quinta-feira, 16 de abril de 2026

Depressão na adolescência: o que os jovens sentem e ninguém vê

Quando falamos em depressão na adolescência, é comum pensarmos em diagnósticos e termos médicos. Esses elementos, de fato, são importantes, pois permitem uma comunicação mais eficaz e o desenvolvimento de novos estudos. No entanto, nem sempre conseguem expressar a vivência que o adolescente tem em seu dia a dia.

Para muitos jovens, a depressão não começa como um "transtorno", mas como uma experiência difícil de explicar - marcada por tristeza profunda, solidão, irritabilidade e uma sensação de desconexão do mundo ao redor.

<><> Sentimentos que vão além da tristeza

Pesquisas recentes com adolescentes de diferentes países mostram que a tristeza, de fato, aparece na maioria dos casos, mas raramente vem sozinha. Com muita frequência, os jovens relatam sentir-se sozinhos, mesmo quando estão cercados de pessoas. É comum a sensação de estar "fora de lugar", como se houvesse uma barreira invisível entre eles e os outros.

A irritabilidade e até mesmo a raiva também podem fazer parte dessa vivência, mais comum entre meninos, embora nem sempre sejam reconhecidas como sinais de depressão.

<><> Dificuldade de explicar o que dói

Outro aspecto marcante é a dificuldade de colocar em palavras os próprios sentimentos. Muitos adolescentes descrevem a depressão como algo confuso ou estranho, recorrendo a metáforas para tentar explicar o que estão sentindo. Essa dificuldade de comunicação pode atrasar o reconhecimento do sofrimento e aumentar a sensação de incompreensão.

Não é raro que o jovem ouça frases como "isso é só uma fase", "é falta de esforço" ou "é exagero", o que pode acabar aprofundando ainda mais o isolamento.

O contexto de vida tem um papel central nessa experiência. Conflitos familiares, bullying, pressão escolar e expectativas irreais sobre desempenho e comportamento podem atuar como gatilhos, intensificar ou perpetuar o sofrimento.

A depressão, nesse sentido, não é vivida apenas como algo interno, mas como uma experiência profundamente ligada às relações, à cultura e às condições em que o adolescente está inserido.

<><> Barreiras para pedir ajuda e o que funciona

Buscar ajuda também não costuma ser simples. O medo do estigma, a desconfiança em relação aos adultos e aos serviços de saúde, além da sensação de não ser levado a sério, podem fazer com que muitos adolescentes tentem enfrentar a dor sozinhos. Quando conseguem acessar cuidado, costumam valorizar profissionais que escutam de verdade, respeitam sua história e os envolvem nas decisões - mais do que abordagens autoritárias ou centradas apenas na medicação.

Compreender a depressão a partir da vivência do adolescente não substitui o diagnóstico, mas o amplia. Escutar as narrativas dos jovens ajuda a reconhecer o sofrimento mais cedo, fortalecer vínculos e oferecer um cuidado mais humano e eficaz. Afinal, para quem vive a depressão na adolescência, mais do que um rótulo clínico, o que faz diferença é sentir-se visto, compreendido e acolhido.

•        Estresse na adolescência pode causar mudanças permanentes no cérebro

Situações estressantes vividas na adolescência tendem a provocar alterações mais profundas e duradouras no cérebro do que quando ocorrem na vida adulta. Um estudo feito em ratos na USP (Universidade de São Paulo) identificou um dos mecanismos neurológicos por trás dessa diferença, oferecendo novas pistas sobre a origem de transtornos psiquiátricos como depressão e esquizofrenia.

Os pesquisadores comprovaram que a exposição ao estresse na adolescência pode interferir no equilíbrio dos neurônios, comprometendo a maturação de redes neurais e aumentando a vulnerabilidade a disfunções cerebrais que podem persistir até a vida adulta. Os resultados foram publicados na revista Cerebral Cortex.

A pesquisa, apoiada pela Fapesp, demonstrou que o estresse na adolescência provoca mudanças permanentes nos circuitos do córtex pré-frontal, região cerebral responsável pelo controle emocional e função cognitiva.

