sexta-feira, 17 de abril de 2026

Lula vai a reunião da esquerda mundial em meio a tensões globais com Trump

É em meio a tensões de ordem global com Donald Trump que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) faz aquela que deve ser sua última grande viagem internacional de seu terceiro mandato, antes do início da campanha para o pleito deste ano.

A primeira parada é em Barcelona, na Espanha, onde o presidente chegou por volta das 23h do horário local (18h do horário de Brasília) desta quinta-feira (16/4).

No domingo, ele segue para Hanover, na Alemanha, e, na segunda-feira, encerra a viagem com uma visita à capital de Portugal, Lisboa.

Na Catalunha, Lula estará cercado por alguns dos mais importantes líderes de esquerda do mundo, a começar pelo primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, que criou um evento para debater pautas que lhe são caras ante o avanço da direita radical, que tem Trump como um dos principais rostos.

É o chamado Global Progressive Mobilisation (Mobilização Progressista Global, em tradução literal), cujos debates atravessam temas como ameaças à democracia, desinformação e violência de gênero e chega ao fim com uma sessão plenária capitaneada por Sánchez e Lula.

Entre as lideranças, o espanhol é, aliás, o que tem sido mais vocal nas críticas a Trump. Ele não mediu palavras depois que os Estados Unidos bombardearam o Irã junto com Israel, dizendo que os ataques eram ilegais e que o republicano estava "brincando de roleta russa com o destino de milhões" de pessoas.

O premiê também proibiu o uso de aeronaves americanas nas bases que os EUA têm no sul da Espanha para a ofensiva contra Teerã.

É por isso que, na avaliação de especialistas ouvidos pela BBC News Brasil, a passagem pela Espanha pode ser vista como um campo minado.

Para o professor de Relações Internacionais da Universidade Internacional da Flórida, Guilherme Casarões, Lula deve "tomar cuidado para não apertar os botões errados" e se empolgar nas críticas contra Trump.

Uma declaração em uma ocasião como esta, na presença de jornalistas do mundo inteiro, pode repercutir mais — e de forma mais rápida e em outros idiomas — do que aquelas que ele faz no dia a dia no Brasil.

Em outras palavras, diz o professor, Lula terá de equilibrar as críticas a Trump — para agradar sua base e aliados de esquerda com quem vai se encontrar — sem elevar o tom a ponto de desagradar outra parcela do eleitorado, que vê como essencial manter uma boa relação com os Estados Unidos e com o próprio Trump.

Isso em um cenário em que Flávio Bolsonaro (PL), que se consolida como principal adversário de Lula nas eleições, aparece numericamente à frente em pesquisas de intenção de voto.

Na última pesquisa divulgada pela Quaest na quarta-feira (15/4), o petista aparece com 40% dos votos contra 42% do filho de Jair Bolsonaro em um possível segundo turno.

O ex-deputado Eduardo Bolsonaro (PL), irmão de Flávio, deixou o Brasil para viver nos Estados Unidos e se aproximar de figuras-chave do governo Trump. Isso ajuda Flávio a ser visto, ao menos pelos eleitores que rejeitam Lula, como uma ponte mais segura entre os brasileiros e americanos.

<><> Acordo Mercosul-União Europeia

A corda bamba sobre a qual Lula vai ter que se equilibrar na Espanha também se estende a temas que, embora não sejam diretamente ligados à figura de Trump, tangenciam o governo do republicano.

Um deles é o acordo Mercosul-União Europeia, que deve entrar em vigor nas próximas semanas, em 1º de maio, após mais de duas décadas de negociação.

Segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, é esperado que o acordo elimine tarifas para 92% das exportações do Mercosul, em um valor aproximado de US$ 61 bilhões.

No caso do Brasil, os produtos agropecuários e calçados brasileiros devem estar entre os principais beneficiados.

Os brasileiros podem sentir mudanças no dia a dia, com a redução esperada nos preços de produtos importados da Europa, como vinhos, azeites, queijos e lácteos, e a promessa da chegada ao país de marcas como as de alguns chocolates de luxo.

Há, ainda, a expectativa de que o preço de veículos, medicamentos e insumos para o agronegócio, como maquinários e produtos veterinários, caiam.

