QUANDO
O DIPLOMA NÃO BASTA: Juventudes negras, mercado de trabalho e os filtros
invisíveis da desigualdade
A
pesquisa Juventudes Negras e Empregabilidade, realizada pela Fundação Itaú em
parceria com o Pacto de Promoção da Equidade Racial, oferece um retrato
detalhado da inserção de jovens negros de 15 a 29 anos no mercado de trabalho
brasileiro. O estudo, ao desenvolver o Índice ESG de Equidade Racial da
Juventude Negra (IEERJN), quantifica um fenômeno que a análise histórica do
trabalho no Brasil já identificava há décadas, mas que permanecia sem
instrumentos de mensuração suficientemente refinados. Os dados revelam que a
desigualdade racial se aprofunda conforme aumenta o nível de escolaridade dos
trabalhadores. Jovens negros com ensino superior completo ou pós-graduação
enfrentam exclusão ocupacional mais acentuada do que aqueles com ensino
fundamental. Trata-se de um paradoxo que desafia as narrativas de ascensão pelo
mérito individual, pois evidencia filtros raciais operando na própria estrutura
de alocação de postos de trabalho.
A
compreensão desse fenômeno exige que se abandone a perspectiva que reduz a
desigualdade racial a uma mera herança do passado escravocrata, como se o
presente fosse um processo natural de superação. O que os dados da pesquisa
demonstram é que a segregação ocupacional se reproduz ativamente, por meio de
mecanismos institucionais e culturais que operam no cotidiano das relações de
trabalho. A experiência vivida por esses jovens, suas trajetórias
interrompidas, seus deslocamentos precários nas periferias das grandes cidades
e a violência que condiciona seus percursos compõem um quadro que não pode ser
apreendido apenas por modelos econométricos. É preciso entender como o mercado
de trabalho brasileiro fabrica, no dia a dia, uma ordem moral que naturaliza a
posição subalterna da juventude negra, tratando-a como resultado de escolhas
individuais e não como produto de relações sociais historicamente constituídas.
No
campo do Direito do Trabalho, a jurista Gabriela Neves Delgado tem apontado, em
sua obra sobre o direito ao trabalho digno, que a Constituição de 1988
estabeleceu um patamar civilizatório mínimo de proteção que permanece
largamente descumprido para segmentos específicos da população. A pesquisa da
Fundação Itaú corrobora essa análise ao revelar que a taxa de informalidade
entre jovens negros alcança 48%, contra 37% entre jovens brancos, segundo dados
da PNAD Contínua de 2024. A informalidade, como demonstra a socióloga Nadya
Araujo Guimarães em seus estudos sobre mercados de trabalho metropolitanos, não
constitui apenas ausência de carteira assinada, mas um regime de precariedade
que priva o trabalhador do acesso a direitos previdenciários, proteção contra
demissão arbitrária e mecanismos de ascensão profissional. O economista Marcelo
Neri, da FGV Social, já alertava em 2019 que a recessão econômica de 2014 a
2019 impactou os jovens negros de forma desproporcional, com perdas de
rendimento até sete vezes superiores à média nacional.
O
estudo da Fundação Itaú mostra que, mesmo quando os jovens negros conseguem
ingressar no ensino superior, a conversão do diploma em posição ocupacional
compatível encontra obstáculos persistentes. A correlação negativa entre
remuneração das profissões de nível superior e presença de negros nessas
ocupações é um dado que expressa, com clareza estatística, o que o sociólogo
Jessé Souza denominou de “ralé estrutural”, grupo social cuja marginalização
não se explica pelo nível educacional, mas pela reprodução de hierarquias de
classe e raça. O DIEESE, em seu Boletim Especial de novembro de 2024, confirmou
que o rendimento médio dos negros permanece 40% inferior ao dos não negros, e
que negros com ensino superior recebem 32% menos do que os demais trabalhadores
com o mesmo grau de instrução. Esses números indicam que o problema não reside
na qualificação, mas na forma como o mercado de trabalho precifica o trabalho
conforme a cor da pele.
A
situação das mulheres jovens negras é ainda mais grave. A pesquisa indica que
elas ocupam a base da hierarquia salarial em todos os recortes analisados.
