Fabricio
Solagna: EUA - Os deportados e a geografia da exploração
Pode
haver uma lógica encoberta nas políticas anti-imigração nos EUA: elas fazem
sentido se pensadas como uma forma de reduzir os cutos das empresas
estadunidenses sediadas em outros países. O trabalho humano é contratado nos
países periféricos, enquanto o capital continua fluindo sem atrito por cabos de
fibra óptica. O resultado é a criação de um exército de trabalhadores
essenciais para o capitalismo de plataformas no Norte, mas geograficamente
confinados ao Sul Global.
Um caso
de ironia cruel. Um homem mexicano vive 25 anos nos Estados Unidos, constitui
família e consegue dominar as gírias do inglês. Tudo para acabar sendo
deportado por uma infração de trânsito. De volta ao México, em um país que
agora lhe parece estranho, ele encontra abrigo em um prédio espelhado na Cidade
do México. Ali ele passa o dia resolvendo problemas de entrega de comida ou
reservas de carros para cidadãos estadunidenses.
A
anatomia dessa exploração é detalhada pelo pesquisador Mateo Crossa, professor
do Instituto Mora, na Cidade do México, no estudo “Cybertariats in the
export-oriented service sector: The case of call centres in Mexico”, publicado
no periódico Work Organisation, Labour and Globalisation. É a
ascensão do que a sociologia do trabalho denomina cibertariado: uma classe
trabalhadora que serve ao Norte Global a partir de um exílio forçado.
Em
nenhum lugar essa mudança foi mais pronunciada do que no setor de call centers
ao longo da fronteira entre os EUA e o México. Cidades como Tijuana, Mexicali e
Ciudad Juárez tornaram-se polos importantes na economia de serviços
terceirizados, prestando atendimento ao cliente para empresas americanas a uma
fração do custo doméstico.
Crossa
utilizou observação participante, trabalhando em grandes empresas do setor no
México e estabelecendo vínculos com seus colegas. Sua análise revela como essas
empresas funcionam como intermediárias, absorvendo os riscos operacionais e
jurídicos de gigantes americanas, transferindo funções para países com salários
deprimidos e regulações flexíveis para contrabalançar a queda nas taxas de
lucro no Norte.
O setor
de call centers no México não é apenas “pós-industrial”, ele é uma reanimação
do taylorismo. O trabalho é fragmentado em microtarefas, desqualificado e
cronometrado ao milésimo de segundo. A tecnologia não ajudou a libertar o
trabalhador, mas serviu para automatizar a vigilância. “Tempos modernos, horas
antigas. Dispomos de uma infraestrutura de inteligência artificial de ponta que
sustenta jornadas exaustivas e disciplina fabril, na qual a autonomia do
indivíduo é sacrificada no altar da métrica.”, escreve ele.
O ponto
interessante é que há um universo de plataformas que são alimentadas e operadas
por esses trabalhadores, além de outras que também fazem a vigilância do seu
trabalho. Como revela a pesquisa, o ritmo do trabalho (objetivos, metas etc.) é
definido, na maioria das vezes, pelo próprio contratante (empresa que está
externalizando o trabalho) enquanto a empresa empregadora no México controla e
fiscaliza a “eficiência” da entrega do trabalho pelos funcionários (por meio de
plataformas que monitoram chamadas, tom de voz, número de vendas, etc.). A
porta de acesso e o recrutamento para esse tipo de trabalho também se dão por
plataformas (LinkedIn e similares).
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Trabalhadores diplomados e deportados
Essa
nova força de trabalho é composta por dois pilares principais. De um lado, os
migrantes deportados, cuja habilidade nativa em inglês e familiaridade cultural
com os EUA são transformadas em mercadoria barata. De outro, jovens
universitários que buscam empregos que prometem flexibilidade para que possam
continuar seus estudos, o que nem sempre se revela possível. A rotina e a
cobrança incessante em busca de metas em geral não permitem que as pessoas
mantenham uma segunda atividade.
O custo
humano é palpável. O pesquisador relata o caso de um trabalhador foi deportado
dos EUA. Ele usa seus parcos 40 minutos de intervalo para falar com os filhos
que continuam morando em solo estadunidense. Para ele, o call center é
um limbo passageiro, pois seu objetivo é conseguir voltar para sua família.
