A
diplomacia de gênero à brasileira
Em
março de 2026, a atuação do Brasil na 70ª sessão da Comissão sobre a Situação
da Mulher (CSW), principal fórum das Nações Unidas dedicado à igualdade de
gênero e à promoção dos direitos das mulheres, ganhou destaque. A diplomacia
brasileira, em diálogo e articulação com outros países e movimentos da
sociedade civil, conseguiu resistir e impedir que propostas dos Estados Unidos
de restrição a referências ao conceito de gênero e a direitos sexuais e
reprodutivos avançassem em documento negociado no âmbito da conferência.
Esse
episódio, sem dúvidas, contribui para a manutenção de um marco importante da
proteção dos direitos das mulheres, fruto de décadas de ativismo social e luta
por igualdade. Ao mesmo tempo, insere o país em um campo de disputa por
significados sobre os direitos das mulheres, evidenciando que a batalha entre
projetos políticos e ideológicos opostos está presente nas atividades da ONU.
Nesse espaço, setores conservadores e de extrema direita têm atuado
explicitamente para atacar e reverter esses direitos.
A
postura progressista da diplomacia brasileira em fóruns sobre direitos das
mulheres não é novidade na trajetória do país, mas foi severamente limitada e,
em muitos casos, substituída por ataques às normas de gênero durante os anos de
governo de Jair Bolsonaro. A defesa explícita de pautas de igualdade de gênero
retomou centralidade na política exterior a partir de 2023, com o retorno de
Luiz Inácio Lula da Silva à Presidência da República. Essa atuação, no entanto,
tem se dado de forma estratégica, com o grau de compromisso sendo calibrado
conforme interesses domésticos, conjunturas específicas e custos políticos
internos e internacionais.
Pode-se
defender que, até certo ponto, o engajamento da diplomacia brasileira na COP30
foi uma antecipação da postura que o país tem buscado assumir em defesa de
normas de gênero no sistema multilateral, como observado na CSW. Ao liderar a
formulação do Plano de Ação de Gênero de Belém (GAP 2026–2034), o Brasil
sinalizou sua intenção de ocupar posição na defesa da relação entre clima e
justiça de gênero. Apresentado como um marco político e simbólico, o plano
introduz avanços relevantes, como o reconhecimento de forma inédita das
contribuições de mulheres e meninas, especialmente afrodescendentes, para a
ação climática. Nesse contexto, a atuação brasileira tem procurado, em alguma
medida, projetar o país como referência na integração entre agendas de gênero e
clima.
Esse
padrão de atuação, contudo, não é necessariamente reproduzido em outros fóruns.
No âmbito dos Brics, por exemplo, especialmente após a sua expansão, a
diversidade normativa entre os membros e a ênfase em princípios como soberania
e não intervenção contribuem para restringir a promoção explícita de agendas de
gênero, o que coloca o Brasil em alinhamento com países que tradicionalmente
não apoiam a agenda multilateral de gênero. Nesses contextos, a diplomacia
brasileira adota uma postura mais cautelosa a fim de facilitar a construção de
consensos.
Quando
mobilizadas nesses fóruns, agendas relacionadas à igualdade de gênero tendem a
mobilizar temáticas e linguagens mais “seguras”, focadas em uma lógica
predominantemente econômica. Conforme apontado recentemente pelo Observatório
de Política Externa Feminista Inclusiva, a declaração de 2025 dos Brics, por
exemplo, citou mulheres em diversas áreas, mas praticamente ignorou o conceito
de gênero. Esse descompasso revela uma abordagem seletiva: mulheres são
reconhecidas mais como agentes econômicos do que como sujeitos de direitos, em
um contexto global marcado por retrocessos políticos.
Outra
contradição evidente aparece na chamada Política Externa Feminista (PEF).
Embora o Brasil venha se engajando na agenda, assinando declarações regionais e
participando de fóruns internacionais, evita rotular formalmente sua atuação
como política externa feminista, ao contrário de países da região, como Chile –
sob o governo de Gabriel Boric –, Colômbia e México, que assumem a pauta de
forma explícita e estratégica.
Essa
aproximação sem rotulação ilustra de forma clara a seletividade que o Brasil
insiste em preservar quando se trata dos direitos das mulheres e da população
LGBTQIA+. Ao evitar compromissos discursivos que possam limitar sua atuação em
diferentes espaços e coalizões, o país mantém os direitos dessas populações
subordinados ao pragmatismo diplomático.
