sexta-feira, 17 de abril de 2026

Gerson Almeida: Lacaio assumido

A plateia da Conservative Political Action Conference (CPAC), realizada no Texas em março de 2026, estava formada por expoentes da extrema direita americana e sabujos de diferentes países, que atuam como a guarda pretoriana dos interesses do grande capital e emulam os movimentos protofascistas no mundo. Nos últimos anos, a CPAC está se constituindo numa espécie de internacional da extrema direita, cujo principal líder é o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Encontros da CPAC já foram realizados na Argentina, Austrália, Hungria e no Brasil.

Em seu discurso, Flávio Bolsonaro subiu ao palco e anunciou que o objetivo de sua candidatura à presidência é colocar o país a serviço dos interesses estratégicos dos EUA, declarando: “o Brasil é a solução da América para quebrar a dependência da China em minerais críticos”, tornando claro o seu compromisso de defender a soberania nacional dos Estados Unidos e não do Brasil.

Para entender a dimensão da traição que isso representa, o Brasil possui a segunda maior reserva conhecida no mundo das terras raras, consideradas o “ouro do século XXI”. Elas são essenciais para qualquer projeto de desenvolvimento tecnológico: turbinas eólicas, carros elétricos, smartphones, equipamentos aeroespaciais, indústria de defesa, etc. Como lacaio assumido, Flávio Bolsonaro defende que essas riquezas devem promover o desenvolvimento tecnológico e a segurança dos norte-americanos, relegando o Brasil à condição extrativista.

Em nenhum outro momento da nossa história tivemos um grupo político que atuasse de forma tão despudorada para colocar o Brasil de joelhos diante de interesses estrangeiros.

<><> A escolha por Silvério dos Reis

A postura de Flávio Bolsonaro reedita os momentos mais sombrios da nossa história. Ela remete diretamente à figura de Silvério dos Reis, o traidor da Inconfidência Mineira, que delatou seus companheiros à Coroa Portuguesa em busca de perdão de dívidas e vantagens pessoais, agindo de forma sórdida contra o projeto de independência e desenvolvimento do Brasil.

Entre o Brasil independente, livre e soberano, a extrema direita escolheu o delator e preferiu se ajoelhar e servir às potências estrangeiras. A postura lacaia de Flávio Bolsonaro não é um fato isolado. Essa escalada da pulsão vassala já demonstrou seu poder destrutivo durante o governo de Bolsonaro pai, que desmontou alguns dos pilares fundamentais da nossa economia, como as refinarias de petróleo, as fábricas de fertilizantes e a Eletrobras.

Enquanto o Brasil, por meio do presidente Lula, vem construindo políticas de soberania sobre as nossas riquezas naturais, com o objetivo de utilizar essas reservas para alavancar o desenvolvimento de tecnologias de ponta e uma industrialização soberana para a produção de semicondutores e refino em solo nacional, etc. – que podem incrementar bilhões ao PIB nacional e a sua independência tecnológica –, temos o herdeiro do “bolsonarismo” agindo como um agente facilitador para que a potência americana extraia, leve e processe nossa riqueza. Uma vergonhosa reedição do roteiro da exploração colonial que a estirpe de Silvério dos Reis quer perpetuar.

Afirmar que o Brasil é a “solução” para os EUA é confessar um projeto de país em permanente circunflexão aos impérios. Na edição anterior da CPAC, o discurso de Jack Posobiec, conhecido militante de extrema-direita, deixou claro que as investidas contra a democracia, tal como feitas no Brasil, em 08/01, fazem parte do projeto da extrema-direita: “Bem-vindos ao fim da democracia. Estamos aqui para derrubá-la completamente”, disse ele.

“Não chegamos lá em 6 de janeiro, mas nos esforçaremos para nos livrar dela.” (NBC News, 23/02/24). Diferente de anos anteriores, a partir dessa edição, a CPAC passou a acolher vários neonazistas que obtiveram crachás oficiais do evento e circularam ostentando seus símbolos nas salas de reuniões, algo que até então não era admitido.

<><> Traição à própria base política

O Brasil consolidou a sua posição de um dos principais produtores e exportadores de alimentos e possui “capacidade produtiva, inovação e sustentabilidade para seguir como um dos principais fornecedores de alimentos do mundo”, de acordo com o ministro da Agricultura e Pecuária, Carlos Fávaro.

