Estudo
usado no STF por ruralistas contra a moratória da soja é contestado por
ambientalistas
UM
ESTUDO defendido pela Aprosoja (Associação Brasileira dos Produtores de Soja),
mas questionado por acadêmicos e ambientalistas, vai estar no centro do debate
sobre a chamada “moratória da soja”, durante audiência marcada pelo ministro
Flávio Dino para a quinta-feira (16), no STF (Supremo Tribunal Federal).
Usado
como argumento técnico pela entidade do agronegócio contra a moratória, o
documento sustenta que o pacto empresarial criado há quase duas décadas — e que
proíbe a compra de grãos produzidos em áreas desmatadas na Amazônia depois de
julho de 2008 — não teria reduzido o desmatamento no bioma. Especialistas
ouvidos pela reportagem, no entanto, contestam a análise e apontam falhas
metodológicas.
Elaborado
pelo IBCI (Instituto Brasileiro de Concorrência e Inovação), o documento
está anexado a um julgamento em curso no
STF sobre leis estaduais do Mato Grosso e de Rondônia que retiram benefícios
fiscais das tradings (comercializadoras) de grãos que aderirem a compromissos
voluntários de sustentabilidade. Por causa dessas legislações, defendidas por
sojicultores, multinacionais como ADM, Bunge e Cargill abandonaram a moratória,
por receio de perderem incentivos estaduais bilionários.
A
audiência de conciliação prevista para quinta-feira foi convocada pelo relator
do caso, ministro Flávio Dino. O objetivo do encontro é tentar aproximar
produtores rurais, empresas processadoras dos grãos e organizações
ambientalistas.
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O que diz o estudo do IBCI
O
documento tem três pontos centrais. Primeiro, sustenta que a moratória não
teria efeito ambiental comprovado. Em
segundo lugar, diz que o acordo trouxe prejuízos econômicos aos produtores de
soja. Por fim, afirma que impor restrições além das previstas na legislação
ambiental brasileira seria ilegal.
Argumentos
semelhantes já haviam aparecido na audiência realizada pelo STF em 19 de março.
Na ocasião, representantes da Aprosoja e da CNA (Confederação da Agricultura e
Pecuária do Brasil) defenderam teses alinhadas ao estudo.
Durante
a audiência, o advogado da Aprosoja afirmou, por exemplo, que a moratória
“atropela o nosso Código Florestal” e disse que cerca de “95% do desmatamento
na região monitorada não estariam relacionados à soja”. Já a advogada da CNA
classificou a política como um “cartel clássico” e “à margem da lei”.
Organizações
da sociedade civil, por outro lado, defendem o legado da moratória da soja.
Estudo do Ipam (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia) aponta que o fim
do pacto pode elevar em até 30% a área desmatada na Amazônia até 2045, com
emissões acumuladas da ordem de 20 bilhões de toneladas de dióxido de carbono
decorrentes da conversão de floresta em áreas de exploração agrícola.
Em
quase duas décadas, a moratória teria se consolidado como referência para
dissociar a expansão da soja do desmatamento na Amazônia, segundo porta-vozes
de diferentes entidades ambientalistas, como Greenpeace, WWF-Brasil, Imaflora e
Ipam.
Dados
do próprio setor indicam que a área média desmatada nos municípios monitorados
caiu 69%, de 11.424 km²/ano entre 2002 e 2008 para 3.526 km²/ano de 2009 a
2022. A área plantada com soja no bioma, por sua vez, aumentou 344% no período.
Ou seja: a expansão das lavouras foi acompanhada da redução do desmatamento — e
a moratória também contribuiu para esse cenário, defendem ambientalistas.
Em
entrevista por e-mail à Repórter Brasil, os autores do estudo do IBCI,
Cristiano Oliveira e Eduardo Gaban, afirmam que a análise foi feita de forma
independente, sem interferência de associações do agronegócio.
“A
convergência de conclusões entre um estudo acadêmico e outros atores não diz
nada sobre a origem ou a integridade do estudo. Diz apenas que diferentes
pessoas, partindo de pontos distintos, chegaram ao mesmo lugar”, dizem os
autores. Oliveira é professor de economia da FURG (Universidade Federal do Rio
Grande). Já Gaban é advogado e professor da USP (Universidade de São Paulo).
Leia as respostas na íntegra.
Registros
públicos levantados pela reportagem mostram que Oliveira e Gaban já estiveram
em reuniões no Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica), onde também
tramita um processo administrativo sobre a moratória, com participação de
representantes da Aprosoja e da CNA. Segundo ambientalistas, a proximidade
levanta dúvidas sobre possível conflito de interesses.
