sexta-feira, 17 de abril de 2026

Maria Luiza Falcão: Entre a grandeza histórica e a mediocridade política

A chegada do homem à Lua em 1969 foi um dos momentos mais extraordinários da história. Não apenas pela proeza tecnológica, mas pelo que ela simbolizou: a capacidade de uma sociedade de mobilizar ciência, planejamento, recursos e imaginação coletiva para ultrapassar limites que pareciam intransponíveis. Foi um salto civilizatório — um instante em que o poder foi colocado a serviço do conhecimento, da curiosidade e da expansão do horizonte humano.

Hoje, décadas depois, esse impulso retorna com força renovada. O programa Artemis — e, de forma particularmente emblemática, o retorno bem-sucedido dos astronautas da missão Artemis II — projeta a presença humana de forma mais duradoura no espaço e representa muito mais do que uma missão científica. Ele sintetiza avanços tecnológicos de ponta — em propulsão, inteligência artificial, materiais, engenharia de sistemas — e aponta para um novo ciclo de inovação com impactos que transcendem o setor espacial. Trata-se de um esforço que envolve cooperação internacional, articulação entre Estado e setor privado e uma visão de longo prazo sobre o lugar da humanidade no cosmos.

É, em essência, um momento que deveria mobilizar orgulho, reflexão e sentido histórico. Um momento de grandeza para a humanidade.

Há, no entanto, um aspecto ainda mais revelador nesse contraste. Os Estados Unidos, que já foram capazes de transformar a chegada do homem à Lua em um marco civilizatório global, mostram hoje, com Donald Trump, uma impressionante incapacidade de reconhecer e capitalizar um feito dessa natureza. Em outro momento histórico, um avanço como o representado pelo programa Artemis II seria celebrado como símbolo de liderança, de projeção de futuro, de grandeza nacional. Hoje, porém, ele é eclipsado.

Absorvido por uma obsessão por guerras, particularmente pela escalada militar contra o Irã, o presidente dos Estados Unidos revela não apenas uma escolha política, mas uma limitação mais profunda: a incapacidade de compreender a dimensão histórica do próprio tempo.

Enquanto a ciência avança e projeta o futuro, a política se apequena, reduzida à mediocridade do confronto imediato.

Mas é justamente nesse contraste que se revela algo profundamente inquietante: enquanto a ciência aponta para o futuro e reafirma a capacidade humana de construir projetos complexos e duradouros, a política externa dos Estados Unidos parece cada vez mais aprisionada no improviso, na instabilidade, na ignorância e na ausência de direção.

Sob a liderança de Trump, a política externa americana se consolida por meio de um padrão que já não pode ser tratado como episódico. Trata-se de uma oscilação contínua, em que declarações se sucedem não para construir uma linha de ação, mas para substituí-la antes mesmo que se estabilize.

Na quarta-feira, 2 de abril de 2026, em um pronunciamento televisionado à nação a partir da Casa Branca, Trump apresentou ao público americano — e, inevitavelmente, ao mundo — uma versão triunfalista da guerra contra o Irã.

O discurso ocorreu em um momento cuidadosamente escolhido: poucos dias após uma operação arriscada que resultou no resgate de um militar americano em território iraniano, conduzida com apoio da Central Intelligence Agency (CIA). O cenário era, portanto, propício à construção de uma narrativa de força. E foi exatamente isso que se viu.

Diante das câmeras, Trump declarou, na prática, a derrota do Irã. Afirmou que sua marinha havia sido destruída, que sua força aérea estava neutralizada, que seus sistemas de defesa estavam “aniquilados”. A mensagem era clara: os Estados Unidos haviam imposto sua superioridade de forma incontestável.

Mas o que aconteceu nos dias posteriores não foi a consolidação dessa narrativa alucinada — foi a sua dissolução.

Nos dias que se seguiram ao pronunciamento de 2 de abril, esse padrão não apenas se manteve — ele se intensificou. Entre 4 e 6 de abril, o presidente Donald Trump voltou a alternar, em entrevistas e postagens públicas, entre menções vagas à possibilidade de negociação e ameaças explícitas de novos bombardeios, incluindo ataques a infraestruturas civis e energéticas caso suas exigências não fossem atendidas. Prazos foram anunciados, modificados ou simplesmente abandonados.

A retórica oscilou entre o anúncio de uma vitória já consumada e a promessa de uma escalada iminente. Não houve, portanto, continuidade ou consolidação da posição apresentada no discurso inicial — apenas a sua substituição sucessiva por novas versões, igualmente questionáveis.

Pouco depois do discurso, surgiram relatos de resistência iraniana e de novos confrontos. A guerra, que havia sido apresentada como próxima do fim, voltou a ser descrita como um processo em aberto. Novas ameaças de bombardeios foram feitas. Prazos foram anunciados e, em seguida, deslocados. A própria ideia de negociação foi evocada ao mesmo tempo em que se prometia a escalada.

