Berenice
Bento: Quem são os judeus dissidentes do sionismo
Durante
parte da minha vida, reservei um espaço de profunda admiração por Israel. Não
havia grandes elaborações ou leituras, mas imagens. O deserto transformado em
jardins, uma terra de mel, romãs, figos, laranjas, oliveiras. Coletivos humanos
que trabalhavam juntos para cuidar da terra e distribuir os frutos de uma vida
compartilhada igualmente. Sonhei com a vida nos kibutzim. Tentei, em algum
momento, fazer parte desse sonho. Eu era uma adolescente imersa na esquerda. As
imagens idílicas do paraíso comunista terrestre chamavam-se Israel. É como se
eu precisasse daquele lugar imaginado para continuar acreditando que era
possível transformar o mundo. Ao mesmo tempo, a Palestina e a OLP também
habitavam meu coração e militância, embora não houvesse uma reflexão que
conectasse o meu sonho sionista com a situação do povo palestino. Admirava
Israel e sofria com os/as palestinos/as. Essa disjunção que me constituía pode
parecer estranha, mas é uma estrutura que se repete amplamente. O pensamento
não produz as conexões entre o sofrimento do povo palestino e a abundância
israelense. Antes de ser uma debilidade cognitiva individual, é o resultado
eficaz das narrativas midiáticas. A cada massacre promovido por Israel, há um
tipo de comoção momentânea produzida pelas imagens das ruínas de casas e vidas
palestinas pela imprensa, mas, logo depois, essa empatia desaparece e Israel
volta a ocupar o lugar do referente de superação, prosperidade e civilização.
Passa-se algum tempo e, outra vez, imagens e comoção. Essa circularidade produz
a sensação de que se trata de um conflito eterno, sem fim. Eu estava imersa na
reprodução dessa circularidade. O meu flerte político com o sionismo ficou
adormecido. A vida tomou outros rumos. Anos se passaram. Entre os anos de 2013
e 2014, eu estava em Nova Iorque, fazendo pesquisa sobre questões vinculadas à
campanha global pela despatologização das identidades trans, quando me
aproximei dos ativismos trans locais. Comecei a conhecer palestinos/as queers que
estavam no exílio. Simultaneamente, aconteciam longas conversas com Pauline
Park que, naquele momento, coordenava o Queens Pride House. Ela
acabara de chegar de uma viagem que fizera à Palestina. Com uma competência
intelectual rara, Pauline articula, em suas publicações, as questões vinculadas
à população queer com os temas da colonização e do apartheid (Park, s.d.).
Alguns
meses depois, em julho de 2014, iniciou-se uma nova escalada de violência do
Estado de Israel contra a Palestina, principalmente contra Gaza, que resultou
na morte de mais de 2100 pessoas, no deslocamento de cerca de 500 mil e em mais
de 11 mil feridos (OCHA, 2014). E, assim, entre reuniões com ativistas, horas
nas bibliotecas, passei a dedicar parte dos meus dias para participar das
manifestações, estudar a questão palestina e compreender o que estava ali,
diante dos meus olhos, e eu nunca tinha visto: Israel da limpeza étnica,
do apartheid e da colonização.
Em uma
das manifestações contra os massacres nas ruas de Nova Iorque, um jovem
palestino queer, com aparência muito frágil, unhas pintadas e uma maquiagem
discreta, caminhava ao nosso lado. De repente, parou, pôs as mãos no rosto e
desabou a chorar. Naquele dia, casas próximas à de sua família em Gaza tinham
sido destruídas por projéteis israelenses. Alguns vizinhos tinham morrido e
outros estavam hospitalizados. Ele repetia compulsivamente: “eu não aguento
mais… todos os dias, só morte”.
Acho
que comecei a escrever esse livro naquele momento. Alguns meses depois,
consegui ir à Palestina. Quando eu desci do avião, nos imensos corredores do
Aeroporto Ben Gurion que nos levam para o controle policial de chegada, meu
corpo paralisou. Ali, diante dos meus olhos, reencontrei as mesmas imagens que
constituíram meu desejo há décadas passadas e me subjetivaram como simpatizante
sionista. Fotografias gigantes de flores delicadas nascendo entre pedras,
laranjais em flores, territórios amplos. Mais do que “boas-vindas”, as imagens
constituem um convite para as pessoas judias recém-chegadas se tornarem parte
daquele sonho. Eu lia aquelas imagens e lia-me. Foram elas as responsáveis por
alimentar meu sonho adolescente sionista. Não eram as mesmas imagens que eu
tinha visto nos anos 1980, mas ainda assim eram as mesmas imagens. A qualidade
técnica das fotografias era outra. A precisão, as cores, a profundidade do
campo visual, faziam as pessoas reduzirem a velocidade dos passos para serem
afetadas com a promessa imagética da terra prometida. Não eram as mesmas foto-
grafias, mas eram motivadas pela mesma intencionalidade das que eu tinha visto
há 40 anos. Essa pequena nota biográfica é, antes de tudo, um reconhecimento da
eficácia do dispositivo sionista.
