sexta-feira, 17 de abril de 2026

Por que rixa pública de Trump com papa está tirando apoio valioso do presidente americano

Não é incomum que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, enfrente críticas de líderes católicos.

As suas políticas linha dura de imigração, prometidas durante a campanha e celebradas por apoiadores, têm provocado condenação por parte de líderes da Igreja.

Há meses, isso coloca a hierarquia da Igreja Católica nos EUA em desacordo com católicos de base mais alinhados à direita.

Mas a ampla reação negativa nos últimos dias, desencadeada pelo ataque do presidente americano ao papa Leão 14 no domingo (12/4) e pela divulgação de uma imagem gerada por inteligência artificial (IA), na qual Trump aparece como uma figura semelhante a Cristo, com luz irradiando de suas mãos, é de outra natureza.

O que chama a atenção é a origem de parte dessas críticas: aliados católicos conservadores e leais.

Eles estão insatisfeitos não apenas com o atrito público de Trump com o papa Leão 14, mas, em um nível mais profundo, com a guerra contra o Irã.

A repercussão do longo ataque de Trump nas redes sociais ao primeiro papa americano, descrito como liberal demais e "brando com o crime", somada à imagem gerada por inteligência artificial, consolidou uma mudança de opinião entre muitos católicos conservadores desde o início da guerra, em 28 de fevereiro.

"Rezo para que tudo isso deixe claro às pessoas que não buscamos um líder nacional, não buscamos aqueles que têm mais dinheiro ou mais armas. Buscamos Cristo", afirmou o bispo Joseph Strickland.

As palavras vêm de um homem que, ainda no ano passado, participou de um evento de oração para "consagrar" a residência do presidente em Mar-a-Lago, na Flórida.

Em 2024, Strickland fez o discurso principal na Conferência de Ação Política Conservadora (CPAC), maior evento conservador dos EUA, onde Trump foi o convidado de honra. Em 2020, discursou em uma marcha de apoiadores de Trump que pediam a reversão do resultado das eleições.

Ele tem sido um apoiador leal de Donald Trump, nos bons e maus momentos. De fato, seu alinhamento político explícito e o confronto aberto com o falecido papa Francisco (1936-2025) contribuíram para sua destituição do cargo de bispo da cidade de Tyler, no Texas.

Ainda assim, diante de narrativas fortemente divergentes entre os EUA e o Vaticano sobre a guerra no Irã e o cenário mais amplo do Oriente Médio, Strickland fez um raro rompimento com o governo.

"Não acredito que este conflito atenda aos critérios de uma guerra justa. Estou com o papa e seu apelo pela paz. Não se trata de política. Trata-se de verdade moral", disse à BBC, acrescentando que a escala de mortes e sofrimento enfrentados por civis inocentes impede que a guerra seja considerada "justa".

Mais do que isso, ele criticou a forma como os EUA conduzem o conflito e incentivou outros católicos a fazer o mesmo.

"Tudo se torna muito sombrio quando a religião é usada para justificar comportamentos imorais… usar a religião para justificar, especialmente, o lançamento de bombas contradiz aquilo que a fé representa", afirmou Strickland.

Ao ser questionado sobre o ataque de Trump ao papa Leão 14 e sobre a imagem que alguns chamaram de "Jesus de IA", que Trump afirmou ter interpretado como sendo um médico, e não Jesus, Strickland disse que sentiu ser seu "dever" lembrar o presidente americano do Evangelho segundo Mateus. Ele citou uma passagem que ensina que o poder supremo pertence a Cristo, e não a qualquer homem.

"Quando líderes mundiais esquecem essa verdade, todos correm perigo", afirmou.

Essa mudança na forma como católicos conservadores veem o presidente dos EUA traz riscos políticos, já que ele ampliou seu apoio entre esse grupo na eleição de 2024.

Segundo o centro de pesquisa Pew Research Center, o quadro continua complexo. A origem racial teve papel relevante: 62% dos católicos brancos votaram em Donald Trump (Partido Republicano) e 37% em Kamala Harris (Partido Democrata), enquanto 41% dos católicos hispânicos votaram em Trump e 58% em Harris.