Dados da RAIS de 2023 mostram que a média salarial das mulheres negras jovens
(R$ 1.997,68) era inferior à dos homens negros (R$ 2.189,06), das mulheres
brancas (R$ 2.436,10) e dos homens brancos (R$ 2.670,92). A economista
feminista Lena Lavinas, em seus estudos sobre proteção social e gênero no
Brasil, tem argumentado que a combinação de racismo e sexismo produz um regime
de acumulação de desvantagens que não se reduz à soma das partes. As mulheres
negras enfrentam barreiras específicas, como a sobrerrepresentação no trabalho
doméstico não remunerado (89,3%, segundo o projeto Mude com Elas), a gravidez
precoce e a ausência de equipamentos públicos de cuidado, que limitam
drasticamente suas possibilidades de inserção profissional e permanência nos
estudos.
O dado
mais perturbador da pesquisa talvez seja o que revela sobre São Paulo, o estado
com maior número de trabalhadores formais do país. Os jovens negros paulistas
enfrentam um cenário mais desfavorável no mercado de trabalho do que seus pares
em estados com economias menos dinâmicas. O IEERJN ponderado classifica São
Paulo como estado de “dominância branca” na composição do emprego formal. Isso
significa que, no coração econômico do Brasil, onde supostamente se concentram
as melhores oportunidades, a exclusão racial é mais aguda. Essa constatação
dialoga com o que o historiador Mário Theodoro identificou em “A sociedade
desigual” (2022), ao mostrar como o milagre econômico dos anos 1970 consolidou
uma divisão racial do trabalho nas grandes metrópoles, empurrando os
trabalhadores negros para a periferia e para os setores menos remunerados.
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A segregação ocupacional em perspectiva comparada
O
fenômeno da segregação racial no mercado de trabalho não é exclusividade
brasileira, embora adquira contornos próprios em cada formação social. A
comparação com outros países de economia similar permite identificar tanto
padrões comuns quanto especificidades que decorrem de trajetórias históricas
distintas. Na África do Sul pós-apartheid, estudo de Carlos Gradín publicado na
Feminist Economics (2021) demonstrou que as ocupações permanecem segregadas e
estratificadas por gênero e raça, com mulheres negras (Black e Coloured)
concentradas em postos de baixa remuneração, enquanto mulheres brancas e
indianas/asiáticas tendem a ocupar posições profissionais mais bem pagas. O
autor identificou uma redução de longo prazo na segregação de gênero, mas
constatou estagnação nos anos mais recentes. A educação aparece como principal
motor de mobilidade ascendente para as mulheres sul-africanas, assim como
ocorre no caso brasileiro, embora com limites análogos quanto à conversão da
escolaridade em igualdade salarial efetiva.
Nos
Estados Unidos, a pesquisa comparativa de Graziella Moraes Silva, Luciana de
Souza Leão e Christina Ciocca Eller, publicada no International Journal of
Comparative Sociology (2021), confrontou as trajetórias de portadores de
diploma de graduação negros e brancos no Brasil e nos EUA. O estudo identificou
que, no Brasil, a distribuição desigual entre campos de formação explica uma
parcela maior da desigualdade salarial racial entre graduados, enquanto nos
Estados Unidos o diferencial se manifesta sobretudo nos retornos desiguais
dentro de um mesmo campo e ocupação. Os autores utilizam o conceito de
“closure” (fechamento social) para descrever como profissões com maior vínculo
institucional com o mercado de trabalho excluem os graduados negros de forma mais
intensa. O Brasil apresenta um padrão misto, combinando o fechamento ligado a
profissões específicas com a exclusão em ocupações que não possuem vínculos
fortes com campos de formação.
A
Colômbia apresenta padrões comparáveis aos do Brasil. Estudos do Departamento
Administrativo Nacional de Estadística (DANE) revelam que a população
afrodescendente colombiana, concentrada nas regiões do Pacífico e do Caribe,
enfrenta taxas de desemprego e informalidade substancialmente superiores à
média nacional. A taxa de desemprego entre jovens afrocolombianos chegou a
ultrapassar 25% em 2023, e o acesso ao ensino superior permanece marcadamente
desigual. Assim como no Brasil, a escolarização crescente da população
afrodescendente colombiana não se traduziu em redução proporcional da
desigualdade salarial nas profissões de maior prestígio. O mecanismo é similar:
o mercado de trabalho filtra a conversão do diploma em posição ocupacional
segundo critérios que reproduzem hierarquias raciais herdadas.