Foi a
partir de uma indignação sem nome que comecei a tentar compreender como o
impossível torna-se possível. Israel é um Estado que segue se afirmando como
democrático e com considerável adesão global às suas políticas, principalmente
dos governos e de movimentos de extrema direita. A fissura nessa adesão está
nos movimentos sociais da sociedade civil. Não há em nenhuma manifestação
pública de movimentos sociais no Brasil e em diversos países que demandam
justiça a presença de bandeiras de Israel. No Brasil, a sua exibição pública
tornou-se um símbolo de identificação com o ideário fascista dos apoiadores do
ex-presidente Jair Bolsonaro.
Mesmo
após a imersão em leituras, pesquisas e viagens à Palestina, ainda sou
perseguida pela pergunta: como o Estado de Israel é possível? Pode parecer uma
pergunta retórica, mas, de fato, aí está uma questão que merece esforço
interpretativo. Não há uma resposta simples e única. Ao longo do livro, faço o
trabalho de cercá-la, aproximando-me de possíveis respostas que fogem daquelas
já conhecidas e que atribuem, principalmente, ao poder militar e à cumplicidade
da diplomacia oficial sintetizada na Organização das Nações Unidas (ONU), as
explicações para a existência e a impunidade do Estado de Israel. Os interesses
e a presença das grandes corporações multinacionais que intensificaram seus
negócios tanto em Israel quanto na Palestina, sobretudo após os Acordos de
Oslo, e que Bruno Huberman (2023) nomeará como “colonialismo neoliberal”,
constituem outra possibilidade explicativa, uma vez que, na nova fase do
colonialismo, há uma despolitização da resistência, mediante a concessão de
migalhas do mercado aos pobres israelenses e para uns/umas poucos/as
colonizados/as palestinos/as. Uma terceira explicação seria a cooptação de
lideranças palestinas que fazem alianças de classe e têm se tornado os
administradores internos do colonialismo israelense. Não há dúvidas de que
todas essas interpretações sobre o que faz possível um Estado colonial e
segregacionista operar de forma contínua e voraz sua máquina de destruição de
um povo são válidas e se interseccionam. O que vou oferecer aqui são pistas que
podem nos levar a encontrar a legitimidade desse tipo de dominação e opressão
na esfera “doméstica”, na coesão da comunidade judaica, interna e externamente
a Israel. Interessou-me compreender como a adesão de pessoas judias ao ideário
sionista não é algo que diga respeito ao voluntarismo, à escolha, mas parte
estruturante das socializações primária e secundária.
Na
primeira parte do livro, debruço-me sobre histórias de pessoas judias que
romperam com o sionismo. Ao entrar em contato com suas histórias, temos acesso
a um material único para alcançarmos os processos subjetivos de produção do
“ser sionista”. É como se estivéssemos adentrando o “mapa da mina”. Explico-me.
Os processos de ruptura são precedidos por releituras das verdades morais e
históricas que os constituíram no mundo lastreado no sionismo. Ser tornado
sionista, para uma pessoa judia, significa fazer parte de um projeto político
que transcende as biografias e do “agora”. Está atrelado a uma temporalidade
extática. A necessidade de defender o Estado de Israel vincula-se ao perigo
antissemitai como algo
atemporal e a-histórico. O mundo é construído como antissemita e a necessidade
e construção de um Estado inauguram uma nova etapa na existência de um povo
perseguido. Assim, mais do que entender os dados sobre o poderio militar
israelense, os interesses das corporações multinacionais, o papel da diplomacia
internacional, tentei compreender o que leva um/a soldado/a israelense a
executar uma jornalista palestina-americana devidamente identificada com a
palavra “imprensa” em seu colete, como aconteceu com Shireen Abu Akleh. No
entanto, esse ato não se esgota em si mesmo, como algo isolado de um contexto
mais amplo, como se uma excepcionalidade fosse. Como articular os argumentos
subjetivos dos crimes cometidos diariamente contra o povo palestino com o
primeiro mandamento (“não matarás”), fundamento primeiro da judaicidade?
