O
capitalismo pode ser cognitivo?
Como se
sabe, é com esse qualificativo que os intelectuais da corrente pós-operaísta
designam o sistema da relação de capital tal como se configurou depois dos anos
1970. Se antes o capitalismo era industrial, transformou-se, segundo eles, em
pós-industrial.
Se
antes ele era mudo, ainda segundo eles, passou a ser loquaz. Em sua Lectio
Magistralis na Universidade de Pádua, intitulada Il linguaggio del lavoro, Christian
Marazzi rememora o que ocorreu no processo de produção capitalista:
“[Observou-se, então, uma] mudança de paradigma: a transição do capitalismo
industrial fordista para o novo capitalismo digital, inscrito nos processos de
globalização e financeirização. (…) Com ela, algo profundo aconteceu (…) na
natureza do trabalho. (…) A linha de montagem rígida e mecânica (…) exigia que
todos trabalhassem em silêncio de forma executiva e repetitiva. [Depois,] a
montagem se tornou um fluxo comunicativo de informação que passou a clamar pela
presença da linguagem. A ação comunicativa foi colocada no centro da ação
instrumental”.
Tem-se
acima, grosso modo, uma descrição da transformação que ocorreu, sem dúvida, na
concretude do trabalho e da organização do trabalho na segunda metade do século
XX. Ela contém verdade, mas Christian Marazzi e seus colegas pós-operaístas
tiram daí uma dupla crítica ao modo como Karl Marx pensou o capitalismo.
É
preciso, pois, examiná-las com cuidado para poder verificar se a ideia de
“capitalismo cognitivo” faz ou não sentido. Para tanto leu-se, além do texto
citado, O lugar das meias e Capital e linguagem sem
encontrar grande novidade adicional. Em linhas gerais, a partir dessa
transformação do modo concreto de trabalhar, ele achou que poderia colocar em
questão as categorias valor e o mais-valor tal como foram expostas em O
capital. A partir uma interpretação do que se encontra nesse livro
famoso, discutida em sequência, ele encontra uma base para repensar a natureza
do capitalismo, em particular em sua configuração contemporânea.
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Uma interpretação do valor
Os
pós-operaístas tem uma certa compreensão da categoria “valor” e ela se baseia
na leitura do primeiro capítulo de O capital. Como se discute
aqui interpretações de textos, longas citações são necessárias. Marx começa a
sua obra apresentando a mercadoria como a unidade aparente de valor de uso e
valor de troca. O primeiro seria objeto da merceologia e interessa à crítica da
economia política apenas como condição material e existencial da mercadoria. O
segundo, ao contrário, é o objeto próprio dessa exposição. Em sequência, por
isso, mostra que o valor de troca é apenas a forma aparente do valor.
Como
este último é enigmático e difícil de apreender, ele constrói a seguinte
explicação como parte de um argumento mais amplo: “Deixando de lado então o
valor de uso dos corpos das mercadorias, resta a elas apenas uma propriedade,
que é a de serem produtos do trabalho. Assim, o produto do trabalho também se
transformou em nossas mãos. Se abstraímos o seu valor de uso, abstraímos também
os componentes e formas corpóreas que fazem dele valor de uso. Deixa já de ser
mesa ou casa ou fio ou qualquer outra coisa útil. Todas as suas qualidades
sensoriais se apagaram”.
Sim,
mas o que se tem então em “nossas mãos”? Para encontrar a resposta a essa
pergunta que aqui se faz, note-se que a abstração referida neste trecho é
subjetiva. Ao se fazer mentalmente tal abstração, suprime-se as qualidades das
mercadorias e se chega simplesmente à mercadoria em geral, ou seja, a um signo
linguístico que aponta para uma “imensa coleção de mercadorias”. E esse signo
guarda o seguinte significado: a mercadoria em geral é alguma coisa produzida
pelo trabalho e que está pronta para ir ao mercado para ser vendida.
