Lula
vai a reunião da esquerda mundial em meio a tensões globais com Trump
É em
meio a tensões de ordem global com Donald
Trump que o presidente Luiz Inácio
Lula da Silva (PT) faz aquela que deve ser sua última grande
viagem internacional de seu terceiro mandato, antes do início da campanha para
o pleito deste
ano.
A
primeira parada é em Barcelona, na Espanha,
onde o presidente chegou por volta das 23h do horário local (18h do horário de
Brasília) desta quinta-feira (16/4).
No
domingo, ele segue para Hanover, na Alemanha, e, na segunda-feira, encerra a
viagem com uma visita à capital de Portugal, Lisboa.
Na
Catalunha, Lula estará cercado por alguns dos mais importantes líderes de
esquerda do mundo, a começar pelo primeiro-ministro
espanhol, Pedro Sánchez, que criou um evento para debater
pautas que lhe são caras ante o avanço da direita radical, que tem Trump como
um dos principais rostos.
É o
chamado Global Progressive Mobilisation (Mobilização Progressista Global, em
tradução literal), cujos debates atravessam temas como ameaças à democracia,
desinformação e violência de gênero e chega ao fim com uma sessão plenária
capitaneada por Sánchez e Lula.
Entre
as lideranças, o espanhol é, aliás, o que tem sido mais vocal nas críticas a
Trump. Ele não mediu palavras depois que os Estados
Unidos bombardearam o Irã junto com Israel, dizendo que os ataques
eram ilegais e que o republicano estava "brincando de roleta russa com o
destino de milhões" de pessoas.
O
premiê também proibiu o uso
de aeronaves americanas nas bases que os EUA têm no sul da
Espanha para a ofensiva contra Teerã.
É por
isso que, na avaliação de especialistas ouvidos pela BBC News Brasil, a
passagem pela Espanha pode ser vista como um campo minado.
Para o
professor de Relações Internacionais da Universidade Internacional da Flórida,
Guilherme Casarões, Lula deve "tomar cuidado para não apertar os botões
errados" e se empolgar nas críticas contra Trump.
Uma
declaração em uma ocasião como esta, na presença de jornalistas do mundo
inteiro, pode repercutir mais — e de forma mais rápida e em outros idiomas — do
que aquelas que ele faz no dia a dia no Brasil.
Em
outras palavras, diz o professor, Lula terá de equilibrar as críticas a Trump —
para agradar sua base e aliados de esquerda com quem vai se encontrar — sem
elevar o tom a ponto de desagradar outra parcela do eleitorado, que vê como
essencial manter uma boa relação com os Estados Unidos e com o próprio Trump.
Isso em
um cenário em que Flávio Bolsonaro (PL), que se consolida como principal
adversário de Lula nas eleições, aparece numericamente à frente em pesquisas de
intenção de voto.
Na
última pesquisa divulgada pela Quaest na quarta-feira (15/4), o petista aparece
com 40% dos votos contra 42% do filho de Jair Bolsonaro em um possível segundo
turno.
O
ex-deputado Eduardo Bolsonaro (PL), irmão de Flávio, deixou o Brasil para viver
nos Estados Unidos e se aproximar de figuras-chave do governo Trump. Isso ajuda
Flávio a ser visto, ao menos pelos eleitores que rejeitam Lula, como uma ponte
mais segura entre os brasileiros e americanos.
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Acordo Mercosul-União Europeia
A corda
bamba sobre a qual Lula vai ter que se equilibrar na Espanha também se estende
a temas que, embora não sejam diretamente ligados à figura de Trump, tangenciam
o governo do republicano.
Um
deles é o acordo Mercosul-União Europeia, que deve entrar em vigor nas próximas
semanas, em 1º de maio, após mais de duas décadas de negociação.
Segundo
o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, é esperado que
o acordo elimine tarifas para 92% das exportações do Mercosul, em um valor
aproximado de US$ 61 bilhões.
No caso
do Brasil, os produtos agropecuários e calçados brasileiros devem estar entre
os principais beneficiados.
Os
brasileiros podem sentir mudanças no dia a dia, com a redução esperada nos
preços de produtos importados da Europa, como vinhos, azeites, queijos e
lácteos, e a promessa da chegada ao país de marcas como as de alguns chocolates
de luxo.
Há,
ainda, a expectativa de que o preço de veículos, medicamentos e insumos para o
agronegócio, como maquinários e produtos veterinários, caiam.
