Por
uma questão agrária das mudanças climáticas
As
primeiras décadas do século XXI demonstraram que as mudanças climáticas não são
uma hipótese ou perspectiva científica abstrata, fundamentada em modelos
climáticos estatísticos distantes. A perspectiva cética frente ao processo de
mudança do clima, em suas diferentes escalas, está cada vez mais superada,
tendo em vista a imposição de um clima em processo de mudança e que se faz
sentir empírica e desigualmente, impactando e vulnerabilizando os territórios
de povos e comunidades dos campos, cidades, florestas e águas, com destaque aos
localizados em países do Sul Global, como o Brasil. Negar a crise climática
tornou-se cada vez mais insustentável. Pode-se omiti-la, relativizá-la ou
ignorá-la, a depender da má fé política e perversidade.
Não é
mais possível negá-la diante de seus impactos, intensificando desigualdades
pré-existentes e criando novos conflitos, disputas e resistências aos povos do
Sul Global. Os dados são inequívocos. Segundo o Sexto Relatório de Avaliação
(AR6) do Intergovernmental Panel on Climate Change (IPCC), a temperatura média
global tem aumentado de forma contínua e progressiva desde a Revolução
Industrial, com sucessivos e infelizes novos recordes anuais. Entre 2011 e
2020, esse aumento atingiu o marco de 1,1°C em relação ao período
pré-industrial (1850–1900). Já em 2024, a World Meteorological Organization
(WMO) afirmou que passamos pelo ano mais quente da história, com temperatura
média 1,55°C maior.
Na
atualidade, já conhecemos parte das razões desse aumento de 0,4°C inesperado em
2024. Dentre os fatores explicativos, temos a incidência de um forte El Niño,
ocorrido entre 2023 e 2024, que intensificou temporariamente o aquecimento e
também a ocorrência dos eventos extremos, como as ondas de calor, secas
prolongadas, incêndios florestais e urbanos, tempestades, furacões, ciclones,
enchentes etc. No Brasil, as enchentes no Rio Grande do Sul e as recorrentes
ondas de calor e secas no Centro-oeste, Sudeste, Nordeste e Norte foram
expressão desse período catastrófico. O caso do Brasil foi emblemático, uma
amostra parcial da realidade, considerando que os eventos climáticos extremos
se manifestam de diferentes maneiras entre os países e suas regiões, tendo em
vista as especificidades de cada espaço em relação à dinâmica dos fatores e
elementos do clima.
E,
nesse ponto, é importante afirmar que todos somos expostos aos eventos
climáticos extremos, mas o que diferencia seu potencial destrutivo e impacto
(em curta, média e longa duração) são os níveis de vulnerabilidade dos
territórios frente a eles. E, nesse sentido, não é mistério afirmar que os
territórios mais vulneráveis são os historicamente marginalizados, como
observamos com as comunidades camponesas assentadas no Brasil. E, mesmo que
2024 tenha representado uma dita “anomalia”, o dado mais inquietante veio em
sequência: em 2025, sob influência da La Niña, que tende a reduzir as
temperaturas média globais, o planeta registrou o terceiro ano mais quente da
série histórica, com a marca de 1,44°C acima dos níveis pré-industriais. O ano
de 2025 está atrás somente de 2024 e 2023, respectivamente.
Pela
perspectiva geográfica, entendemos que eventos como El Niño e La Niña ajudam a
explicar oscilações momentâneas, parte fundamental (e natural) da variabilidade
climática, mas não são insuficientes para compreender e analisar a substância
do processo de mudança climática, suas causas, seus impactos, os responsáveis e
quem são os mais afetados por elas. Parte da explicação desse aumento da
temperatura global e dos eventos climáticos extremos está diretamente associada
ao acúmulo crescente de gases de efeito estufa (GEE) de curta e longa duração
na atmosfera, originados principalmente da forma como temos construído nossos
espaços e territórios desde a Revolução Industrial – ou, para os leitores
atentos, desde a consolidação do capitalismo como hegemônico, imposto
internacionalmente pela Europa e os Estados Unidos ao resto do mundo.
Dados
do Annual Greenhouse Gas Index (AGGI), da National Oceanic and Atmospheric
Administration (NOAA), mostram que a concentração dos GEE na atmosfera continua
aumentando, ampliando o forçamento radiativo positivo do planeta, ou seja,
retenção de calor irradiado. Entre os principais gases responsáveis por esse
processo estão o dióxido de carbono (CO2), o metano (CH4) e o óxido nitroso
(N2O), todos diretamente associados a atividades como a queima de combustíveis
fósseis, mudança do uso da terra e expansão de sistemas agropecuários
intensivos. Nesse ponto, é comum encaminhar o debate para o setor de extração,
produção, distribuição e uso de energias. Mas, em nosso caso, chamamos a
atenção para outra dimensão: sobre como as mudanças climáticas convergem com a
discussão da questão agrária, não como um tema secundário, mas como uma de suas
dimensões intrínsecas no século XXI.
