André
Márcio Neves Soares: Estúpidos, mentirosos e assassinos
É fato
que, ao longo da história da humanidade, periodicamente surgem líderes
estúpidos, mentirosos e assassinos. Sem dúvida, é um grande problema quando
essas três características negativas estão reunidas numa mesma pessoa. Mas é
ainda pior quando vários líderes que apresentam tais características surgem
numa mesma quadra histórica.
Pois bem, infelizmente estamos vivenciando um
desses momentos! Eu poderia aqui citar inúmeros líderes de tal espécie, alguns
menos ofensivos em termos de beligerância global, a exemplo de Recep Tayyip
Erdogan, Viktor Orbán e Javier Milei. No entanto, para não me estender demais,
vou aqui me ater a apenas quatro deles, a saber, Donald Trump, Benjamin
Netanyahu, Vladimir Putin e Xi Jinping, que, no meu entender, são os
potencialmente mais perigosos, sendo que os dois primeiros demonstram uma
incrível capacidade de minimizar (ou ignorar) os males que estão impondo ao
mundo.
Dito
isso, penso ser de bom alvitre relembrar Freud, que, no início da terceira
década do século passado, já alertava: “Parece-me que a questão decisiva da
espécie humana é a de saber se, e em que medida, seu desenvolvimento cultural
conseguirá dominar o obstáculo à convivência representado pelos impulsos
humanos de agressão e de autoaniquilação”.
Passo,
pois, a analisar cada uma das características negativas citadas no título do
texto, com enfoque nos principais líderes que hoje assombram o mundo dito
civilizado.
<><>
Sobre os estúpidos
Algumas
décadas atrás, o historiador de economia italiano Carlo M. Cipolla escreveu um
pequeno ensaio, pouco comentado no Brasil, sobre a estupidez humana. No
livro, depois de destrinchar as primeiras quatro leis fundamentais da estupidez
humana, Cipolla finaliza com sua quinta e última lei, segundo a qual “Uma
pessoa estúpida é o tipo mais perigoso de pessoa”, e vai além afirmando que
“Uma pessoa estúpida é mais perigosa do que um bandido” (CIPOLLA, ob. cit.,
pág. 80).
Para
ele, as pessoas estúpidas possuem o poder de mudar o curso da história,
causando perdas substanciais para as pessoas, sem contrapartida de ganhos para
si mesmas. O resultado desse jogo de “perde-perde” é uma sociedade
irrefutavelmente mais empobrecida.
Ora,
é fácil ver que Carlo M.Cipolla tem certa razão no seu argumento. Basta ver
como estava o mundo antes da invasão da Ucrânia pela Rússia, e mais ainda antes
do atentado terrorista do Hamas contra Israel, em outubro de 2023, que
desencadeou a resposta desproporcional do governo sionista contra os palestinos
e, por extensão, por todo o Oriente Médio atualmente. Não à toa, o “doomsday
clock” (relógio da meia-noite) foi atualizado em 2026 para 85 segundos
antes da meia-noite – teoricamente o ponto da aniquilação total –, o mais perto
que ele já esteve do limite.
Contudo,
Carlo M. Cipolla passa longe das atuais condições em que a estupidez humana se
tornou uma real ameaça para a continuidade do planeta. Com efeito, pessoas
estúpidas como Donald Trump e Benjamin Netanyahu não possuem a empatia
necessária para perceber que estão levando o mundo para o precipício, sem
muitos ganhos pessoais duradouros; afinal, se o mundo de fato acabasse, onde
Trump jogaria golfe? E como ficaria o projeto de poder perpétuo de Netanyahu?
Pelo
contrário, Donald Trump está arriscando perder as eleições de meio de mandato
com as sucessivas guerras, ao contrário do que pregou para seu mundo MAGA na
eleição de 2024. Benjamin Netanyahu, bem, esse é um estúpido-assassino que
desonra até a última geração do povo judeu.
Por
outro lado, com as suas guerras, Donald Trump, Benjamin Netanyahu e Vladimir
Putin estão estupidamente destruindo o curso natural da história que se
encaminhava para um mundo plural (o que não é o caso de Xi Jinping no momento,
que pleiteia ainda um mundo multipolar).
