Pacientes
com Alzheimer: a luta diária contra o esquecimento
Imagine
perder-se em um labirinto sem mapa, onde as paredes são feitas de
esquecimentos. A cada passo, você tem roubada de si a capacidade de reconhecer
rostos familiares, de lembrar histórias que marcaram sua vida e, até mesmo, de
encontrar as palavras certas para expressar os sentimentos. Apesar de parecer
algo saído de um filme, é um drama real, conhecido como Doença de Alzheimer,
transtorno neurodegenerativo que afeta a memória, a fala e o comportamento. A
condição acomete ao menos 1,7 milhão de brasileiros com 60 anos ou mais,
conforme dados do Ministério da Saúde.
A
maioria dos que possuem um familiar afetado pela doença tem a rede pública de
saúde um apoio para cuidar desses pacientes. O especialista em audiovisual
Osires Reis, 44 anos, é um desses. Em 2018, a mãe do morador de Samambaia,
Maria Sousa, 70, foi diagnosticada com Alzheimer. O tratamento, iniciado no
Instituto de Saúde Mental, passou por diferentes unidades até chegar à Unidade
Básica de Saúde (UBS) de Samambaia, onde é realizado atualmente.
"Minha
mãe tratava bipolaridade desde os anos 1990, então, os primeiros sinais de
confusão mental e esquecimento foram associados à falta de adesão à terapia.
Apenas em 2017, constatamos que a bipolaridade estava estabilizada e que a
memoria tinha piorado", recorda.
Na
época, a gravidade do quadro exigiu o uso imediato de memantina, um medicamento
não disponível no Sistema Único de Saúde (SUS), o que gerou desafios
financeiros. Além do custo, Osires relata dificuldades na rede pública, como a
falta de profissionais especializados e a demora para conseguir consultas e
exames. "Precisaríamos de mais neurologistas, gerontólogos e psicólogos,
além de cursos sobre como lidar com a doença. Também seria fundamental que a
UBS oferecessem cuidadores domiciliares", disse.
<><> Medicação
A
aposentada Marisa de Souza Alonso, 69, é a principal responsável pelos cuidados
com a mãe, Vilma de Souza, 93, diagnosticada com Alzheimer em 2018. Aos 93
anos, Vilma vive com Marisa e a família no Lago Sul, em Brasília.
Segundo
Marisa, os maiores problema incluem o acesso aos medicamentos nas farmácias da
rede pública, como a memantina, e outros fármacos necessários para o controle
de sintomas secundários, como crises de raiva e de insônia. "Muitos dos
medicamentos específicos também não são encontrados facilmente na Farmácia
Popular", afirmou.
Ela
defende um maior investimento em remédios, gratuitos ou subsidiados, indicados
para doenças neurodegenerativas. "Essa condição é malvada. Desconecta o
doente da família ainda em vida. Melhorar a disponibilidade de remédios seria
um passo importante", finalizou.
<><>
Cenário incerto
Hoje, o
SUS oferece gratuitamente tratamento e monitoramento da evolução da
enfermidade. Entretanto, o acesso nem sempre é garantido à população. O
neurologista Carlos Valencia — especialista em Neurologia Cognitiva no Hospital
de Base —, apontou a defasagem na estrutura do DF para lidar com o aumento de
casos de doenças neurodegenerativas. "A estrutura atual é insuficiente
diante da crescente demanda, dos desafios do envelhecimento populacional e do
aumento de incidência de doenças crônicas", ressaltou o também membro da
Associação Brasileira de Alzheimer (Abraz).
De
acordo com o médico, algumas soluções existentes demonstram alta eficácia em
seus tratamentos, mas precisam ser ampliadas. "Falta articulação para
aproveitar melhor os recursos humanos e a infraestrutura disponíveis. Além
disso, o programa da Secretaria de Saúde (SES-DF) que fornece medicamentos para
tratar sintomas relacionados às demências, por meio da farmácia de alto custo,
é uma iniciativa importante no cuidado desses pacientes", avaliou
<><>
Saúde
Em
nota, SES-DF disse que oferece suporte nas unidades de atenção primária e nos
ambulatórios especializados em geriatria, neurologia e psiquiatria das
policlínicas. Além do atendimento médico, algumas dessas unidades têm equipes
multiprofissionais, incluindo psicólogos, fisioterapeutas, nutricionistas e
terapeutas ocupacionais, para tratar os idosos com Alzheimer e outras
demências.
