sexta-feira, 17 de abril de 2026

Pacientes com Alzheimer: a luta diária contra o esquecimento

Imagine perder-se em um labirinto sem mapa, onde as paredes são feitas de esquecimentos. A cada passo, você tem roubada de si a capacidade de reconhecer rostos familiares, de lembrar histórias que marcaram sua vida e, até mesmo, de encontrar as palavras certas para expressar os sentimentos. Apesar de parecer algo saído de um filme, é um drama real, conhecido como Doença de Alzheimer, transtorno neurodegenerativo que afeta a memória, a fala e o comportamento. A condição acomete ao menos 1,7 milhão de brasileiros com 60 anos ou mais, conforme dados do Ministério da Saúde.

A maioria dos que possuem um familiar afetado pela doença tem a rede pública de saúde um apoio para cuidar desses pacientes. O especialista em audiovisual Osires Reis, 44 anos, é um desses. Em 2018, a mãe do morador de Samambaia, Maria Sousa, 70, foi diagnosticada com Alzheimer. O tratamento, iniciado no Instituto de Saúde Mental, passou por diferentes unidades até chegar à Unidade Básica de Saúde (UBS) de Samambaia, onde é realizado atualmente.

"Minha mãe tratava bipolaridade desde os anos 1990, então, os primeiros sinais de confusão mental e esquecimento foram associados à falta de adesão à terapia. Apenas em 2017, constatamos que a bipolaridade estava estabilizada e que a memoria tinha piorado", recorda.

Na época, a gravidade do quadro exigiu o uso imediato de memantina, um medicamento não disponível no Sistema Único de Saúde (SUS), o que gerou desafios financeiros. Além do custo, Osires relata dificuldades na rede pública, como a falta de profissionais especializados e a demora para conseguir consultas e exames. "Precisaríamos de mais neurologistas, gerontólogos e psicólogos, além de cursos sobre como lidar com a doença. Também seria fundamental que a UBS oferecessem cuidadores domiciliares", disse.

<><>  Medicação

A aposentada Marisa de Souza Alonso, 69, é a principal responsável pelos cuidados com a mãe, Vilma de Souza, 93, diagnosticada com Alzheimer em 2018. Aos 93 anos, Vilma vive com Marisa e a família no Lago Sul, em Brasília.

Segundo Marisa, os maiores problema incluem o acesso aos medicamentos nas farmácias da rede pública, como a memantina, e outros fármacos necessários para o controle de sintomas secundários, como crises de raiva e de insônia. "Muitos dos medicamentos específicos também não são encontrados facilmente na Farmácia Popular", afirmou.

Ela defende um maior investimento em remédios, gratuitos ou subsidiados, indicados para doenças neurodegenerativas. "Essa condição é malvada. Desconecta o doente da família ainda em vida. Melhorar a disponibilidade de remédios seria um passo importante", finalizou.

<><> Cenário incerto

Hoje, o SUS oferece gratuitamente tratamento e monitoramento da evolução da enfermidade. Entretanto, o acesso nem sempre é garantido à população. O neurologista Carlos Valencia — especialista em Neurologia Cognitiva no Hospital de Base —, apontou a defasagem na estrutura do DF para lidar com o aumento de casos de doenças neurodegenerativas. "A estrutura atual é insuficiente diante da crescente demanda, dos desafios do envelhecimento populacional e do aumento de incidência de doenças crônicas", ressaltou o também membro da Associação Brasileira de Alzheimer (Abraz).

De acordo com o médico, algumas soluções existentes demonstram alta eficácia em seus tratamentos, mas precisam ser ampliadas. "Falta articulação para aproveitar melhor os recursos humanos e a infraestrutura disponíveis. Além disso, o programa da Secretaria de Saúde (SES-DF) que fornece medicamentos para tratar sintomas relacionados às demências, por meio da farmácia de alto custo, é uma iniciativa importante no cuidado desses pacientes", avaliou

<><> Saúde

Em nota, SES-DF disse que oferece suporte nas unidades de atenção primária e nos ambulatórios especializados em geriatria, neurologia e psiquiatria das policlínicas. Além do atendimento médico, algumas dessas unidades têm equipes multiprofissionais, incluindo psicólogos, fisioterapeutas, nutricionistas e terapeutas ocupacionais, para tratar os idosos com Alzheimer e outras demências.

