sexta-feira, 17 de abril de 2026

Fabricio Solagna: EUA - Os deportados e a geografia da exploração

Pode haver uma lógica encoberta nas políticas anti-imigração nos EUA: elas fazem sentido se pensadas como uma forma de reduzir os cutos das empresas estadunidenses sediadas em outros países. O trabalho humano é contratado nos países periféricos, enquanto o capital continua fluindo sem atrito por cabos de fibra óptica. O resultado é a criação de um exército de trabalhadores essenciais para o capitalismo de plataformas no Norte, mas geograficamente confinados ao Sul Global.

Um caso de ironia cruel. Um homem mexicano vive 25 anos nos Estados Unidos, constitui família e consegue dominar as gírias do inglês. Tudo para acabar sendo deportado por uma infração de trânsito. De volta ao México, em um país que agora lhe parece estranho, ele encontra abrigo em um prédio espelhado na Cidade do México. Ali ele passa o dia resolvendo problemas de entrega de comida ou reservas de carros para cidadãos estadunidenses.

A anatomia dessa exploração é detalhada pelo pesquisador Mateo Crossa, professor do Instituto Mora, na Cidade do México, no estudo “Cybertariats in the export-oriented service sector: The case of call centres in Mexico”, publicado no periódico Work Organisation, Labour and Globalisation. É a ascensão do que a sociologia do trabalho denomina cibertariado: uma classe trabalhadora que serve ao Norte Global a partir de um exílio forçado.

Em nenhum lugar essa mudança foi mais pronunciada do que no setor de call centers ao longo da fronteira entre os EUA e o México. Cidades como Tijuana, Mexicali e Ciudad Juárez tornaram-se polos importantes na economia de serviços terceirizados, prestando atendimento ao cliente para empresas americanas a uma fração do custo doméstico.

Crossa utilizou observação participante, trabalhando em grandes empresas do setor no México e estabelecendo vínculos com seus colegas. Sua análise revela como essas empresas funcionam como intermediárias, absorvendo os riscos operacionais e jurídicos de gigantes americanas, transferindo funções para países com salários deprimidos e regulações flexíveis para contrabalançar a queda nas taxas de lucro no Norte.

O setor de call centers no México não é apenas “pós-industrial”, ele é uma reanimação do taylorismo. O trabalho é fragmentado em microtarefas, desqualificado e cronometrado ao milésimo de segundo. A tecnologia não ajudou a libertar o trabalhador, mas serviu para automatizar a vigilância. “Tempos modernos, horas antigas. Dispomos de uma infraestrutura de inteligência artificial de ponta que sustenta jornadas exaustivas e disciplina fabril, na qual a autonomia do indivíduo é sacrificada no altar da métrica.”, escreve ele.

O ponto interessante é que há um universo de plataformas que são alimentadas e operadas por esses trabalhadores, além de outras que também fazem a vigilância do seu trabalho. Como revela a pesquisa, o ritmo do trabalho (objetivos, metas etc.) é definido, na maioria das vezes, pelo próprio contratante (empresa que está externalizando o trabalho) enquanto a empresa empregadora no México controla e fiscaliza a “eficiência” da entrega do trabalho pelos funcionários (por meio de plataformas que monitoram chamadas, tom de voz, número de vendas, etc.). A porta de acesso e o recrutamento para esse tipo de trabalho também se dão por plataformas (LinkedIn e similares).

<><> Trabalhadores diplomados e deportados

Essa nova força de trabalho é composta por dois pilares principais. De um lado, os migrantes deportados, cuja habilidade nativa em inglês e familiaridade cultural com os EUA são transformadas em mercadoria barata. De outro, jovens universitários que buscam empregos que prometem flexibilidade para que possam continuar seus estudos, o que nem sempre se revela possível. A rotina e a cobrança incessante em busca de metas em geral não permitem que as pessoas mantenham uma segunda atividade.

O custo humano é palpável. O pesquisador relata o caso de um trabalhador foi deportado dos EUA. Ele usa seus parcos 40 minutos de intervalo para falar com os filhos que continuam morando em solo estadunidense. Para ele, o call center é um limbo passageiro, pois seu objetivo é conseguir voltar para sua família.