É nesse movimento que se revela o padrão.

O discurso do dia 2 de abril não pode ser compreendido apenas como uma peça de comunicação voltada ao público interno americano. Tampouco se limita a uma tentativa de demonstração de força no cenário internacional. Ele opera em uma zona ambígua — fala simultaneamente para a audiência doméstica, para aliados e para adversários, sem se fixar plenamente em nenhum desses planos.

Essa ambiguidade não é um detalhe. Ela é constitutiva da forma como o poder vem sendo exercido por Trump.

Ao mesmo tempo em que busca reforçar a imagem de liderança diante do eleitorado americano, o discurso projeta ameaças ao exterior sem oferecer qualquer previsibilidade sobre sua execução. O resultado é um tipo de comunicação que não estabiliza expectativas — pelo contrário, as fragmenta.

É tentador interpretar essas idas e vindas como simples inconsistência. Mas essa leitura subestima o fenômeno.

O que se observa é a transformação da oscilação em método.

Ao declarar a derrota de um adversário e, dias depois, admitir a continuidade da guerra, não se trata apenas de erro de avaliação. Trata-se de um uso deliberado da linguagem como instrumento de desorientação. Cada afirmação deixa de construir uma linha de ação e passa a funcionar como um evento isolado, desconectado do anterior.

Nesse contexto, a palavra perde sua função tradicional na política internacional. Ela deixa de sinalizar intenções, de orientar comportamentos, de permitir cálculo. Passa a produzir ruído. E esse ruído não é periférico — ele se torna o próprio ambiente em que decisões são tomadas.

O episódio do resgate do militar americano é emblemático. Um fato, com alto valor simbólico, é rapidamente incorporado a uma narrativa de vitória total. Mas essa narrativa não se sustenta nem mesmo no curto prazo. Ela se dissolve à medida que novos eventos contradizem suas premissas.

O resultado é uma política externa que não acumula sentido ao longo do tempo. Ela se reconfigura continuamente, sem coerência, sem continuidade e sem compromisso com o que foi dito anteriormente.

E é exatamente isso que a torna perigosa.

Não apenas pela possibilidade de escalada militar, mas porque elimina um dos elementos mais básicos da convivência internacional: a capacidade de interpretar a palavra do outro como referência minimamente confiável.

Quando isso desaparece, não é apenas a diplomacia que se fragiliza.

É a própria possibilidade de coordenação entre países que entra em colapso.

O mundo passa, assim, a operar não apenas sob o risco da guerra, mas sob algo mais instável: a impossibilidade de antecipar o comportamento da principal potência global. E, nesse cenário, a questão deixa de ser estratégica.

Ela se torna quase elementar: o que, afinal, ainda pode ser levado a sério vindo do presidente da maior potência militar do mundo?

Não por acaso, começam a surgir leituras — ainda que cautelosas — de que Trump atravessa um processo de desgaste que vai além da política cotidiana. Não se trata apenas de perda de popularidade ou de críticas circunstanciais. Trata-se de algo mais profundo: a percepção crescente de que sua liderança se apequena diante da escala histórica dos desafios que enfrenta.

E talvez seja justamente aqui que o contraste inicial retorna com toda a sua força.

No momento em que a humanidade demonstra ser capaz de organizar conhecimento, tecnologia e cooperação internacional para expandir sua presença no espaço — como evidencia o sucesso da Artemis II —, a principal potência do sistema internacional revela dificuldades crescentes em sustentar algo muito mais básico: coerência, previsibilidade e sentido na condução de suas ações.

A história dificilmente será indulgente com esse descompasso.

Porque entre ampliar os horizontes da humanidade e reduzi-los à lógica imediata do conflito, não há ambiguidade possível.

Há escolha.

•        Entre o poder e o delírio, por Maria Luiza Falcão

Donald Trump atacou o Papa e o chamou de “fraco”. A resposta veio sem estridência: Papa Leão XIV afirmou que não tem medo e voltou a denunciar as violações promovidas por potências neocoloniais.

O episódio, no entanto, não se esgota nesse confronto direto. Ele revela algo mais profundo — um deslocamento na forma como o poder se apresenta e se justifica no cenário contemporâneo.

Porque, pela primeira vez de maneira tão explícita, Trump não apenas confronta instituições ou lideranças: ele se projeta simbolicamente acima delas. A imagem em que aparece como uma figura semelhante a Jesus Cristo, irradiando luz e “curando” um doente, não pode ser tratada como um excesso isolado ou uma simples provocação. Trata-se de um passo adiante, e um passo que precisa ser levado a sério.

