Por
que Gilmar Mendes pediu à PGR para investigar relator da CPI do Crime
Organizado
Um dia
após o senador Alessandro Vieira (MDB-SE) apresentar o relatório final na CPI
do Crime Organizado, que pedia o indiciamento de três ministros do Supremo
Tribunal Federal (STF) e do procurador-geral da República, Paulo Gonet, o
ministro Gilmar Mendes acionou a Procuradoria Geral da República (PGR) para que
o senador seja investigado por abuso de autoridade.
Gilmar
Mendes foi um dos ministros que, segundo o relatório de Vieira, teria cometido
crime de responsabilidade ao lidar com o caso do Banco Master e de seu
proprietário, Daniel Vorcaro.
Além
dele, foram citados os ministros Alexandre de Moraes e Dias Toffoli. O parecer
foi rejeitado na terça-feira (14/4) pela CPI por 6 votos a 4.
Em
ofício encaminhado nesta quarta-feira (15/4) à PGR, Gilmar Mendes disse que
"valendo-se ardilosamente de rudimentar jogo de palavras", Vieira
tentou viabilizar "indevido indiciamento" dele e de colegas da Corte,
sem ter, contudo, competência para isso.
O
ministro aponta que a CPI tinha como escopo temas relacionados "à
repressão e à prevenção da criminalidade organizada, como a atuação de
milícias, a lavagem de ativos executada com novas tecnologias, o delito de
tráfico de entorpecentes e a cooperação entre agências de prevenção e de
repressão", o que "em nada se relaciona" com a proposta de
indiciamento.
"A
proposta de relatório vale-se de juvenil jogo de palavras envolvendo os 'crimes
de responsabilidade' para sugerir que caberia à CPI do Crime Organizado
realizar indiciamentos a respeito dessa temática, quando isso não corresponde à
realidade", afirmou o ministro.
Crimes
de responsabilidade são infrações político-administrativas, que podem levar, em
última análise, à perda do cargo e à inabilitação para o exercício de função
pública.
"Sendo
certo o desvio de finalidade praticado pelo Senador Relator da CPI do Crime
Organizado e a potencial incidência de sua conduta nos tipos penais descritos
na Lei 13.869/2019 e em outros marcos repressivos criminais, requer-se a
apuração destes acontecimentos e a adoção das medidas cabíveis",
acrescentou.
A Lei
13.869/2019, citada na representação, trata dos crimes de abuso de autoridade.
Em nota
enviada à BBC News Brasil, o senador Alessandro Vieira disse que "a
representação apresentada pelo ministro Gilmar Mendes, na condição de suposta
vítima de abuso, será respondida com absoluta tranquilidade e dentro do rigor
técnico devido".
"É
cristalino que um senador, ao manifestar sua avaliação jurídica sobre fatos
concretos em voto proferido no âmbito de uma CPI, não comete abuso de
autoridade e está resguardado pela imunidade parlamentar. Ameaças e tentativas
de constrangimento não vão mudar o curso da história", afirmou.
O
ministro Gilmar Mendes já havia manifestado na terça-feira que poderia entrar
com uma representação na PGR.
Durante
sessão da 2ª Turma do STF, ele chamou o relatório de "proposta
tacanha" e disse que eventuais excessos da comissão poderiam configurar
crime de abuso de autoridade.
"O
desvio não é algo inocente, do ponto de vista administrativo. É crime, está na
lei de abuso de autoridade. Esse desvio suscita preocupação legítima quanto ao
uso de instrumentos que deveriam servir ao fortalecimento das instituições e a
proteção da sociedade", afirmou.
Gilmar
Mendes disse também que o relatório de Vieira era uma "cortina de
fumaça" pois se dedicava a "engrossar a espuma" contra o STF, na
"expectativa de produzir dividendos eleitorais para certos atores
políticos".
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O que diz o relatório da CPI
O
relatório de Vieira sustenta que Gilmar Mendes anulou a quebra de sigilo de uma
empresa ligada a Toffoli e determinou a inutilização de dados da investigação,
mesmo sem ser o relator do caso.
"O
ministro utilizou sua posição na Corte para, por via de manobra processual que
subverteu as regras de distribuição regimental, neutralizar investigação
parlamentar que atingia a empresa do colega de turma, determinando inclusive a
destruição de dados já remetidos por órgãos de controle", diz o relatório
da CPI.