A agricultura brasileira – o agronegócio e a agricultura familiar – desempenha papel estratégico na segurança alimentar global e na economia nacional, tendo exportado em 2005 o montante de US$ 169,2 bilhões, cerca de 48,5% de tudo o que o país exportou no período; enquanto a agricultura familiar produz cerca de 75% dos alimentos consumidos pelos brasileiros e emprega a maioria da mão de obra no campo.

Apesar de ambas serem fundamentais para a segurança alimentar no Brasil e no mundo, a falta de compromisso da extrema-direita com a soberania nacional tornou o Brasil um dos países mais dependentes de insumos estrangeiros. Uma vulnerabilidade agravada deliberadamente no governo de Bolsonaro, que obrigou a venda pela Petrobras de refinarias estratégicas, como a RLAM (Bahia) e a REMAN (Amazonas), e fechou unidades de fertilizantes nitrogenados (Fafens) no Paraná, Bahia e Sergipe.

Essas políticas entreguistas deixam o país e os produtores à mercê das oscilações de guerras, crises externas e tentativas de interferência estrangeira. Isso torna mais caros os fertilizantes importados, sem que haja segurança de que haverá o fornecimento em volume adequado e no prazo necessário para o plantio.

Essa é a demonstração cabal de que, ao invés de trazer eficiência, a privatização de setores básicos gera dependência, insegurança de fornecimento e custos altos. Essa lógica de entrega do patrimônio público e descompromisso com a soberania nacional tem sido uma obsessão (bem remunerada) da extrema direita. A privatização da Eletrobras, por exemplo, retirou do Estado brasileiro a capacidade de planejar e controlar o custo da energia, um insumo que atravessa toda a cadeia produtiva e o bolso de cada cidadão.

Soberania nacional não é uma palavra sem sentido. É comida no prato, é luz para todos, é utilizar nossas riquezas naturais em benefício dos brasileiros. Flávio Bolsonaro é um Silvério dos Reis turbinado, que trai a promessa de um país independente e reduz a nação a um balcão de negócios, onde o bem-estar do povo brasileiro é apenas mais uma mercadoria em liquidação. A próxima eleição será uma disputa entre os brasileiros contra seus inimigos.

•        A liberdade como discurso, a servidão como propósito. Por Miguel Rossetto

Com ampla cobertura da mídia local, ocorreu em Porto Alegre um autointitulado Fórum da Liberdade, realizado e financiado por grupos econômicos, midiáticos, setores financeiros, economistas ultra neoliberais e políticos da extrema direita brasileira.

O evento se revelou um verdadeiro Fórum da tirania.

A maioria das manifestações públicas defendia anistia aos golpistas, incluindo Jair Bolsonaro, e apoio a Flavio Bolsonaro. Como já fazem há muito tempo, discursam em nome da liberdade e da democracia para depois tentar golpeá-la. Não por acaso, justiça, direito, igualdade e respeito às diferenças foram ignorados.

A liberdade se tornou a primeira vítima do Fórum em meio à tietagem ao udenista Ronaldo Caiado, Romeu Zema, bolsonaristas, palavras de ordem contra Lula, festejos ao ex-ministro Paulo Guedes, propostas de impeachment de ministros do STF, apoio às guerras de Trump.

A liberdade entoada no Fórum tenta, na verdade, mascarar o desejo inconfesso de organizadores e participantes: liberdade para os poderosos e ricos, servidão para o povo.

Organizado pelo Instituto de Estudos Empresariais (IEE), com o patrocínio do Grupo RBS, Brasil Paralelo, Liberta, Gerdau, entre outros, o Fórum serviu de palco para ataques a qualquer forma de políticas públicas e programas sociais destinados às populações mais carentes e, claro, contra políticas distributivas, direitos sociais, trabalhistas, “gastos públicos”, taxação dos super-ricos, etc.

Foi em 1988 que o Instituto de Estudos Empresariais criou o Fórum da Liberdade como espaço de articulação do pensamento neoliberal – na esteira do Consenso de Washington, de Ronald Reagan e Margaret Thatcher – e de organização da extrema direita brasileira. Desde então, tem reunido extremistas de diferentes linhagens, de Olavo de Carvalho a Nikolas Ferreira, passando por Sérgio Moro e a família Bolsonaro. Assim, ao lado de outros institutos da extrema direita, como o Instituto Millenium, tornou-se um dos responsáveis pelo que viria a ser a base do fascismo à moda brasileira, o bolsonarismo.