Enquanto isso, as empresas costumam incentivar uma ideologia aspiracional, promovendo festas como a celebração do Super Bowl ou produzindo uma cultura de promoções internas, baseada na produção individual — alcançada por muito poucos -, que demonstraria ser possível alcançar postos mais altos. “A retórica em torno da ascensão profissional pauta-se pelo esforço individual e pelo crescimento pessoal, uma forma sutil de ideologia neoliberal que valoriza a competição e a autossuficiência em detrimento do bem-estar coletivo”, destaca o autor do estudo.

É uma tentativa de criar um senso de pertencimento a uma cultura que, na prática, os rejeitou. No entanto, a alta rotatividade torna esse tipo de carreira interna quase impossível. Dados de pesquisa mostram que a permanência em cada emprego desses é de apenas alguns meses.

<><> A vigilância laboral e emocional

A vigilância no call center moderno é onipresente facilitado pelos sistemas eletrônicos. Crossa observa que o controle não é apenas gerencial, mas econômico: os bônus de produtividade representam cerca de um quarto do salário. Se o trabalhador falha na métrica, perde parte do sustento.

Os atendentes precisam executar scripts rígidos de atendimento como a repetição de frases específicas que são monitoradas por software. Caso uma chamada ultrapasse três minutos, alertas automáticos são disparados para supervisão.

As pausas, os silêncios ou certas características da entonação de voz podem ser interpretados como ineficiência ou falta de desempenho emocional.

Os softwares de gestão do relacionamento com o cliente (CRMs) são fundamentais no processo de controle e vigilância do trabalho. Eles rastreiam logins, acessos, cliques e coletam dados do usuário. Ferramentas de IA analisam, geram relatórios, fazem predições e disparam avisos aos gestores. Essas ferramentas remodelaram a disciplina do trabalho pois o monitoramento de métricas e desempenho são observadas constantemente, mesmo à distância. Um estudo já publicado no OPlanoB relata como funcionam essas ferramentas.

Ao impor metas de vendas irreais e pressão psicológica constante, as empresas induzem o pedido de demissão para evitar encargos de longo prazo. Como relatou uma ex-trabalhadora na pesquisa de Crossa: “Eles trazem as pessoas e as jogam fora. Sabem que atrás de mim existem centenas dispostas a aceitar o emprego.”

Até a própria contratação revela uma face distópica. A forma de captar novos funcionários ocorre, na maioria das vezes, por meio de plataformas de emprego, como o LinkedIn. Existem captadores, pessoas contratadas pelas empresas para atrair candidatos, que manejam os possíveis interessados. A partir do momento que se iniciam os processos de seleção, os candidatos são submetidos a exames de sangue em clínicas privadas vinculadas à empresa. O objetivo não é a saúde, mas a triagem: as empresas buscam detectar o uso de antidepressivos ou ansiolíticos. O tratamento de saúde mental é visto como um risco de baixa produtividade.

Diferente de outros setores, a alta rotatividade não é vista como um problema, mas como uma característica deliberada. Como as tarefas são rotineiras, quase robóticas, o exército industrial de reserva é imenso. As empresas preferem substituir trabalhadores exaustos por novos recrutas em vez de investir em bem-estar.
Mesmo no cenário de pandemia que exigiu home office na maioria dos casos, o que parecia flexibilidade revelou-se a atomização. A casa torna-se um território de exploração onde os custos de energia e infraestrutura são transferidos ao trabalhador. Sem o contato físico com os colegas, a solidariedade de classe se dilui, e a vigilância torna-se ainda mais invasiva via software, borrando permanentemente as fronteiras entre a vida privada e o trabalho produtivo.

<><> O futuro fragmentado

A pesquisa de Mateo Crossa expõe as engrenagens de um regime de trabalho global que extrai valor do trauma migratório. Os call centers no México não são apenas escritórios de atendimento, mas postos avançados de uma economia digital que desumaniza o Sul Global para garantir a fluidez do consumo no Norte. À medida que o sistema cresce, o desafio será encontrar formas de organizar um cibertariado fragmentado, isolado por telas e silenciado por algoritmos que nunca dormem.