De acordo com os pesquisadores, traumas nessa fase da vida desregulam o equilíbrio entre sinais de excitação e inibição no cérebro, comprometendo a estabilidade funcional do órgão. Já em roedores adultos, o cérebro mostrou maior resiliência, com mecanismos de recuperação que tornaram os efeitos do estresse mais passageiros.

“Estudos epidemiológicos já haviam demonstrado que o impacto do estresse severo é mais profundo na adolescência. Em nosso trabalho, comprovamos que ele causa desequilíbrio na comunicação entre células cerebrais nas duas fases da vida. No entanto, como o cérebro adolescente ainda está em formação, não há proteção suficiente contra esse impacto”, explica Felipe Gomes, professor da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP e coordenador do estudo.

Na pesquisa, ratos machos foram submetidos a um protocolo de estresse ao longo de dez dias consecutivos, com choques nas patas e restrição de movimento. Os experimentos foram realizados em dois grupos distintos: animais entre 31 e 40 dias de vida (fase da adolescência) e na fase adulta (de 65 a 74 dias).

Em seguida, os cientistas analisaram, nos dois grupos, alterações de curto e longo prazo na atividade de neurônios excitatórios (piramidais glutamatérgicos) e inibitórios (interneurônios GABAérgicos), ambos presentes no córtex pré-frontal medial.

Nos ratos adolescentes, o estresse provocou um aumento persistente na atividade dos neurônios excitatórios e alterou de forma duradoura o funcionamento dos inibitórios. O resultado foi um desequilíbrio prolongado, como se o cérebro estivesse acelerado, sem “um freio funcionando”. Foi observado também que, embora a força dos sinais inibitórios tenha retornado ao estado normal, o padrão de disparo permaneceu irregular, o que compromete o controle neural.

Nos adultos, contudo, o estresse causou apenas uma redução temporária na atividade dos interneurônios inibitórios, sem gerar a hiperexcitabilidade observada nos adolescentes. Isso permitiu que o sistema se reequilibrasse após o período de estresse.

“O estudo também mostrou que o mau funcionamento dos interneurônios afetou os ritmos elétricos cerebrais. Nos adolescentes, houve uma redução duradoura nas oscilações gama, fundamentais para processos cognitivos superiores, como atenção e memória de trabalho, e que estão prejudicadas na esquizofrenia. Já nos adultos, o estresse reduziu temporariamente as oscilações teta, que regulam a comunicação entre o córtex e outras regiões, como o hipocampo. A recuperação desse ritmo sugere que a conectividade cerebral foi restabelecida”, conta Gomes.

<><> Mecanismos neurais

Estudos anteriores do mesmo grupo já haviam mostrado que o estresse na adolescência pode induzir comportamentos semelhantes aos da esquizofrenia, enquanto o estresse na vida adulta teria a provocar alterações mais associadas à depressão.

“Nosso trabalho avança ao revelar os mecanismos neurais por trás dessas diferenças, mostrando que o momento da vida em que o estresse ocorre é determinante para o tipo e a duração das alterações nos circuitos do córtex pré-frontal”, afirma Flávia Alves Verza, que investiga o tema em seu pós-doutorado, apoiado pela Fapesp.

“Conseguimos aprofundar esse entendimento ao caracterizar o impacto do estresse em diferentes períodos da vida sobre tipos de células distintas no córtex pré-frontal, região frequentemente afetada em transtornos psiquiátricos”, completa Gomes.

Além de compartilharem a exposição ao estresse como um fator de risco comum, cerca de 40% dos genes de risco para esquizofrenia também estão associados à depressão. “Dessa forma, o novo estudo contribuiu para a hipótese de que um indivíduo geneticamente vulnerável pode desenvolver esquizofrenia se exposto a traumas na adolescência, enquanto o mesmo trauma na vida adulta pode desencadear depressão. Os resultados reforçam a importância de estratégias preventivas voltadas aos jovens, especialmente aqueles em situação de vulnerabilidade emocional”, afirma o pesquisador.

 

Fonte: CNN Brasil

 

 

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