Em resumo, o Brasil projetado pelo Fórum e seus “pensadores” seria hoje uma cópia da Argentina de Javier Milei: concentração de renda, desigualdade e miséria crescentes, fim dos direitos trabalhistas e sociais, de políticas de distribuição de renda, saúde e educação públicas, com jornadas de trabalho de 12 horas, sem folga semanal. Ou seja, a destruição de um Estado social e a construção de um Estado para o Mercado, apoiado na violência da extrema direita.

O evento encerrou, como não poderia deixar de ser, premiando o bolsonarista conhecido como “véio da Havan”, Luciano Hang, um extremista investigado por financiar os atos golpistas, e André Marsiglia, outro bolsonarista, advogado e comentarista da Brasil Paralelo e Revista Oeste, canais de comunicação da extrema direita brasileira, conhecido por atacar o STF.

A manifestação de estudantes da PUC durante o Fórum, organizada pelos centros acadêmicos da universidade, desmascarou o caráter antidemocrático do Fórum da Liberdade. Em carta distribuída no ato, os estudantes afirmam toda sua inconformidade com a presença no campus de “figuras extremistas que propagam fake news e ódio às mulheres, LGBTs e negros e negras, e também convidados que atentam contra o estado democrático de direito”. Não foi um Fórum da Liberdade, mas um Fórum da Tirania que envergonha Porto Alegre.

•        Moraes abre inquérito contra Flávio Bolsonaro por calúnia contra Lula

O ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou a abertura de inquérito para investigar o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) por suposta calúnia contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A medida foi tomada após uma publicação nas redes sociais em que o parlamentar atribuiu crimes ao chefe do Executivo, o que motivou manifestação da Polícia Federal e da Procuradoria-Geral da República.

A decisão foi assinada em 13 de abril de 2026 e atende a um pedido da Polícia Federal, com parecer favorável da PGR, que apontaram indícios de prática criminosa na conduta do senador.

<><> Postagem motivou investigação

O caso tem como base uma publicação feita por Flávio Bolsonaro em 3 de janeiro de 2026 na rede social X (antigo Twitter). No conteúdo, o senador associou o presidente Lula a uma série de crimes, incluindo tráfico internacional de drogas e armas, lavagem de dinheiro, apoio a terroristas e fraudes eleitorais.

Na postagem, o parlamentar também vinculou imagens de Lula ao presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, e escreveu: "Lula será delatado".

De acordo com a Polícia Federal, a expressão faz referência direta ao mecanismo de colaboração premiada e implica a atribuição de crimes sem comprovação em um ambiente público.

<><> Entendimento da PGR e do STF

A Procuradoria-Geral da República sustentou que a publicação apresenta “indícios concretos” de prática criminosa, ao imputar de forma falsa e vexatória a autoria de delitos ao presidente da República.

O ministro Alexandre de Moraes enquadrou a conduta como crime de calúnia. Ele também destacou que a eventual pena pode ser agravada por dois fatores: o fato de a suposta ofensa ter sido direcionada ao presidente da República e sua ampla divulgação em rede social, o que amplia o alcance do conteúdo.

<><> Próximos passos da investigação

Na decisão, Moraes determinou o levantamento do sigilo do processo, argumentando não haver justificativa para manter a restrição de publicidade.

A Polícia Federal terá prazo inicial de 60 dias para realizar diligências e aprofundar a apuração do caso.

•        Flávio ficará inelegível se condenado por calúnia, diz especialista

Advogado especializado em direito eleitoral, Carlos Frota afirma que uma eventual condenação do senador Flávio Bolsonaro (PL) pode resultar na suspensão de seus direitos políticos e impedir que ele concorra ao Planalto. Conforme revelou a coluna nesta quarta-feira (15/4), o ministro Alexandre de Moraes (STF) determinou a abertura de um inquérito para investigar possível crime de calúnia do parlamentar contra o presidente Lula.

Mestre em sociologia política, Frota destacou que a Constituição prevê a suspensão dos direitos políticos em caso de condenação. “Sem entrar no caso concreto, a Constituição Federal de 1988 é clara ao estabelecer que a sentença penal condenatória, inclusive por crimes contra a honra, pode ensejar a suspensão dos direitos políticos”, disse o especialista.