De
fato, como bem diz Gray: “A globalização – a difusão pelo mundo inteiro de
novas tecnologias que eliminam distâncias – não torna universais os valores
ocidentais”. E ele continua: “A crescente interconexão das economias do mundo
não significa o crescimento de uma civilização econômica única. Significa que
deverá ser encontrado um modus vivendi entre as culturas
econômicas que sempre permanecerão diferentes entre si”.
Entretanto,
para tanta estupidez, Carlo M. Cipolla tem o veredito. Para ele, em todos os
períodos históricos sempre houve, nas diferentes sociedades, uma fração
inevitável de pessoas estúpidas, independentemente do desenvolvimento dessas
sociedades. O alarmante, para Carlo M. Cipolla, é que em um país em declínio,
como hoje é apontada a situação dos Estados Unidos, apesar da fração de pessoas
estúpidas ainda ser igual, parece haver uma proliferação de bandidos com toques
de estupidez no poder, ao passo que, entre a população em geral, parece haver
um crescimento enorme de indivíduos vulneráveis.
O
resultado para ele é que: “Essa mudança na composição da população não estúpida
reforça inevitavelmente o poder destrutivo da fração de pessoas estúpidas e faz
do declínio uma certeza. E o país vai para o buraco” (CIPOLLA, ob. cit., pág.
85).
<><>
Sobre os mentirosos
Pessoas
estúpidas, no sentido que descreveu Carlo M. Cipolla, são mentirosas
contumazes. Elas se valem da mentira para alcançar seus objetivos, não
importando as consequências. Nem mesmo se elas forem afetadas negativamente de
alguma maneira. E se o objetivo for financeiro e/ou relacionado ao poder,
tornam-se definitivamente sem escrúpulos. Muitos estúpidos e mentirosos também
são narcisistas. O outro não importa, desde que ele/ela seja o/a protagonista
sempre.
Donald
Trump é a personificação dos estúpidos e mentirosos políticos. Para chegar ao
poder novamente, mentiu para sua própria base MAGA, que desejava ser levada em
conta em primeiro lugar e voltar a ver seus valores tradicionais de, por assim
dizer, pátria, família e religião, no pedestal da Casa Branca.
Só para
constar, visto que Donald Trump é o expoente-mor deste texto, Benjamin
Netanyahu também é um estúpido mentiroso. Apesar da burrice terrorista do
Hamas, aproveitou o momento para potencializar o medo na sociedade israelense e
promover o genocídio da população palestina. Vladimir Putin também mente quando
alega estar conduzindo uma “operação militar especial” na Ucrânia. Apesar da
OTAN ser a principal responsável por este conflito, que já dura quatro anos, a
intenção primeira da invasão foi, de fato, ocupar o país vizinho.
Por
fim, Xi Jinping também mente quando promove a China como defensora do
multilateralismo. Apesar das atitudes chinesas irem exatamente nessa direção,
isso só acontece por causa da ascensão da China como potência rival dos Estados
Unidos.
Mas, de
todos eles, Donald Trump é o principal caso para estudo. E nem podia ser
diferente, visto ser o líder atual da única superpotência do planeta. Com
efeito, desde que retornou ao poder em janeiro/2025, mentiu sobre o presidente
venezuelano Nicolás Maduro ser o chefe de um cartel de drogas, para
sequestrá-lo. Foi corresponsável, no mínimo, pelas alegações de Netanyahu de
que a Faixa de Gaza era um caso perdido por causa dos Hamas e que, por isso,
devia ser dizimada.
Mentiu,
mais uma vez em parceria com Benjamin Netanyahu, sobre o Irã estar quase
finalizando suas próprias ogivas nucleares, para desferir, em apenas um mês de
guerra, mais de 15.000 ataques contra alvos iranianos, muitos deles contra
civis. E já está mentindo sobre Cuba ser um reduto de bandidos que massacra sua
própria população, para invadi-la.
É claro
que muitos sabem que tais afirmações são mentirosas e identificam as razões por
trás delas: petróleo, poder e dinheiro, muito dinheiro numa hipotética “Riviera
Palestina”, por exemplo. Mas, infelizmente, uma parte incauta da população
acredita nessas mentiras, talvez como reflexo do seu próprio espelho.
Mas os
líderes estúpidos mentirosos são incapazes de perceber tudo que está em jogo,
como já foi dito acima. Tanto externamente quanto dentro das fronteiras dos
seus países, suas atitudes são como pequenas erupções marinhas que vão se
somando a tantas outras, até que enormes estruturas de pedras emergem em
formato de recifes.
