quarta-feira, 15 de abril de 2026

O capitalismo pode ser cognitivo?

Como se sabe, é com esse qualificativo que os intelectuais da corrente pós-operaísta designam o sistema da relação de capital tal como se configurou depois dos anos 1970. Se antes o capitalismo era industrial, transformou-se, segundo eles, em pós-industrial.

Se antes ele era mudo, ainda segundo eles, passou a ser loquaz. Em sua Lectio Magistralis na Universidade de Pádua, intitulada Il linguaggio del lavoro, Christian Marazzi rememora o que ocorreu no processo de produção capitalista: “[Observou-se, então, uma] mudança de paradigma: a transição do capitalismo industrial fordista para o novo capitalismo digital, inscrito nos processos de globalização e financeirização. (…) Com ela, algo profundo aconteceu (…) na natureza do trabalho. (…) A linha de montagem rígida e mecânica (…) exigia que todos trabalhassem em silêncio de forma executiva e repetitiva. [Depois,] a montagem se tornou um fluxo comunicativo de informação que passou a clamar pela presença da linguagem. A ação comunicativa foi colocada no centro da ação instrumental”.

Tem-se acima, grosso modo, uma descrição da transformação que ocorreu, sem dúvida, na concretude do trabalho e da organização do trabalho na segunda metade do século XX. Ela contém verdade, mas Christian Marazzi e seus colegas pós-operaístas tiram daí uma dupla crítica ao modo como Karl Marx pensou o capitalismo.

É preciso, pois, examiná-las com cuidado para poder verificar se a ideia de “capitalismo cognitivo” faz ou não sentido. Para tanto leu-se, além do texto citado, O lugar das meias e Capital e linguagem sem encontrar grande novidade adicional. Em linhas gerais, a partir dessa transformação do modo concreto de trabalhar, ele achou que poderia colocar em questão as categorias valor e o mais-valor tal como foram expostas em O capital. A partir uma interpretação do que se encontra nesse livro famoso, discutida em sequência, ele encontra uma base para repensar a natureza do capitalismo, em particular em sua configuração contemporânea.

<>< Uma interpretação do valor

Os pós-operaístas tem uma certa compreensão da categoria “valor” e ela se baseia na leitura do primeiro capítulo de O capital. Como se discute aqui interpretações de textos, longas citações são necessárias. Marx começa a sua obra apresentando a mercadoria como a unidade aparente de valor de uso e valor de troca. O primeiro seria objeto da merceologia e interessa à crítica da economia política apenas como condição material e existencial da mercadoria. O segundo, ao contrário, é o objeto próprio dessa exposição. Em sequência, por isso, mostra que o valor de troca é apenas a forma aparente do valor.

Como este último é enigmático e difícil de apreender, ele constrói a seguinte explicação como parte de um argumento mais amplo: “Deixando de lado então o valor de uso dos corpos das mercadorias, resta a elas apenas uma propriedade, que é a de serem produtos do trabalho. Assim, o produto do trabalho também se transformou em nossas mãos. Se abstraímos o seu valor de uso, abstraímos também os componentes e formas corpóreas que fazem dele valor de uso. Deixa já de ser mesa ou casa ou fio ou qualquer outra coisa útil. Todas as suas qualidades sensoriais se apagaram”.

Sim, mas o que se tem então em “nossas mãos”? Para encontrar a resposta a essa pergunta que aqui se faz, note-se que a abstração referida neste trecho é subjetiva. Ao se fazer mentalmente tal abstração, suprime-se as qualidades das mercadorias e se chega simplesmente à mercadoria em geral, ou seja, a um signo linguístico que aponta para uma “imensa coleção de mercadorias”. E esse signo guarda o seguinte significado: a mercadoria em geral é alguma coisa produzida pelo trabalho e que está pronta para ir ao mercado para ser vendida.

Posto isso, eis como a explicação continua: “Também já não é o produto do trabalho do marceneiro ou do pedreiro ou do fiandeiro ou de qualquer outro trabalho produtivo determinado. Ao desaparecer o caráter útil dos produtos do trabalho, desaparece o caráter útil dos trabalhos neles representados, e desaparecem também, portanto, as diferentes formas concretas desses trabalhos, que deixam de diferenciar-se um do outro para reduzir-se em sua totalidade a igual trabalho humano, a trabalho humano abstrato”.

Veja-se, agora, que Marx, ainda por meio de um mero raciocínio, apaga mentalmente de todo trabalho concreto a sua especificidade para chegar à noção de trabalho em geral. Ora, essa abstração subjetiva permite associar o signo “trabalho abstrato” ao signo “mercadorias em geral”. Ao abstrair as especificidades dos trabalhos concretos enquanto tais, ele chega a uma “objetividade fantasmagórica, uma simples gelatina de trabalho humano indiferenciado”. Se, enquanto concretos, os trabalhos diferem qualitativamente, enquanto abstratos, eles diferem apenas quantitativamente.