Na
Índia, a segregação ocupacional opera segundo linhas de casta e religião, mas
os mecanismos de reprodução guardam semelhanças com o caso brasileiro. Pesquisa
de Kashif Mansoor e Vinoj Abraham, publicada no Indian Journal of Labour
Economics (2021), demonstrou que a segregação é mais elevada nas áreas urbanas
e entre as mulheres, e que o aumento da escolaridade, ao invés de reduzir,
amplia a segregação entre os homens de todos os grupos sociorreligiosos. As
ocupações em que se concentram os muçulmanos e os Hindu STs/SCs (castas e
tribos registradas) apresentam os piores indicadores de trabalho decente,
configuração que espelha a posição dos jovens negros brasileiros concentrados
nas ocupações de menor remuneração e piores condições. A analogia permite perceber
que a segregação ocupacional por marcadores identitários é um fenômeno global,
articulado com processos específicos de cada formação social.
O que
distingue o caso brasileiro é a combinação entre magnitude demográfica da
população negra (59,51% dos jovens de 15 a 29 anos, segundo o Censo de 2022), a
persistência de um mito de democracia racial que dificulta o reconhecimento
público do problema e a insuficiência de políticas públicas com recorte racial
no âmbito do mercado de trabalho. Diferentemente da África do Sul, que
instituiu mecanismos de Black Economic Empowerment com metas obrigatórias para
o setor privado, e dos Estados Unidos, com suas políticas de affirmative action
com décadas de implementação e avaliação, o Brasil carece de instrumentos
legais que obriguem empresas a adotar metas de equidade racial na contratação e
promoção. A Lei de Cotas (Lei 12.711/2012) transformou o perfil racial das
universidades públicas, mas o mercado de trabalho permanece refratário a
mudanças equivalentes.
A
pesquisa da Fundação Itaú apresenta o IEERJN como ferramenta capaz de municiar
essa lacuna, ao fornecer base técnica para que empresas e governos identifiquem
onde concentrar esforços de inclusão. O estudo propõe que programas como a Lei
do Estágio (Lei 11.788/2008), o Jovem Aprendiz (Lei 10.097/2000) e o Programa
Primeiro Emprego (Lei 10.748/2003) incorporem recorte racial obrigatório em sua
formulação e execução. A ausência dessa abordagem institucional específica faz
com que esses programas, embora relevantes, reproduzam as desigualdades que
deveriam combater. O Banco Mundial, em relatório de 2022, recomendou que o
Brasil adotasse políticas intersetoriais centradas na equidade racial,
incluindo ações afirmativas no setor privado e programas de mentoria e
patrocínio para jovens negros.
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Promessas incumpridas e caminhos possíveis
Os
dados do IPEA para 2024 indicam que o Brasil alcançou os menores níveis de
pobreza e desigualdade de toda a série histórica de pesquisas domiciliares. A
renda domiciliar per capita cresceu mais de 25% em termos reais entre 2021 e
2024, e o coeficiente de Gini recuou. Esses números, tomados em seu conjunto,
sugerem um ciclo virtuoso. Mas a desagregação racial revela que os avanços
macroeconômicos não se distribuem de maneira homogênea. Segundo dados do
Ministério do Trabalho e Emprego, compilados no XIV Seminário da Rede de
Observatórios do Trabalho realizado em novembro de 2024 com o DIEESE, o salário
médio de um trabalhador negro permanece 42% inferior ao de um trabalhador
branco. Entre as mulheres negras, a taxa de desemprego no segundo trimestre de
2024 atingiu 10,1%, mais do que o dobro da taxa de 4,6% registrada entre homens
não negros. A melhora geral dos indicadores não significou, até agora, a
ruptura dos mecanismos de estratificação racial.