Ainda assim, houve uma tendência geral de aproximação dos católicos com o Partido Republicano do qual Trump faz parte, embora com divisões acentuadas.

Historicamente, os dados sugerem que, quando se trata de visão de mundo, a política pesa mais do que a fé para muitos católicos americanos. Eles se dividem, em grande medida, segundo linhas partidárias, afirma Greg Smith, diretor associado sênior de pesquisa em religião do Pew Research Center.

Os católicos nos EUA têm grupos que sustentam posições altamente polarizadas em temas como aborto e imigração. Por isso, uma convergência como essa entre católicos de esquerda e de direita em torno da guerra no Irã é rara.

A forma como avaliam o chefe da Igreja Católica reforça esse quadro. O papa Francisco era muito mais popular entre democratas católicos do que entre republicanos católicos, enquanto o papa Leão 14 conta com alto apoio de ambos, segundo o Pew Research Center.

O papa Francisco era frequentemente visto como um progressista espontâneo, que por vezes afastava católicos tradicionalistas, por exemplo, ao restringir a missa em latim, medida que o papa Leão 14 flexibilizou.

O papa não está imune a certo nível de crítica, disse Peter Wolfgang, diretor executivo do Family Institute of Connecticut e uma voz influente da "direita" católica nos EUA.

"O papa é o papa, devemos a ele um certo grau de deferência, mas não acho que o catolicismo exija a obediência de cadáveres. Nós somos pessoas vivas, capazes de pensar", afirmou.

Wolfgang passou de um pragmatismo cauteloso em relação a Trump, interessado na revogação das leis sobre o aborto, para um apoio mais entusiasmado. É um forte defensor das políticas de deportação em massa e do tipo de nacionalismo católico representado por J.D. Vance. Ainda assim, agora faz duras críticas ao comportamento do presidente dos EUA em relação ao papa Leão 14.

"O presidente Trump não entende como funciona o catolicismo. O papa não é apenas um chefe de Estado, ele é o Vigário de Cristo. Ataques contra ele são recebidos como ataques à própria Igreja. Quanto mais ele atacar o papa, mais seu apoio entre eleitores católicos vai cair", disse Wolfgang à BBC.

Wolfgang também afirmou que a sua fé o levou a contestar bispos católicos dos EUA quando criticaram as políticas de imigração do presidente Trump, mas que essa mesma fé o faz se opor a esta guerra.

"Quando o presidente Trump sai por aí falando em acabar com a civilização iraniana, ou o secretário [Pete] Hegseth faz uma oração sanguinária que é irreconhecível para os católicos, então é completamente natural que católicos conservadores se alinhem ao papa Leão 14", afirmou.

Pouco depois dos primeiros ataques dos EUA e de Israel ao Irã, o secretário de Defesa dos EUA, Pete Hegseth, recitou uma oração altamente controversa em um culto no Pentágono, na qual falava em "violência esmagadora" e "justiça executada de forma rápida e sem remorso".

Em seus textos, Wolfgang costuma reservar suas críticas mais duras à "esquerda" católica, mas avalia que a questão do Irã, em certa medida, uniu diferentes grupos, em parte pela clareza da mensagem anti-guerra do papa.

De forma incomum, nenhum membro sênior do clero católico nos EUA declarou publicamente apoio à guerra no Irã. Até mesmo Robert Barron, bispo de Winona-Rochester e aliado importante de Trump, exigiu que o presidente americano pedisse desculpas ao papa por seu ataque furioso, um pedido que foi rejeitado.

Posicionado na ala liberal da Igreja Católica, Steven Greydanus, diácono e comentarista de destaque, também vê essa convergência incomum de opiniões.

Ele avalia que um dos fatores foi a "subversão", pelos EUA, dos princípios da "Teoria da guerra justa" (bellum iustum), uma doutrina que estabelece quando é legítimo entrar em guerra e como esse conflito deve ser conduzido.

Mas diz que isso também se deve, em parte, ao contraste entre o presidente Donald Trump e a "presença conciliadora" do papa Leão 14.