Posto
isso, eis como a explicação continua: “Também já não é o produto do trabalho do
marceneiro ou do pedreiro ou do fiandeiro ou de qualquer outro trabalho
produtivo determinado. Ao desaparecer o caráter útil dos produtos do trabalho,
desaparece o caráter útil dos trabalhos neles representados, e desaparecem
também, portanto, as diferentes formas concretas desses trabalhos, que deixam
de diferenciar-se um do outro para reduzir-se em sua totalidade a igual
trabalho humano, a trabalho humano abstrato”.
Veja-se,
agora, que Marx, ainda por meio de um mero raciocínio, apaga mentalmente de
todo trabalho concreto a sua especificidade para chegar à noção de trabalho em
geral. Ora, essa abstração subjetiva permite associar o signo “trabalho
abstrato” ao signo “mercadorias em geral”. Ao abstrair as especificidades dos
trabalhos concretos enquanto tais, ele chega a uma “objetividade
fantasmagórica, uma simples gelatina de trabalho humano indiferenciado”. Se,
enquanto concretos, os trabalhos diferem qualitativamente, enquanto abstratos,
eles diferem apenas quantitativamente.
Logo,
valendo-se do escrito do próprio Marx, Christian Marazzi toma o trabalho
abstrato como trabalho concreto que deixou de ter qualquer especificidade
qualitativa. Assim, passa a julgar que Karl Marx funda a categoria valor no
trabalho homogêneo com o objetivo de desenvolver a sua explicação científica
sobre como funciona o modo de produção capitalista.
Nessa
explicação, o capital aparecerá como valor que se valoriza por meio da
apropriação do mais-valor gerado pelo trabalho homogêneo na produção de
mercadorias. Ora, é partindo daí que os pós-operaístas vão construir as suas
próprias teorizações. Pois, parece que o próprio Marx se vale de um trabalho
concreto homogêneo para pensar o trabalho abstrato.
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Crítica do “trabalho mudo”
É por
se basearem nessa interpretação da constituição do valor que os pós-operaístas
encontrarão uma limitação da explicação marxiana do funcionamento do
capitalismo. Eis que, para eles, tal teorização se afigurou plausível porque
Marx observou cientificamente um capitalismo histórico que se caracterizava por
homogeneizar, na prática industrial, o trabalho.
Se ele
nasceu na primeira revolução industrial já no final do século XVIII, se avançou
no século XIX, realizou-se plenamente no fordismo do século XX. Ora, para eles,
essa teorização deixou de se afigurar plausível no capitalismo contemporâneo
porque este se baseia num “trabalho que se tornou linguístico” – e que deixou
de ser pensável, dizem eles, como homogêneo.
Eis,
pois, como Christian Marazzi se refere ao trabalho nas fábricas (para ele)
pós-industriais: “Comunicar, informar, interpretar, prescrever, compartilhar,
verificar, lembrar, argumentar, explicar, justificar, contabilizar, planejar
ações, decidir, negociar: todos esses são atos comunicativos, atos
linguísticos, antes atribuídos essencialmente ao setor de serviços, mas hoje
também às fábricas mais tradicionais. De fato, é justamente nas fábricas
fordistas, como o automóvel, que o modelo de produção foi radicalmente
revolucionado; é nelas que a interação linguística tornou possível emancipar-se
dos princípios tayloristas da organização científica do trabalho”.
Contudo,
pode-se argumentar também que essa interpretação da categoria valor em Marx,
apesar de sua base textual, não faz justiça à verdadeira concepção do autor.
Eis que assim se transforma a dialética real do vir a ser mercadoria no
capitalismo, apresentada na exposição dialética de O capital, numa
mera teoria do entendimento sobre os objetos fenomênicos desse campo do
conhecimento. Sendo assim, essa interpretação, mesmo tendo base textual,
afigura-se como ciência vulgar, ou seja, como um saber pragmático que fica nas
relações aparentes entre os fenômenos.