Quanto ao acesso aos remédios, a SES-DF informa que aqueles aprovados pela Anvisa ao tratamento da doença estão disponíveis nas Farmácias de Alto Custo do Distrito Federal. A orientação a pessoas próximas que notem sinais de prejuízo cognitivo progressivo em parentes, como perda de memória, dificuldade de atenção, desorientação ou alterações de comportamento, é buscar a unidade de saúde da atenção primária mais próxima para avaliação médica inicial. Caso necessário, o médico poderá encaminhar o paciente a uma avaliação especializada.

<><> Cuidados

O diagnóstico precoce do Alzheimer ainda é um dos maiores obstáculos enfrentados por médicos e familiares. Segundo a geriatra Priscilla Mussi, coordenadora de Geriatria do Hospital Santa Lúcia e do Cuidar , existe uma crença cultural de que falhas de memória são normais em idosos. "Não é normal o idoso esquecer algo que já sabe, como senhas ou receitas. O comum é ter dificuldade em aprender coisas novas", explica.

Por fim, a geriatra enfatiza a importância da prevenção, com hábitos de alimentação balanceada, atividade física regular e controle de transtornos psiquiátricos, como depressão e ansiedade. "A população precisa estar atenta aos sinais de alerta, como o esquecimento de atividades habituais ou repetição excessiva de assuntos. Esses sintomas devem sempre ser investigados", conclui.

•        Como pessoas com a mente ativa desenvolvem Alzheimer

Mulher que inspirou o filme vencedor de Melhor Filme Internacional no Oscar de 2025, Eunice Paiva, esposa do ex-deputado Rubens Paiva, desaparecido e morto durante a ditadura militar, teve seus últimos anos de vida marcados pelo Alzheimer. A trajetória da personagem foi interpretada pelas atrizes Fernanda Torres e Fernanda Montenegro (já em cena com os efeitos da demência).

Mas como uma mulher inteligente, ativa e determinada, que dedicou anos à busca pela verdade sobre o desaparecimento do marido, pode ter desenvolvido uma doença tão devastadora como o Alzheimer?

O médico vascular e angiologista Álvaro Pereira esclarece pontos importantes sobre o caso de Eunice Paiva. “Em primeiro lugar, Eunice conviveu com a doença durante 14 anos, o que já é uma conquista.

A média de vida após o diagnóstico gira em torno de oito a dez anos. Outro fator relevante é que ela começou a apresentar os primeiros sinais aos 75 anos e faleceu aos 89, o que indica que suas atividades intelectuais e estilo de vida contribuíram para retardar o avanço da doença. Vale lembrar que o Alzheimer pode surgir bem mais cedo e sim, pode estar relacionado à genética”, explica o especialista.

Segundo ele, o tempo prolongado de vida com a doença sugere que Eunice recebia cuidados diferenciados e provavelmente mantinha sob controle outras condições clínicas como hipertensão, diabetes e colesterol alto.

O histórico familiar importa, mas não é determinante. “Muitas doenças têm predisposição genética, inclusive o Alzheimer. Ter casos na família pode aumentar o risco, mas não é uma sentença. Da mesma forma, pessoas sem nenhum caso familiar também podem desenvolver a doença”, afirma.

Não há sinais definitivos de que alguém terá Alzheimer. No entanto, esquecimentos frequentes, perda de memória e lentidão no raciocínio, especialmente sem causas aparentes como estresse extremo, sobrecarga de trabalho ou problemas emocionais, podem ser indícios de predisposição.

O que se sabe, segundo o especialista, é que não há um roteiro certo para o surgimento de demências. Por isso, o foco deve estar na prevenção e na promoção de hábitos saudáveis, especialmente para quem tem antecedentes familiares.

“Manter uma alimentação equilibrada, praticar exercícios físicos, usar ativamente o cérebro, estimular o intelecto, ter interações sociais frequentes e significativas, tudo isso ajuda. Hoje também já temos recursos como a ledterapia, que pode auxiliar na prevenção e até no retardo da progressão da doença. Infelizmente, Eunice não teve acesso a essas tecnologias, que ainda não estavam disponíveis na época.”

“A busca por um envelhecimento saudável e digno envolve múltiplos fatores. A ciência vem avançando, mas é natural que com a idade haja perda de capacidade cognitiva. Manter corpo e mente ativos é uma das formas mais eficazes de adiar ou evitar o surgimento de diferentes tipos de demência”, complementa.

 

Fonte: Correio Braziliense

 

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