Enquanto
isso, as empresas costumam incentivar uma ideologia aspiracional, promovendo
festas como a celebração do Super Bowl ou produzindo uma cultura de promoções
internas, baseada na produção individual — alcançada por muito poucos -, que
demonstraria ser possível alcançar postos mais altos. “A retórica em torno da
ascensão profissional pauta-se pelo esforço individual e pelo crescimento
pessoal, uma forma sutil de ideologia neoliberal que valoriza a competição e a
autossuficiência em detrimento do bem-estar coletivo”, destaca o autor do
estudo.
É uma
tentativa de criar um senso de pertencimento a uma cultura que, na prática, os
rejeitou. No entanto, a alta rotatividade torna esse tipo de carreira interna
quase impossível. Dados de pesquisa mostram que a permanência em cada emprego
desses é de apenas alguns meses.
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A vigilância laboral e emocional
A
vigilância no call center moderno é onipresente facilitado
pelos sistemas eletrônicos. Crossa observa que o controle não é apenas
gerencial, mas econômico: os bônus de produtividade representam cerca de um
quarto do salário. Se o trabalhador falha na métrica, perde parte do sustento.
Os
atendentes precisam executar scripts rígidos de atendimento como a repetição de
frases específicas que são monitoradas por software. Caso uma chamada
ultrapasse três minutos, alertas automáticos são disparados para supervisão.
As
pausas, os silêncios ou certas características da entonação de voz podem ser
interpretados como ineficiência ou falta de desempenho emocional.
Os
softwares de gestão do relacionamento com o cliente (CRMs) são fundamentais no
processo de controle e vigilância do trabalho. Eles rastreiam logins, acessos,
cliques e coletam dados do usuário. Ferramentas de IA analisam, geram
relatórios, fazem predições e disparam avisos aos gestores. Essas ferramentas
remodelaram a disciplina do trabalho pois o monitoramento de métricas e
desempenho são observadas constantemente, mesmo à distância. Um estudo já
publicado no OPlanoB relata como funcionam essas ferramentas.
Ao
impor metas de vendas irreais e pressão psicológica constante, as empresas
induzem o pedido de demissão para evitar encargos de longo prazo. Como relatou
uma ex-trabalhadora na pesquisa de Crossa: “Eles trazem as pessoas e as jogam
fora. Sabem que atrás de mim existem centenas dispostas a aceitar o emprego.”
Até a
própria contratação revela uma face distópica. A forma de captar novos
funcionários ocorre, na maioria das vezes, por meio de plataformas de emprego,
como o LinkedIn. Existem captadores, pessoas contratadas pelas empresas para
atrair candidatos, que manejam os possíveis interessados. A partir do momento
que se iniciam os processos de seleção, os candidatos são submetidos a exames
de sangue em clínicas privadas vinculadas à empresa. O objetivo não é a saúde,
mas a triagem: as empresas buscam detectar o uso de antidepressivos ou
ansiolíticos. O tratamento de saúde mental é visto como um risco de baixa
produtividade.
Diferente
de outros setores, a alta rotatividade não é vista como um problema, mas como
uma característica deliberada. Como as tarefas são rotineiras, quase robóticas,
o exército industrial de reserva é imenso. As empresas preferem substituir
trabalhadores exaustos por novos recrutas em vez de investir em bem-estar.
Mesmo no cenário de pandemia que exigiu home office na maioria
dos casos, o que parecia flexibilidade revelou-se a atomização. A casa torna-se
um território de exploração onde os custos de energia e infraestrutura são
transferidos ao trabalhador. Sem o contato físico com os colegas, a
solidariedade de classe se dilui, e a vigilância torna-se ainda mais invasiva
via software, borrando permanentemente as fronteiras entre a vida privada e o
trabalho produtivo.
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O futuro fragmentado
A
pesquisa de Mateo Crossa expõe as engrenagens de um regime de trabalho global
que extrai valor do trauma migratório. Os call centers no México não são apenas
escritórios de atendimento, mas postos avançados de uma economia digital que
desumaniza o Sul Global para garantir a fluidez do consumo no Norte. À medida
que o sistema cresce, o desafio será encontrar formas de organizar um
cibertariado fragmentado, isolado por telas e silenciado por algoritmos que
nunca dormem.