Somam-se
a isso suas contradições internas significativas. Dados recentes das Nações
Unidas indicam que o Brasil figura entre os países com pior desempenho na
representação política feminina na América Latina. As mulheres detêm apenas
cerca de 64% dos direitos legais garantidos aos homens, permanecendo expostas a
múltiplas formas de discriminação e violência ao longo da vida. Segundo o Fórum
de Segurança Pública do Brasil, entre 2024 e 2025 o número de feminicídios
cresceu em 4,7% no país, com também observação de crescimento de denúncias de
violência doméstica. Os movimentos sociais vêm atuando de forma incisiva para
influenciar medidas governamentais, tendo unido força para que o Senado
aprovasse a criminalização da misoginia, tornando crime equivalente ao racismo.
O Projeto de Lei agora tem que ser votado pela Câmara dos Deputados.
O
debate público sobre gênero tem se intensificado e polarizado. A nomeação da
deputada Erika Hilton para a presidência da Comissão da Mulher na Câmara dos
Deputados ilustra bem essa complexidade. Primeira mulher trans a ocupar esse
espaço, sua indicação foi celebrada como um marco de representatividade, mas
também desencadeou disputas intensas, inclusive dentro de setores
progressistas, sobre quem pode ou deve representar politicamente a agenda das
mulheres. Mesmo entre atores favoráveis à ampliação de direitos, persistem
divergências profundas sobre os contornos e prioridades da pauta de gênero no
Brasil.
A
seletividade dos temas trabalhados em fóruns internacionais e a volatilidade do
posicionamento frente às pressões eleitorais domésticas não são exclusivas do
Brasil. Porém, no caso brasileiro, isso tensiona diretamente sua pretensão de
atuar na agenda de gênero. A legitimidade de um país nessa área não depende
apenas da participação em fóruns multilaterais, mas também da coerência entre o
que projeta externamente e o que pratica internamente. Quando essa distância
aumenta, surgem questionamentos sobre a consistência e a credibilidade de sua
atuação.
Em um
cenário global de retrocessos nos direitos das mulheres, a atuação de países
como o Brasil torna-se ainda mais relevante e desafiadora. Para se consolidar
como ator confiável na agenda internacional de gênero, o país precisará assumir
posições claras em temas sensíveis, alinhar sua política externa a
transformações efetivas no plano doméstico e enfrentar debates politizados.
Mais do que aderir a princípios, será necessário disputar seus significados,
ocupar ativamente os espaços de negociação e atuar nas arenas onde normas são
definidas.
• Brasil é pior país da América Latina em
presença de mulheres na política, indica ONU
Em
2026, as mulheres detêm apenas 64% dos direitos legais dos homens, o que as
expõe a discriminações e a violências.
Os
dados são de um relatório da ONU Mulheres e também trazem questões alarmantes
de gênero na sociedade:
• Mais da metade dos países do mundo não
reconhecem estupro como crime.
• Em quase três de cada quatro nações, uma
menina pode ser obrigada a se casar pela legislação nacional.
• A desigualdade também se destaca no
mercado de trabalho: Em 44% dos países, a lei não determina remuneração igual
entre homens e mulheres para a mesma função.
A
desigualdade estrutural nos avanços voltados aos direitos das mulheres ainda
são um grande problema no mundo, de acordo com Gallianne Palayret,
representante de ONU Mulheres no Brasil:
“O
problema é que ele ainda é desigual, lento e insuficiente diante da escala dos
desafios. Não estamos falando de falhas pontuais, mas de sistemas de justiça
que em muitos contextos continuam inacessíveis, caros ou precisam passar por um
ciclo muito longo de tentativas até obter uma resposta ou proteção
efetiva", afirma a representante.
"Isso
amplia a impunidade e enfraquece o próprio Estado de Direito. A preocupação
aumenta ainda mais quando olhamos para mulheres com deficiência, mulheres
negras, indígenas, migrantes, refugiadas ou aquelas que vivem em
conflito", explica Palayret.
A falta
de mulheres no poder também se traduz na política, onde as decisões sociais
mais importantes são tomadas.
Segundo
a ONU, o Brasil é hoje um dos piores países do mundo em presença de mulheres na
política; o pior da América Latina, ocupando a colocação 133.
Quando
se tem menos mulheres nesses cargos, há menos pessoas pensando em problemas que
este grupo atravessa, de acordo com Débora Thomé, professora do IDP, autora de
Mulheres e Poder e Candidatas:
“A
própria experiência, né? Permitindo com que você tenha a noção da existência
daquele problema e, a partir disso, você começar a pensar soluções. É a ideia
de criar um ambiente que seja mais benéfico às mulheres. Não é uma relação
direta de ‘ah, vou ter mais mulheres na política, está tudo resolvido’. Mas
existem algumas temáticas que não estão sendo sequer consideradas, Porque elas
não tão conseguindo alcançar espaços de poder.”