São desafios que trabalhadores de plataformas de entregas também enfrentam e que já foram abordados por outras pesquisas. A falta de vínculos é ampliada pelos algoritmos, que exercem pressão pela busca de metas diárias, ao mesmo tempo que a figura do gerente permanece invisível.

A exportação de call centers para países periféricos já é fato conhecido desde a década de 1990. Entretanto, a partir da plataformização da economia, observa-se que o capitalismo de plataforma também se aproveitou desse expediente para baratear os seus custos em favor da exploração do trabalho humano.

<>< Capitalismo de Vigilância no Sul Global

A pesquisa de Crossa no México se enquadra no eixo de pesquisa “capitalismo de vigilância no Sul Global” do projeto OPlanoB (www.oplanob.com), o qual foca nas razões do “sucesso” do capitalismo de vigilância em determinadas regiões geográficas e entre populações específicas. Nesse estudo sobre o trabalho em call centers no México, fica claro que parte do trabalho digital é exportado para regiões onde as pessoas podem ser pagas por um salário menor, aumentando a lucratividade das empresas no Norte, numa superexploração facilitada pelas redes digitais.

¨      'Calmaria antes da tempestade', analista diz que EUA preparam enorme ataque após trégua com Irã

Os Estados Unidos não prolongarão a trégua com o Irã, pois estão preparando uma nova grande operação contra a República Islâmica, afirmou em publicação na rede social X o ex-tenente-coronel norte-americano Daniel Davis, citando fontes militares não mencionados.

O analista estadunidense confirmou que os Estados Unidos, apesar das conversas sobre uma resolução pacífica, estão aumentando suas forças na região, mudando assim sua estratégia para a escalada do conflito.

Washington espera que um novo ataque mais arriscado e em larga escala force Teerã a se render e aceitar as condições do presidente norte-americano Donald Trump, explicou Davis.

"O cessar-fogo pode ser apenas a calmaria antes de uma tempestade massiva. Duas fontes militares separadas confirmaram que os EUA estão se preparando para uma 'campanha de bombardeio maciça, enorme e concentrada' no momento em que a atual calmaria terminar", escreveu Davis.

Segundo o especialista, o acúmulo de forças norte-americanas no Oriente Médio, ao contrário das informações veiculadas pela mídia ocidental, fala de uma situação muito mais urgente. Ele acrescentou que um bombardeio maciço do território iraniano poderia atingir "muitas coisas da superfície no Irã", mas isso não será suficiente para forçar a população a obedecer.

"Isso só aumentará o custo de nossa futura derrota estratégica", resumiu o analista militar norte-americano.

Na quarta-feira (15), o jornal The Washington Post, citando autoridades norte-americanas, informou que os Estados Unidos enviariam milhares de soldados adicionais ao Oriente Médio nos próximos dias para preservar a possibilidade de novos ataques contra o Irã no caso de um colapso na trégua.

Segundo as fontes do jornal, cerca de 6.000 soldados estão sendo enviados para a região a bordo de um grupo de ataque liderado pelo porta-aviões de propulsão nuclear George W. Bush, e cerca de mais 4.200 combatentes militares de reação rápida e Fuzileiros Navais dos EUA devem chegar à região até o fim do mês.

¨      Ocidente interfere nas eleições da América Latina por meio de 'observadores', diz analista

Os Estados Unidos e a União Europeia (UE) têm influenciado a situação política na América Latina ao enviarem observadores eleitorais aos países da região, declarou à Sputnik Henrique Domingues, analista e conselheiro internacional do Fórum dos Municípios do BRICS.

Segundo Domingues, esses observadores publicam relatórios falsos sobre a realização das eleições nos países da região.

"São essas missões da UE e da Organização dos Estados Americanos [OEA] que influenciam as eleições. Na verdade, a OEA é liderada pelos Estados Unidos, embora todos nós participemos. Por meio disso, eles podem criar missões que interfirem em nossos processos políticos", ressaltou.

Domingues avalia que, se os resultados das eleições não forem do agrado das potências ocidentais, elas publicam um relatório fabricado sobre supostas violações.

Ao mesmo tempo, o especialista enfatizou que, no nível local, tais relatórios são vistos pela população como tentativas de intervenção estrangeira.