São
desafios que trabalhadores de plataformas de entregas também enfrentam e que já
foram abordados por outras pesquisas. A falta de vínculos é ampliada pelos
algoritmos, que exercem pressão pela busca de metas diárias, ao mesmo tempo que
a figura do gerente permanece invisível.
A
exportação de call centers para países periféricos já é fato conhecido desde a
década de 1990. Entretanto, a partir da plataformização da economia, observa-se
que o capitalismo de plataforma também se aproveitou desse expediente para
baratear os seus custos em favor da exploração do trabalho humano.
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Capitalismo de Vigilância no Sul Global
A
pesquisa de Crossa no México se enquadra no eixo de pesquisa “capitalismo de
vigilância no Sul Global” do projeto OPlanoB (www.oplanob.com), o qual foca nas
razões do “sucesso” do capitalismo de vigilância em determinadas regiões
geográficas e entre populações específicas. Nesse estudo sobre o trabalho
em call centers no México, fica claro que parte do trabalho
digital é exportado para regiões onde as pessoas podem ser pagas por um salário
menor, aumentando a lucratividade das empresas no Norte, numa superexploração
facilitada pelas redes digitais.
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'Calmaria antes da tempestade', analista diz que EUA
preparam enorme ataque após trégua com Irã
Os
Estados Unidos não prolongarão a trégua com o Irã, pois estão preparando uma
nova grande operação contra a República Islâmica, afirmou em publicação na rede
social X o ex-tenente-coronel norte-americano Daniel Davis, citando fontes
militares não mencionados.
O
analista estadunidense confirmou que os Estados
Unidos, apesar das conversas sobre uma resolução pacífica, estão
aumentando suas forças na região, mudando assim sua estratégia para a escalada
do conflito.
Washington
espera que um novo ataque mais arriscado e em larga escala force Teerã a se
render e aceitar as condições do presidente
norte-americano Donald Trump, explicou Davis.
"O
cessar-fogo pode ser apenas a calmaria antes de uma tempestade
massiva. Duas fontes militares separadas confirmaram que os EUA estão se
preparando para uma 'campanha de bombardeio maciça, enorme e
concentrada' no momento em que a atual calmaria terminar", escreveu
Davis.
Segundo
o especialista, o acúmulo de forças
norte-americanas no Oriente Médio, ao contrário das informações veiculadas
pela mídia ocidental, fala de uma situação muito mais urgente. Ele
acrescentou que um bombardeio maciço do território iraniano poderia atingir
"muitas coisas da superfície no Irã", mas isso não será
suficiente para forçar a população a obedecer.
"Isso
só aumentará o custo de nossa futura derrota estratégica", resumiu o
analista militar norte-americano.
Na
quarta-feira (15), o jornal The Washington Post, citando autoridades
norte-americanas, informou que os Estados Unidos enviariam milhares de soldados
adicionais ao Oriente Médio nos próximos dias para preservar a
possibilidade de novos ataques contra o Irã no caso de um colapso na trégua.
Segundo
as fontes do jornal, cerca de 6.000 soldados estão sendo enviados
para a região a bordo de um grupo de ataque liderado pelo porta-aviões de
propulsão nuclear George W. Bush, e cerca de mais 4.200 combatentes
militares de reação rápida e Fuzileiros Navais dos EUA devem chegar à
região até o fim do mês.
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Ocidente interfere nas eleições da América Latina por
meio de 'observadores', diz analista
Os
Estados Unidos e a União Europeia (UE) têm influenciado a situação política na
América Latina ao enviarem observadores eleitorais aos países da região,
declarou à Sputnik Henrique Domingues, analista e conselheiro internacional do
Fórum dos Municípios do BRICS.
Segundo
Domingues, esses observadores publicam relatórios falsos sobre a realização das eleições nos países da
região.
"São
essas missões da UE e da Organização dos Estados Americanos [OEA] que
influenciam as eleições. Na verdade, a OEA é liderada pelos Estados
Unidos, embora todos nós participemos. Por meio disso, eles podem criar missões
que interfirem em nossos processos políticos", ressaltou.
Domingues
avalia que, se os resultados das eleições não forem do agrado das potências ocidentais, elas publicam um
relatório fabricado sobre supostas violações.
Ao
mesmo tempo, o especialista enfatizou que, no nível local, tais relatórios são
vistos pela população como tentativas de intervenção
estrangeira.