Em
2025, apenas 25 países tinham mulheres ocupando os cargos mais altos da
liderança nacional, seja como chefes de Estado ou Governo. Além disso, apenas
nove países atingiram gabinetes com igualdade de gênero, com 50% ou mais
mulheres ocupando cargos ministeriais.
Na
avaliação de Hannah Maruci, doutora em Ciência Política pela USP, a nossa
democracia não é completa se não refletir a composição social:
“A
gente está aqui também relacionando com a sub-representação das mulheres na
política. Parecem coisas diferentes e não conectadas, mas na verdade, elas não
só são conectadas, como são consequência de uma mesma raiz, que é a
desigualdade estrutural entre homens e mulheres na nossa sociedade.”
A
porta-voz da ONU Mulheres reforça medidas necessárias para que o cenário seja
cada vez mais favorável às mulheres:
“As
soluções passam em primeiro lugar por reforma legal e institucional. Isso
significa eliminar leis discriminatórias, fechar lacunas legais, garantir
orçamento para implementar direitos e fortalecer sistemas de justiça sensíveis
a gênero. O relatório enfatiza que movimentos feministas e organizações de
mulheres são fatores decisivos para gerar mudança duradoura. Também são
centrais a ampliação da assistência jurídica gratuita, o fortalecimento da
justiça comunitária e financiamento.”
O
relatório também mostra que nos últimos cinco anos houve avanços, apesar de
poucos - 87% dos países aprovaram legislação sobre violência doméstica e mais
de 40 países fortaleceram proteções constitucionais para mulheres e meninas na
última década.
• Portugal: os direitos transgêneros
ameaçados. Por Camila Miranda Evangelista
O
parlamento português aprovou, no último dia 20 de março, três projetos que
configuram um retrocesso na maneira como o Estado trata as pessoas transgênero
no país. As propostas aprovadas revogam ou alteram substancialmente a Lei
38/2018, que tinha como objetivo despatologizar a identidade de gênero e
simplificar o processo de reconhecimento legal. Com isso, aproximam-se do
regime jurídico de 2011, focado na restrição de direitos e no reforço da
necessidade de intervenção médica para mudança de nome e gênero no registro
civil.
A
partir de 2018, esse processo se tornou possível sem necessidade de diagnóstico
médico ou relatório psicológico para qualquer pessoa com mais de 18 anos.
Jovens, entre 16 e 18 anos, também passaram a ter direito a mudança mediante
autorização dos representantes legais e apresentação de uma declaração de
profissional de saúde que atestasse a “capacidade de decisão e vontade
informada”. Além disso, a legislação regulamentava o acesso a bloqueadores da
puberdade, prevendo a avaliação caso a caso.
O texto
apresentado pelo Partido Social Democrata (PSD) reintroduz a exigência de um
relatório médico obrigatório para mudança de gênero e alteração no registro
civil a partir dos 16 anos, ou antes dessa idade “mediante atestado médico
especializado e o consentimento informado e expresso dos titulares das
responsabilidades parentais ou tutores legais”. A proposta define que a
comprovação de “incongruência de gênero” deve ser feita através de relatório de
uma equipe clínica multidisciplinar especializada, em unidade de saúde pública
ou privada, sendo obrigatória a subscrição por, no mínimo, um médico e um
psicólogo especialistas.
A
iniciativa do Chega, a primeira apresentada na Assembleia da República com
intuito de revogar a legislação em vigor, acrescenta novos artigos para
“proteção das crianças e jovens”. O documento do partido define a proibição da
inclusão da ideologia de gênero nos conteúdos curriculares em escolas para
menores de 18 anos, prevendo que “a educação nesse campo é reservada
exclusivamente aos pais ou tutores legais”. Já a proposta do CDS-PP proíbe
expressamente o uso de bloqueadores da puberdade e terapias hormonais em
menores de 18 anos.
A Lei
nº 38/2018 foi aprovada com amplo consenso, unindo esquerda e parte da direita.
Agora, direita e ultradireita uniram-se para desfazer esse consenso,
contrariando inclusive as orientações da União Europeia, que em 2025 publicou a
Estratégia para a Igualdade LGBTIQ+ 2026-2030, onde defende explicitamente o
reconhecimento legal do gênero baseado na autodeterminação, sem restrições de
idade. A mensagem política que o parlamento português envia é que os direitos
conquistados por pessoas trans podem ser desfeitos conforme a correlação de
forças, fragilizando a estabilidade dos direitos humanos.
Fonte:
Tamya Rebelo e Paula Drumond, no Le Monde/CBN/Outras Palavras

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