Externamente,
Donald Trump hoje está isolado. De fato, seu famigerado Conselho da Paz foi
esvaziado pela ausência das principais potências regionais. Ademais, ninguém
saiu em seu socorro, quando ele pediu para que os países membros da OTAN e
outros aliados ajudassem na reabertura do Estreito de Ormuz. E não é de
estranhar!
Com
efeito, um golpe tão escabroso no direito internacional não tem como ficar
impune. É senso comum que a agressão ao Irã, assim como o sequestro de Nicolás
Maduro, foram violações flagrantes da Carta das Nações Unidas – que proíbe, no
seu artigo 2º, o uso da força contra um estado soberano – e do Estatuto do
Tribunal Penal Internacional – que, no seu artigo 5º, qualifica como crime de
sua competência a guerra de agressão. A sensação de mal-estar que perpassa a
todos que se preocupam com o futuro da humanidade está incutida justamente no
colapso do direito internacional.
E
também internamente Donald Trump encontra-se em apuros. Recentemente milhões de
americanos saíram às ruas para protestar contra seu governo. Segundo as últimas
pesquisas, a aprovação máxima de seu governo gira em torno de 36%. A pior taxa
desde que foi reeleito! Mesmo na sua base MAGA já existem rachaduras
significativas. Com efeito, ex-aliados/as andam fazendo críticas contundentes
ao caminho que Donald Trump escolheu trilhar.
Por
exemplo, a deputada Marjorie Taylor Greene, ex-congressista da Geórgia, o
acusou de ser traidor da causa MAGA; Thomas Massie, Congressista Republicano do
Kentucky, votou contra o envolvimento militar nas guerras; e os senadoresTodd
Young e Josh Holly se juntaram aos democratas em questões de controle de
guerra. Some-se a isso o aumento crescente do custo de vida para os americanos,
notadamente no que se refere ao preço do combustível, e podemos ver a
“tempestade perfeita” se formando. Assim como foi no seu primeiro mandato,
parece que a mentira trumpiana tem perna curta.
O
historiador e professor britânico Tony Judt escreveu um importante livro, quase
duas décadas atrás. Nele, questionou como podíamos viver tão erradamente.
Ele tinha como basilar o entendimento de que o caráter materialista e egoísta
da vida contemporânea não é inerente à condição humana. Mesmo antes da era
“Trump”, sabia que vivíamos uma era de insegurança econômica, física e
política. Advertiu que o medo – da mudança, do declínio, do desconhecido e de
um mundo estranho – está corroendo a confiança e a interdependência das
sociedades civis. Sabia que todas as mudanças que o mundo atravessava – de
tempo, espaço, tecnologia – iriam tumultuar democracias estáveis.
Então
sugeriu: “Uma de minhas metas é sugerir que o governo pode desempenhar um papel
maior em nossas vidas sem ameaçar a liberdade e ressaltar que, como o Estado
vai continuar presente no futuro próximo, vale a pena pensar no tipo de Estado
que queremos” (JUDT, ob. cit., pág. 19).
Não deu
tempo… Tony Judt faleceu em 06 de agosto de 2010 em Nova Iorque. Ele não viu a
ascensão de Donald Trump e o desmantelamento da social-democracia europeia que
tanto amava. Mas isso não significa que devemos esquecer uma de suas principais
lições, a saber: “O passado não foi nem tão bom nem tão ruim, quanto supomos:
foi apenas diferente … Contudo, existe algo pior do que idealizar o passado ou
apresentá-lo a nós e a nossos filhos como um trem-fantasma: esquecê-lo” (idem,
pág. 49).
<><>
Sobre os assassinos
Desde
que Israel lançou sua vingança contra os palestinos, após o ataque terrorista
do Hamas, em outubro de 2023, mais de 75 mil pessoas já morreram, segundo uma
pesquisa da Revista Lancet. Similarmente, desde
que o governo sionista de Israel atacou o Irã, há pouco mais de um mês, mais de
1.900 pessoas já morreram, segundo a Cruz Vermelha. Tudo isso com a
aprovação e a participação dos Estados Unidos e a omissão do mundo dito
civilizado.