Por
meio desses relatórios, eles tentam influenciar a atmosfera política do
país, e as pessoas olham atentamente para isso.
Além
disso, Domingues destacou que, no âmbito do BRICS, a observação eleitoral é
feita considerando os procedimentos democráticos locais, a cultura de cada
país e as características do funcionamento das instituições.
Portanto,
o especialista concluiu que as práticas do BRICS representam
uma experiência mais positiva do que as do Ocidente.
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Lula vê risco global de conflitos, pede reforma
internacional
Em
recente entrevista à mídia ocidental, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva
falou sobre diversos temas que vão desde sua vontade para concorrer a mais um
mandato nas eleições de 2026 até visão sobre o momento geopolítico e sua
relação com o presidente dos EUA, Donald Trump.
O líder
dos EUA, Donald Trump, está jogando um jogo muito equivocado ao impor
sua força econômica e militar, afirmou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva
em entrevista. Lula disse que chegou a alertar o republicano
diretamente: nenhum país tem o direito de intimidar outros.
"Eu
prefiro ser respeitado, não temido", explicou. Ele também criticou
decisões como ações contra o Irã e o uso de sanções, apontando que
acabam prejudicando a própria população.
Para
Lula, a postura de Trump alimenta tensões globais e agrava a situação
já "muito delicada" no mundo.
Em
Brasília, o presidente Lula afirmou que continua movido pela mesma energia
que guiou sua trajetória desde a infância para disputar uma nova eleição e que não
aceita a palavra "impossível". Segundo ele, a motivação diária é o
que sustenta sua permanência na política.
Sobre a
recente crise envolvendo as tarifas norte-americanas impostas aos produtos
brasileiros, ele relatou ter ficado impressionado com o que
descreveu como falsidade dos argumentos usados pelo governo dos Estados Unidos
ao impô-las ao Brasil, afirmando ter dito ao presidente norte‑americano que
"dois países governados por dois homens de 80 anos deveriam conversar com
maturidade". Lula afirmou defender que líderes devem buscar respeito, não
medo.
Ao
comentar a atuação norte‑americana no cenário internacional, o presidente
afirmou que o país parte da premissa equivocada de que seu
poder econômico e militar define as regras globais.
Disse
que decisões como atacar o Irã ignoram consequências, como o impacto no
preço dos combustíveis, e criticou o fato de o Conselho de Segurança da ONU
estar envolvido em conflitos, descrevendo o mundo como "um navio à
deriva".
Segundo
ele, as instituições internacionais precisam ser redefinidas para recuperar
credibilidade,
argumentando que os membros permanentes do Conselho de Segurança não dão o
exemplo. "A geopolítica de 1945 não é válida para 2026", disparou
Lula.
Ele
criticou o rearmamento global e afirmou que
muitos países estão sendo pressionados a aumentar gastos militares, enquanto
ele preferiria investir "em livros, comida e empregos".
Lula
relatou ter telefonado a diversos líderes — incluindo o chinês Xi Jinping, o
indiano Narendra Modi, o russo Vladimir Putin e o francês Emmanuel
Macron — pedindo uma reunião para discutir a escalada armamentista, afirmando
que nenhum chefe de Estado tem o direito de ameaçar outros
países.
Questionado
sobre riscos de intervenção na América Latina, o presidente afirmou sentir
segurança e citou que o país vive um momento inédito de responsabilização
institucional. Disse que sua "guerra" é a do argumento racional e
elogiou o acordo entre União
Europeia (UE) e Mercosul, que, segundo ele, demonstra a força do
multilateralismo.
Ele
afirmou ainda que não cabe ao Brasil decidir sobre eleições na Venezuela, mas
disse que, se estivesse no lugar da liderança venezuelana, convocaria um
processo eleitoral acordado com a oposição. Criticou a postura dos Estados
Unidos no país vizinho, dizendo que "não é normal pensar que podem
governar a Venezuela".
Lula
concluiu a entrevista refletindo sobre a democracia, e afirmou que ela
"deve uma explicação ao povo", pois não se resume ao ato de votar e
afirmou ainda não ter acompanhado a missão norte-americana à Lua já que prefere
"manter os pés no chão; tenho muitos problemas aqui".
Fonte:
Outras Palavras/Sputnik Brasil

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