Pesca
artesanal no Rio usa energia solar buscando autonomia e menos poluição
“Eu
trabalhei por dois anos com um gerador e, mesmo antes do projeto, já tinha
desistido dele. Não aguentava mais respirar aquele ar poluente e ter aquele
barulho no ouvido”, disse Paulo Henrique do Rosário Correia, presidente da
Associação dos Verdadeiros Pescadores e Turismo de Barcos de Bocas Abertas do
Município de Arraial do Cabo, no Rio de Janeiro.
Aos 57
anos de idade — sendo mais de 30 deles como pescador —, Paulo contou que não
sabe viver sem seu trabalho. “A gente aprende a pescar com os mais velhos e
acaba entrando nesse ramo mesmo sem querer. Foi natural. E, quando eu vi, já
estava envolvido na pesca o tempo todo.”
Nos
últimos tempos, uma mudança positiva passou a cercar as pescarias de Paulo:
elas estão mais sustentáveis graças ao uso de painéis solares para geração de
eletricidade, o que também garante maior segurança e rentabilidade a quem
trabalha no mar.
Isso
ocorre graças a projetos como o SustentaMar. Financiada por recursos do Termo
de Ajustamento de Conduta (TAC Frade), cuja administração financeira está sob a
gestão do Fundo Brasileiro para a Biodiversidade (Funbio), a iniciativa,
aprovada em 2024, surgiu do anseio de melhorar a captura de lula — hoje o
principal tipo de pescado para os profissionais vinculados à organização
presidida por Paulo.
A pesca
artesanal dos moluscos marinhos é feita à noite, quando os cardumes são
atraídos pela luz dos holofotes. Até boa parte de 2025, ano em que o projeto
passou a receber recursos, as lâmpadas refletoras eram majoritariamente
alimentadas por geradores a diesel ou gasolina. Um “vilão”, nas palavras de
Paulo, já que o objeto é barulhento a ponto de atrapalhar a concentração na
hora da pesca.
Além
disso, o tempo de uso do equipamento era limitado: um gerador com capacidade de
20 litros de combustível, por exemplo, produz eletricidade por aproximadamente
6 horas. Os painéis solares, por sua vez, funcionam a noite inteira.
Isso
mudou: além de silenciosa, a geração de energia via painéis solares aumentou a
autonomia dos barcos em alto-mar, reduziu os custos de rotina e trouxe
bem-estar aos pescadores. De quebra, a eliminação dos resíduos fósseis também
tornou as jornadas de pesca mais sustentáveis.
Segundo
Paulo, essa substituição também otimizou o trabalho, proporcionando mais tempo
livre. “Todo dia de manhã, a gente tinha que tirar a bateria para carregar e
levar novamente para a embarcação. Você chegava da pescaria noturna às 4h ou 5h
da manhã — e só voltava para casa às 8h para descansar”, disse. Cada barco
costumava dispor de uma bateria e de um gerador convencional para alimentar
lâmpadas de diferentes voltagens.
A
instalação dos painéis começou em março de 2025. Depois de alguns testes, o kit
fotovoltaico — composto por placa solar, bateria solar para armazenar energia e
holofote refletor — foi instalado em 55 das 70 embarcações cadastradas na
associação de pescadores de Arraial do Cabo.
Além
das placas solares para os barcos, o SustentaMar recebeu um posto de
carregamento de baterias solares, disponível ao lado de sua sede principal. É
com o dinheiro arrecadado por esse abastecimento periódico que outros barcos
poderão ser equipados no futuro. O novo formato é duplamente vantajoso: o ponto
de recarga fica mais próximo da marina do que os postos de combustível, ao
passo que o serviço de recarga de bateria solar custa cerca de R$ 20, metade do
preço que se pagava anteriormente.
A
economia é significativa quando se considera o que cada pescador gasta com
combustível: quando saem cinco vezes por semana durante a alta temporada, que
vai de dezembro a março, os custos são reduzidos em pelo menos R$ 550, segundo
os profissionais. “É um ciclo virtuoso: menos custo, menos impacto ambiental e
mais segurança e estabilidade para quem depende da pesca para viver”, disse
Manuela Muanis, gerente de Portfólio de Projetos do Funbio.
<><>
Melhorias para uma pesca mais segura
Para os
pescadores da Colônia Z-1, na cidade de São Francisco de Itabapoana (RJ), na
divisa do estado com o Espírito Santo, a principal motivação para criar um
projeto de energia solar era garantir maior segurança aos profissionais que
passam muitas horas em alto-mar. Dessa ideia nasceu o projeto local Pescando
Sol, também amparado pelo Funbio.
A
colônia é composta por mais de 1.500 pescadores e se estende por cerca de 60
quilômetros da costa. Em tempos recentes, a comunidade presenciou incidentes:
alguns pescadores não puderam retornar à terra firme por falta de combustível,
ficando incomunicáveis. Em muitos casos, esses profissionais navegam longas
distâncias, chegando ao mar de Ilhabela (SP) e até ao litoral da Bahia.
Há quem
fique um mês inteiro em mar aberto, o que aumenta a necessidade de medidas de
segurança para facilitar o retorno em caso de emergência.
“Estamos
ajudando a salvaguardar os pescadores. Se der pane na bateria, eles ainda têm
como carregar um telefone e conseguir entrar em contato [para pedir ajuda]”,
disse Diviane Chagas, coordenadora do Pescando Sol e presidente da Colônia de
Pescadores Z-1. “Hoje eles têm a segurança de que não vão ficar à deriva
totalmente no escuro, para não acontecer o que vem acontecendo há anos: o
pescador perde não só a embarcação, mas [também] a vida.”
Em
princípio, o projeto previa melhorias em 300 embarcações nos núcleos de Gargaú,
Guaxindiba e Barra do Itabapoana, localizadas dentro dos limites de São
Francisco, no litoral norte do estado. Nas primeiras etapas, houve certa
desconfiança e resistência por parte de alguns pescadores, o que reduziu o
número de cadastros.
No
entanto, depois da instalação das primeiras placas solares em junho de 2025 — e
à medida que os benefícios começaram a aparecer —, a iniciativa chegaria à
marca de 230 barcos beneficiados; somados aos 55 do SustentaMar, já são 285 em
todo o estado. Além dos kits fotovoltaicos para as embarcações, a Colônia Z-1
conseguiu, também por meio do TAC Frade, recursos para instalar sistemas de
energia solar em suas sedes em Gargaú e Guaxindiba, entre outras melhorias.
A busca
por soluções sustentáveis vai além: para promover a educação ambiental, o
Funbio também oferece capacitações voltadas aos próprios projetos, ensinando
pescadores a obter novos recursos e discutindo a importância do cuidado
ambiental.
“A
escala depende da combinação entre recursos financeiros, mobilização
comunitária e políticas públicas. Nesse caso, a gente tem muita chance de
aumentar e ganhar escala, pois [a energia solar] é uma tecnologia que respeita
o território, dialoga com o saber tradicional, sem interferir na pesca, e conta
com um modelo comunitário de gestão sólida”, disse Muanis à Mongabay.
Fonte:
Mongabay

Nenhum comentário:
Postar um comentário