Quanto
ao acesso aos remédios, a SES-DF informa que aqueles aprovados pela Anvisa ao
tratamento da doença estão disponíveis nas Farmácias de Alto Custo do Distrito
Federal. A orientação a pessoas próximas que notem sinais de prejuízo cognitivo
progressivo em parentes, como perda de memória, dificuldade de atenção,
desorientação ou alterações de comportamento, é buscar a unidade de saúde da
atenção primária mais próxima para avaliação médica inicial. Caso necessário, o
médico poderá encaminhar o paciente a uma avaliação especializada.
<><>
Cuidados
O
diagnóstico precoce do Alzheimer ainda é um dos maiores obstáculos enfrentados
por médicos e familiares. Segundo a geriatra Priscilla Mussi, coordenadora de
Geriatria do Hospital Santa Lúcia e do Cuidar , existe uma crença cultural de
que falhas de memória são normais em idosos. "Não é normal o idoso
esquecer algo que já sabe, como senhas ou receitas. O comum é ter dificuldade
em aprender coisas novas", explica.
Por
fim, a geriatra enfatiza a importância da prevenção, com hábitos de alimentação
balanceada, atividade física regular e controle de transtornos psiquiátricos,
como depressão e ansiedade. "A população precisa estar atenta aos sinais
de alerta, como o esquecimento de atividades habituais ou repetição excessiva
de assuntos. Esses sintomas devem sempre ser investigados", conclui.
• Como pessoas com a mente ativa
desenvolvem Alzheimer
Mulher
que inspirou o filme vencedor de Melhor Filme Internacional no Oscar de 2025,
Eunice Paiva, esposa do ex-deputado Rubens Paiva, desaparecido e morto durante
a ditadura militar, teve seus últimos anos de vida marcados pelo Alzheimer. A
trajetória da personagem foi interpretada pelas atrizes Fernanda Torres e
Fernanda Montenegro (já em cena com os efeitos da demência).
Mas
como uma mulher inteligente, ativa e determinada, que dedicou anos à busca pela
verdade sobre o desaparecimento do marido, pode ter desenvolvido uma doença tão
devastadora como o Alzheimer?
O
médico vascular e angiologista Álvaro Pereira esclarece pontos importantes
sobre o caso de Eunice Paiva. “Em primeiro lugar, Eunice conviveu com a doença
durante 14 anos, o que já é uma conquista.
A média
de vida após o diagnóstico gira em torno de oito a dez anos. Outro fator
relevante é que ela começou a apresentar os primeiros sinais aos 75 anos e
faleceu aos 89, o que indica que suas atividades intelectuais e estilo de vida
contribuíram para retardar o avanço da doença. Vale lembrar que o Alzheimer
pode surgir bem mais cedo e sim, pode estar relacionado à genética”, explica o
especialista.
Segundo
ele, o tempo prolongado de vida com a doença sugere que Eunice recebia cuidados
diferenciados e provavelmente mantinha sob controle outras condições clínicas
como hipertensão, diabetes e colesterol alto.
O
histórico familiar importa, mas não é determinante. “Muitas doenças têm
predisposição genética, inclusive o Alzheimer. Ter casos na família pode
aumentar o risco, mas não é uma sentença. Da mesma forma, pessoas sem nenhum
caso familiar também podem desenvolver a doença”, afirma.
Não há
sinais definitivos de que alguém terá Alzheimer. No entanto, esquecimentos
frequentes, perda de memória e lentidão no raciocínio, especialmente sem causas
aparentes como estresse extremo, sobrecarga de trabalho ou problemas
emocionais, podem ser indícios de predisposição.
O que
se sabe, segundo o especialista, é que não há um roteiro certo para o
surgimento de demências. Por isso, o foco deve estar na prevenção e na promoção
de hábitos saudáveis, especialmente para quem tem antecedentes familiares.
“Manter
uma alimentação equilibrada, praticar exercícios físicos, usar ativamente o
cérebro, estimular o intelecto, ter interações sociais frequentes e
significativas, tudo isso ajuda. Hoje também já temos recursos como a
ledterapia, que pode auxiliar na prevenção e até no retardo da progressão da
doença. Infelizmente, Eunice não teve acesso a essas tecnologias, que ainda não
estavam disponíveis na época.”
“A
busca por um envelhecimento saudável e digno envolve múltiplos fatores. A
ciência vem avançando, mas é natural que com a idade haja perda de capacidade
cognitiva. Manter corpo e mente ativos é uma das formas mais eficazes de adiar
ou evitar o surgimento de diferentes tipos de demência”, complementa.
Fonte:
Correio Braziliense

Nenhum comentário:
Postar um comentário