Se, à primeira vista, pode parecer que há apenas motivos para comemorar, por outro lado, o debate sobre o acordo pode ser delicado para Lula. O instrumento, afinal, é uma forma de diversificar a balança comercial do Brasil e, em última análise, reduzir a dependência em relação aos Estados Unidos.

Depois de Lula já ter se posicionado contra o uso contínuo do dólar nas negociações internacionais, é possível que, nas sabatinas com jornalistas, surjam perguntas cujas respostas — se não forem cuidadosamente pensadas — possam causar irritação do outro lado do Atlântico.

Outra questão crítica na relação entre os dois países no momento é a investigação comercial aberta nos Estados Unidos sobre o Pix, que deixa em aberto a possibilidade de novas sanções contra o Brasil.

O Pix foi mencionado em um relatório de 31 de março em que os EUA listam o que consideram barreiras comerciais de mais de 60 países contra empresas americanas.

Por conta disso, o Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (Office of the United States Trade Representative, USTR), abriu um inquérito em julho do ano passado para apurar se o Pix configura "prática desleal", ferindo a competitividade do setor produtivo americano.

Casarões diz acreditar que Lula vai pisar no freio, como já tem feito no Brasil nos últimos meses. Em sua visão, não haveria nem sequer motivo para soar agressivo com Trump, agora que o tarifaço já arrefeceu e o republicano, frente à guerra no Oriente Médio, não deve voltar a comentar a política brasileira.

Esta passagem pela Europa será a viagem internacional com a maior comitiva do presidente Lula neste mandato, que deve reunir cerca de 15 ministros. Ao todo, estão previstos mais de 20 acordos com Espanha e Alemanha em diversas áreas.

Oliver Stuenkel, professor de Relações Internacionais na Fundação Getulio Vargas (FGV), diz que a viagem pode ser positiva para Lula, caso seja bem administrada.

"A Europa é um parceiro ideal para o Brasil, apesar das divergências. Há uma sobreposição enorme em temas como o Oriente Médio e a governança digital. E o Brasil precisa de parceiros para não ser confrontado pelos Estados Unidos sozinho", afirma.

"Precisa de terceiros para aumentar sua margem de manobra na hora de negociar tanto com Washington quanto com Pequim", conclui Stuenkel.

¨      Na Europa, Lula busca "consolidar parcerias, atrair investimentos e discutir temas globais urgentes"

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) embarcou nesta quinta-feira (16) para uma viagem oficial à Europa com o objetivo de "consolidar parcerias, atrair investimentos e discutir temas globais urgentes". A agenda inclui compromissos na Espanha, Alemanha e Portugal, além de encontros com líderes políticos e empresários.

De acordo com publicação do próprio presidente em suas redes sociais, a missão internacional busca fortalecer relações estratégicas com países europeus, considerados parceiros importantes do Brasil, especialmente às vésperas da entrada em vigor do acordo Mercosul-União Europeia, prevista para 1º de maio.

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<><> Reuniões políticas e agenda internacional

Na Espanha, Lula participará de uma reunião de trabalho com o presidente do governo, Pedro Sánchez, e integrará o Fórum em Defesa da Democracia ao lado de outros chefes de Estado e de governo.

Já na Alemanha, o presidente brasileiro terá encontro com o chanceler federal Friedrich Merz para firmar novas parcerias. Lula também participará da Feira de Hannover, considerada o maior evento de tecnologia e inovação industrial do mundo, no qual o Brasil será o país convidado especial neste ano.

A agenda prevê ainda reuniões com empresários brasileiros e europeus tanto na Espanha quanto na Alemanha. O objetivo é ampliar mercados, fortalecer relações comerciais e estimular novos investimentos no Brasil.

Em Portugal, Lula se reunirá com o primeiro-ministro Luís Montenegro e com o novo presidente, António José Seguro, dando continuidade ao diálogo político e econômico entre os países.

<><> Viagem ocorre antes de acordo Mercosul-UE

A viagem é considerada estratégica por ocorrer poucos dias antes da implementação do acordo entre Mercosul e União Europeia, que deve ampliar o comércio e a cooperação entre os blocos.

Antes de embarcar, Lula também desejou “um ótimo trabalho ao companheiro Geraldo Alckmin, que assume a presidência até o nosso retorno”, conforme destacou na publicação.