"Embora eu me entristeça com a contundência dos ataques de Donald Trump ao papa Leão 14, de certa forma acolho a clareza da escolha que está sendo apresentada aos católicos", afirma Greydanus.

O Vaticano tem mantido a interpretação de que o que se desenrolou nas últimas semanas não é, de forma alguma, um embate entre o papa Leão 14 e o presidente Donald Trump, mas sim um papa que recorre claramente à sua fé para se opor à lógica desta guerra.

Mas, quando o presidente afirmou que "toda uma civilização morreria" no Irã, o papa respondeu diretamente, classificando a ameaça como "absolutamente inaceitável".

"Há uma diferença importante entre desafiar um homem e questionar o princípio que torna a guerra possível", afirmou o reverendo Antonio Spadaro, subsecretário do Dicastério para a Cultura e a Educação do Vaticano.

O reverendo Spadaro disse à BBC que, embora haja diálogo nos bastidores em "centros de poder", o papa também precisa fazer declarações públicas contra o conflito para "delimitar o limite moral" do que é aceitável.

Então, qual é a visão a partir da Cidade do Vaticano sobre uma possível convergência entre católicos dos EUA, de esquerda e de direita, no apoio à mensagem anti-guerra do papa Leão 14?

"Ele não une a todos, é claro", diz o reverendo Spadaro. "Mas o papa Leão 14 desloca o debate católico para longe de uma lógica puramente partidária."

Há questionamentos sobre por que o presidente Donald Trump publicaria uma imagem gerada por inteligência artificial que certamente alienaria e ofenderia parte de seus apoiadores. De forma incomum, ele acabou recuando e apagando a postagem.

Também há dúvidas sobre o motivo do ataque ao papa Leão 14. Para alguns, parecia uma tentativa de enfraquecer a oposição do pontífice à guerra.

"Mas, ao tentar deslegitimar, o ataque de Trump reconhece implicitamente o peso da voz moral do papa", afirma o reverendo Spadaro, do Vaticano.

"Se Leão 14 fosse irrelevante, não mereceria uma palavra. Em vez disso, é citado, nomeado, contestado; sinal de que suas palavras importam."

¨      Papa afirma que 'o mundo está sendo devastado por um punhado de tiranos' em meio a disputa com a Casa Branca de Trump.

O Papa Leão XIV afirmou que o mundo está sendo "devastado por um punhado de tiranos" que gastam bilhões em guerras, em comentários que serão vistos como mais uma escalada acentuada em sua disputa de quase uma semana com a Casa Branca sobre a guerra entre EUA e Israel contra o Irã.

O primeiro pontífice nascido nos Estados Unidos não mencionou Donald Trump pelo nome, mas usou seu discurso em Camarões, na quinta-feira, para denunciar os líderes mundiais que invocam a religião para justificar a violência contra outras nações.

Seus comentários surgiram no momento em que bispos dos EUA ofereceram seu apoio incondicional ao chefe da Igreja Católica, que vem sendo alvo de críticas de Trump há dias após se manifestar contra a guerra com o Irã.

“Ai daqueles que manipulam a religião e o próprio nome de Deus para obterem ganhos militares, econômicos e políticos, arrastando o que é sagrado para as trevas e a imundície”, disse Leo a uma multidão reunida na Catedral de São José, na cidade de Bamenda, no oeste do país.

“Eles fecham os olhos para o fato de que bilhões de dólares são gastos em assassinatos e devastação, enquanto os recursos necessários para cura, educação e restauração não são encontrados em lugar nenhum.”

“O mundo está sendo devastado por um punhado de tiranos, mas permanece unido graças a uma multidão de irmãos e irmãs que os apoiam”, disse o pontífice, que está em uma viagem de 11 dias pela África.

A declaração incomumente contundente da Conferência dos Bispos Católicos dos EUA, por sua vez, veio depois que JD Vance, vice-presidente de Trump e católico convertido, atacou Leão por se manifestar contra a guerra, dizendo, na prática, ao papa para ficar fora da política e " se ater a questões de moralidade ".