Em
nossa perspectiva, a questão agrária do presente e do futuro é a questão
agrária que se abre ao desafio de entender as múltiplas relações entre
conflitos, disputas, lutas, resistências e enfrentamentos não mais somente pela
perspectiva do fundiário e do agropecuário, mas de sua relação com as mudanças
climáticas. A forma como a terra é apropriada, utilizada e transformada está no
cerne tanto da produção da crise climática como da distribuição de seus
impactos. Ao mesmo tempo, outras formas de apropriação da terra têm se
demonstrado como soluções para a crise climática, baseadas na agroecologia dos
movimentos camponeses e indígenas. Há uma questão agrária das mudanças
climáticas. Ou, como temos conceituado, uma questão agroclimática. As áreas do
conhecimento que têm na questão agrária e mudanças climáticas objetos de estudo
guardam a responsabilidade ímpar de produzir dados que subsidiem essa
perspectiva, disputando políticas públicas efetivas, desmascarando falsas
soluções climáticas e contribuindo com respostas efetivas aos problemas do
presente.
E nem
preciso afirmar que a Geografia tem papel (e compromisso) de ser protagonista
nessa discussão. Por exemplo, é muito comum debatermos em Geografia sobre as
disputas, conflitos e resistências envolvendo os territórios camponeses e os
territórios do agronegócio, denunciando, como o segundo desterritorializa e
subordina as territorialidades (formas de uso e organização do território) dos
primeiros. Tendo como referência a realidade do Brasil, que o agronegócio é
violento com os camponeses, isso não é mistério. Os relatórios do Banco de
Dados das Lutas por Espaços e Territórios (Dataluta) e da Comissão Pastoral da
Terra (CPT) não deixam dúvida sobre esse fato. Que o agronegócio foi e segue
sendo o principal vetor da exclusão e da concentração fundiária, isso também
não é surpresa. E, também, que esse setor segue avançando no processo de
mudança de uso da terra (MUT), suprimindo áreas de floresta, grilando-as e as
convertendo em áreas de pastagens e monoculturas, também não é novidade.
No
entanto, podemos ir além e iniciar as articulações necessárias entre questão
agrária e mudanças climáticas para inaugurar uma perspectiva agroclimática. Por
exemplo, a análise do sistema alimentar do agronegócio permite compreender que
sua atuação não se restringe ao desmatamento, concentração fundiária ou
produção agropecuária, mas envolve um complexo muito mais amplo de
temporalidades, espaços e atividades interligadas que contribuem
significativamente na intensificação da crise climática. Em escala internacional,
esse sistema é responsável por cerca de 44% a 57% das emissões de GEE na
atmosfera. Entre os principais vetores dessas emissões, destacam-se o
desmatamento (15%-18%), os processos agrícolas e pecuários (11%-15%) e as
etapas de processamento (8%-10%). No caso dos países do Sul Global, como o
Brasil, o MUT associada à expansão da fronteira agropecuária constitui o
principal fator de emissão, evidenciando como a dinâmica territorial do
agronegócio está diretamente vinculada à produção da crise climática e,
igualmente, da vulnerabilidade dos territórios dos povos e comunidades do
campo.
No
Brasil, conforme dados disponibilizados pelo Observatório do Clima (OC), via
plataforma Sistema de Estimativas de Emissões e Remoções de Gases de Efeito
Estufa (SEEG), entre 1990 a 2023, a MUT (leia-se desmatamento) corresponde à
maior parte das emissões e, logo em seguida, as atividades agropecuárias,
vinculadas principalmente às grandes propriedades do agronegócio. Somando as
emissões da MUT e das atividades agropecuárias, temos mais de 70% das emissões
nacionais. O gráfico da Figura 1 evidencia essa relação. O desmatamento avança
em conjunto com a grilagem de terras públicas e a fronteira agropecuária,
incorporando novas áreas ao domínio do agronegócio. Tendo como referência a
realidade nacional, essa informação não emerge enquanto inédita, mas parte da
dinâmica da questão agrária (e climática) que expõem as comunidades e povos do
campo tanto aos conflitos agrários/fundiários como aos impactos dos eventos
extremos. Nesse caso, será que não está na hora de debater vulnerabilidade
agroclimática?