Voltando
ao texto, pode-se então argumentar que a abstração de que fala Marx vem a ser
uma abstração real, uma redução do trabalho concreto ao abstrato, algo que
ocorre efetivamente no processo mercantil generalizado do modo de produção
capitalista. E essa redução – e isso é bem crucial – vem a ser uma medida
objetiva (eidética) do conteúdo de trabalho socialmente necessário para
produzir cada espécie de mercadoria, o qual se expressa nos valores de troca.
E a
prova textual da validade dessa outra interpretação se encontra em muitos
lugares, mas sobretudo na afirmação de Marx, contida na seção sobre o
fetichismo da mercadoria, de que os valores se constituem como tais sem que os
homens tenham disso consciência.
“Os
homens relacionam entre si seus produtos de trabalho como valores não porque
consideram essas coisas meros envoltórios materiais de trabalho humano da mesma
espécie. Ao contrário. Ao equiparar seus produtos de diferentes espécies na
troca, como valores, equiparam seus diferentes trabalhos como trabalho humano.
Não o sabem, mas o fazem”.
Karl
Marx admite, pois, a existência de um inconsciente social. Mais do que isso,
ele acolhe que o processo de produção e circulação mercantil do capitalismo
cria uma medida de trabalho que é necessária para o seu próprio processo de
acumulação. A abstração em tela de juízo é objetiva – e não, portanto,
subjetiva. Ela é constituída por redução – e não, portanto, por generalização.
E essa redução põe uma medida.
Assim
se vê que os textos antes citados do primeiro capítulo de O capital deveriam
funcionar apenas como uma mediação – canhestra talvez – para chegar a uma
concepção do valor como realidade social que se afigura metafísica,
independente como tal da consciência dos agentes. Ademais, nessa última
interpretação (que foi desenvolvida de modo melhor em outro artigo) a limitação
apontada pelos pós-operaístas em geral se desvanece.
O
processo de redução do trabalho concreto ao abstrato ocorre mesmo se os
trabalhos são complexos, se envolvem cérebro e linguagem além de músculos,
nervos, mãos humanas, se requerem capacidade de fala além de força física. Para
tirar qualquer dúvida sobre essa afirmação, basta lembrar que Marx, tratando da
questão trabalho produtivo e improdutivo em Adam Smith, diz expressamente que
mesmo um cantor cria valor se a sua força de trabalho está submetida à relação
de capital.
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Crítica da “base miserável”
Mantendo-se
na interpretação acima criticada, Christian Marazzi afirma que a previsão de
Marx sobre a libertação do trabalho no curso do desenvolvimento do capitalismo
encontrada nos Grundrisse, precisamente no famoso capítulo que
versa sobre “capital fixo e desenvolvimento das forças produtivas da
sociedade”, não se confirmou.
Eis o
que dissera o filósofo da práxis nessa obra preparatória de O capital:
“À medida que a grande indústria se desenvolve, a criação de riqueza efetiva
passa a depender menos do tempo de trabalho e do quantum de trabalho empregado
que do poder dos agentes [ou seja, das máquinas que atuam no sistema de
produção] postos em movimento durante o tempo de trabalho (…). O roubo de tempo
de trabalho alheio, sobre o qual a riqueza atual se baseia, aparece como um
fundamento miserável em comparação esse novo fundamento desenvolvido, criado
por meio da própria grande indústria”.
Christian
Marazzi vê aí uma visão profética – e, portanto, mundana – de “alguém que fez
do trabalho e do tempo de trabalho a base da lei do valor” e que ficou
prisioneiro de seus limites (discutidos nas seções anteriores). Segundo essa
previsão, a necessidade de trabalhar terminaria ou se reduziria muito devido ao
próprio desenvolvimento do capitalismo. A partir dessa intepretação
historicista do texto marxiano (ou seja, que confunde a temporalidade teórica
com a temporalidade da história), Christian Marazzi chega à conclusão que a
história transcorrida mostrou que não foi isso o que aconteceu.
