sexta-feira, 17 de abril de 2026

Berenice Bento: Quem são os judeus dissidentes do sionismo

Durante parte da minha vida, reservei um espaço de profunda admiração por Israel. Não havia grandes elaborações ou leituras, mas imagens. O deserto transformado em jardins, uma terra de mel, romãs, figos, laranjas, oliveiras. Coletivos humanos que trabalhavam juntos para cuidar da terra e distribuir os frutos de uma vida compartilhada igualmente. Sonhei com a vida nos kibutzim. Tentei, em algum momento, fazer parte desse sonho. Eu era uma adolescente imersa na esquerda. As imagens idílicas do paraíso comunista terrestre chamavam-se Israel. É como se eu precisasse daquele lugar imaginado para continuar acreditando que era possível transformar o mundo. Ao mesmo tempo, a Palestina e a OLP também habitavam meu coração e militância, embora não houvesse uma reflexão que conectasse o meu sonho sionista com a situação do povo palestino. Admirava Israel e sofria com os/as palestinos/as. Essa disjunção que me constituía pode parecer estranha, mas é uma estrutura que se repete amplamente. O pensamento não produz as conexões entre o sofrimento do povo palestino e a abundância israelense. Antes de ser uma debilidade cognitiva individual, é o resultado eficaz das narrativas midiáticas. A cada massacre promovido por Israel, há um tipo de comoção momentânea produzida pelas imagens das ruínas de casas e vidas palestinas pela imprensa, mas, logo depois, essa empatia desaparece e Israel volta a ocupar o lugar do referente de superação, prosperidade e civilização. Passa-se algum tempo e, outra vez, imagens e comoção. Essa circularidade produz a sensação de que se trata de um conflito eterno, sem fim. Eu estava imersa na reprodução dessa circularidade. O meu flerte político com o sionismo ficou adormecido. A vida tomou outros rumos. Anos se passaram. Entre os anos de 2013 e 2014, eu estava em Nova Iorque, fazendo pesquisa sobre questões vinculadas à campanha global pela despatologização das identidades trans, quando me aproximei dos ativismos trans locais. Comecei a conhecer palestinos/as queers que estavam no exílio. Simultaneamente, aconteciam longas conversas com Pauline Park que, naquele momento, coordenava o Queens Pride House. Ela acabara de chegar de uma viagem que fizera à Palestina. Com uma competência intelectual rara, Pauline articula, em suas publicações, as questões vinculadas à população queer com os temas da colonização e do apartheid (Park, s.d.).

Alguns meses depois, em julho de 2014, iniciou-se uma nova escalada de violência do Estado de Israel contra a Palestina, principalmente contra Gaza, que resultou na morte de mais de 2100 pessoas, no deslocamento de cerca de 500 mil e em mais de 11 mil feridos (OCHA, 2014). E, assim, entre reuniões com ativistas, horas nas bibliotecas, passei a dedicar parte dos meus dias para participar das manifestações, estudar a questão palestina e compreender o que estava ali, diante dos meus olhos, e eu nunca tinha visto: Israel da limpeza étnica, do apartheid e da colonização.

Em uma das manifestações contra os massacres nas ruas de Nova Iorque, um jovem palestino queer, com aparência muito frágil, unhas pintadas e uma maquiagem discreta, caminhava ao nosso lado. De repente, parou, pôs as mãos no rosto e desabou a chorar. Naquele dia, casas próximas à de sua família em Gaza tinham sido destruídas por projéteis israelenses. Alguns vizinhos tinham morrido e outros estavam hospitalizados. Ele repetia compulsivamente: “eu não aguento mais… todos os dias, só morte”.

Acho que comecei a escrever esse livro naquele momento. Alguns meses depois, consegui ir à Palestina. Quando eu desci do avião, nos imensos corredores do Aeroporto Ben Gurion que nos levam para o controle policial de chegada, meu corpo paralisou. Ali, diante dos meus olhos, reencontrei as mesmas imagens que constituíram meu desejo há décadas passadas e me subjetivaram como simpatizante sionista. Fotografias gigantes de flores delicadas nascendo entre pedras, laranjais em flores, territórios amplos. Mais do que “boas-vindas”, as imagens constituem um convite para as pessoas judias recém-chegadas se tornarem parte daquele sonho. Eu lia aquelas imagens e lia-me. Foram elas as responsáveis por alimentar meu sonho adolescente sionista. Não eram as mesmas imagens que eu tinha visto nos anos 1980, mas ainda assim eram as mesmas imagens. A qualidade técnica das fotografias era outra. A precisão, as cores, a profundidade do campo visual, faziam as pessoas reduzirem a velocidade dos passos para serem afetadas com a promessa imagética da terra prometida. Não eram as mesmas foto- grafias, mas eram motivadas pela mesma intencionalidade das que eu tinha visto há 40 anos. Essa pequena nota biográfica é, antes de tudo, um reconhecimento da eficácia do dispositivo sionista.

