Henrique
Morrone: Economia brasileira - O que não falta é competição
Duncan
Foley abre um de seus livros de forma quase desconcertante. A competição, tão
celebrada, está longe de ser a única fonte de inovação. Há algo mais
silencioso, mais difuso, e frequentemente esquecido. Cooperação.
O
curioso é que o debate econômico costuma fazer o movimento inverso. Diante de
qualquer impasse, entoa-se a ária da competição. Falta concorrência, dizem.
Falta pressão, repetem. Como se o problema estivesse sempre na ausência de
disputa.
Mas
talvez o que falte seja outra coisa.
Talvez
falte cooperação. Humana. Umbilical.
Não no
sentido ingênuo, quase decorativo, com que o termo costuma aparecer. Mas como
estrutura. Como condição de funcionamento. Como aquilo que permite que partes
distintas não apenas coexistam, mas se reconheçam como parte de um mesmo
movimento.
Porque
há algo de paradoxal na economia brasileira. Uma diversidade imensa, quase
excessiva, que não se reconhece. Setores que existem, mas não se encontram.
Setores
e vidas existem. Mas não se conectam.
Capacidades
que se acumulam, mas não se combinam.
Darcy
Ribeiro já havia intuído esse ponto por outro caminho. A riqueza da nossa
formação não está na homogeneidade, mas na mistura. No encontro. No potencial
de combinação.
Mas
combinação não acontece sozinha.
Ela
exige algo que o debate raramente nomeia.
Cooperação.
E
reciprocidade.
Não
como valores abstratos, mas como mecanismos concretos de articulação. Como
aquilo que permite que a diversidade deixe de ser apenas um traço e passe a
operar como força.
Sem
cooperação e reciprocidade, não há sistema. Há apenas coexistência evitativa.
E há um
segundo problema, menos visível, mas igualmente persistente.
O que o
“mercado” busca não é equilíbrio. São preços elevados e persistentes. Não por
desvio, mas por funcionamento. Preços que sobem e voltam a cair rapidamente não
organizam expectativas, não sustentam margens, não estabilizam posições. O que
se busca é outra coisa. Continuidade.
Mas há
algo que não falta no país.
Competição,
ao menos para quem reside embaixo.
E não
qualquer competição.
Há, por
vezes, uma competição brutal. Um tipo de dinâmica que opera como um moedor de
carne social. Esforços são intensificados, posições são disputadas, trajetórias
são comprimidas. O sistema absorve, rumina e expele continuamente.
O
problema não está na ausência de disputa.
Está na
forma como ela se consolida.
Dois
polos coexistem e se evitam: um, onde a cooperação sustenta a espoliação;
outro, cimentado em uma competição brutal.
Quando
a competição não é acompanhada de mecanismos de cooperação, ela não estrutura.
Ela desgasta.
Produz
movimento, mas não articulação. Pressão, mas não propagação. Seleção, mas não
transformação.
E,
nesse caso, o resultado não é dinamismo.
É
dispersão.
Não há
articulação. Há antagonismo.
Mas
preços que se sustentam sem que a estrutura se sustente criam um tipo
particular de economia. Aquela em que os sinais permanecem, mas as conexões
não.
E, sem
conexões, não há propagação.
Há
apenas ilhas isoladas.
E
talvez seja esse o problema mais persistente.
Não há
falta de competição.
Mas há
ausência de cooperação no tecido que sustenta o próprio corpo da economia
nacional.
• Uberização bancária. Por Fernando
Nogueira da Costa
A ideia
de “uberização bancária” das fintechs refere-se a um arranjo institucional no
qual muitas empresas financeiras digitais aparecem para o cliente como “o
banco”, mas a infraestrutura financeira profunda – liquidação, funding, balanço
e risco – continua concentrada nos grandes bancos. Algo parecido ocorreu no
transporte urbano com plataformas digitais: a interface mudou, mas a
infraestrutura subjacente permaneceu concentrada.
No
sistema financeiro existem duas camadas diferentes. Uma visível (interface) por
meio de aplicativo, experiência do usuário, pagamentos, transferências e
serviços financeiros simples. Nesta atuam muitas fintechs, por exemplo, Nubank,
Banco Inter e C6 Bank.
Na
camada invisível (infraestrutura financeira) estão a liquidação interbancária,
o acesso ao sistema de pagamentos, o funding de crédito, a gestão de risco e o
capital regulatório. Essa camada continua altamente concentrada em grandes
instituições como o BBICS (Banco do Brasil, Bradesco, Itaú, Caixa, Santander)
conforme indicam os balanços bancários.
O papel
da infraestrutura pública do Pix, criada pelo Banco Central do Brasil, foi
reduzir muito as barreiras para entrar no mercado de pagamentos. Agora qualquer
instituição pode oferecer transferências instantâneas, pagamentos digitais e
contas eletrônicas. Isso facilitou a entrada de fintechs.
Mas o
Pix não elimina duas necessidades fundamentais como a conta de liquidação no
Banco Central e a gestão de liquidez e risco financeiro. Nem todas as fintechs
possuem estrutura para isso. Muitas utilizam bancos liquidantes.
Mesmo
oferecendo serviços ao cliente final, muitas fintechs dependem estruturalmente
de bancos maiores para liquidação interbancária, custódia de recursos, funding
de crédito e emissão de determinados instrumentos financeiros.
Uma
fintech oferece uma interface digital, um grande banco oferta a infraestrutura
financeira. A dependência daquela cria uma espécie de subcontratação bancária.
Quem
controla o dinheiro captado e o crédito controla o sistema bancário. Pagamentos
são importantes, mas o núcleo do sistema financeiro é o multiplicador
empréstimos-depósitos-empréstimos. Para conceder crédito em larga escala é
necessário capital regulatório elevado, captação estável de recursos e gestão
de risco com base em grande banco de dados.