“Na
realidade, a digitalização, a robotização e a automação – a indústria 4.0 –
trouxeram nas últimas décadas não, de forma alguma, o fim do trabalho, muito
menos o término do trabalho manual. O que aconteceu, em vez disso, foi uma
transformação do trabalho inscrito na rede digital, um
processo de plataformização do trabalho no qual prosperou a comunicação
intersubjetiva. (…) Em vez de desemprego, deveríamos falar de “emprego precário
pleno”.
Isso
ocorreu em primeiro lugar, segundo ele, porque o impacto do aumento da
produtividade do trabalho no emprego foi sempre mais do que compensado pela
expansão da produção. Eis que apareceram novos e novos produtos, que se somaram
aos velhos, para alimentar um crescimento econômico exponencial que vacilou às
vezes, mas nunca deixou de ocorrer para além do curto prazo. Christian Marazzi
não vê aí a lógica expansiva do capital, mas uma compulsão por consumir que
parece ser ilimitada. As pessoas, em consequência, para poderem consumir mais e
mais se enrolam numa espiral de dívidas que as forçam a trabalhar sempre mais e
mais.
A essa
elevação do trabalho produtor de mercadorias que ocorre devido à própria
dinâmica da relação de capital, ele junta uma expansão do trabalho de
manutenção da vida social em geral, por exemplo, daquele que ocorre “nas
cozinhas das fazendas de cliques na África e nas fábricas de faxina das
Filipinas”. Mas isso não é tudo, pois ele acrescenta também o “trabalho” de
prestar atenção: eis que, para ele, atualmente “até mesmo a ‘ociosidade’ é
‘colocada a trabalhar’; pois, “ao nos distrairmos na internet, estamos na
verdade produzindo dados que serão comercializados” pelas chamadas,
apologeticamente, de “bigtechs”.
Em
resumo, ao pensar o trabalho abstrato como trabalho em geral, todo trabalho se
afigura como trabalho produtivo. Assim, os pós-operaístas passam a tomar a
sociedade como uma grande fábrica. Na verdade, eles se afastam da concepção de
valor encontrada em Marx porque apreendem o próprio trabalho na perspectiva da
virada linguística, ou seja, do “linguistic turn de Richard Rorty”.
O valor, o dinheiro e o capital, assim, passam a ser compreendidos como meros
eventos linguísticos. “Como a linguagem” – diz Christian Marazzi – “define
fundamentalmente o valor econômico, segue-se [tautologicamente, é claro] que o
dinheiro, que é expressão abstrata do valor, tem apenas um valor linguístico”.
Para
Marx, o valor é uma categoria teórica que se encontra devidamente referenciada
a uma realidade social própria do capitalismo. Como se sabe, a redução do
trabalho concreto ao abstrato, operada que está pela dinâmica do processo de
produção e circulação mercantil, está fundada no “dispêndio de força humana de
trabalho”. Eis que no valor de uso produzido como mercadoria “está objetivado
ou materializado trabalho humano abstrato”.
Não se
trata evidentemente de uma realidade que independe do homem e da linguagem como
instituição humana, pois vem a ser uma realidade objetiva que é constituída num
processo em que se conjugam a matéria natural devidamente transformada pelo
labor humano e uma linguagem apropriada que codifica a lógica do sistema de
produção baseado na relação de capital. Para se referir a ela, Marx diz que a
esfera econômica da sociedade é regida por uma linguagem própria que designa
como “linguagem das mercadorias”.
Portanto,
diante da exposição precedente, já se pode responder à pergunta inicial: o
capitalismo pode ser cognitivo? Sim, pode. Mas não aquele verdadeiramente
existente e que foi exposto realisticamente por Karl Marx. Vem a ser aquele que
está posto no discurso pós-moderno e na aludida peça discursiva, que serviu de
base para esse comentário e que se apresenta ao mundo como uma Lectio
Magistralis.
Fonte:
Por Eleutério F. S. Prado, em A Terra é Redonda

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