Foi a partir de uma indignação sem nome que comecei a tentar compreender como o impossível torna-se possível. Israel é um Estado que segue se afirmando como democrático e com considerável adesão global às suas políticas, principalmente dos governos e de movimentos de extrema direita. A fissura nessa adesão está nos movimentos sociais da sociedade civil. Não há em nenhuma manifestação pública de movimentos sociais no Brasil e em diversos países que demandam justiça a presença de bandeiras de Israel. No Brasil, a sua exibição pública tornou-se um símbolo de identificação com o ideário fascista dos apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro.

Mesmo após a imersão em leituras, pesquisas e viagens à Palestina, ainda sou perseguida pela pergunta: como o Estado de Israel é possível? Pode parecer uma pergunta retórica, mas, de fato, aí está uma questão que merece esforço interpretativo. Não há uma resposta simples e única. Ao longo do livro, faço o trabalho de cercá-la, aproximando-me de possíveis respostas que fogem daquelas já conhecidas e que atribuem, principalmente, ao poder militar e à cumplicidade da diplomacia oficial sintetizada na Organização das Nações Unidas (ONU), as explicações para a existência e a impunidade do Estado de Israel. Os interesses e a presença das grandes corporações multinacionais que intensificaram seus negócios tanto em Israel quanto na Palestina, sobretudo após os Acordos de Oslo, e que Bruno Huberman (2023) nomeará como “colonialismo neoliberal”, constituem outra possibilidade explicativa, uma vez que, na nova fase do colonialismo, há uma despolitização da resistência, mediante a concessão de migalhas do mercado aos pobres israelenses e para uns/umas poucos/as colonizados/as palestinos/as. Uma terceira explicação seria a cooptação de lideranças palestinas que fazem alianças de classe e têm se tornado os administradores internos do colonialismo israelense. Não há dúvidas de que todas essas interpretações sobre o que faz possível um Estado colonial e segregacionista operar de forma contínua e voraz sua máquina de destruição de um povo são válidas e se interseccionam. O que vou oferecer aqui são pistas que podem nos levar a encontrar a legitimidade desse tipo de dominação e opressão na esfera “doméstica”, na coesão da comunidade judaica, interna e externamente a Israel. Interessou-me compreender como a adesão de pessoas judias ao ideário sionista não é algo que diga respeito ao voluntarismo, à escolha, mas parte estruturante das socializações primária e secundária.

Na primeira parte do livro, debruço-me sobre histórias de pessoas judias que romperam com o sionismo. Ao entrar em contato com suas histórias, temos acesso a um material único para alcançarmos os processos subjetivos de produção do “ser sionista”. É como se estivéssemos adentrando o “mapa da mina”. Explico-me. Os processos de ruptura são precedidos por releituras das verdades morais e históricas que os constituíram no mundo lastreado no sionismo. Ser tornado sionista, para uma pessoa judia, significa fazer parte de um projeto político que transcende as biografias e do “agora”. Está atrelado a uma temporalidade extática. A necessidade de defender o Estado de Israel vincula-se ao perigo antissemitai como algo atemporal e a-histórico. O mundo é construído como antissemita e a necessidade e construção de um Estado inauguram uma nova etapa na existência de um povo perseguido. Assim, mais do que entender os dados sobre o poderio militar israelense, os interesses das corporações multinacionais, o papel da diplomacia internacional, tentei compreender o que leva um/a soldado/a israelense a executar uma jornalista palestina-americana devidamente identificada com a palavra “imprensa” em seu colete, como aconteceu com Shireen Abu Akleh. No entanto, esse ato não se esgota em si mesmo, como algo isolado de um contexto mais amplo, como se uma excepcionalidade fosse. Como articular os argumentos subjetivos dos crimes cometidos diariamente contra o povo palestino com o primeiro mandamento (“não matarás”), fundamento primeiro da judaicidade?