Se, à
primeira vista, pode parecer que há apenas motivos para comemorar, por outro
lado, o debate sobre o acordo pode ser delicado para Lula. O instrumento,
afinal, é uma forma de diversificar a balança comercial do Brasil e, em última
análise, reduzir a dependência em relação aos Estados Unidos.
Depois
de Lula já ter se posicionado contra o uso contínuo do dólar nas negociações
internacionais, é possível que, nas sabatinas com jornalistas, surjam perguntas
cujas respostas — se não forem cuidadosamente pensadas — possam causar
irritação do outro lado do Atlântico.
Outra
questão crítica na relação entre os dois países no momento é a investigação
comercial aberta nos Estados Unidos sobre o Pix, que deixa em aberto a
possibilidade de novas sanções contra o Brasil.
O Pix
foi mencionado em um relatório de 31 de março em que os EUA listam o que
consideram barreiras comerciais de mais de 60 países contra empresas
americanas.
Por
conta disso, o Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (Office
of the United States Trade Representative, USTR), abriu um inquérito em julho
do ano passado para apurar se o Pix configura "prática desleal",
ferindo a competitividade do setor produtivo americano.
Casarões
diz acreditar que Lula vai pisar no freio, como já tem feito no Brasil nos
últimos meses. Em sua visão, não haveria nem sequer motivo para soar agressivo
com Trump, agora que o tarifaço já arrefeceu e o republicano, frente à guerra
no Oriente Médio, não deve voltar a comentar a política brasileira.
Esta
passagem pela Europa será a viagem internacional com a maior comitiva do
presidente Lula neste mandato, que deve reunir cerca de 15 ministros. Ao todo,
estão previstos mais de 20 acordos com Espanha e Alemanha em diversas áreas.
Oliver
Stuenkel, professor de Relações Internacionais na Fundação Getulio Vargas
(FGV), diz que a viagem pode ser positiva para Lula, caso seja bem
administrada.
"A
Europa é um parceiro ideal para o Brasil, apesar das divergências. Há uma
sobreposição enorme em temas como o Oriente Médio e a governança digital. E o
Brasil precisa de parceiros para não ser confrontado pelos Estados Unidos
sozinho", afirma.
"Precisa
de terceiros para aumentar sua margem de manobra na hora de negociar tanto com
Washington quanto com Pequim", conclui Stuenkel.
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Na Europa, Lula busca "consolidar parcerias, atrair
investimentos e discutir temas globais urgentes"
O
presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) embarcou nesta quinta-feira (16) para
uma viagem oficial à Europa com o objetivo de "consolidar parcerias,
atrair investimentos e discutir temas globais urgentes". A agenda inclui
compromissos na Espanha, Alemanha e Portugal, além de encontros com líderes
políticos e empresários.
De
acordo com publicação do próprio presidente em suas redes sociais, a missão
internacional busca fortalecer relações estratégicas com países europeus,
considerados parceiros importantes do Brasil, especialmente às vésperas da
entrada em vigor do acordo Mercosul-União Europeia, prevista para 1º de maio.
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Reuniões políticas e agenda internacional
Na
Espanha, Lula participará de uma reunião de trabalho com o presidente do
governo, Pedro Sánchez, e integrará o Fórum em Defesa da Democracia ao lado de
outros chefes de Estado e de governo.
Já na
Alemanha, o presidente brasileiro terá encontro com o chanceler federal
Friedrich Merz para firmar novas parcerias. Lula também participará da Feira de
Hannover, considerada o maior evento de tecnologia e inovação industrial do
mundo, no qual o Brasil será o país convidado especial neste ano.
A
agenda prevê ainda reuniões com empresários brasileiros e europeus tanto na
Espanha quanto na Alemanha. O objetivo é ampliar mercados, fortalecer relações
comerciais e estimular novos investimentos no Brasil.
Em
Portugal, Lula se reunirá com o primeiro-ministro Luís Montenegro e com o novo
presidente, António José Seguro, dando continuidade ao diálogo político e
econômico entre os países.
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Viagem ocorre antes de acordo Mercosul-UE
A
viagem é considerada estratégica por ocorrer poucos dias antes da implementação
do acordo entre Mercosul e União Europeia, que deve ampliar o comércio e a
cooperação entre os blocos.
Antes
de embarcar, Lula também desejou “um ótimo trabalho ao companheiro Geraldo
Alckmin, que assume a presidência até o nosso retorno”, conforme destacou na
publicação.