¨      Lula critica ameaças de guerra constantes feitas pelo mandatário estadunidense e cobra reforma no Conselho de Segurança da ONU

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) criticou o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ao afirmar que ele não foi eleito “imperador do mundo” e defender mudanças no Conselho de Segurança da ONU em meio ao aumento das tensões internacionais. A declaração foi feita em entrevista à revista alemã Der Spiegel, na qual o líder brasileiro abordou conflitos globais e a necessidade de reorganização da governança mundial. A entrevista foi publicada nesta quinta-feira (16), mesmo dia em que Lula iniciou uma viagem oficial à Europa, com compromissos previstos na Alemanha, Espanha e Portugal.

<><> Críticas à postura dos Estados Unidos

“Trump não foi eleito imperador do mundo. Ele não pode ficar ameaçando outros países com guerra o tempo todo. Precisamos colocar este mundo em ordem, que está prestes a se transformar em um campo único de batalha”, afirmou Lula na entrevista. O presidente brasileiro também comentou o ambiente de disputa entre grandes potências, como China, Rússia e Estados Unidos. Segundo ele,

Lula também disse ter pedido aos líderes da China, Rússia e França - Xi Jinping, Vladimir Putin e Emmanuel Macron, respectivamente - para que fosse realizada uma reunião do Conselho de Segurança da ONU para que Trump fosse instado a discutir o conflito no Irã, mas que ninguém "deu ouvidos". “É como se estivéssemos à deriva em alto mar, em um navio sem capitão”,ressaltou.

<><> Impactos globais e cobrança à ONU

Lula alertou para os efeitos sociais de possíveis conflitos armados, especialmente em países mais vulneráveis. “Não pode ser que Trump comece uma guerra com o Irã e que quem acabe pagando a conta dessa guerra sejam os pobres da África ou da América Latina, que terão de gastar mais dinheiro com feijão, carne e verduras”, declarou.

Ele também cobrou uma atuação mais firme da Organização das Nações Unidas. “O secretário-geral da ONU, António Guterres, deveria convocar imediatamente uma Assembleia Geral Extraordinária para que Trump, Putin e os outros prestem contas”, afirmou.

<><> Defesa de reforma no Conselho de Segurança

Outro ponto central da entrevista foi a crítica à atual composição do Conselho de Segurança da ONU. Lula defendeu a inclusão de novos membros permanentes, como países africanos, do Oriente Médio, além de Brasil ou Alemanha. Para o presidente, há incoerência no funcionamento do órgão.

“Como você pretende explicar a alguém que, justamente, os cinco membros permanentes são os maiores produtores de armas? São eles que possuem armas nucleares e travam guerras”, criticou, ao citar conflitos recentes envolvendo grandes potências.

<><> Relação com Cuba e economia

Questionado sobre a possibilidade de apoio energético a Cuba, Lula afirmou que o Brasil não enviou petróleo ao país para evitar impactos negativos sobre a Petrobras no mercado internacional.

“Nossas relações com Cuba são tão boas que os cubanos nos deram a entender: Lula não deve tomar nenhuma medida que prejudique o Brasil”, disse. Ele acrescentou que o país pode oferecer “medicamentos e alimentos” e destacou a importância de ajudar Cuba a reduzir sua dependência energética.

<><> Eleições e cenário político

Na entrevista, Lula também abordou a política interna e evitou confirmar candidatura à reeleição. Segundo ele, a decisão dependerá da convenção do Partido dos Trabalhadores, embora esteja se preparando. “Estou com a cabeça e o corpo 100% em forma. Quero viver até os 120 anos”, afirmou.

Sobre uma eventual derrota, destacou o respeito ao resultado das urnas. “Quando o povo toma uma decisão, seja ela de direita, de esquerda ou do centro, temos de aceitar o resultado”, disse. O presidente também demonstrou confiança na continuidade democrática do país.

<><> Agenda internacional

A entrevista foi divulgada na véspera da viagem de Lula à Europa, considerada uma das principais agendas internacionais antes das eleições. Entre os compromissos está a participação, ao lado do chanceler alemão Friedrich Merz, na abertura da Feira de Hannover, maior evento de tecnologia industrial do mundo, que terá o Brasil como país-parceiro nesta edição.

 

Fonte: BBC News Brasil

 

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