O
mercado de trabalho brasileiro reproduz, no plano das juventudes, uma
segmentação que combina raça, gênero e território. Dados do IBGE mostram que
22% dos jovens negros entre 15 e 29 anos não trabalhavam nem estudavam em 2023,
proporção seis pontos percentuais acima da registrada entre jovens brancos
(16%). A concentração territorial agrava o problema. Nas regiões Norte e
Nordeste, onde reside a maioria da população negra, as taxas de informalidade
ultrapassam 60% em vários estados. A pesquisa da Fundação Itaú documenta que os
jovens negros, embora mais presentes nesses territórios, estão inseridos em
estados com menor renda média, menor taxa de ocupação e maiores índices de
desemprego. A mobilidade intergeracional, como demonstram Britto et al. (2024),
é significativamente mais baixa no Brasil do que em países como os Estados
Unidos, e crianças não brancas nascidas em famílias de baixa renda têm maior
probabilidade de permanecer no estrato mais pobre ao longo da vida.
A
questão das áreas STEM (Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática) agrava o
panorama. A pesquisa revela que a desigualdade racial nessas profissões é ainda
mais acentuada do que no conjunto das ocupações, e que os avanços registrados
entre 2012 e 2023 foram menores no grupo STEM. Em 2023, a diferença entre a
proporção de matriculados negros em cursos STEM e não STEM era de 12,4 pontos
percentuais. Nas profissões de maior remuneração vinculadas a esses campos, a
presença de jovens negros é residual. Essa exclusão das áreas que impulsionam o
desenvolvimento tecnológico compromete não apenas as trajetórias individuais
dos jovens negros, mas a própria capacidade do país de inovar e competir na
economia global.
O que a
análise dos dados permite concluir, sem recorrer a voluntarismo ou a categorias
genéricas, é que a desigualdade racial no mercado de trabalho brasileiro não é
residual. Ela não está em vias de desaparecer por efeito espontâneo do
crescimento econômico ou da ampliação do acesso ao ensino superior. Trata-se de
um fenômeno que se reconstitui em cada ciclo econômico, adaptando-se a novos
contextos sem perder sua função de distribuir desigualmente os custos e os
benefícios do trabalho. A informalidade, o desemprego diferencial, a segregação
ocupacional e a desvalorização salarial de trabalhadores negros com
qualificação equivalente à dos brancos são expressões de um mesmo processo. A
pesquisa da Fundação Itaú e do Pacto de Promoção da Equidade Racial dá
visibilidade a esse processo com o rigor que ele exige.
O
IEERJN, ao mensurar a segregação ocupacional por nível de escolaridade e por
estado, coloca nas mãos de gestores públicos e do setor privado uma ferramenta
que torna indefensável a alegação de desconhecimento. Sabe-se agora, com
precisão numérica, que em São Paulo os jovens negros enfrentam piores condições
de trabalho mesmo estando onde há as melhores oportunidades. Sabe-se que as
mulheres negras com pós-graduação não conseguem traduzir sua escolarização em
posição mais favorável no mercado de trabalho em comparação com os demais
grupos. Sabe-se que a correlação entre salários elevados e exclusão de negros
nas profissões de nível superior é estatisticamente verificável. A questão que
se coloca, a partir de agora, não é mais a do diagnóstico. É a da responsabilidade
política e institucional pela manutenção de um regime de trabalho que distribui
desvantagens segundo a cor da pele. Enquanto programas como o Jovem Aprendiz e
a Lei do Estágio não incorporarem o recorte racial como critério estruturante
de sua formulação e execução, eles seguirão operando como engrenagens de um
sistema que, ao incluir formalmente, exclui materialmente.
As
juventudes negras brasileiras, que constituem quase 60% da população jovem do
país, carregam consigo um potencial produtivo e criativo que o mercado de
trabalho insiste em desperdiçar. Cada jovem negro empurrado para a
informalidade, cada mulher negra que abandona os estudos por falta de creche,
cada universitário negro que não encontra correspondência entre seu diploma e
sua posição ocupacional representa não apenas uma injustiça individual, mas uma
perda coletiva. O país que pretende se desenvolver economicamente não pode
fazê-lo excluindo a maioria da sua juventude dos postos de trabalho que geram
inovação, produtividade e riqueza. Reverter esse quadro exige mais do que boas
intenções. Exige metas auditáveis, mecanismos de monitoramento, financiamento
adequado e, acima de tudo, o reconhecimento de que o racismo no mercado de
trabalho não é um problema secundário, mas um componente da própria estrutura
econômica do país.
Fonte:
Por Erik Chiconelli Gomes, no Le Monde

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