Logo, valendo-se do escrito do próprio Marx, Christian Marazzi toma o trabalho abstrato como trabalho concreto que deixou de ter qualquer especificidade qualitativa. Assim, passa a julgar que Karl Marx funda a categoria valor no trabalho homogêneo com o objetivo de desenvolver a sua explicação científica sobre como funciona o modo de produção capitalista.

Nessa explicação, o capital aparecerá como valor que se valoriza por meio da apropriação do mais-valor gerado pelo trabalho homogêneo na produção de mercadorias. Ora, é partindo daí que os pós-operaístas vão construir as suas próprias teorizações. Pois, parece que o próprio Marx se vale de um trabalho concreto homogêneo para pensar o trabalho abstrato.

<><> Crítica do “trabalho mudo”

É por se basearem nessa interpretação da constituição do valor que os pós-operaístas encontrarão uma limitação da explicação marxiana do funcionamento do capitalismo. Eis que, para eles, tal teorização se afigurou plausível porque Marx observou cientificamente um capitalismo histórico que se caracterizava por homogeneizar, na prática industrial, o trabalho.

Se ele nasceu na primeira revolução industrial já no final do século XVIII, se avançou no século XIX, realizou-se plenamente no fordismo do século XX. Ora, para eles, essa teorização deixou de se afigurar plausível no capitalismo contemporâneo porque este se baseia num “trabalho que se tornou linguístico” – e que deixou de ser pensável, dizem eles, como homogêneo.

Eis, pois, como Christian Marazzi se refere ao trabalho nas fábricas (para ele) pós-industriais: “Comunicar, informar, interpretar, prescrever, compartilhar, verificar, lembrar, argumentar, explicar, justificar, contabilizar, planejar ações, decidir, negociar: todos esses são atos comunicativos, atos linguísticos, antes atribuídos essencialmente ao setor de serviços, mas hoje também às fábricas mais tradicionais. De fato, é justamente nas fábricas fordistas, como o automóvel, que o modelo de produção foi radicalmente revolucionado; é nelas que a interação linguística tornou possível emancipar-se dos princípios tayloristas da organização científica do trabalho”.

Contudo, pode-se argumentar também que essa interpretação da categoria valor em Marx, apesar de sua base textual, não faz justiça à verdadeira concepção do autor. Eis que assim se transforma a dialética real do vir a ser mercadoria no capitalismo, apresentada na exposição dialética de O capital, numa mera teoria do entendimento sobre os objetos fenomênicos desse campo do conhecimento. Sendo assim, essa interpretação, mesmo tendo base textual, afigura-se como ciência vulgar, ou seja, como um saber pragmático que fica nas relações aparentes entre os fenômenos.

Voltando ao texto, pode-se então argumentar que a abstração de que fala Marx vem a ser uma abstração real, uma redução do trabalho concreto ao abstrato, algo que ocorre efetivamente no processo mercantil generalizado do modo de produção capitalista. E essa redução – e isso é bem crucial – vem a ser uma medida objetiva (eidética) do conteúdo de trabalho socialmente necessário para produzir cada espécie de mercadoria, o qual se expressa nos valores de troca.

E a prova textual da validade dessa outra interpretação se encontra em muitos lugares, mas sobretudo na afirmação de Marx, contida na seção sobre o fetichismo da mercadoria, de que os valores se constituem como tais sem que os homens tenham disso consciência.

“Os homens relacionam entre si seus produtos de trabalho como valores não porque consideram essas coisas meros envoltórios materiais de trabalho humano da mesma espécie. Ao contrário. Ao equiparar seus produtos de diferentes espécies na troca, como valores, equiparam seus diferentes trabalhos como trabalho humano. Não o sabem, mas o fazem”.

Karl Marx admite, pois, a existência de um inconsciente social. Mais do que isso, ele acolhe que o processo de produção e circulação mercantil do capitalismo cria uma medida de trabalho que é necessária para o seu próprio processo de acumulação. A abstração em tela de juízo é objetiva – e não, portanto, subjetiva. Ela é constituída por redução – e não, portanto, por generalização. E essa redução põe uma medida.

Assim se vê que os textos antes citados do primeiro capítulo de O capital deveriam funcionar apenas como uma mediação – canhestra talvez – para chegar a uma concepção do valor como realidade social que se afigura metafísica, independente como tal da consciência dos agentes. Ademais, nessa última interpretação (que foi desenvolvida de modo melhor em outro artigo) a limitação apontada pelos pós-operaístas em geral se desvanece.

O processo de redução do trabalho concreto ao abstrato ocorre mesmo se os trabalhos são complexos, se envolvem cérebro e linguagem além de músculos, nervos, mãos humanas, se requerem capacidade de fala além de força física. Para tirar qualquer dúvida sobre essa afirmação, basta lembrar que Marx, tratando da questão trabalho produtivo e improdutivo em Adam Smith, diz expressamente que mesmo um cantor cria valor se a sua força de trabalho está submetida à relação de capital.

<><> Crítica da “base miserável”

Mantendo-se na interpretação acima criticada, Christian Marazzi afirma que a previsão de Marx sobre a libertação do trabalho no curso do desenvolvimento do capitalismo encontrada nos Grundrisse, precisamente no famoso capítulo que versa sobre “capital fixo e desenvolvimento das forças produtivas da sociedade”, não se confirmou.