Na terça-feira, Vance questionou o apelo de Leo à paz, desafiando seu critério para uma guerra “moralmente justificável”. “Quando o papa diz que Deus nunca está do lado daqueles que empunham a espada, existe uma tradição de mais de mil anos de teoria da guerra justa”, disse ele em um evento do Turning Point USA na Universidade da Geórgia.

Mas os bispos disseram que Vance havia interpretado erroneamente a posição de Leão XIII. "Há mais de mil anos, a Igreja Católica ensina a teoria da guerra justa, e é a essa longa tradição que o Santo Padre se refere cuidadosamente em seus comentários sobre a guerra", dizia o comunicado divulgado na quarta-feira, atribuído a James Massa, presidente do comitê de doutrina da conferência.

“Um princípio constante dessa tradição milenar é que uma nação só pode legitimamente pegar em armas 'em legítima defesa, quando todos os esforços de paz tiverem falhado'. Ou seja, para ser uma guerra justa, ela deve ser uma defesa contra outro país que ativamente trava guerras, que é o que o Santo Padre disse : 'Ele não ouve as orações daqueles que fazem guerra'.”

“Quando o Papa Leão XIV fala como supremo pastor da Igreja universal, ele não está apenas oferecendo opiniões sobre teologia, mas pregando o Evangelho e exercendo seu ministério como Vigário de Cristo.”

Leo disse a repórteres no início desta semana, em um avião rumo à Argélia, no começo de sua viagem, que não temia Trump .

“Não me vejo como um político. Não sou político e não quero entrar em debate com ele”, disse.

“Continuo a me manifestar veementemente contra a guerra, buscando promover a paz, o diálogo e o multilateralismo entre os Estados para encontrar soluções para os problemas.”

Na quarta-feira, Trump publicou em sua plataforma Truth Social uma imagem na qual aparece sendo abraçado por Jesus, tendo a bandeira dos EUA como pano de fundo. A publicação ocorreu dias depois de uma reação negativa de seus apoiadores – incluindo muitos da direita religiosa – o ter forçado a apagar uma imagem gerada por inteligência artificial que retratava o presidente, vestido com uma batina, como um curador de enfermos à semelhança de Cristo.

Em um desenvolvimento separado, o Miami Herald noticiou na quarta-feira que o governo Trump, em um aparente ato de retaliação, estava encerrando o financiamento de uma instituição de caridade ligada à Igreja Católica na cidade, que abriga crianças imigrantes.

A organização Catholic Charities da Arquidiocese de Miami afirmou que a Casa Branca cancelou um contrato de longa data de US$ 11 milhões com o Escritório de Reassentamento de Refugiados (ORR, na sigla em inglês) para um programa que oferece serviços especializados a menores desacompanhados e sem documentos detidos pelo Serviço de Imigração e Alfândega (ICE, na sigla em inglês).

“O governo dos EUA decidiu abruptamente encerrar mais de 60 anos de relacionamento… e [os serviços] serão obrigados a fechar dentro de três meses”, disse Thomas Wenski, arcebispo de Miami, em um comunicado ao jornal.

“Os serviços para menores desacompanhados têm sido reconhecidos pela sua excelência e serviram de modelo para outras agências em todo o país. Nosso histórico no atendimento a essa população vulnerável é incomparável.”

Emily Hilliard, porta-voz do Departamento Federal de Saúde e Serviços Humanos, disse ao Herald que a população média diária de crianças migrantes desacompanhadas sob os cuidados da agência durante o segundo mandato de Trump era de cerca de 1.900, um número "significativamente menor" do que durante o governo Biden.

“O ORR está fechando e consolidando instalações não utilizadas, enquanto o governo Trump continua seus esforços para impedir a entrada ilegal e o contrabando e tráfico de crianças estrangeiras desacompanhadas”, disse Hilliard em um comunicado que não mencionou especificamente o programa administrado pela arquidiocese de Miami.

Wenski disse ao Herald que aceitava que algumas iniciativas seriam reduzidas à medida que a migração diminuísse, mas afirmou ser "desconcertante que o governo encerrasse um programa que seria difícil de replicar com o mesmo nível de competência" da igreja.

 

Fonte: Por Aleem Maqbool, editor de religião da BBC/The Guardian

 

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