O mapa
apresenta as emissões por estado no Brasil, evidenciando como o MUT está
presente em áreas de avanço da fronteira agropecuária, como na Amazônia Legal e
no Matopiba – Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia. Os dados são incontestáveis.
Segundo o MapBiomas, entre 1985 a 2023, na região da Amazônia Legal, o
principal motor do desmatamento foi a abertura de novas áreas para pastagens.
Além disso, levantamos e confrontamos imagens de satélite com o uso e cobertura
da terra na região entre o período mencionado acima, no qual observamos como as
áreas de vegetação nativa estão sendo suprimidas para incorporação às áreas de
pecuária, região amplamente conhecida como Arco do Desmatamento. Observamos de
forma nítida como a fronteira agropecuária tem avançado sobre a floresta
amazônica e, também, avançou no passado em outros biomas do Brasil, como nos
Pampas, Florestas de Araucárias, Mata Atlântica e os Cerrados. A história do
presente é repleta de repetições do passado. E esse é o ciclo de acumulação do
capitalismo.
Ainda
com base nos dados das emissões da Figura 1, não é difícil correlacionar a
maior emissão de GEE na Amazônia Legal e no Matopiba considerando o
desmatamento com o uso de queimadas e dos conflitos agrários. Além disso, a
estratégia ilegal de incorporação de áreas florestais em patrimônio privado
(grilagem) na Amazônia e no Matopiba pode ser equacionada, de modo simples e
didático, em: desmatamentos e queimadas (limpeza do terreno) → conflitos com as
comunidades tradicionais → implantação
de áreas de pastagens para rebanhos bovinos ou monocultivos
de commodities → busca por regularização
fundiária (grilagem). Pela perspectiva da questão
agrária em diálogo com as dimensões
das mudanças climáticas, sobretudo pela
vertente das emissões, essa equação pode ser
reformulada, considerando as especificidades setoriais e as distintas etapas do
processo de apropriação e uso da terra.
O
desmatamento e as queimadas contribuem de forma expressiva para a liberação de
CO2, uma vez que o carbono armazenado na vegetação e no solo é transferido e
acumulado na atmosfera. A pecuária, por sua vez, emite volumes significativos
de CH4 (metano), sobretudo em função da fermentação entérica dos rebanhos
bovinos e, também, enquanto a agricultura intensiva dos monocultivos contribui
para emissões de N2O associadas ao uso de fertilizantes nitrogenados. Parte do
processo é expressado nessa “equação”, todavia, outras variáveis necessitam de
atenção: a desterritorialização de povos e comunidades do campo, a subordinação
de suas territorialidades, a violência, as ameaças, os assassinados a
lideranças comunitárias e de movimentos socioterritoriais, a pressão pela venda
de terra, a especulação e a financeirização.
Há
metodologias capazes de quantificar emissões por desmatamento e queimadas, por
fermentação entérica e pelo uso indiscriminado de fertilizantes nitrogenados,
mas ainda não como medir a dor, o sofrimento, a sensação de impotência e
perseguição vivenciadas por muitos povos do campo. Dessa forma, a expansão do
agronegócio não apenas reproduz a histórica expropriação dos territórios
indígenas e camponeses, como também intensifica a crise climática, produzindo
riscos, exposições e vulnerabilidades agroclimáticas. Um cenário é considerar
territórios impactados somente pelas mudanças climáticas; outro, totalmente
diferente, é agrupar novas variáveis: a emissão diferenciada
(responsabilidade), as formas de uso e cobertura da terra (escala local e
regional), os conflitos agrários e fundiários pré-existentes, as violências e
pressões do agronegócio sobre os territórios e a capacidade de resistência e
enfrentamento destes frente às ofensivas do capital.
Essa
perspectiva é mais complexa, sim. Essa perspectiva ainda é pouco explorada,
sim, de fato. Mas é essa perspectiva, como defendemos, que expressa a dinâmica
dos conflitos agroclimáticos no século XXI. E de qual temos que começar a nos
debruçar, atualizar teorias, atualizar conceitos e metodologias. A realidade se
impõe e a renovação do conhecimento e disputa política é nossa
responsabilidade. O enfrentamento ao agronegócio é, cada vez mais, um
enfrentamento à crise climática, ao colapso ambiental e à degradação dos bens
da natureza e da dignidade humana em sua completude.
Fonte: Por Wuelliton Felipe Peres Lima, no Le Monde

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