A
magia demoníaca dos autômatos
Os
autômatos sempre me fascinaram. Olímpia, a boneca do conto O homem de areia, de
E. T. A. Hoffmann, inaugurou minha duradoura mania. Depois de ter inspirado
Sigmund Freud em Das Unheimliche, E. T. A. Hoffmann tornou-se uma referência
literária na minha biblioteca. O conto Os autômatos,também do escritor realista
fantástico alemão, mostra a faceta demoníaca dos humanoides. Já tinha ali uma
versão do autômato jogador de xadrez, que depois aparecerá nas Teses sobre o
conceito de história, de Walter Benjamin.
Com
ele, o filósofo buscava retratar o materialismo-histórico mecanicista e pouco
sensível às fugazes faíscas propícias à revolução. Essas aventuras
psicanalíticas, literárias, filosóficas e cinematográficas, me levaram a
descobrir recentemente o maravilhoso documentário Mechanical Marvels: Clockwork
Dreams,realizado por Simon Schaffer para a BBC de Londres. Meu aparente fetiche
por autômatos talvez não seja tão diletante. Ele busca investigar como aqueles
antigos bonecos representaram uma mutação decisiva na episteme moderna.
Observa-se
uma alteração irreversível daquilo que alguma vez se considerou propriamente
humano desde a advento das incríveis engenhocas no século XVIII, como o célebre
Pato Digestor (1739) construído por Jacques de Vaucanson que simulava funções
orgânicas ou as máquinas programáveis de Pierre Jaquet-Droz, especialmente o
Escritor (1774) capaz de escrever frases variáveis por meio de um sistema
mecânico de memória, ou ainda o Turco enxadrista de Wolfgang von Kempelen
(1770),que encenava a própria ideia de inteligência maquínica – não faltam
exemplos.
Sinais
que antes indicavam a presença da alma, como escrever ou jogar xadrez, se
convertem em efeitos de uma combinatória técnica reproduzível. Mimetizando
movimentos vivos, esses autômatos embaralharam as fronteiras entre natureza e
artifício.
O
modelo mecanicista dos autômatos acabou sendo incorporado às formas de pensar e
de articular a linguagem. O funcionamento do corpo tornou-se equiparável ao
funcionamento das máquinas e a lógica da causalidade mecânica serviu como molde
para as construções de raciocínios filosóficos e convenções linguísticas mais
corriqueiras.
É dessa
linhagem que nascem as Inteligências artificiais contemporâneas. Os robôs são
seus irmãos de outra geração. Desenvolvidos por instituições como OpenAI,
Boston Dynamics, Tesla, UBTECH Robotics ou SoftBank Robotics, essas máquinas se
inserem no campo da interação social e afetiva e seus sistemas reproduzem
operações linguísticas e inferenciais.
Os
modelos atuais de Inteligências artificiais militarizaram os intrigantes e
delicados autômatos do passado. Nessas versões contemporâneas, os robôs
materializaram discursos destituídos de agentes. Com elas, observa-se uma
exteriorização de operações técnico-simbólicas, pela qual o humano passa a se
reconhecer como partícipe de um automatismo que lhe é inteiramente estranho. Os
robôs tornaram-se ladrõezinhos incansáveis que roubam humanos para seus donos,
CEOs dos oligopólios de tecnologia digital.
Em
Terra arrasada: além da era digital, rumo a um mundo pós-capitalista, Jonathan
Crary propõe que o capitalismo tardio se configura como uma mutação histórica
que ultrapassa o modelo industrial clássico e se estabelece como um regime de
extração contínua que não se limita mais à exploração da força de trabalho, mas
incorpora a totalidade da vida como fonte de valor.
Isso
não visa apenas à produção de mercadorias, ao lucro e ao acúmulo de capital. As
Inteligências artificiais estão programadas para obter formas difusas de
controle, ligadas a ações políticas e sociais futuras. Massiva e silenciosa, a
extração de dados pelo complexo internético coloca-se a serviço da previsão e
da modulação de comportamentos. Capta permanentemente a atenção e elimina
qualquer forma de tempo improdutivo, como o ócio, o repouso e o sono.