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Lula critica ameaças de guerra constantes feitas pelo
mandatário estadunidense e cobra reforma no Conselho de Segurança da ONU
O
presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) criticou o presidente dos Estados
Unidos, Donald Trump, ao afirmar que ele não foi eleito “imperador do mundo” e
defender mudanças no Conselho de Segurança da ONU em meio ao aumento das
tensões internacionais. A declaração foi feita em entrevista à revista
alemã Der Spiegel, na qual o líder brasileiro abordou conflitos
globais e a necessidade de reorganização da governança mundial. A entrevista
foi publicada nesta quinta-feira (16), mesmo dia em que Lula iniciou uma viagem
oficial à Europa, com compromissos previstos na Alemanha, Espanha e Portugal.
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Críticas à postura dos Estados Unidos
“Trump
não foi eleito imperador do mundo. Ele não pode ficar ameaçando outros países
com guerra o tempo todo. Precisamos colocar este mundo em ordem, que está
prestes a se transformar em um campo único de batalha”, afirmou Lula na
entrevista. O presidente brasileiro também comentou o ambiente de disputa entre
grandes potências, como China, Rússia e Estados Unidos. Segundo ele,
Lula
também disse ter pedido aos líderes da China, Rússia e França - Xi Jinping,
Vladimir Putin e Emmanuel Macron, respectivamente - para que fosse realizada
uma reunião do Conselho de Segurança da ONU para que Trump fosse instado a
discutir o conflito no Irã, mas que ninguém "deu ouvidos". “É como se
estivéssemos à deriva em alto mar, em um navio sem capitão”,ressaltou.
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Impactos globais e cobrança à ONU
Lula
alertou para os efeitos sociais de possíveis conflitos armados, especialmente
em países mais vulneráveis. “Não pode ser que Trump comece uma guerra com o Irã
e que quem acabe pagando a conta dessa guerra sejam os pobres da África ou da
América Latina, que terão de gastar mais dinheiro com feijão, carne e
verduras”, declarou.
Ele
também cobrou uma atuação mais firme da Organização das Nações Unidas. “O
secretário-geral da ONU, António Guterres, deveria convocar imediatamente uma
Assembleia Geral Extraordinária para que Trump, Putin e os outros prestem
contas”, afirmou.
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Defesa de reforma no Conselho de Segurança
Outro
ponto central da entrevista foi a crítica à atual composição do Conselho de
Segurança da ONU. Lula defendeu a inclusão de novos membros permanentes, como
países africanos, do Oriente Médio, além de Brasil ou Alemanha. Para o
presidente, há incoerência no funcionamento do órgão.
“Como
você pretende explicar a alguém que, justamente, os cinco membros permanentes
são os maiores produtores de armas? São eles que possuem armas nucleares e
travam guerras”, criticou, ao citar conflitos recentes envolvendo grandes
potências.
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Relação com Cuba e economia
Questionado
sobre a possibilidade de apoio energético a Cuba, Lula afirmou que o Brasil não
enviou petróleo ao país para evitar impactos negativos sobre a Petrobras no
mercado internacional.
“Nossas
relações com Cuba são tão boas que os cubanos nos deram a entender: Lula não
deve tomar nenhuma medida que prejudique o Brasil”, disse. Ele acrescentou que
o país pode oferecer “medicamentos e alimentos” e destacou a importância de
ajudar Cuba a reduzir sua dependência energética.
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Eleições e cenário político
Na
entrevista, Lula também abordou a política interna e evitou confirmar
candidatura à reeleição. Segundo ele, a decisão dependerá da convenção do
Partido dos Trabalhadores, embora esteja se preparando. “Estou com a cabeça e o
corpo 100% em forma. Quero viver até os 120 anos”, afirmou.
Sobre
uma eventual derrota, destacou o respeito ao resultado das urnas. “Quando o
povo toma uma decisão, seja ela de direita, de esquerda ou do centro, temos de
aceitar o resultado”, disse. O presidente também demonstrou confiança na
continuidade democrática do país.
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Agenda internacional
A
entrevista foi divulgada na véspera da viagem de Lula à Europa, considerada uma
das principais agendas internacionais antes das eleições. Entre os compromissos
está a participação, ao lado do chanceler alemão Friedrich Merz, na abertura da
Feira de Hannover, maior evento de tecnologia industrial do mundo, que terá o
Brasil como país-parceiro nesta edição.
Fonte:
BBC News Brasil

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