Eis o que dissera o filósofo da práxis nessa obra preparatória de O capital: “À medida que a grande indústria se desenvolve, a criação de riqueza efetiva passa a depender menos do tempo de trabalho e do quantum de trabalho empregado que do poder dos agentes [ou seja, das máquinas que atuam no sistema de produção] postos em movimento durante o tempo de trabalho (…). O roubo de tempo de trabalho alheio, sobre o qual a riqueza atual se baseia, aparece como um fundamento miserável em comparação esse novo fundamento desenvolvido, criado por meio da própria grande indústria”.

Christian Marazzi vê aí uma visão profética – e, portanto, mundana – de “alguém que fez do trabalho e do tempo de trabalho a base da lei do valor” e que ficou prisioneiro de seus limites (discutidos nas seções anteriores). Segundo essa previsão, a necessidade de trabalhar terminaria ou se reduziria muito devido ao próprio desenvolvimento do capitalismo. A partir dessa intepretação historicista do texto marxiano (ou seja, que confunde a temporalidade teórica com a temporalidade da história), Christian Marazzi chega à conclusão que a história transcorrida mostrou que não foi isso o que aconteceu.

“Na realidade, a digitalização, a robotização e a automação – a indústria 4.0 – trouxeram nas últimas décadas não, de forma alguma, o fim do trabalho, muito menos o término do trabalho manual. O que aconteceu, em vez disso, foi uma transformação do trabalho inscrito na rede digital, um processo de plataformização do trabalho no qual prosperou a comunicação intersubjetiva. (…) Em vez de desemprego, deveríamos falar de “emprego precário pleno”.

Isso ocorreu em primeiro lugar, segundo ele, porque o impacto do aumento da produtividade do trabalho no emprego foi sempre mais do que compensado pela expansão da produção. Eis que apareceram novos e novos produtos, que se somaram aos velhos, para alimentar um crescimento econômico exponencial que vacilou às vezes, mas nunca deixou de ocorrer para além do curto prazo. Christian Marazzi não vê aí a lógica expansiva do capital, mas uma compulsão por consumir que parece ser ilimitada. As pessoas, em consequência, para poderem consumir mais e mais se enrolam numa espiral de dívidas que as forçam a trabalhar sempre mais e mais.

A essa elevação do trabalho produtor de mercadorias que ocorre devido à própria dinâmica da relação de capital, ele junta uma expansão do trabalho de manutenção da vida social em geral, por exemplo, daquele que ocorre “nas cozinhas das fazendas de cliques na África e nas fábricas de faxina das Filipinas”. Mas isso não é tudo, pois ele acrescenta também o “trabalho” de prestar atenção: eis que, para ele, atualmente “até mesmo a ‘ociosidade’ é ‘colocada a trabalhar’; pois, “ao nos distrairmos na internet, estamos na verdade produzindo dados que serão comercializados” pelas chamadas, apologeticamente, de “bigtechs”.

Em resumo, ao pensar o trabalho abstrato como trabalho em geral, todo trabalho se afigura como trabalho produtivo. Assim, os pós-operaístas passam a tomar a sociedade como uma grande fábrica. Na verdade, eles se afastam da concepção de valor encontrada em Marx porque apreendem o próprio trabalho na perspectiva da virada linguística, ou seja, do “linguistic turn de Richard Rorty”. O valor, o dinheiro e o capital, assim, passam a ser compreendidos como meros eventos linguísticos. “Como a linguagem” – diz Christian Marazzi – “define fundamentalmente o valor econômico, segue-se [tautologicamente, é claro] que o dinheiro, que é expressão abstrata do valor, tem apenas um valor linguístico”.

Para Marx, o valor é uma categoria teórica que se encontra devidamente referenciada a uma realidade social própria do capitalismo. Como se sabe, a redução do trabalho concreto ao abstrato, operada que está pela dinâmica do processo de produção e circulação mercantil, está fundada no “dispêndio de força humana de trabalho”. Eis que no valor de uso produzido como mercadoria “está objetivado ou materializado trabalho humano abstrato”.

Não se trata evidentemente de uma realidade que independe do homem e da linguagem como instituição humana, pois vem a ser uma realidade objetiva que é constituída num processo em que se conjugam a matéria natural devidamente transformada pelo labor humano e uma linguagem apropriada que codifica a lógica do sistema de produção baseado na relação de capital. Para se referir a ela, Marx diz que a esfera econômica da sociedade é regida por uma linguagem própria que designa como “linguagem das mercadorias”.

Portanto, diante da exposição precedente, já se pode responder à pergunta inicial: o capitalismo pode ser cognitivo? Sim, pode. Mas não aquele verdadeiramente existente e que foi exposto realisticamente por Karl Marx. Vem a ser aquele que está posto no discurso pós-moderno e na aludida peça discursiva, que serviu de base para esse comentário e que se apresenta ao mundo como uma Lectio Magistralis.

 

Fonte: Por Eleutério F. S. Prado, em A Terra é Redonda

 

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