sexta-feira, 17 de abril de 2026

Henrique Morrone: Economia brasileira - O que não falta é competição

Duncan Foley abre um de seus livros de forma quase desconcertante. A competição, tão celebrada, está longe de ser a única fonte de inovação. Há algo mais silencioso, mais difuso, e frequentemente esquecido. Cooperação.

O curioso é que o debate econômico costuma fazer o movimento inverso. Diante de qualquer impasse, entoa-se a ária da competição. Falta concorrência, dizem. Falta pressão, repetem. Como se o problema estivesse sempre na ausência de disputa.

Mas talvez o que falte seja outra coisa.

Talvez falte cooperação. Humana. Umbilical.

Não no sentido ingênuo, quase decorativo, com que o termo costuma aparecer. Mas como estrutura. Como condição de funcionamento. Como aquilo que permite que partes distintas não apenas coexistam, mas se reconheçam como parte de um mesmo movimento.

Porque há algo de paradoxal na economia brasileira. Uma diversidade imensa, quase excessiva, que não se reconhece. Setores que existem, mas não se encontram.

Setores e vidas existem. Mas não se conectam.

Capacidades que se acumulam, mas não se combinam.

Darcy Ribeiro já havia intuído esse ponto por outro caminho. A riqueza da nossa formação não está na homogeneidade, mas na mistura. No encontro. No potencial de combinação.

Mas combinação não acontece sozinha.

Ela exige algo que o debate raramente nomeia.

Cooperação.

E reciprocidade.

Não como valores abstratos, mas como mecanismos concretos de articulação. Como aquilo que permite que a diversidade deixe de ser apenas um traço e passe a operar como força.

Sem cooperação e reciprocidade, não há sistema. Há apenas coexistência evitativa.

E há um segundo problema, menos visível, mas igualmente persistente.

O que o “mercado” busca não é equilíbrio. São preços elevados e persistentes. Não por desvio, mas por funcionamento. Preços que sobem e voltam a cair rapidamente não organizam expectativas, não sustentam margens, não estabilizam posições. O que se busca é outra coisa. Continuidade.

Mas há algo que não falta no país.

Competição, ao menos para quem reside embaixo.

E não qualquer competição.

Há, por vezes, uma competição brutal. Um tipo de dinâmica que opera como um moedor de carne social. Esforços são intensificados, posições são disputadas, trajetórias são comprimidas. O sistema absorve, rumina e expele continuamente.

O problema não está na ausência de disputa.

Está na forma como ela se consolida.

Dois polos coexistem e se evitam: um, onde a cooperação sustenta a espoliação; outro, cimentado em uma competição brutal.

Quando a competição não é acompanhada de mecanismos de cooperação, ela não estrutura. Ela desgasta.

Produz movimento, mas não articulação. Pressão, mas não propagação. Seleção, mas não transformação.

E, nesse caso, o resultado não é dinamismo.

É dispersão.

Não há articulação. Há antagonismo.

Mas preços que se sustentam sem que a estrutura se sustente criam um tipo particular de economia. Aquela em que os sinais permanecem, mas as conexões não.

E, sem conexões, não há propagação.

Há apenas ilhas isoladas.

E talvez seja esse o problema mais persistente.

Não há falta de competição.

Mas há ausência de cooperação no tecido que sustenta o próprio corpo da economia nacional.

•        Uberização bancária. Por Fernando Nogueira da Costa

A ideia de “uberização bancária” das fintechs refere-se a um arranjo institucional no qual muitas empresas financeiras digitais aparecem para o cliente como “o banco”, mas a infraestrutura financeira profunda – liquidação, funding, balanço e risco – continua concentrada nos grandes bancos. Algo parecido ocorreu no transporte urbano com plataformas digitais: a interface mudou, mas a infraestrutura subjacente permaneceu concentrada.

No sistema financeiro existem duas camadas diferentes. Uma visível (interface) por meio de aplicativo, experiência do usuário, pagamentos, transferências e serviços financeiros simples. Nesta atuam muitas fintechs, por exemplo, Nubank, Banco Inter e C6 Bank.

Na camada invisível (infraestrutura financeira) estão a liquidação interbancária, o acesso ao sistema de pagamentos, o funding de crédito, a gestão de risco e o capital regulatório. Essa camada continua altamente concentrada em grandes instituições como o BBICS (Banco do Brasil, Bradesco, Itaú, Caixa, Santander) conforme indicam os balanços bancários.

O papel da infraestrutura pública do Pix, criada pelo Banco Central do Brasil, foi reduzir muito as barreiras para entrar no mercado de pagamentos. Agora qualquer instituição pode oferecer transferências instantâneas, pagamentos digitais e contas eletrônicas. Isso facilitou a entrada de fintechs.

Mas o Pix não elimina duas necessidades fundamentais como a conta de liquidação no Banco Central e a gestão de liquidez e risco financeiro. Nem todas as fintechs possuem estrutura para isso. Muitas utilizam bancos liquidantes.

Mesmo oferecendo serviços ao cliente final, muitas fintechs dependem estruturalmente de bancos maiores para liquidação interbancária, custódia de recursos, funding de crédito e emissão de determinados instrumentos financeiros.

Uma fintech oferece uma interface digital, um grande banco oferta a infraestrutura financeira. A dependência daquela cria uma espécie de subcontratação bancária.

Quem controla o dinheiro captado e o crédito controla o sistema bancário. Pagamentos são importantes, mas o núcleo do sistema financeiro é o multiplicador empréstimos-depósitos-empréstimos. Para conceder crédito em larga escala é necessário capital regulatório elevado, captação estável de recursos e gestão de risco com base em grande banco de dados.