Estou
consciente de que pesquisas que buscam desnaturalizar ou historicizar como se
preparam crianças israelenses para se tornarem adultos que matam têm pouco
impacto nas demandas por reparação e justiça, porque não será a partir da
sociedade israelense que virá a justiça para o povo palestino. Depois que
escutei os depoimentos de pessoas judias que tiveram suas socializações
primárias e secundárias constituídas para serem racistas, infiro que as ações
externas para impor sanções a Israel e exigir justiça para o povo palestino
terão efeitos tímidos nas disputas internas das mentalidades na comunidade
judaica local (em Israel) e global. Os pedidos de reparação e justiça são lidos
com o sinal trocado: se transformam em confirmações do ódio do mundo ao povo judeu.
Portanto, antecipo uma das conclusões da pesquisa: não será por meio do
trabalho miúdo, pequeno, de disputas das mentalidades dos/das sionistas que o
povo palestino terá sua vitória e conseguirá adesão às demandas. Seria ilusão
imaginar que essas transformações subjetivas que irei analisar ameacem os
discursos e práticas de ódio reiteradamente reproduzidos contra o povo
palestino.
O que
tentarei propor nesse livro são, de certa forma, caminhos para humanizar o/a
opressor/a, aqueles que dão vida às políticas genocidas e aos atos de
genocidade perpetrados contra o povo palestino. Defino a genocidade como um
conjunto de táticas de produção lenta e continuada da morte que aciona a
humilhação como mecanismo de produção de subjetividades aterrorizadas, um tipo
de política cotidiana de mortificação do eu, conforme discutirei. Não será nas
estruturas psíquicas desajustadas, ou nas mentes criminosas, que iremos
encontrar as razões que levam pessoas a se tornarem torturadoras de crianças ou
assassinas de jornalistas. Tampouco se pode fazer qualquer tipo de concessão
aos discursos antissemitas que ontologizam “o ser judeu” como naturalmente perverso.
A psiquiatrização dos criminosos é, antes de tudo, um recurso acionado pelo
poder para seguir sendo poder. Pune-se o indivíduo, para permitir que a máquina
de produção incessante de assassinos continue funcionando. Não há dúvidas de
que o assassino da jornalista Shireen Abu Akleh e de tantos outros/as
palestinos/as que são diariamente executados pelo Estado de Israel precisa ser
responsabilizado. Contudo, não se pode derivar daí uma relação causal, em que a
punição legal produzirá o efeito de aprendizado coletivo, porque a mensagem
será lida, mais uma vez, com o sinal invertido, afinal, “outros países cometem
crimes contra jornalistas e outros crimes, mas só olham para Israel porque o
mundo é antissemita”. Se há algum mérito nesse livro é sua possível contribuição
para desnaturalizar, entender que há uma engenharia muito sofisticada e
invisível de produção do “ser judeu” como eterna vítima e que, portanto, deve
orientar sua ação pelo imperativo da defesa sem trégua do Estado Israel,
mandato primeiro dos sionistas.
O
projeto de produção de sujeitos sionistas é de longa duração. É como se o medo
do mundo fosse tragado simultaneamente com a primeira mamadeira. É um desde
sempre. Reconhecer o outro não judeu como potencialmente antissemita torna-se
natural. Daí não fazer sentido perguntar a uma pessoa judia quando ela se
tornou sionista. Seria da mesma ordem nonsense que perguntar a
uma pessoa heterossexual quando ela se tornou heterossexual. Essa história foi
apagada e naturalizou-se. Apresenta-se no fazer cotidiano como um “desde
sempre”. Contudo, é possível dar inteligibilidade aos momentos de crise e
rompimento com as normas de gênero e com a heteronorma. A pergunta “quando e
como você rompeu com o sionismo?” também é narrável. Todos os processos de
problematização, negação e reconstrução de dimensões subjetivas vinculados às
socializações primária e secundária, e que moldam nossas emoções e identidades,
são, inicialmente, destrutivos porque, no primeiro momento da crise, se
instaura um vazio moral. As falas dos/as colaboradores/as são, antes de tudo,
sobre ruínas e como dos escombros fez-se o trabalho da arqueologia de si, de
juntar fragmentos e, a partir daí, se chegou a um outro lugar em relação ao
sionismo e à defesa dos direitos do povo palestino.
