de casos e na caracterização do fenótipo de TDM, o que altera
resultados e dificulta comparações.
O
universo analisado incluiu 130.471 casos em mulheres e 64.805 em homens. Os
pesquisadores testaram quatro hipóteses principais sobre diferenças genéticas
associadas ao TDM: se variantes ligadas ao transtorno atuam com magnitudes
distintas; se existem variantes exclusivas em um dos sexos; se o cromossomo X
tem papel direto no risco; e se variantes com efeitos em mais de um traço
ajudam a explicar essas diferenças.
Os
resultados reforçam que a maioria das variantes associadas ao TDM é
compartilhada entre os dois sexos, mas não de forma idêntica. As análises
identificaram 16 variantes significativas em mulheres e oito em homens,
incluindo a variante inédita localizada no cromossomo X — achado que reforça a
utilidade de separar as análises por sexo.
Apesar
da ampla sobreposição genética, o estudo apontou para uma carga de risco maior
em mulheres, sustentada por um conjunto adicional de variantes exclusivas. Essa
diferença permaneceu mesmo quando os pesquisadores consideraram o
subdiagnóstico masculino, já que homens tendem a falar menos sobre o que sentem
e buscar menos ajuda.
Entre
as limitações da pesquisa, porém, estão o desequilíbrio amostral entre homens e
mulheres; o foco exclusivo em pessoas de ancestralidade europeia; possíveis
fatores de confusão na análise de interação genótipo-sexo; e a ausência de
procedimentos de controle de qualidade específicos por sexo, que pode ter
introduzido vieses técnicos.
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Novos alvos de tratamento
Além
das diferenças genéticas gerais, o estudo destacou padrões que ajudam a
explicar características específicas da depressão em mulheres. As análises
revelam correlações genéticas mais fortes entre TDM feminino e traços
metabólicos, como índice de massa corporal (IMC) elevado e síndrome metabólica,
além de vias biológicas ligadas ao sistema imune e genes associados a condições
neurológicas como epilepsia, Huntington e autismo.
Esses
vínculos ajudam a entender por que sintomas como ganho de peso, aumento do
apetite e hipersonia são mais frequentes nelas. “Esse é o impacto principal do
estudo, pois pode oferecer novos alvos de tratamento. Por exemplo, se
controlarmos melhor a obesidade e a síndrome metabólica, talvez haja um
controle melhor da depressão”, aponta o psiquiatra do Einstein.
Nos
homens, o padrão é distinto, com maior frequência de raiva, agressividade,
comportamentos de risco e uso de substâncias. Isso reflete diferenças
biológicas combinadas a fatores ambientais e culturais. Segundo os autores,
integrar achados genéticos específicos por sexo à prática clínica pode, no
futuro, abrir caminho para estratégias diagnósticas e terapêuticas mais
personalizadas contra o TDM, inclusive para o desenvolvimento de tratamentos
que atuem em vias biológicas dependentes do sexo.
Fonte:
Agencia Fapesp/Agencia Einstein

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