Os grandes bancos ainda concentram essas capacidades. Assim, muitas fintechs acabam originando crédito ao distribuírem cartões de crédito, mas vendendo ou securitizando esse crédito para instituições maiores.

É possível fazer uma analogia com outras plataformas digitais porque a lógica lembra outros setores da economia digital. O setor transporte tem como interface apps e como infraestrutura motoristas e frota. O streaming tem como interface plataformas e como infraestrutura estúdios e conteúdo. O comércio eletrônico tem como interface o marketplace e como infraestrutura logística. No sistema financeiro, na camada de interface é ator a fintech, mas no balanço e liquidez o ator é o grande banco.

Esse arranjo gera um resultado paradoxal para a concorrência bancária. Mais competição na experiência do usuário, mas continuidade da concentração financeira estrutural. O cliente pode trocar facilmente de aplicativo, mas o funding do sistema, o crédito corporativo e a gestão de grandes patrimônios continuam concentrados.

O possível futuro do sistema financeiro, se essa dinâmica continuar, será evoluir para um modelo com três camadas: (i) infraestrutura pública com Pix, open finance, sistemas de liquidação; (ii) plataformas financeiras com fintechs e aplicativos capazes de interagirem com o usuário; (iii) bancos sistêmicos continuam sendo instituições com grandes balanços concentradoras do crédito e do funding.

A “uberização bancária” significa fintechs dominarem a interface digital com o cliente e grandes bancos continuam dominando o balanço financeiro e o crédito. Assim, a inovação tecnológica transforma a forma de acesso ao sistema, mas não necessariamente a estrutura de poder dentro dele.

No entanto, o Pix está transformando os bancos em “plataformas financeiras universais”, algo parecido com o modelo das big techs. Isso pode alterar profundamente a lógica de concorrência bancária nos próximos 15 anos.

Há uma mudança estrutural. Os bancos deixam de ser apenas intermediários de crédito e depósito e passam a funcionar como ecossistemas digitais integrados, semelhantes às plataformas das grandes empresas tecnológicas. Isso ocorre por três transformações interligadas.

Na primeira, a conta bancária vira uma “plataforma de serviços”. Antes do Pix, a conta corrente era usada basicamente para receber salário, pagar contas e transferir dinheiro. Com o Pix, essa conta se tornou o centro de praticamente todas as transações cotidianas, porque permite transferências instantâneas, pagamentos no comércio, pagamentos entre pessoas, cobranças automatizadas e integração com aplicativos.

O fluxo de pagamentos da economia passa continuamente pela conta bancária. Quanto mais o cliente usa essa conta para tudo, mais o banco consegue integrar serviços adicionais.

Há integração crescente de serviços financeiros. Os grandes bancos brasileiros estão transformando seus aplicativos em super-apps financeiros. Nos apps do BBICS, o usuário já pode acessar, no mesmo ambiente digital, pagamentos Pix, crédito pessoal, financiamento, investimentos, seguros, previdência, câmbio e marketplace financeiro. Assim, o aplicativo no mobile banking (celular) deixa de ser apenas interface bancária e passa a ser plataforma de múltiplos serviços financeiros.

Dados financeiros são registrados em tempo real. Cada transação Pix gera informações sobre renda, consumo, fluxo de caixa e regularidade de pagamentos. Esses dados permitem aos bancos oferecer crédito personalizado, avaliar risco de forma mais precisa e criar ofertas automáticas.

Essa lógica é semelhante à utilizada por plataformas digitais como Amazon e Alibaba Group. Elas usam dados de comportamento para ampliar continuamente sua oferta de serviços.

O efeito de rede leva ao “aprisionamento” do usuário. Quando um cliente passa a usar um único aplicativo para pagar, receber, investir, tomar crédito e contratar seguros, o custo de mudar para outro banco aumenta. Esse fenômeno é conhecido como “efeito de plataforma”. Quanto mais serviços concentrados no mesmo ambiente, maior o incentivo para o usuário permanecer ali.

O papel institucional da autoridade monetária é chave. Essa transformação foi possibilitada por iniciativas regulatórias do Banco Central do Brasil, como Pix, open finance e novos tipos de instituições de pagamento.

Essas iniciativas aumentaram a competição na entrada do sistema. Porém, também permitiram os bancos reorganizarem seus serviços como plataformas digitais integradas.

Isso poderá mudar a concorrência bancária nos próximos 15 anos porque podem emergir três tipos de atores no sistema financeiro: (a) bancos-plataforma: instituições com grande base de clientes e múltiplos serviços integrados; (b) fintechs especializadas: empresas focadas em nichos específicos (pagamentos, crédito ou investimentos); (c) infraestrutura pública: sistemas como Pix e open finance capazes de conectarem todos os participantes.

Nesse cenário, a competição ocorre dentro das plataformas e não apenas entre bancos isolados.

Em síntese, o Pix não é apenas um sistema de pagamentos. Ele está transformando a conta bancária em uma plataforma digital central para organizar a vida financeira das pessoas. Assim como ocorreu com as plataformas tecnológicas na economia digital, a instituição controladora dessa interface tende a concentrar dados, relacionamento com o cliente e distribuição de serviços financeiros.

Por isso, o sistema bancário pode evoluir para um modelo de “plataformas financeiras universais”. Nele, poucos grandes aplicativos organizam grande parte das transações e serviços financeiros da economia.

 

Fonte: Outras Palavras/A Terra é Redonda

 

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