Estou consciente de que pesquisas que buscam desnaturalizar ou historicizar como se preparam crianças israelenses para se tornarem adultos que matam têm pouco impacto nas demandas por reparação e justiça, porque não será a partir da sociedade israelense que virá a justiça para o povo palestino. Depois que escutei os depoimentos de pessoas judias que tiveram suas socializações primárias e secundárias constituídas para serem racistas, infiro que as ações externas para impor sanções a Israel e exigir justiça para o povo palestino terão efeitos tímidos nas disputas internas das mentalidades na comunidade judaica local (em Israel) e global. Os pedidos de reparação e justiça são lidos com o sinal trocado: se transformam em confirmações do ódio do mundo ao povo judeu. Portanto, antecipo uma das conclusões da pesquisa: não será por meio do trabalho miúdo, pequeno, de disputas das mentalidades dos/das sionistas que o povo palestino terá sua vitória e conseguirá adesão às demandas. Seria ilusão imaginar que essas transformações subjetivas que irei analisar ameacem os discursos e práticas de ódio reiteradamente reproduzidos contra o povo palestino.

O que tentarei propor nesse livro são, de certa forma, caminhos para humanizar o/a opressor/a, aqueles que dão vida às políticas genocidas e aos atos de genocidade perpetrados contra o povo palestino. Defino a genocidade como um conjunto de táticas de produção lenta e continuada da morte que aciona a humilhação como mecanismo de produção de subjetividades aterrorizadas, um tipo de política cotidiana de mortificação do eu, conforme discutirei. Não será nas estruturas psíquicas desajustadas, ou nas mentes criminosas, que iremos encontrar as razões que levam pessoas a se tornarem torturadoras de crianças ou assassinas de jornalistas. Tampouco se pode fazer qualquer tipo de concessão aos discursos antissemitas que ontologizam “o ser judeu” como naturalmente perverso. A psiquiatrização dos criminosos é, antes de tudo, um recurso acionado pelo poder para seguir sendo poder. Pune-se o indivíduo, para permitir que a máquina de produção incessante de assassinos continue funcionando. Não há dúvidas de que o assassino da jornalista Shireen Abu Akleh e de tantos outros/as palestinos/as que são diariamente executados pelo Estado de Israel precisa ser responsabilizado. Contudo, não se pode derivar daí uma relação causal, em que a punição legal produzirá o efeito de aprendizado coletivo, porque a mensagem será lida, mais uma vez, com o sinal invertido, afinal, “outros países cometem crimes contra jornalistas e outros crimes, mas só olham para Israel porque o mundo é antissemita”. Se há algum mérito nesse livro é sua possível contribuição para desnaturalizar, entender que há uma engenharia muito sofisticada e invisível de produção do “ser judeu” como eterna vítima e que, portanto, deve orientar sua ação pelo imperativo da defesa sem trégua do Estado Israel, mandato primeiro dos sionistas.

O projeto de produção de sujeitos sionistas é de longa duração. É como se o medo do mundo fosse tragado simultaneamente com a primeira mamadeira. É um desde sempre. Reconhecer o outro não judeu como potencialmente antissemita torna-se natural. Daí não fazer sentido perguntar a uma pessoa judia quando ela se tornou sionista. Seria da mesma ordem nonsense que perguntar a uma pessoa heterossexual quando ela se tornou heterossexual. Essa história foi apagada e naturalizou-se. Apresenta-se no fazer cotidiano como um “desde sempre”. Contudo, é possível dar inteligibilidade aos momentos de crise e rompimento com as normas de gênero e com a heteronorma. A pergunta “quando e como você rompeu com o sionismo?” também é narrável. Todos os processos de problematização, negação e reconstrução de dimensões subjetivas vinculados às socializações primária e secundária, e que moldam nossas emoções e identidades, são, inicialmente, destrutivos porque, no primeiro momento da crise, se instaura um vazio moral. As falas dos/as colaboradores/as são, antes de tudo, sobre ruínas e como dos escombros fez-se o trabalho da arqueologia de si, de juntar fragmentos e, a partir daí, se chegou a um outro lugar em relação ao sionismo e à defesa dos direitos do povo palestino.