<><> Da provocação à sacralização

Trump sempre operou nos limites — e frequentemente além deles. Ao longo de sua trajetória, atacou adversários, tensionou instituições, deslegitimou processos e testou, de forma contínua, as fronteiras do discurso público. Também não hesitou em confrontar lideranças religiosas — inclusive Papa Francisco — quando estas ousaram criticar suas posições sobre guerra, migração e desigualdade.

Nada disso é propriamente novo.

O que se observa agora, contudo, não é apenas a repetição de um padrão, mas sua transformação. Se antes predominava a provocação, seguida por um enfrentamento institucional cada vez mais direto, o que emerge neste momento é algo qualitativamente distinto: a tentativa de sacralizar o próprio poder.

Não se trata mais apenas de disputar autoridade dentro de um sistema de regras.

Trata-se de deslocar o próprio fundamento dessa autoridade.

<><> O significado do gesto

Na tradição cristã, a figura de Jesus Cristo não é apenas um símbolo religioso. Ela representa um limite — ético, espiritual e, em última instância, civilizacional.

Apropriar-se dessa imagem, portanto, não é um gesto neutro.

É um movimento que desloca o poder do campo da legitimidade institucional para o da adesão simbólica. Sugere, ainda que de forma indireta, que a autoridade política não precisa mais ser justificada por leis, instituições ou resultados concretos, mas pode ser sustentada por uma construção que demanda reconhecimento quase devocional.

Nesse sentido, não se trata de convencer.

Trata-se de produzir crença.

<><> O padrão que se revela

Seria um erro, portanto, tratar o episódio como mais uma controvérsia típica das redes sociais.

Ele se insere em um padrão mais amplo e coerente: declarações feitas sem qualquer recuo, ataques sistemáticos a adversários, deslegitimação constante de instituições e uma recusa reiterada em reconhecer erros.

A isso se soma agora um elemento novo — ou, ao menos, mais explícito —: a incorporação de símbolos religiosos como instrumento político.

Mas há algo ainda mais revelador nesse processo. Não se trata apenas de uma apropriação simbólica do cristianismo. Trata-se de uma postura recorrente de desrespeito ao campo religioso como um todo, marcada tanto pelo deboche quanto pela instrumentalização — e, em certos contextos, pela própria desumanização do adversário.

No caso da liderança iraniana, por exemplo, figuras centrais do clero xiita — como o então líder supremo Aiatolá Ali Khamenei — passaram a ser tratadas no discurso político e militar não como autoridades religiosas, mas como alvos estratégicos. Em meio à escalada recente do conflito, ataques atingiram inclusive círculos próximos à liderança, borrando de forma ainda mais profunda as fronteiras entre guerra, política e o respeito ao sagrado.

Esse tipo de linguagem — que oscila entre o deboche e a eliminação simbólica ou concreta — não é episódico. Ele convive, de maneira reveladora, com a construção de uma autoimagem grandiosa. Trump não apenas tensiona limites institucionais: ele se apresenta, cada vez mais, como alguém que não reconhece autoridade acima de si. Em certos momentos, flerta com a figura do “rei”; em outros, com algo ainda mais extremo — uma autoridade que se aproxima do absoluto.

Esses elementos não aparecem de forma dispersa.

Eles compõem um processo.

Um processo no qual o poder se autonomiza, deixando progressivamente de responder a limites externos e passando a operar como se estivesse acima de qualquer mediação — seja ela política, jurídica ou moral.

<><> O confronto como síntese

É nesse contexto que o embate com Papa Leão XIV ganha um significado mais profundo.

De um lado, um líder político que amplia continuamente o alcance de sua própria autoridade, testando até onde pode avançar sem encontrar resistência efetiva.

De outro, uma autoridade religiosa que, ao contrário do que se poderia esperar, não recua. Ao reafirmar que não teme o presidente dos Estados Unidos, o Papa não apenas responde a um ataque pessoal, mas recoloca no debate público a necessidade de limites — ao denunciar a guerra, a violência e as práticas associadas a potências de caráter neocolonial.

Não se trata, portanto, de um embate entre indivíduos.

Trata-se de um confronto entre concepções distintas de autoridade.

<><> O que está em risco

O problema, nesse cenário, não se restringe à figura de Trump.

Ele diz respeito ao ambiente que permite que esse tipo de deslocamento ocorra sem provocar rupturas mais profundas.

Porque, quando o poder deixa de ser efetivamente questionado e passa a ser progressivamente naturalizado, a própria política se transforma. As instituições continuam existindo, mas perdem centralidade; o debate público persiste, mas se esvazia; e a racionalidade cede espaço a formas de adesão menos críticas.

<><> A questão que permanece

Diante disso, a pergunta central talvez não seja o que Trump fez.

Mas até que ponto isso ainda nos surpreende.

Porque a história sugere que o momento mais delicado não é aquele em que o absurdo irrompe, mas aquele em que ele deixa de ser percebido como tal.

 

Fonte: Jornal GGN

 

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