Por meio desses relatórios, eles tentam influenciar a atmosfera política do país, e as pessoas olham atentamente para isso.

Além disso, Domingues destacou que, no âmbito do BRICS, a observação eleitoral é feita considerando os procedimentos democráticos locais, a cultura de cada país e as características do funcionamento das instituições.

Portanto, o especialista concluiu que as práticas do BRICS representam uma experiência mais positiva do que as do Ocidente.

¨      Lula vê risco global de conflitos, pede reforma internacional

Em recente entrevista à mídia ocidental, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva falou sobre diversos temas que vão desde sua vontade para concorrer a mais um mandato nas eleições de 2026 até visão sobre o momento geopolítico e sua relação com o presidente dos EUA, Donald Trump.

O líder dos EUA, Donald Trump, está jogando um jogo muito equivocado ao impor sua força econômica e militar, afirmou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva em entrevista. Lula disse que chegou a alertar o republicano diretamente: nenhum país tem o direito de intimidar outros.

"Eu prefiro ser respeitado, não temido", explicou. Ele também criticou decisões como ações contra o Irã e o uso de sanções, apontando que acabam prejudicando a própria população.

Para Lula, a postura de Trump alimenta tensões globais e agrava a situação já "muito delicada" no mundo.

Em Brasília, o presidente Lula afirmou que continua movido pela mesma energia que guiou sua trajetória desde a infância para disputar uma nova eleição e que não aceita a palavra "impossível". Segundo ele, a motivação diária é o que sustenta sua permanência na política.

Sobre a recente crise envolvendo as tarifas norte-americanas impostas aos produtos brasileiros, ele relatou ter ficado impressionado com o que descreveu como falsidade dos argumentos usados pelo governo dos Estados Unidos ao impô-las ao Brasil, afirmando ter dito ao presidente norte‑americano que "dois países governados por dois homens de 80 anos deveriam conversar com maturidade". Lula afirmou defender que líderes devem buscar respeito, não medo.

Ao comentar a atuação norte‑americana no cenário internacional, o presidente afirmou que o país parte da premissa equivocada de que seu poder econômico e militar define as regras globais.

Disse que decisões como atacar o Irã ignoram consequências, como o impacto no preço dos combustíveis, e criticou o fato de o Conselho de Segurança da ONU estar envolvido em conflitos, descrevendo o mundo como "um navio à deriva".

Segundo ele, as instituições internacionais precisam ser redefinidas para recuperar credibilidade, argumentando que os membros permanentes do Conselho de Segurança não dão o exemplo. "A geopolítica de 1945 não é válida para 2026", disparou Lula.

Ele criticou o rearmamento global e afirmou que muitos países estão sendo pressionados a aumentar gastos militares, enquanto ele preferiria investir "em livros, comida e empregos".

Lula relatou ter telefonado a diversos líderes — incluindo o chinês Xi Jinping, o indiano Narendra Modi, o russo Vladimir Putin e o francês Emmanuel Macron — pedindo uma reunião para discutir a escalada armamentista, afirmando que nenhum chefe de Estado tem o direito de ameaçar outros países.

Questionado sobre riscos de intervenção na América Latina, o presidente afirmou sentir segurança e citou que o país vive um momento inédito de responsabilização institucional. Disse que sua "guerra" é a do argumento racional e elogiou o acordo entre União Europeia (UE) e Mercosul, que, segundo ele, demonstra a força do multilateralismo.

Ele afirmou ainda que não cabe ao Brasil decidir sobre eleições na Venezuela, mas disse que, se estivesse no lugar da liderança venezuelana, convocaria um processo eleitoral acordado com a oposição. Criticou a postura dos Estados Unidos no país vizinho, dizendo que "não é normal pensar que podem governar a Venezuela".

Lula concluiu a entrevista refletindo sobre a democracia, e afirmou que ela "deve uma explicação ao povo", pois não se resume ao ato de votar e afirmou ainda não ter acompanhado a missão norte-americana à Lua já que prefere "manter os pés no chão; tenho muitos problemas aqui".

 

Fonte: Outras Palavras/Sputnik Brasil

 

Nenhum comentário: