Por
que rixa pública de Trump com papa está tirando apoio valioso do presidente
americano
Não é
incomum que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, enfrente críticas
de líderes católicos.
As suas
políticas linha dura de imigração, prometidas durante a campanha e celebradas
por apoiadores, têm provocado condenação por parte de líderes da Igreja.
Há
meses, isso coloca a hierarquia da Igreja Católica nos EUA em desacordo com
católicos de base mais alinhados à direita.
Mas a
ampla reação negativa nos últimos dias, desencadeada pelo ataque do presidente
americano ao papa Leão 14 no domingo
(12/4) e pela divulgação de uma imagem gerada por inteligência artificial (IA), na qual
Trump aparece como uma figura semelhante a Cristo, com luz irradiando de suas
mãos, é de outra natureza.
O que
chama a atenção é a origem de parte dessas críticas: aliados católicos
conservadores e leais.
Eles
estão insatisfeitos não apenas com o atrito público de Trump com o papa Leão
14, mas, em um nível mais profundo, com a guerra contra o Irã.
A
repercussão do longo ataque de Trump nas redes sociais ao primeiro papa
americano, descrito como liberal demais e "brando com o crime",
somada à imagem gerada por inteligência artificial, consolidou uma mudança de
opinião entre muitos católicos conservadores desde o início da guerra, em 28 de
fevereiro.
"Rezo
para que tudo isso deixe claro às pessoas que não buscamos um líder nacional,
não buscamos aqueles que têm mais dinheiro ou mais armas. Buscamos
Cristo", afirmou o bispo Joseph Strickland.
As
palavras vêm de um homem que, ainda no ano passado, participou de um evento de
oração para "consagrar" a residência do presidente em Mar-a-Lago, na
Flórida.
Em
2024, Strickland fez o discurso principal na Conferência de Ação Política
Conservadora (CPAC), maior evento conservador dos EUA, onde Trump foi o
convidado de honra. Em 2020, discursou em uma marcha de apoiadores de Trump que
pediam a reversão do resultado das eleições.
Ele tem
sido um apoiador leal de Donald Trump, nos bons e maus momentos. De fato, seu
alinhamento político explícito e o confronto aberto com o falecido papa
Francisco (1936-2025) contribuíram para sua destituição do cargo de bispo da
cidade de Tyler, no Texas.
Ainda
assim, diante de narrativas fortemente divergentes entre os EUA e o Vaticano
sobre a guerra no Irã e o cenário mais amplo do Oriente Médio, Strickland fez
um raro rompimento com o governo.
"Não
acredito que este conflito atenda aos critérios de uma guerra justa. Estou com
o papa e seu apelo pela paz. Não se trata de política. Trata-se de verdade
moral", disse à BBC, acrescentando que a escala de mortes e sofrimento
enfrentados por civis inocentes impede que a guerra seja considerada
"justa".
Mais do
que isso, ele criticou a forma como os EUA conduzem o conflito e incentivou
outros católicos a fazer o mesmo.
"Tudo
se torna muito sombrio quando a religião é usada para justificar comportamentos
imorais… usar a religião para justificar, especialmente, o lançamento de bombas
contradiz aquilo que a fé representa", afirmou Strickland.
Ao ser
questionado sobre o ataque de Trump ao papa Leão 14 e sobre a imagem que alguns
chamaram de "Jesus de IA", que Trump afirmou ter interpretado como
sendo um médico, e não Jesus, Strickland disse que sentiu ser seu
"dever" lembrar o presidente americano do Evangelho segundo Mateus.
Ele citou uma passagem que ensina que o poder supremo pertence a Cristo, e não
a qualquer homem.
"Quando
líderes mundiais esquecem essa verdade, todos correm perigo", afirmou.
Essa
mudança na forma como católicos conservadores veem o presidente dos EUA traz
riscos políticos, já que ele ampliou seu apoio entre esse grupo na eleição de
2024.
Segundo
o centro de pesquisa Pew Research Center, o quadro continua complexo. A origem
racial teve papel relevante: 62% dos católicos brancos votaram em Donald Trump
(Partido Republicano) e 37% em Kamala Harris (Partido Democrata), enquanto 41%
dos católicos hispânicos votaram em Trump e 58% em Harris.
Ainda
assim, houve uma tendência geral de aproximação dos católicos com o Partido
Republicano do qual Trump faz parte, embora com divisões acentuadas.
Historicamente,
os dados sugerem que, quando se trata de visão de mundo, a política pesa mais
do que a fé para muitos católicos americanos. Eles se dividem, em grande
medida, segundo linhas partidárias, afirma Greg Smith, diretor associado sênior
de pesquisa em religião do Pew Research Center.
Os
católicos nos EUA têm grupos que sustentam posições altamente polarizadas em
temas como aborto e imigração. Por isso, uma convergência como essa entre
católicos de esquerda e de direita em torno da guerra no Irã é rara.
A forma
como avaliam o chefe da Igreja Católica reforça esse quadro. O papa Francisco
era muito mais popular entre democratas católicos do que entre republicanos
católicos, enquanto o papa Leão 14 conta com alto apoio de ambos, segundo o Pew
Research Center.
O papa
Francisco era frequentemente visto como um progressista espontâneo, que por
vezes afastava católicos tradicionalistas, por exemplo, ao restringir a missa
em latim, medida que o papa Leão 14 flexibilizou.
O papa
não está imune a certo nível de crítica, disse Peter Wolfgang, diretor
executivo do Family Institute of Connecticut e uma voz influente da
"direita" católica nos EUA.
"O
papa é o papa, devemos a ele um certo grau de deferência, mas não acho que o
catolicismo exija a obediência de cadáveres. Nós somos pessoas vivas, capazes
de pensar", afirmou.
Wolfgang
passou de um pragmatismo cauteloso em relação a Trump, interessado na revogação
das leis sobre o aborto, para um apoio mais entusiasmado. É um forte defensor
das políticas de deportação em massa e do tipo de nacionalismo católico
representado por J.D. Vance. Ainda assim, agora faz duras críticas ao
comportamento do presidente dos EUA em relação ao papa Leão 14.
"O
presidente Trump não entende como funciona o catolicismo. O papa não é apenas
um chefe de Estado, ele é o Vigário de Cristo. Ataques contra ele são recebidos
como ataques à própria Igreja. Quanto mais ele atacar o papa, mais seu apoio
entre eleitores católicos vai cair", disse Wolfgang à BBC.
Wolfgang
também afirmou que a sua fé o levou a contestar bispos católicos dos EUA quando
criticaram as políticas de imigração do presidente Trump, mas que essa mesma fé
o faz se opor a esta guerra.
"Quando
o presidente Trump sai por aí falando em acabar com a civilização iraniana, ou
o secretário [Pete] Hegseth faz uma oração sanguinária que é irreconhecível
para os católicos, então é completamente natural que católicos conservadores se
alinhem ao papa Leão 14", afirmou.
Pouco
depois dos primeiros ataques dos EUA e de Israel ao Irã, o secretário de Defesa
dos EUA, Pete Hegseth, recitou uma oração altamente controversa em um culto no
Pentágono, na qual falava em "violência esmagadora" e "justiça
executada de forma rápida e sem remorso".
Em seus
textos, Wolfgang costuma reservar suas críticas mais duras à
"esquerda" católica, mas avalia que a questão do Irã, em certa
medida, uniu diferentes grupos, em parte pela clareza da mensagem anti-guerra
do papa.
De
forma incomum, nenhum membro sênior do clero católico nos EUA declarou
publicamente apoio à guerra no Irã. Até mesmo Robert Barron, bispo de
Winona-Rochester e aliado importante de Trump, exigiu que o presidente
americano pedisse desculpas ao papa por seu ataque furioso, um pedido que foi
rejeitado.
Posicionado
na ala liberal da Igreja Católica, Steven Greydanus, diácono e comentarista de
destaque, também vê essa convergência incomum de opiniões.
Ele
avalia que um dos fatores foi a "subversão", pelos EUA, dos
princípios da "Teoria da guerra justa" (bellum iustum), uma
doutrina que estabelece quando é legítimo entrar em guerra e como esse conflito
deve ser conduzido.
Mas diz
que isso também se deve, em parte, ao contraste entre o presidente Donald Trump
e a "presença conciliadora" do papa Leão 14.
"Embora
eu me entristeça com a contundência dos ataques de Donald Trump ao papa Leão
14, de certa forma acolho a clareza da escolha que está sendo apresentada aos
católicos", afirma Greydanus.
O
Vaticano tem mantido a interpretação de que o que se desenrolou nas últimas
semanas não é, de forma alguma, um embate entre o papa Leão 14 e o presidente
Donald Trump, mas sim um papa que recorre claramente à sua fé para se opor à
lógica desta guerra.
Mas,
quando o presidente afirmou que "toda uma civilização morreria" no
Irã, o papa respondeu diretamente, classificando a ameaça como
"absolutamente inaceitável".
"Há
uma diferença importante entre desafiar um homem e questionar o princípio que
torna a guerra possível", afirmou o reverendo Antonio Spadaro,
subsecretário do Dicastério para a Cultura e a Educação do Vaticano.
O
reverendo Spadaro disse à BBC que, embora haja diálogo nos bastidores em
"centros de poder", o papa também precisa fazer declarações públicas
contra o conflito para "delimitar o limite moral" do que é aceitável.
Então,
qual é a visão a partir da Cidade do Vaticano sobre uma possível convergência
entre católicos dos EUA, de esquerda e de direita, no apoio à mensagem
anti-guerra do papa Leão 14?
"Ele
não une a todos, é claro", diz o reverendo Spadaro. "Mas o papa Leão
14 desloca o debate católico para longe de uma lógica puramente
partidária."
Há
questionamentos sobre por que o presidente Donald Trump publicaria uma imagem
gerada por inteligência artificial que certamente alienaria e ofenderia parte
de seus apoiadores. De forma incomum, ele acabou recuando e apagando a
postagem.
Também
há dúvidas sobre o motivo do ataque ao papa Leão 14. Para alguns, parecia uma
tentativa de enfraquecer a oposição do pontífice à guerra.
"Mas,
ao tentar deslegitimar, o ataque de Trump reconhece implicitamente o peso da
voz moral do papa", afirma o reverendo Spadaro, do Vaticano.
"Se
Leão 14 fosse irrelevante, não mereceria uma palavra. Em vez disso, é citado,
nomeado, contestado; sinal de que suas palavras importam."
¨
Papa afirma que 'o mundo está sendo devastado por um
punhado de tiranos' em meio a disputa com a Casa Branca de Trump.
O Papa Leão XIV afirmou que o
mundo está sendo "devastado por um punhado de tiranos" que gastam
bilhões em guerras, em comentários que serão vistos como mais uma escalada
acentuada em sua disputa de quase uma semana com a Casa Branca sobre a guerra
entre EUA e Israel contra o Irã.
O
primeiro pontífice nascido nos Estados Unidos não mencionou Donald Trump pelo nome, mas usou seu discurso em
Camarões, na quinta-feira, para denunciar os líderes mundiais que invocam a
religião para justificar a violência contra outras nações.
Seus
comentários surgiram no momento em que bispos dos EUA ofereceram seu apoio incondicional ao chefe da
Igreja Católica, que vem sendo alvo de críticas de Trump há dias após se
manifestar contra a guerra com o Irã.
“Ai
daqueles que manipulam a religião e o próprio nome de Deus para obterem ganhos
militares, econômicos e políticos, arrastando o que é sagrado para as trevas e
a imundície”, disse Leo a uma multidão reunida na Catedral de São José, na
cidade de Bamenda, no oeste do país.
“Eles
fecham os olhos para o fato de que bilhões de dólares são gastos em
assassinatos e devastação, enquanto os recursos necessários para cura, educação
e restauração não são encontrados em lugar nenhum.”
“O
mundo está sendo devastado por um punhado de tiranos, mas permanece unido
graças a uma multidão de irmãos e irmãs que os apoiam”, disse o
pontífice, que está em uma viagem de 11 dias
pela África.
A
declaração incomumente contundente da Conferência dos Bispos Católicos dos EUA,
por sua vez, veio depois que JD Vance, vice-presidente de Trump e católico
convertido, atacou Leão por se manifestar contra a guerra, dizendo, na prática,
ao papa para ficar fora da política e " se ater a questões de moralidade ".
Na
terça-feira, Vance questionou o apelo de Leo à paz, desafiando seu critério
para uma guerra “moralmente justificável”. “Quando o papa diz que Deus nunca
está do lado daqueles que empunham a espada, existe uma tradição de mais de mil
anos de teoria da guerra justa”, disse ele em um evento do Turning Point USA na
Universidade da Geórgia.
Mas os
bispos disseram que Vance havia interpretado erroneamente a posição de Leão
XIII. "Há mais de mil anos, a Igreja Católica ensina a teoria da guerra
justa, e é a essa longa tradição que o Santo Padre se refere cuidadosamente em
seus comentários sobre a guerra", dizia o comunicado divulgado na
quarta-feira, atribuído a James Massa, presidente do comitê de doutrina da
conferência.
“Um
princípio constante dessa tradição milenar é que uma nação só pode
legitimamente pegar em armas 'em legítima defesa, quando todos os esforços de
paz tiverem falhado'. Ou seja, para ser uma guerra justa, ela deve ser uma
defesa contra outro país que ativamente trava guerras, que é o que o Santo
Padre disse : 'Ele não ouve
as orações daqueles que fazem guerra'.”
“Quando o Papa Leão XIV fala como supremo pastor da Igreja
universal, ele não está apenas oferecendo opiniões sobre teologia, mas pregando
o Evangelho e exercendo seu ministério como Vigário de Cristo.”
Leo
disse a repórteres no início desta semana, em um avião rumo à Argélia, no
começo de sua viagem, que não temia Trump .
“Não me
vejo como um político. Não sou político e não quero entrar em debate com ele”,
disse.
“Continuo
a me manifestar veementemente contra a guerra, buscando promover a paz, o
diálogo e o multilateralismo entre os Estados para encontrar soluções para os
problemas.”
Na
quarta-feira, Trump publicou em sua plataforma Truth Social uma imagem na qual aparece
sendo abraçado por Jesus, tendo a bandeira dos EUA como pano de fundo. A
publicação ocorreu dias depois de uma reação negativa de seus apoiadores –
incluindo muitos da direita religiosa – o ter forçado a apagar uma imagem
gerada por inteligência artificial que retratava o presidente, vestido com uma
batina, como um curador de enfermos à semelhança de Cristo.
Em um
desenvolvimento separado, o Miami Herald noticiou na quarta-feira
que o governo Trump, em um aparente ato de retaliação, estava encerrando o
financiamento de uma instituição de caridade ligada à Igreja Católica na
cidade, que abriga crianças imigrantes.
A
organização Catholic Charities da Arquidiocese de Miami afirmou que a Casa
Branca cancelou um contrato de longa data de US$ 11 milhões com o Escritório de
Reassentamento de Refugiados (ORR, na sigla em inglês) para um programa que
oferece serviços especializados a menores desacompanhados e sem documentos
detidos pelo Serviço de Imigração e Alfândega (ICE, na sigla em inglês).
“O
governo dos EUA decidiu abruptamente encerrar mais de 60 anos de
relacionamento… e [os serviços] serão obrigados a fechar dentro de três meses”,
disse Thomas Wenski, arcebispo de Miami, em um comunicado ao jornal.
“Os
serviços para menores desacompanhados têm sido reconhecidos pela sua excelência
e serviram de modelo para outras agências em todo o país. Nosso histórico no
atendimento a essa população vulnerável é incomparável.”
Emily
Hilliard, porta-voz do Departamento Federal de Saúde e Serviços Humanos, disse
ao Herald que a população média diária de crianças migrantes desacompanhadas
sob os cuidados da agência durante o segundo mandato de Trump era de cerca de
1.900, um número "significativamente menor" do que durante o governo
Biden.
“O ORR
está fechando e consolidando instalações não utilizadas, enquanto o governo
Trump continua seus esforços para impedir a entrada ilegal e o contrabando e
tráfico de crianças estrangeiras desacompanhadas”, disse Hilliard em um
comunicado que não mencionou especificamente o programa administrado pela
arquidiocese de Miami.
Wenski
disse ao Herald que aceitava que algumas iniciativas seriam reduzidas à medida
que a migração diminuísse, mas afirmou ser "desconcertante que o governo
encerrasse um programa que seria difícil de replicar com o mesmo nível de
competência" da igreja.
Fonte:
Por Aleem Maqbool, editor de religião da BBC/The Guardian

Nenhum comentário:
Postar um comentário