Entrevistei seis pessoas judias antissionistas. O objetivo principal foi entender como se deram os processos subjetivos de rompimento com o sionismo. Não estamos diante de pessoas judias que fazem críticas domesticadas ao Estado de Israel. A perspectiva de análise para os/as colaboradores/as tornou-se o povo palestino e o fundamento ético-político que justifica esse engajamento assenta-se na tradição de justiça social oferecida pelo pensamento filosófico-judaico.

O livro está organizado em três partes. A Parte I é composta por seis capítulos. No Capítulo 1, ofereço uma interpretação dos processos subjetivos de rompimento com o sionismo pelos quais passaram os/as colaboradores/as da pesquisa. No Capítulo 2, será possível ter acesso a recortes das entrevistas. Após inúmeras leituras das transcrições, percebi que seria importante para o/a leitor/a conhecer os percursos biográficos na “voz” dos/as próprios/as colaboradores/as. Nos Capítulos 3 e 4, sigo na presença de dois intelectuais judeus antissionistas: Ilan Pappé e Judith Butler. Ilan Pappé quebrará uma das colunas vertebrais do sionismo, ao fazer uma história a contrapelo. Ele, embora não o cite, faz o trabalho benjaminiano (Benjamin, 1986) de apresentar a história da catástrofe palestina (a Nakba), acionando os próprios arquivos dos vencedores. Nos arquivos oficiais do Estado de Israel, a história do sonho sionista emerge como barbárie.

Para Judith Butler, a barbárie continuada do Estado de Israel se reproduz porque essa entidade política autoproclama-se como representante total da judaicidade e instrumentaliza a memória dos mortos para seguir matando. Ancorada na tradição ética da judaicidade, Butler irá apontar que o sionismo é a antítese dessa tradição. Tanto Butler quanto Pappé foram fundamentais para os/as colaboradores/as da pesquisa romperem com o sionismo. No Capítulo 5, discuto as proximidades entre as concepções de solidariedade internacional e relacionalidade ética, vinculando-as às tarefas dos ativistas e pesquisadores dos direitos humanos no que se refere ao lugar que a Palestina ocupa em nossas vidas.

Para alcançar o projeto estratégico de despossessão das terras e bens simbólicos do povo palestino, a colonização israelense se realiza, nos termos propostos por Edward Said (2012), na esfera do “detalhe”, um tipo de microfísica da morte que controla os f luxos humanos, os recursos naturais, a quantidade de ovelhas que pode acessar as áreas verdes: proíbe o uso de qualquer símbolo identificável com a Palestina (bandeira, lenço, camisa com estampas, pulseiras, colares) nos corpos, impede que crianças usem as ruas para brincar (principalmente em Hebron), prende e tortura crianças/mulheres/homens, não permite ao povo palestino o acesso livre aos lugares sagrados, não autoriza doentes palestinos/as a ascenderem aos hospitais.

O último capítulo da Parte I é dedicado aos relatos de viagem em que apresento “detalhes”, ou a microfísica da morte. Se nos primeiros capítulos estou mais interessada em pensar os processos subjetivos, sem ater-me às políticas do colonialismo israelense, aqui, o objetivo é compartilhar com o/a leitor/a experiências com o horror e que, talvez, contribuam para a materialização dos dramas existenciais através dos/ as colaboradores/as da pesquisa.

As cenas diárias de humilhação impostas por soldados/as aos/às trabalhadores/as palestinos/as que tentavam atravessar as barreiras militares para chegar ao trabalho (os checkpoints) faziam ressuscitar dentro de mim a pergunta inicial: como o Estado de Israel é possível? Essas cenas consistiam em mandá-los tirar a roupa, obrigá-los a voltar inúmeras vezes para passar pelo controle metálico, gritos em hebraico e risos cínicos de soldados/as diante da expressão de perplexidade do palestino que não conseguia entender as ordens. Na Parte II do livro, sigo com minhas pistas para encontrar os motivos que tornam o impossível possível. A ênfase estará na análise dos discursos que tentam defender o Estado de Israel por uma perspectiva de esquerda.