Entrevistei
seis pessoas judias antissionistas. O objetivo principal foi entender como se
deram os processos subjetivos de rompimento com o sionismo. Não estamos diante
de pessoas judias que fazem críticas domesticadas ao Estado de Israel. A
perspectiva de análise para os/as colaboradores/as tornou-se o povo palestino e
o fundamento ético-político que justifica esse engajamento assenta-se na
tradição de justiça social oferecida pelo pensamento filosófico-judaico.
O livro
está organizado em três partes. A Parte I é composta por seis capítulos. No
Capítulo 1, ofereço uma interpretação dos processos subjetivos de rompimento
com o sionismo pelos quais passaram os/as colaboradores/as da pesquisa. No
Capítulo 2, será possível ter acesso a recortes das entrevistas. Após inúmeras
leituras das transcrições, percebi que seria importante para o/a leitor/a
conhecer os percursos biográficos na “voz” dos/as próprios/as colaboradores/as.
Nos Capítulos 3 e 4, sigo na presença de dois intelectuais judeus
antissionistas: Ilan Pappé e Judith Butler. Ilan Pappé quebrará uma das colunas
vertebrais do sionismo, ao fazer uma história a contrapelo. Ele, embora não o
cite, faz o trabalho benjaminiano (Benjamin, 1986) de apresentar a história da
catástrofe palestina (a Nakba), acionando os próprios arquivos
dos vencedores. Nos arquivos oficiais do Estado de Israel, a história do sonho
sionista emerge como barbárie.
Para
Judith Butler, a barbárie continuada do Estado de Israel se reproduz porque
essa entidade política autoproclama-se como representante total da judaicidade
e instrumentaliza a memória dos mortos para seguir matando. Ancorada na
tradição ética da judaicidade, Butler irá apontar que o sionismo é a antítese
dessa tradição. Tanto Butler quanto Pappé foram fundamentais para os/as
colaboradores/as da pesquisa romperem com o sionismo. No Capítulo 5, discuto as
proximidades entre as concepções de solidariedade internacional e
relacionalidade ética, vinculando-as às tarefas dos ativistas e pesquisadores
dos direitos humanos no que se refere ao lugar que a Palestina ocupa em nossas
vidas.
Para
alcançar o projeto estratégico de despossessão das terras e bens simbólicos do
povo palestino, a colonização israelense se realiza, nos termos propostos por
Edward Said (2012), na esfera do “detalhe”, um tipo de microfísica da morte que
controla os f luxos humanos, os recursos naturais, a quantidade de ovelhas que
pode acessar as áreas verdes: proíbe o uso de qualquer símbolo identificável
com a Palestina (bandeira, lenço, camisa com estampas, pulseiras, colares) nos
corpos, impede que crianças usem as ruas para brincar (principalmente em
Hebron), prende e tortura crianças/mulheres/homens, não permite ao povo
palestino o acesso livre aos lugares sagrados, não autoriza doentes
palestinos/as a ascenderem aos hospitais.
O
último capítulo da Parte I é dedicado aos relatos de viagem em que apresento
“detalhes”, ou a microfísica da morte. Se nos primeiros capítulos estou mais
interessada em pensar os processos subjetivos, sem ater-me às políticas do
colonialismo israelense, aqui, o objetivo é compartilhar com o/a leitor/a
experiências com o horror e que, talvez, contribuam para a materialização dos
dramas existenciais através dos/ as colaboradores/as da pesquisa.
As
cenas diárias de humilhação impostas por soldados/as aos/às trabalhadores/as
palestinos/as que tentavam atravessar as barreiras militares para chegar ao
trabalho (os checkpoints) faziam ressuscitar dentro de mim a pergunta inicial:
como o Estado de Israel é possível? Essas cenas consistiam em mandá-los tirar a
roupa, obrigá-los a voltar inúmeras vezes para passar pelo controle metálico,
gritos em hebraico e risos cínicos de soldados/as diante da expressão de
perplexidade do palestino que não conseguia entender as ordens. Na Parte II do
livro, sigo com minhas pistas para encontrar os motivos que tornam o impossível
possível. A ênfase estará na análise dos discursos que tentam defender o Estado
de Israel por uma perspectiva de esquerda.