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Autores atribuem queda do desmatamento a ‘políticas estatais’
De
acordo com os autores do estudo apresentado pela Aprosoja, o efeito da
moratória sobre o desmatamento seria “estatisticamente indistinguível de zero”.
“Os
resultados demonstram que as reduções dramáticas no desmatamento amazônico
entre 2004 e 2012 (queda de 83,5%, de 27.772 km² para 4.571 km²) decorrem
primordialmente de políticas estatais”, afirmam os autores.
Dentre
essas políticas, estariam o aumento da fiscalização ambiental, as restrições de
crédito rural, o monitoramento por satélite e a criação da “Lista de Municípios
Prioritários”, instrumento do governo federal que identifica cidades com altos
índices de desmatamento na Amazônia.
Os
autores também argumentam que apenas 2,4% da supressão de vegetação na Amazônia
estaria diretamente associada à expansão da soja, enquanto 97,6% decorreriam de
outras atividades econômicas, especialmente pecuária e especulação fundiária.
“Se
medíssemos apenas aqueles 2,4%, poderíamos concluir que a política funcionou,
mas estaríamos ignorando o que acontece na floresta como um todo. Nossa
pergunta de pesquisa é mais ambiciosa e mais honesta: a Amazônia foi
efetivamente protegida? Para isso, só o desmatamento total responde”, afirmam
os autores à reportagem.
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Ambientalistas apontam erro de abordagem
Segundo
especialistas ouvidos pela reportagem, o estudo falha ao mensurar os efeitos da
moratória da soja. Ao se debruçar sobre o desmatamento total na Amazônia, a
análise deixaria de capturar o efeito específico do pacto, que atua sobre a
expansão da soja nas áreas recém-desmatadas.
“Apesar
de frear o desmatamento total, a moratória tem o objetivo [particular] de
reduzir o desmatamento causado pela expansão da soja”, afirma Tiago Reis,
especialista em conservação do WWF-Brasil.
Fontes
ouvidas pela reportagem também contestam uma das principais hipóteses do
estudo: a de que o efeito da moratória não poderia ser isolado de outras
políticas públicas e que, por essa razão, seria irrelevante.
Segundo
eles, essa dificuldade já é reconhecida na literatura científica, mas não
invalida resultados já produzidos. “Ninguém nunca afirmou que a moratória da
soja é a principal causa da redução do desmatamento, tornando irrelevantes a
fiscalização ou a criação de unidades de conservação”, rebate Raoni Rajão,
professor da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) e ex-diretor do
Ministério do Meio Ambiente.
Pesquisas
que comparam diferentes regiões mostram que, após a implementação da moratória,
a conversão direta de vegetação nativa para lavouras de soja caiu de cerca de
30% para até 2% na Amazônia. Já no Cerrado — especialmente no Matopiba, que
reúne partes de Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia — essa taxa varia de 25% a
30%.
Para
Rajão, a diferença entre as regiões indica o efeito da moratória sobre a
dinâmica de desmatamento, ainda que combinado a outras políticas públicas. “Não
tem como não atribuir isso como resultado positivo do ponto de vista
ambiental”, afirma o professor da UFMG.
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Recorte do estudo exclui as áreas mais desmatadas
A
metodologia do estudo também é questionada por excluir da análise os municípios
prioritários para o combate ao desmatamento, onde a pressão sobre a Amazônia é
maior.
Os
autores do documento defendido pela Aprosoja afirmam que a decisão é necessária
para separar os efeitos da moratória de outras políticas públicas direcionadas
a esses territórios.
“Se
mantivéssemos esses municípios na análise, seria matematicamente impossível
separar o que foi resultado da pressão do Estado do que foi resultado do acordo
privado das tradings”, dizem os autores do estudo em resposta por escrito à
Repórter Brasil.
Fontes
ouvidas pela reportagem, no entanto, contestam a escolha. “Eles falam assim:
vamos tirar os municípios que estão desmatando muito, porque só vamos analisar
os municípios que estão desmatando pouco. Não faz sentido”, afirma Rajão,
professor da UFMG.
Para
Tiago Reis, da WWF, o estudo apresenta problemas estruturais. “O estudo é
metodologicamente falho. A todo momento, a evidência [de dados] vai sendo
moldada ao argumento”, resume.
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Estudo aponta prejuízo no preço da soja; ambientalistas contestam
A
análise econômica do estudo do IBCI sustenta que produtores rurais de áreas
atingidas pela moratória receberiam menos pelo grão do que aqueles fora dessas
regiões. A conclusão se baseia em informações declaradas pelos sojicultores,
posteriormente cruzadas com bases oficiais.
Ana
Clis Ferreira, porta-voz da frente de desmatamento zero do Greenpeace Brasil,
contesta a interpretação e diz que diferenças de preço estão mais relacionadas
a fatores como acesso a rotas de escoamento e condições climáticas do que à
moratória em si.