Em nota
na rede social X na terça-feira, Gilmar Mendes afirmou que o pedido de
indiciamento "flerta com arbitrariedades, como a criminalização de
decisões que concedem habeas corpus diante de abuso de poder".
Ele
também criticou o relator, Alessandro Vieira, por não ter "promovido
sequer a quebra de sigilos de milicianos ou integrantes das facções que
controlam territórios no Rio de Janeiro".
"É
no mínimo perturbador que o relator, enquanto integrante de carreira policial,
tenha fechado olhos para seus colegas que, traindo a boa imagem da instituição,
cruzaram para o lado sombrio das milícias", disse o ministro.
Antes
de entrar na política, o relator da CPI, senador Alessandro Vieira fez carreira
como delegado de polícia.
"O
relatório revela verdadeira cortina de fumaça, ao deixar de enfrentar o grave
problema a que se propôs e ao dedicar-se a engrossar a espuma midiática contra
o STF, na expectativa de produzir dividendos eleitorais para certos atores
políticos", acrescentou Mendes.
Em
relação ao ministro Dias Toffoli, que deixou a relatoria do caso Master em
fevereiro, o parecer afirma que ele atuou no processo mesmo tendo relação
pessoal e financeira com os investigados, o que violaria o princípio da
imparcialidade.
Segundo
o documento, há registros de que o ministro tenha mantido uma relação de
proximidade com o banqueiro. Uma evidência disso seriam as conexões financeiras
envolvendo a Maridt, empresa da qual Toffoli admitiu ser sócio, e o fundo
Arleen, que é ligado ao investidor Fabiano Zettel, investigado no caso e
cunhado de Vorcaro.
O
relatório também afirma que Toffoli teria favorecido o banqueiro restringindo
investigações e centralizando provas. Isso teria acontecido em janeiro, quando
o ministro determinou que todo o material apreendido em uma operação da Polícia
Federal (PF) contra Vorcaro ficasse retido e lacrado no STF, ao invés de ser
enviado para análise dos investigadores da PF, como é comum nessas operações.
A
Procuradoria-Geral da República (PGR) entrou com um pedido para que o material
ficasse com o Ministério Público, e então Toffoli voltou atrás, determinando
que as provas ficassem sob a custódia do órgão.
Mas o
ministro surpreendeu novamente ao escolher quais seriam os quatro peritos da PF
com acesso para analisar o que havia sido apreendido. A decisão causou
estranhamento entre integrantes da PGR e da PF.
"É
importante frisar: o crime de responsabilidade do art. 39, 2, da Lei nº
1.079/1950 consuma-se pelo simples ato de julgar sob suspeição. Não é
necessário demonstrar que a decisão foi favorável ao investigado, nem que houve
acordo ou trato explícito entre o magistrado e a parte", diz o relatório
da CPI.
Durante
a sessão da Segunda Turma do STF na terça-feira, Toffoli criticou o texto
apresentado pelo senador Alessandro Vieira e disse que o parecer era
"completamente infundado" e tem como "único e nítido"
objetivo conseguir votos.
"Isso
pode levar não só a sanções em outras áreas, como vossa excelência [Gilmar
Mendes] já mencionou, quando disse a respeito da atuação do Ministério Público,
mas também da Justiça Eleitoral. E a Justiça Eleitoral não faltará em punir
aqueles que abusam do seu poder para obter votos em proselitismo
eleitoral", disse.
O
relatório também aponta que há indícios de proximidade entre Alexandre de
Moraes e Daniel Vorcaro, incluindo supostos encontros e viagens do ministro em
aeronaves ligadas ao banqueiro.
O
documento menciona um possível benefício indireto que Moraes poderia ter por
meio do escritório de advocacia de sua esposa, Viviane Barci de Moraes, que
manteve um contrato de R$ 129 milhões com o Master até a liquidação da
instituição financeira.
"Tem-se
a configuração de um circuito fechado em que o investigado financia,
simultaneamente, a remuneração da cônjuge e o transporte pessoal do magistrado
— situação que compromete de forma irremediável a aparência de
imparcialidade", diz o relatório da CPI.
Segundo
informações vazadas do inquérito que apura as fraudes bilionárias no banco,
Vorcaro e Moraes teriam se encontrado em algumas ocasiões em 2025. As menções a
esses encontros aparecem em mensagens trocadas pelo banqueiro com sua então
namorada, extraídas do celular de Vorcaro pela investigação.
Além
disso, segundo reportagens do jornal O Globo, a Polícia Federal teria
conseguido recuperar mensagens enviadas pelo investigado ao ministro em 17 de
novembro, dia em que o banqueiro foi preso pela primeira vez.
O
ministro negou ter recebido as mensagens, argumentando que uma perícia feita
pela área técnica do STF do material vazado da investigação teria comprovado
que o destinatário não seria ele. Esse material foi recebido da PF pela
Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) que investiga as fraudes do
INSS.
O
jornal O Globo publicou outra reportagem refutando a alegação do ministro, em
que diz que as informações repassadas à CPMI não são as mesmas às quais o
periódico teve acesso.
O
escritório de advocacia, por sua vez, disse em nota que trabalhou em diversas
áreas para o Master, incluindo "administrativa, análise consultiva e
estratégica de inquéritos policiais, ações penais, inquéritos civis e ações
civis públicas", mas que Barci de Moraes "nunca conduziu nenhuma
causa para o Master no âmbito do STF".
Já
quanto ao procurador-geral da República, o relatório de Vieira acusa Gonet de
cometer crime de responsabilidade ao se omitir de investigar Toffoli e Moraes,
mesmo diante de indícios que considera robustos.
"Diante
desse quadro probatório — público, documentado e de amplo conhecimento —, o
Procurador-Geral da República não adotou nenhuma providência concreta no
sentido de promover a investigação e a eventual responsabilização das
autoridades envolvidas", diz o relatório
"A
inércia do PGR contrasta frontalmente com a atuação proativa da Polícia
Federal, que produziu relatórios circunstanciados, deflagrou operações e
executou prisões no curso das mesmas investigações — evidenciando que a
paralisia não decorreu de insuficiência probatória, mas de decisão deliberada
do chefe do Ministério Público Federal de não exercer as atribuições que a
Constituição lhe confere com exclusividade", continuou Vieira.
A BBC
procurou a PGR, que informou que não iria se manifestar.
Em nota
divulgada na terça-feira, o presidente do STF, Edson Fachin, repudiou a
inclusão dos colegas da Corte entre os indiciados pelo relatório.
Ele
reconheceu as Comissões Parlamentares de Inquérito como "uma garantia
fundamental da democracia", mas criticou o que chamou de "desvios de
finalidade temática" da CPI, que "enfraquecem os pilares democráticos
e ameaçam os direitos fundamentais de qualquer cidadão".
"Ninguém
está acima da lei, e os direitos fundamentais prescritos na Constituição devem
ser integralmente observados. A independência do Poder Legislativo deve ser
preservada na apuração de fatos, sempre com responsabilidade e
pertinência", afirmou.
"Este
Tribunal está ciente de que cabe a todos respeitar a independência e a
autonomia dos poderes da República, como é da secular tradição de nossas
instituições", acrescentou Fachin.
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Relatório da CPI foi rejeitado
O
relatório da CPI do Crime Organizado, apresentado por Vieira, foi rejeitado na
terça-feira após três membros da comissão serem trocados por parlamentares
governistas, que tendiam a votar contra o indiciamento.
Sergio
Moro (PL-PR) e Marcos do Val (Avante-ES) foram substituídos por Teresa Leitão
(PT-PE) e Beto Faro (PT-PA), e Soraya Thronicke (PSB-MS), antes suplente, virou
titular no lugar de Jorge Kajuru (PSB-GO).
As
mudanças aconteceram durante a tarde de terça e foram definidas pelos líderes
dos blocos parlamentares, que determinam a composição das CPIs. Parlamentares
da oposição criticaram as trocas e apontaram como uma manobra do governo.
O
parecer foi rejeitado por 6 votos a 4. Votaram contra o relatório Teresa
Leitão, Beto Faro, Soraya, Humberto Costa (PT-CE), Rogério Carvalho (PT-SE) e
Otto Alencar (PSD-BA). A favor, além de Vieira, votaram Eduardo Girão
(Novo-CE), Magno Malta (PL-ES) e Esperidião Amin (PP-SC). O presidente da CPI,
Fabiano Contarato (PT-ES), não se posicionou.
Fonte:
BBC News Brasil

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