Sendo
assim, considerando o período após o fim da Segunda Guerra Mundial, é possível
incluir Donald Trump no rol dos líderes mundiais que mais mataram, por ação ou
omissão, em tão pouco tempo de governo (a partir da sua reeleição). Quanto a
Benjamin Netanyahu, é provável que ele seja o líder sionista que já matou
pessoas inocentes, desde a fundação de Israel.
Mas,
para sermos justos, não podemos esquecer de Vladimir Putin, que, desde o início
da sua “operação militar especial” contra a Ucrânia, já matou mais de 500.000
mil pessoas, entre civis e militares, somando-se os dois
lados.
Quanto
à China, apesar de não estar em guerra, a repressão do governo de Xi Jinping à
minoria Uigur acarretou dezenas de mortos na região de Xinjiang que é
estrategicamente vital para a China, na medida em que responde por um sexto da
massa territorial chinesa; tem depósitos importantes de petróleo e gás; e faz
fronteira com o Paquistão, o
Afeganistão, a Índia e a Ásia Central. Além disso, a China mantém Taiwan, a “ilha
rebelde”, em constante estado de guerra psicológica, com sucessivos
treinamentos militares próximos à sua costa.
A
história mostra que assassinos aumentam seu poder de destruição na ausência de
reações contrárias às suas agressões. Isso vale tanto para pessoas físicas como
para Estados. A mera tentativa de contenção de danos pode sinalizar para o
assassino que a ordem vigente acatará qualquer outra violação. Não é preciso
ser um historiador para lembrar de Hitler e sua demanda pelos Sudetos. O que se
seguiu, na falta de uma oposição efetiva, foi a agressão contra a Polônia e o
início da Segunda Guerra Mundial.
Ora,
por 80 anos, contados do final da última grande guerra, a humanidade permaneceu
livre de conflitos armados de maior repercussão. Mas isso só aconteceu porque o
último representante proeminente dos estúpidos, mentirosos e assassinos foi
justamente Hitler, o Führer alemão. Agora a maior potência do
planeta tem seu próprio postulante a “Führer”, e ele já declarou
não ter limites, exceto aqueles da sua própria consciência. A nova Estratégia
de Segurança Nacional, tornada pública em novembro de 2025, é aterrorizante, no
sentido de reivindicar soberania absoluta para os Estados Unidos, consoante
seus interesses e à revelia dos direitos alheios.
Em
outras palavras, estamos diante de uma tentativa de retorno do estado natural
do mais forte, de que falou Thomas Hobbes. É a lei selvagem dos autocratas
criminosos que, sob o silêncio pecaminoso dos outros atores mundiais, promovem
o colapso da razão, tanto jurídica quanto política, além do fracasso da ordem
internacional, estabelecida nas últimas oito décadas a duras penas, para
justamente evitar o regresso ao estado natural de todos contra todos.
Importa
ressaltar, nesse contexto, que estúpidos, mentirosos e assassinos também são
megalomaníacos. Trump, Netanyahu, Putin, Xi Jinping e outros não querem apenas
ser líderes mundiais passageiros. Querem ser os novos reis da pós-modernidade.
E aqui está o grande problema! Se no passado grandes civilizações tinham
monarcas que, de tempos em tempos, entravam em conflito, a globalização
econômica e informacional não permite mais esse arranjo institucional. Ou seja,
as esferas de influência que os estudiosos apontam para o futuro breve – os
Estados Unidos com todo o continente americano; a Rússia soberana na Europa; e
a China com o continente asiático – não conseguirão mitigar a sede de poder
desses novos candidatos a soberanos.
As
lutas intestinas que esses novos soberanos irão promover, à medida que a matriz
energética muda, o clima se torna mais instável, a pressão demográfica aumenta
(especialmente vinda da África e da Ásia) e a inteligência artificial
transforma os trabalhadores em sub-humanos, têm potencial para colocar a
sobrevivência da humanidade em perigo real.
<><>
Conclusão
É
incrível como a história é cíclica. Não concordo com a afirmação literal de
Karl Marx, segundo a qual a história se repete primeiro como tragédia, e depois
como farsa, mas concordo com a sua essência. É possível ver padrões de
repetição tanto em momentos bons, ou seja, de calmaria e evolução da espécie
humana, quanto em momentos de barbárie. O problema é que a capacidade
armamentista que atingimos torna extremamente perigoso um conflito globalizado.
Ou até mesmo uma guerra regional que envolva atores com ogivas nucleares.