“A soja
acaba sendo mais barata ou mais lucrativa em municípios que estão mais perto de
zonas de escoamento. E a gente tem uma questão climática que a cada ano que
passa está condicionando mais o plantio”, explica..
As
informações sobre os preços da soja analisadas no estudo do IBCI foram
coletadas por uma consultoria independente, sem envolvimento dos pesquisadores.
No total, 1.091 produtores de 94 municípios de Mato Grosso teriam participado
voluntariamente do levantamento — o que, segundo o próprio estudo, “pode gerar
viés de autosseleção”. Embora os autores afirmem ter cruzado as informações com
bases oficiais, a principal fonte continua sendo autodeclarada.
“Fomos
convidados a analisar os dados já coletados, e nossa contribuição foi
estritamente técnica e não remunerada”, afirmam. Para especialistas, a falta de
transparência sobre a origem e o recorte da amostra pode comprometer a
interpretação dos resultados.
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Autores já participaram de reuniões no Cade com entidades do agro
A
disputa sobre a moratória da soja se intensificou no segundo semestre de 2025,
com o avanço de ações no Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica). O
órgão vinculado ao Ministério da Justiça analisa se o acordo poderia ser
caracterizado como prática anticoncorrencial.
A
Aprosoja e a CNA argumentam que a iniciativa funcionaria como uma coordenação
entre multinacionais para restringir a compra de soja e controlar preços, o que
poderia configurar uma espécie de cartel. Ambientalistas, no entanto, rejeitam
essa interpretação.
“Cartel
é um acordo entre empresas para eliminar ou restringir a concorrência. No caso
da moratória, as tradings se uniram para limitar o desmatamento na cadeia, não
para excluir competidores”, afirma Tiago Reis, do WWF-Brasil.
Em de
setembro do ano passado, o Cade suspendeu a moratória por avaliar que o acordo
poderia configurar prática anticoncorrencial. Em novembro, o ministro do STF
Flávio Dino suspendeu os processos em curso no país, incluindo o do Cade, e
centralizou a discussão na suprema corte.
Registros
públicos indicam que Eduardo Gaban e Cristiano Oliveira, autores do estudo do
IBCI, já estiveram em reuniões na sede do Cade, em Brasília, que também
contaram com representantes de entidades ruralistas críticas à moratória.
No caso
de Gaban, a pauta do encontro menciona especificamente a Aprosoja. Já nas três
reuniões com a presença de Oliveira, os registros também indicam a presença da
advogada da CNA, Amanda Oliveira.
Segundo
Oliveira, as reuniões estariam ligadas a um parecer técnico elaborado para a
CNA, durante sua licença acadêmica. Ele afirma que não recebeu remuneração pela
participação no Cade, embora suas despesas de viagem tenham sido parcialmente
custeadas pela entidade. Já Gaban diz ter atuado, também sem remuneração, a
convite de um escritório envolvido no processo em discussão no Cade.
O Cade
informou que reuniões com partes envolvidas são práticas comuns e que a lista
de participantes é pública, mas não comentou o conteúdo discutido. A reportagem
também procurou Aprosoja e CNA, mas não obteve resposta até a publicação desta
reportagem.
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‘Avanço do desmatamento compromete soberania nacional’
Na
avaliação de Ana Paula Valdiones, coordenadora do programa de conservação e
clima do ICV (Instituto Centro de Vida), o combate ao desmatamento está
diretamente ligado à soberania nacional. “É uma discussão de interesse nosso,
sobre como a gente quer preservar ou não nossas florestas”.
Na
mesma linha, Ana Clis Ferreira, do Greenpeace, contesta a leitura de que a
moratória, por ser um acordo privado, configuraria prática anticoncorrencial ou
afronta à soberania. “O que efetivamente compromete a soberania nacional é o
avanço do desmatamento”, afirma.
O
embate ocorre em meio a incertezas sobre o futuro da moratória. Após mudanças
legais em Mato Grosso, empresas deixaram o acordo, enquanto compradores
europeus sinalizaram preocupação. Estudo da UFMG indica que o enfraquecimento
da política pode ampliar o risco de desmatamento e comprometer o acesso a
mercados mais exigentes.
“É um
enfraquecimento grande desse acordo, uma sinalização negativa e um retrocesso
no aspecto dos compromissos de combate ao desmatamento”, afirma Valdiones.
A
Repórter Brasil também procurou a Abiove (Associação Brasileira das Indústrias
de Óleos Vegetais), entidade que representa as principais compradoras de soja
em operação no país, , mas não recebeu posicionamento até a conclusão desta
reportagem. O espaço segue aberto a manifestações.
Fonte:
Repórter Brasil

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