Em
todos os capítulos, apontarei que a defesa do Estado de Israel não pode ser
vinculada exclusivamente aos/às defensores/as dos fascismos contemporâneos, à
extrema direita global (com destaque recente para o ex-presidente Jair
Bolsonaro, no Brasil). Não há dúvidas de que o Estado de Israel hoje é o grande
referente e inspiração para a extrema direita mundial, mas a adesão à Israel
não se esgota nesse campo. Na esfera da esquerda, há discursos (cada vez mais
enfraquecidos) que circulam e que tentam amenizar as críticas ao Estado de
Israel, transfigurando-as em críticas “aos governos” de Israel. O problema,
dizem os/as “sionistas de esquerda” (as aspas são para apontar a
impossibilidade desses dois termos conviverem: sionismo e esquerda), não seria
o Estado, mas os governos de extrema direita que têm sido eleitos. Esquecem-se
de que há um “pecado” original na fundação desse Estado que vem ao mundo a
partir dos massacres, expulsão, torturas, estupros e seguem com a colonização
por meio do chamado “direito de retorno”. Esse pecado original atualiza-se
todos os dias porque a solução final desejada pelos arquitetos de Israel ainda
não está concluída: a expulsão total do povo palestino. De David Ben Gurion a
Benjamin Netanyahu não há contradição, mas continuidade. Nos Capítulos 1, 2 e
3, analiso os recursos discursivos que os/as “sionistas de esquerda”, parte
estruturante do dispositivo sionista, acionam para fazer o trabalho de
amortizar a luta do povo palestino por justiça enquanto a colonização avança.
Nos Capítulos 4 e 5, a análise do genocídio do povo palestino será articulada a
partir do conceito de genocidade, que defino provisoriamente como um conjunto
de técnicas de produção da morte psíquica do povo palestino e que tem a
humilhação como fundamento de suas práticas.
A
definição de sionismo que orientará as análises será a adotada pela Resolução
da ONU de 10 de novembro de 1975 (A/RES/3379), que “determina que o sionismo é
uma forma de racismo e discriminação racial”. Essa Resolução vigorou até
1991, quando foi revogada após imensa pressão dos/as sionistas israelenses e
dos Estados Unidos da América (de agora em diante, apenas Estados
Unidos). Os relatórios da B’Tselem (2021b), da Human Rights Watch (HRW,
2021) e da Anistia Internacional (Amnesty International, 2022), com
considerável atraso histórico, reatualizam essa definição em seus recentes
relatórios. A Anistia Internacional afirmará que “desde que Israel foi
estabelecido em 1948, suas políticas e legislação foram moldadas por um
objetivo abrangente: manter uma maioria demográfica judaica e maximizar o
controle judaico-israelense sobre a terra às custas dos palestinos”.
As
teses centrais aprovadas no primeiro congresso sionista, realizado em Basileia
em 29 de agosto de 1897, afirmavam a necessidade de um Estado judeu e a escolha
pela Palestina como local onde seria construído o “lar judeu” (Ghivelder,
2016). Cerca de 200 pessoas reuni- das decidiram que iriam construir uma
entidade política, sem qualquer tipo de consideração ou consulta aos/às
nativos/as da Palestina, o que significa que a população originária deveria
desaparecer. A primeira estratégia sionista foi afirmar que iriam ocupar uma
terra vazia, sem povo. De fato, foi fundamental para o tipo de colonialismo de
ocupação implementado por Israel produzir um discurso que tinha como objetivo
fazer desaparecer uma população nativa inteira. O genocídio simbólico antecedeu
a limpeza étnica, os massacres e a genocidade. Essa estratégica retórica
colonial não ficou limitada aos primórdios da ocupação. Até os dias de hoje
(maio de 2023), os/as sionistas seguem afirmando que naquelas terras não existe
um povo nativo. É a partir dessa base consensual (a necessidade de um Estado
para o povo judeu; os vínculos históricos do povo judeu com a Palestina; a
ausência de povo nativo) que será constituído o colonialismo sionista.
Em seu
diário, Theodor Herzl, pai do colonialismo sionista, orgulha-se de sua obra
presente e futura: “Se eu tivesse que resumir o Congresso de Basileia numa só
frase, ela seria: ‘em Basileia eu fundei o Estado judeu’. Se eu dissesse isto
hoje, seria objeto de risos universais; mas em cinco anos, talvez em cinquenta,
todos o verão” (Morashá, 2017). Ao longo dos anos, posições internas
divergentes ao sionismo foram sendo organizadas. Essa heterogeneidade interna,
no entanto, não atinge os pontos de unidade que fazem o dispositivo sionista
funcionar.