Não por
acaso, o relógio era um protótipo dos autômatos. Os robôs atuais estão
ordenados por princípios que remontam ao capitalismo industrial dos séculos
XVIII e XIX, quando a temporalidade humana passou a se submeter à disciplina
produtiva. O tempo, organizado segundo imperativos de maximização da
eficiência, instaurou uma lógica de esquematização total da vida. Essas novas
tecnologias, desenvolvidas em contextos militares entre os séculos XX e XXI,
passaram à cultura da informação que compõe a vida civil pelas redes digitais
globais.
Como
analisa Simon Schaffer em Mechanical Marvels: Clockwork Dreams, a cidade de
autômatos, ligada às oficinas de Pierre Jaquet-Droz, também condensava a
exploração de trabalho própria à ordem social do século XVIII. Exposta ao olhar
contemplativo da aristocracia e da burguesia, a miniatura urbana aparecia
povoada por diminutas figuras sincronizadas em suas diferentes e ininterruptas
funções. A aparência de autonomia da cidade em miniatura ocultava sua condição
fundamental: ela não funcionava sozinha. Sua existência dependia de uma
infraestrutura invisível de trabalho humano que a construía e a mantinha.
Ao
mostrar essa dissociação entre os espectadores privilegiados e os operadores
ocultos das máquinas, o documentário indica como os autômatos já consolidavam o
imaginário idealizado de uma sociedade autorregulada, na qual o trabalho
pareceria ocorrer sem trabalhadores. Os bonequinhos naturalizavam
simbolicamente uma ordem social fundada sobre a dependência e a exclusão.
O que
permanecia fora da cena – os corpos que davam corda, ajustavam e reparavam a
maquinaria – era precisamente aquilo que tornava possível a ilusão de um mundo
mecânico autossuficiente.
O
documentário revela ainda como os próprios autômatos atrelados ao nome singular
de um “gênio criador”, como o de Jaquet-Droz, resultavam na verdade de uma
complexa divisão do trabalho que envolvia relojoeiros, metalúrgicos,
escultores, desenhistas e técnicos especializados, cujas contribuições
desapareciam sob a assinatura do mágico-inventor. O objeto final surgia como
uma unidade coerente e quase viva, enquanto o processo coletivo de sua produção
era apagado. Com isso, o autômato operava uma inversão simbólica: o trabalho
humano, que era sua verdadeira origem, reaparecia como propriedade da própria
máquina.
Atualmente
até “gênios criadores” foram surrupiados pelas Inteligências artificiais. A
experiência intelectual, convertida hoje em informação digital, relega qualquer
reflexão à repetição de dados consumíveis. O circuito fechado não se rompe, já
que a crítica reflexiva a ele é eliminada pela inclusão de sua força de
resistência à dinâmica informacional. O capitalismo digital é uma imensa
maquinaria de produção de automatismos, na qual a vida é progressivamente
reorganizada segundo os princípios da regularidade, da previsibilidade e da
resposta condicionada.
Por
isso, caberia observar como a análise de Jonathan Crary encontra ressonância
direta na concepção psicanalítica de automatismo, tal como elaborada por
Sigmund Freud. Talvez não seja exagero dizer que os dados informacionais
impactam o aparelho psíquico de maneira traumática. Diante deles opera-se
apenas a repetição robótica, tentativa fracassada de saída do círculo
cibernético fechado.
Como
modelo preponderante de funcionamento psíquico do capitalismo digital, a
compulsão à repetição realiza tecnicamente a captura da matéria-prima
traumática para adequá-la e usá-la em sistemas computacionais que passam a
governar qualquer esfera da experiência. Certa vez o autômato retratava apenas
a base de vários mecanismos, hoje tornou-se o corpo e a psique de humanos que
se convertem em suportes de processamentos de dados. Magias demoníacas estão
entranhadas até mesmo em textos críticos às Inteligências artificiais, como
este que você acaba de ler.
Fonte:
Por Alessandra Affortunati Martins, em A Terra é Redonda

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