Segundo o advogado eleitoral, Flávio Bolsonaro ficaria impedido de obter certidão de quitação eleitoral. “No caso da suspensão dos direitos políticos, o cidadão não é sequer registrável: não obtém certidão de quitação eleitoral, não pode se filiar a partido político e tampouco votar, uma vez que o título eleitoral fica cancelado”.

Alexandre de Moraes determinou a instauração do inquérito para esclarecer se o parlamentar cometeu crime de calúnia contra o presidente Lula em uma postagem nas redes sociais, feita em 3 de janeiro de 2026.

<><> Eduardo Bolsonaro cita eleição

A determinação de Moraes foi tomada a partir de representação da Polícia Federal (PF), requerida pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP). Além de autorizar a abertura do inquérito, o magistrado determinou o envio dos autos à PF, que terá prazo de 60 dias para realizar as diligências iniciais.

Após a publicação da reportagem, Flávio Bolsonaro disse que recebeu “com profunda estranheza” a decisão de Moraes. “A medida é juridicamente frágil, uma vez que a publicação objeto do procedimento carece de qualquer tipicidade penal”, afirmou.

Eduardo Bolsonaro acusou Moraes de tentar influenciar a candidatura do senador à Presidência. “Ele manda abrir o inquérito, a sua Polícia Federal investiga e depois, adivinha quem vai julgar os casos? Ele também. Um jogo de cartas marcadas para não permitir a eleição de Flávio”, disse.

•        Quaest: 40% dos eleitores de Flávio Bolsonaro podem mudar o voto até a eleição

A corrida presidencial segue indefinida, com um número expressivo de eleitores ainda disposto a rever sua escolha até o dia da votação. Levantamento recente indica que 40% dos apoiadores de Flávio Bolsonaro admitem a possibilidade de mudar de candidato até outubro, evidenciando um cenário de incerteza eleitoral.

De acordo com dados da pesquisa Genial/Quaest, divulgados nesta quarta-feira (15), o nível de fidelidade do eleitorado varia significativamente entre os diferentes candidatos, influenciando diretamente o rumo da disputa.

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No total da amostra, 57% dos entrevistados afirmam que já decidiram seu voto de forma definitiva. Por outro lado, 43% dizem que ainda podem alterar sua escolha, o que mantém o quadro eleitoral em aberto e com margem para mudanças ao longo da campanha.

<><> Diferenças entre campos políticos

A segmentação dos dados revela contrastes entre os principais grupos políticos. Entre os eleitores do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, 65% dizem estar decididos, enquanto 35% ainda consideram a possibilidade de mudança. Já no caso de Flávio Bolsonaro, o índice de fidelidade é menor: 60% afirmam ter uma escolha consolidada, enquanto 40% permanecem indecisos.

Outros nomes do campo conservador apresentam ainda maior volatilidade. Entre eleitores de Ronaldo Caiado, 60% admitem que podem mudar de candidato. No caso de Romeu Zema, esse percentual chega a 81%, indicando um eleitorado ainda em formação.

<><> Fragmentação amplia incerteza

O levantamento sugere que a fragmentação da direita contribui para esse cenário. A presença de múltiplos candidatos divide o eleitorado e dificulta a consolidação de apoio em torno de um único nome, aumentando a fluidez das intenções de voto.

Na prática, isso significa que parte relevante dos eleitores desse campo político ainda não definiu sua preferência de forma definitiva, o que pode levar a mudanças ao longo da campanha, influenciadas por fatores como desempenho dos candidatos, alianças e percepção de viabilidade eleitoral.

Esse comportamento contrasta com o eleitorado lulista, que aparece mais consolidado e com menor propensão a alterações de voto, segundo os dados da pesquisa.

<><> Metodologia da pesquisa

A pesquisa Quaest, contratada pela Genial Investimentos, ouviu presencialmente 2.004 pessoas entre os dias 9 e 13 de abril. A margem de erro é de dois pontos percentuais, para mais ou para menos, com nível de confiança de 95%. O levantamento foi registrado no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sob o número BR-09285/2026.

 

Fonte: A Terra é Redonda/Sul21/Metrópoles/Brasi 247

 

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