O
conceito de dispositivo de Michel Foucault (1999, 2000) nos ajuda a entender
como é possível que, embora haja divergências internas em um determinado campo
político e discursivo, é possível mapear os elementos que asseguram sua
reprodução. O dispositivo sionista teve como finalidade a criação, manutenção e
expansão territorial. Para Foucault, o dispositivo pode ser definido como “um
conjunto decidida- mente heterogêneo que comporta discursos, instituições,
construções, decisões regulamentares, leis, medidas administrativas, enunciados
científicos, proposições filosóficas, morais, filantrópicas” (Foucault, 1999:
244). O dispositivo é a rede que se estabelece entre estes elementos, como uma
“espécie de formação que num certo momento tem por função maior responder a uma
emergência, uma função estratégica dominante” e está “sempre inscrito num jogo
de poder”. Se houvesse apenas heterogeneidade interna no dispositivo
sionista e não existissem pontos estruturantes de unidade, o Estado de Israel
não conseguiria a adesão necessária para acionar todas as táticas visando
alcançar sua estratégia: a manutenção e a expansão do colonialismo de ocupação.
Para desmontar o dispositivo sionista, é preciso conhecer seus pontos de
unidade. Mais do que “conhecer”, os/as colaboradores/as da pesquisa viviam o
sionismo de forma incorporada, como um habitus. E foi através de suas
narrativas que cheguei aos pontos de unidade que faziam o sionismo funcionar em
suas vidas como um conjunto de valores morais que os situava no mundo, quais
sejam: Estado de Israel – 1) nasceu de uma luta por independência; 2) está
cercado de inimigos, precisa e tem o direito a defender-se; 3) é a única
garantia que o povo judeu tem contra o antissemitismo; 4) foi fundado numa
terra sem povo; 5) é democrático e defende os direitos humanos; 6) garante à
toda pessoa judia do mundo o direito de retornar para suas terras ancestrais.
Certamente
que, para o povo que foi expulso de suas terras e se tornou refugiado, o
dispositivo sionista deve ser nomeado de colonialismo sionista. Conforme
apontou Huberman (2023: 16), “a pluralidade de sionistas que teve impacto na
realidade material da Palestina representa a pluralidade que o colonialismo em
geral, e o colonialismo sionista em particular, pode assumir”. Sem contradição
com essa identificação, vou nomear de “dispositivo sionista” porque, a partir
da pergunta “como é possível o Estado de Israel?”, aproximo-me de histórias de
pessoas que fizeram o dispositivo funcionar e que, em determinado momento de
suas vidas, fazem os desmontes contra-hegemônicos dos eixos estruturantes desse
dispositivo. Definir-se como antissionista para uma pessoa que fez o
dispositivo sionista operar nos coloca em relação com as dores e angústias dos
desmontes subjetivos e dos novos arranjos emocionais e sociais derivados de uma
nova posição no mundo.
Reconhecer
que haja disputas internas ao sionismo que podem interferir nos rumos internos
da sociedade israelense é apenas um esforço para entender o que assegura a
reprodução da máquina colonial, o que lhe assegura a adesão interna. Ou seja,
acredito que, se por um lado, essa pesquisa pode oferecer outros caminhos
interpretativos para a coesão interna de Israel em relação às suas políticas
colonialistas e segregacionistas, somando-se a outras perspectivas
interpretativas, reconheço que, na perspectiva do povo despossuído, nenhuma
relevância terá saber se quem puxou o gatilho que assassinou a jornalista
Shireen Abu Akleh era uma/a sionista de esquerda, um/a sionista de extrema
direita, ou um/a sionista homossexual.
Em
outubro de 2023 iniciou-se a fase mais brutal do colonialismo sionista. O
manuscrito desse livro já não estava nas minhas mãos quando o massacre à
população de Gaza teve início. Enquanto os trabalhos de revisão e preparação do
texto seguiam, o mundo testemunhava (e segue testemunhando) em tempo real o
massacre de mulheres, crianças, jovens e homens em Gaza (mas também na
Cisjordânia) por Israel, em coautoria com os Estados Unidos, a Inglaterra e a
Europa. Nunca o mundo tinha visto um genocídio ser televisionado. O Epílogo,
portanto, foi incluído posteriormente. Toda a análise que conduzi ao longo do
livro não me permite reivindicar nenhuma surpresa com a voracidade dos
assassinatos sionistas. Ao contrário, o genocídio de agora está em linha de
continuidade com a Nakba de 1948. Acabo de acrescentar este
parágrafo em 28 de setembro de 2024, quando dados oficiais já apontam para 40
mil palestinos/as assassina- dos/as em Gaza (OCHA, 2024).
Fonte:
Outras Palavras

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