Em todos os capítulos, apontarei que a defesa do Estado de Israel não pode ser vinculada exclusivamente aos/às defensores/as dos fascismos contemporâneos, à extrema direita global (com destaque recente para o ex-presidente Jair Bolsonaro, no Brasil). Não há dúvidas de que o Estado de Israel hoje é o grande referente e inspiração para a extrema direita mundial, mas a adesão à Israel não se esgota nesse campo. Na esfera da esquerda, há discursos (cada vez mais enfraquecidos) que circulam e que tentam amenizar as críticas ao Estado de Israel, transfigurando-as em críticas “aos governos” de Israel. O problema, dizem os/as “sionistas de esquerda” (as aspas são para apontar a impossibilidade desses dois termos conviverem: sionismo e esquerda), não seria o Estado, mas os governos de extrema direita que têm sido eleitos. Esquecem-se de que há um “pecado” original na fundação desse Estado que vem ao mundo a partir dos massacres, expulsão, torturas, estupros e seguem com a colonização por meio do chamado “direito de retorno”. Esse pecado original atualiza-se todos os dias porque a solução final desejada pelos arquitetos de Israel ainda não está concluída: a expulsão total do povo palestino. De David Ben Gurion a Benjamin Netanyahu não há contradição, mas continuidade. Nos Capítulos 1, 2 e 3, analiso os recursos discursivos que os/as “sionistas de esquerda”, parte estruturante do dispositivo sionista, acionam para fazer o trabalho de amortizar a luta do povo palestino por justiça enquanto a colonização avança. Nos Capítulos 4 e 5, a análise do genocídio do povo palestino será articulada a partir do conceito de genocidade, que defino provisoriamente como um conjunto de técnicas de produção da morte psíquica do povo palestino e que tem a humilhação como fundamento de suas práticas.

A definição de sionismo que orientará as análises será a adotada pela Resolução da ONU de 10 de novembro de 1975 (A/RES/3379), que “determina que o sionismo é uma forma de racismo e discriminação racial”. Essa Resolução vigorou até 1991, quando foi revogada após imensa pressão dos/as sionistas israelenses e dos Estados Unidos da América (de agora em diante, apenas Estados Unidos). Os relatórios da B’Tselem (2021b), da Human Rights Watch (HRW, 2021) e da Anistia Internacional (Amnesty International, 2022), com considerável atraso histórico, reatualizam essa definição em seus recentes relatórios. A Anistia Internacional afirmará que “desde que Israel foi estabelecido em 1948, suas políticas e legislação foram moldadas por um objetivo abrangente: manter uma maioria demográfica judaica e maximizar o controle judaico-israelense sobre a terra às custas dos palestinos”.

As teses centrais aprovadas no primeiro congresso sionista, realizado em Basileia em 29 de agosto de 1897, afirmavam a necessidade de um Estado judeu e a escolha pela Palestina como local onde seria construído o “lar judeu” (Ghivelder, 2016). Cerca de 200 pessoas reuni- das decidiram que iriam construir uma entidade política, sem qualquer tipo de consideração ou consulta aos/às nativos/as da Palestina, o que significa que a população originária deveria desaparecer. A primeira estratégia sionista foi afirmar que iriam ocupar uma terra vazia, sem povo. De fato, foi fundamental para o tipo de colonialismo de ocupação implementado por Israel produzir um discurso que tinha como objetivo fazer desaparecer uma população nativa inteira. O genocídio simbólico antecedeu a limpeza étnica, os massacres e a genocidade. Essa estratégica retórica colonial não ficou limitada aos primórdios da ocupação. Até os dias de hoje (maio de 2023), os/as sionistas seguem afirmando que naquelas terras não existe um povo nativo. É a partir dessa base consensual (a necessidade de um Estado para o povo judeu; os vínculos históricos do povo judeu com a Palestina; a ausência de povo nativo) que será constituído o colonialismo sionista.

Em seu diário, Theodor Herzl, pai do colonialismo sionista, orgulha-se de sua obra presente e futura: “Se eu tivesse que resumir o Congresso de Basileia numa só frase, ela seria: ‘em Basileia eu fundei o Estado judeu’. Se eu dissesse isto hoje, seria objeto de risos universais; mas em cinco anos, talvez em cinquenta, todos o verão” (Morashá, 2017). Ao longo dos anos, posições internas divergentes ao sionismo foram sendo organizadas. Essa heterogeneidade interna, no entanto, não atinge os pontos de unidade que fazem o dispositivo sionista funcionar.