Os
grandes bancos ainda concentram essas capacidades. Assim, muitas fintechs
acabam originando crédito ao distribuírem cartões de crédito, mas vendendo ou
securitizando esse crédito para instituições maiores.
É
possível fazer uma analogia com outras plataformas digitais porque a lógica
lembra outros setores da economia digital. O setor transporte tem como
interface apps e como infraestrutura motoristas e frota. O streaming tem como
interface plataformas e como infraestrutura estúdios e conteúdo. O comércio
eletrônico tem como interface o marketplace e como infraestrutura logística. No
sistema financeiro, na camada de interface é ator a fintech, mas no balanço e
liquidez o ator é o grande banco.
Esse
arranjo gera um resultado paradoxal para a concorrência bancária. Mais
competição na experiência do usuário, mas continuidade da concentração
financeira estrutural. O cliente pode trocar facilmente de aplicativo, mas o
funding do sistema, o crédito corporativo e a gestão de grandes patrimônios
continuam concentrados.
O
possível futuro do sistema financeiro, se essa dinâmica continuar, será evoluir
para um modelo com três camadas: (i) infraestrutura pública com Pix, open
finance, sistemas de liquidação; (ii) plataformas financeiras com fintechs e
aplicativos capazes de interagirem com o usuário; (iii) bancos sistêmicos
continuam sendo instituições com grandes balanços concentradoras do crédito e
do funding.
A
“uberização bancária” significa fintechs dominarem a interface digital com o
cliente e grandes bancos continuam dominando o balanço financeiro e o crédito.
Assim, a inovação tecnológica transforma a forma de acesso ao sistema, mas não
necessariamente a estrutura de poder dentro dele.
No
entanto, o Pix está transformando os bancos em “plataformas financeiras
universais”, algo parecido com o modelo das big techs. Isso pode alterar
profundamente a lógica de concorrência bancária nos próximos 15 anos.
Há uma
mudança estrutural. Os bancos deixam de ser apenas intermediários de crédito e
depósito e passam a funcionar como ecossistemas digitais integrados,
semelhantes às plataformas das grandes empresas tecnológicas. Isso ocorre por
três transformações interligadas.
Na
primeira, a conta bancária vira uma “plataforma de serviços”. Antes do Pix, a
conta corrente era usada basicamente para receber salário, pagar contas e
transferir dinheiro. Com o Pix, essa conta se tornou o centro de praticamente
todas as transações cotidianas, porque permite transferências instantâneas,
pagamentos no comércio, pagamentos entre pessoas, cobranças automatizadas e
integração com aplicativos.
O fluxo
de pagamentos da economia passa continuamente pela conta bancária. Quanto mais
o cliente usa essa conta para tudo, mais o banco consegue integrar serviços
adicionais.
Há
integração crescente de serviços financeiros. Os grandes bancos brasileiros
estão transformando seus aplicativos em super-apps financeiros. Nos apps do
BBICS, o usuário já pode acessar, no mesmo ambiente digital, pagamentos Pix,
crédito pessoal, financiamento, investimentos, seguros, previdência, câmbio e
marketplace financeiro. Assim, o aplicativo no mobile banking (celular) deixa
de ser apenas interface bancária e passa a ser plataforma de múltiplos serviços
financeiros.
Dados
financeiros são registrados em tempo real. Cada transação Pix gera informações
sobre renda, consumo, fluxo de caixa e regularidade de pagamentos. Esses dados
permitem aos bancos oferecer crédito personalizado, avaliar risco de forma mais
precisa e criar ofertas automáticas.
Essa
lógica é semelhante à utilizada por plataformas digitais como Amazon e Alibaba
Group. Elas usam dados de comportamento para ampliar continuamente sua oferta
de serviços.
O
efeito de rede leva ao “aprisionamento” do usuário. Quando um cliente passa a
usar um único aplicativo para pagar, receber, investir, tomar crédito e
contratar seguros, o custo de mudar para outro banco aumenta. Esse fenômeno é
conhecido como “efeito de plataforma”. Quanto mais serviços concentrados no
mesmo ambiente, maior o incentivo para o usuário permanecer ali.
O papel
institucional da autoridade monetária é chave. Essa transformação foi
possibilitada por iniciativas regulatórias do Banco Central do Brasil, como
Pix, open finance e novos tipos de instituições de pagamento.
Essas
iniciativas aumentaram a competição na entrada do sistema. Porém, também
permitiram os bancos reorganizarem seus serviços como plataformas digitais
integradas.
Isso
poderá mudar a concorrência bancária nos próximos 15 anos porque podem emergir
três tipos de atores no sistema financeiro: (a) bancos-plataforma: instituições
com grande base de clientes e múltiplos serviços integrados; (b) fintechs
especializadas: empresas focadas em nichos específicos (pagamentos, crédito ou
investimentos); (c) infraestrutura pública: sistemas como Pix e open finance
capazes de conectarem todos os participantes.
Nesse
cenário, a competição ocorre dentro das plataformas e não apenas entre bancos
isolados.
Em
síntese, o Pix não é apenas um sistema de pagamentos. Ele está transformando a
conta bancária em uma plataforma digital central para organizar a vida
financeira das pessoas. Assim como ocorreu com as plataformas tecnológicas na
economia digital, a instituição controladora dessa interface tende a concentrar
dados, relacionamento com o cliente e distribuição de serviços financeiros.
Por
isso, o sistema bancário pode evoluir para um modelo de “plataformas
financeiras universais”. Nele, poucos grandes aplicativos organizam grande
parte das transações e serviços financeiros da economia.
Fonte:
Outras Palavras/A Terra é Redonda

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