Hoje
estamos no fio da navalha por causa de um narcisista patológico (Donald Trump),
que é influenciado – não se sabe exatamente porque, talvez até por uma
chantagem relativa aos arquivos do pedófilo Jeffrey Epstein – por uma besta
assassina (Benjamin Netanyahu).
Volto a
Freud, que concordava com Thomas Hobbes sobre o fato de que “o homem é o lobo
do homem”. Um pouco mais rebuscado, Freud disse que:
“Em
circunstâncias favoráveis, quando foram suprimidas as forças psíquicas
contrárias que usualmente inibem tal agressão, ela também se expressa de modo
espontâneo e revela o homem como uma besta selvagem à qual é alheia a
consideração pela própria espécie” (FREUD, ob. cit., pág. 125).
Para
além da crítica política e econômica, Freud afirmou que o traço indestrutível
da bestialidade na natureza humana nos acompanhará aonde formos. Apesar de
saber que o homem primitivo, que chamou de “aculturado”, conseguiu trocar uma
parte da sua felicidade impulsiva por uma parcela de segurança, Freud também
sabia que a liberdade dos impulsos cresce com a ascensão na escala social. Dito
de outra forma, desde o homem primitivo, uma minoria goza de vantagens
culturais interditadas para a maioria.
Mesmo
com seu pessimismo característico, Freud ainda aventou a possibilidade de o
homem moderno mudar a postura diante de sua cultura, para escapar do sofrimento
coletivo. Mas logo depois sucumbiu diante da constatação de que a tarefa de
restrição dos impulsos pode acarretar um perigo ainda maior, que chamou de
“miséria psicológica da massa”. Seria engraçado, se não fosse trágico, o
exemplo que ele citou naquela época: “O atual estado cultural dos Estados
Unidos ofereceria uma boa oportunidade para estudar esses temidos danos à
cultura” (idem, pág. 133).
Por
conseguinte, Donald Trump, Benjamin Netanyahu e os outros líderes aqui
mencionados não são diferentes, em essência, dos outros líderes sanguinários da
história. Freud sabia que é impossível, para a maioria dos homens, escapar da
ambição de poder, sucesso e riqueza, mesmo que, em alguma medida, isso
implicasse menosprezar os verdadeiros valores da vida. O que Freud talvez não
tenha percebido – ou se tomou consciência, não deixou claro no seu texto -, é
que para líderes poderosos que são estúpidos, mentirosos e assassinos, poder,
sucesso e riqueza representam justamente os verdadeiros valores da vida.
A
grande questão do momento é que as “bestas” que atualmente mandam no mundo
estão sentadas sobre arsenais nucleares que podem acabar com o planeta. Ou
alguém duvida que Ghengis Khan, Napoleão Bonaparte e Hitler teriam explodido o
mundo, se tivessem ogivas nucleares à disposição deles?
Esses
dias começou a ser exibido nas telas de cinema o filme Nuremberg,
com o grande ator Russell Crowe e bom elenco. Recomendo, mesmo para aqueles que
já conhecem a história do maior julgamento internacional até hoje realizado,
que o assistam.
Confesso
que, para minha surpresa, Hannah Arendt sequer é mencionada, embora em alguns
trechos do filme entre em cena uma repórter, que parece remeter a ela. Seja
como for, o filme é um misto do fato histórico e do livro, recentemente
relançado, O nazista e o psiquiatra, de Jack El-Hai. Penso que,
talvez, o mais importante do filme é a apresentação da conclusão do psiquiatra,
Dr. Douglas M. Kelly – encarregado de avaliar a saúde mental dos prisioneiros
até o veredito final da corte –, a partir das entrevistas e conversas
realizadas com os nazistas, de que eles não eram loucos, salvo o químico Robert
Ley, chefe da Frente de Trabalho Alemã (Deutsche Arbeitsfront), que se
tornaria um simples braço do Estado na função de procurar uma maior eficiência
e disciplina dos trabalhadores alemães para servir as necessidades do regime,
particularmente na massiva expansão da indústria de armas.
E mais
ainda, de que eles não tinham nada de especial e que pessoas iguais a eles
poderiam ser facilmente encontradas nos Estados Unidos ou em qualquer outro
lugar do planeta. Pelo visto, Hannah Arendt não foi a única a perceber a
“banalidade do mal”.
Fonte:
A Terra é Redonda

Nenhum comentário:
Postar um comentário