O conceito de dispositivo de Michel Foucault (1999, 2000) nos ajuda a entender como é possível que, embora haja divergências internas em um determinado campo político e discursivo, é possível mapear os elementos que asseguram sua reprodução. O dispositivo sionista teve como finalidade a criação, manutenção e expansão territorial. Para Foucault, o dispositivo pode ser definido como “um conjunto decidida- mente heterogêneo que comporta discursos, instituições, construções, decisões regulamentares, leis, medidas administrativas, enunciados científicos, proposições filosóficas, morais, filantrópicas” (Foucault, 1999: 244). O dispositivo é a rede que se estabelece entre estes elementos, como uma “espécie de formação que num certo momento tem por função maior responder a uma emergência, uma função estratégica dominante” e está “sempre inscrito num jogo de poder”. Se houvesse apenas heterogeneidade interna no dispositivo sionista e não existissem pontos estruturantes de unidade, o Estado de Israel não conseguiria a adesão necessária para acionar todas as táticas visando alcançar sua estratégia: a manutenção e a expansão do colonialismo de ocupação. Para desmontar o dispositivo sionista, é preciso conhecer seus pontos de unidade. Mais do que “conhecer”, os/as colaboradores/as da pesquisa viviam o sionismo de forma incorporada, como um habitus. E foi através de suas narrativas que cheguei aos pontos de unidade que faziam o sionismo funcionar em suas vidas como um conjunto de valores morais que os situava no mundo, quais sejam: Estado de Israel – 1) nasceu de uma luta por independência; 2) está cercado de inimigos, precisa e tem o direito a defender-se; 3) é a única garantia que o povo judeu tem contra o antissemitismo; 4) foi fundado numa terra sem povo; 5) é democrático e defende os direitos humanos; 6) garante à toda pessoa judia do mundo o direito de retornar para suas terras ancestrais.

Certamente que, para o povo que foi expulso de suas terras e se tornou refugiado, o dispositivo sionista deve ser nomeado de colonialismo sionista. Conforme apontou Huberman (2023: 16), “a pluralidade de sionistas que teve impacto na realidade material da Palestina representa a pluralidade que o colonialismo em geral, e o colonialismo sionista em particular, pode assumir”. Sem contradição com essa identificação, vou nomear de “dispositivo sionista” porque, a partir da pergunta “como é possível o Estado de Israel?”, aproximo-me de histórias de pessoas que fizeram o dispositivo funcionar e que, em determinado momento de suas vidas, fazem os desmontes contra-hegemônicos dos eixos estruturantes desse dispositivo. Definir-se como antissionista para uma pessoa que fez o dispositivo sionista operar nos coloca em relação com as dores e angústias dos desmontes subjetivos e dos novos arranjos emocionais e sociais derivados de uma nova posição no mundo.

Reconhecer que haja disputas internas ao sionismo que podem interferir nos rumos internos da sociedade israelense é apenas um esforço para entender o que assegura a reprodução da máquina colonial, o que lhe assegura a adesão interna. Ou seja, acredito que, se por um lado, essa pesquisa pode oferecer outros caminhos interpretativos para a coesão interna de Israel em relação às suas políticas colonialistas e segregacionistas, somando-se a outras perspectivas interpretativas, reconheço que, na perspectiva do povo despossuído, nenhuma relevância terá saber se quem puxou o gatilho que assassinou a jornalista Shireen Abu Akleh era uma/a sionista de esquerda, um/a sionista de extrema direita, ou um/a sionista homossexual.

Em outubro de 2023 iniciou-se a fase mais brutal do colonialismo sionista. O manuscrito desse livro já não estava nas minhas mãos quando o massacre à população de Gaza teve início. Enquanto os trabalhos de revisão e preparação do texto seguiam, o mundo testemunhava (e segue testemunhando) em tempo real o massacre de mulheres, crianças, jovens e homens em Gaza (mas também na Cisjordânia) por Israel, em coautoria com os Estados Unidos, a Inglaterra e a Europa. Nunca o mundo tinha visto um genocídio ser televisionado. O Epílogo, portanto, foi incluído posteriormente. Toda a análise que conduzi ao longo do livro não me permite reivindicar nenhuma surpresa com a voracidade dos assassinatos sionistas. Ao contrário, o genocídio de agora está em linha de continuidade com a Nakba de 1948. Acabo de acrescentar este parágrafo em 28 de setembro de 2024, quando dados oficiais já apontam para 40 mil palestinos/as assassina- dos/as em Gaza (OCHA, 2024).

 

Fonte: Outras Palavras

 

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