Maria
Luiza Falcão: Entre a grandeza histórica e a mediocridade política
A
chegada do homem à Lua em 1969 foi um dos momentos mais extraordinários da
história. Não apenas pela proeza tecnológica, mas pelo que ela simbolizou: a
capacidade de uma sociedade de mobilizar ciência, planejamento, recursos e
imaginação coletiva para ultrapassar limites que pareciam intransponíveis. Foi
um salto civilizatório — um instante em que o poder foi colocado a serviço do
conhecimento, da curiosidade e da expansão do horizonte humano.
Hoje,
décadas depois, esse impulso retorna com força renovada. O programa Artemis —
e, de forma particularmente emblemática, o retorno bem-sucedido dos astronautas
da missão Artemis II — projeta a presença humana de forma mais duradoura no
espaço e representa muito mais do que uma missão científica. Ele sintetiza
avanços tecnológicos de ponta — em propulsão, inteligência artificial,
materiais, engenharia de sistemas — e aponta para um novo ciclo de inovação com
impactos que transcendem o setor espacial. Trata-se de um esforço que envolve
cooperação internacional, articulação entre Estado e setor privado e uma visão
de longo prazo sobre o lugar da humanidade no cosmos.
É, em
essência, um momento que deveria mobilizar orgulho, reflexão e sentido
histórico. Um momento de grandeza para a humanidade.
Há, no
entanto, um aspecto ainda mais revelador nesse contraste. Os Estados Unidos,
que já foram capazes de transformar a chegada do homem à Lua em um marco
civilizatório global, mostram hoje, com Donald Trump, uma impressionante
incapacidade de reconhecer e capitalizar um feito dessa natureza. Em outro
momento histórico, um avanço como o representado pelo programa Artemis II seria
celebrado como símbolo de liderança, de projeção de futuro, de grandeza
nacional. Hoje, porém, ele é eclipsado.
Absorvido
por uma obsessão por guerras, particularmente pela escalada militar contra o
Irã, o presidente dos Estados Unidos revela não apenas uma escolha política,
mas uma limitação mais profunda: a incapacidade de compreender a dimensão
histórica do próprio tempo.
Enquanto
a ciência avança e projeta o futuro, a política se apequena, reduzida à
mediocridade do confronto imediato.
Mas é
justamente nesse contraste que se revela algo profundamente inquietante:
enquanto a ciência aponta para o futuro e reafirma a capacidade humana de
construir projetos complexos e duradouros, a política externa dos Estados
Unidos parece cada vez mais aprisionada no improviso, na instabilidade, na
ignorância e na ausência de direção.
Sob a
liderança de Trump, a política externa americana se consolida por meio de um
padrão que já não pode ser tratado como episódico. Trata-se de uma oscilação
contínua, em que declarações se sucedem não para construir uma linha de ação,
mas para substituí-la antes mesmo que se estabilize.
Na
quarta-feira, 2 de abril de 2026, em um pronunciamento televisionado à nação a
partir da Casa Branca, Trump apresentou ao público americano — e,
inevitavelmente, ao mundo — uma versão triunfalista da guerra contra o Irã.
O
discurso ocorreu em um momento cuidadosamente escolhido: poucos dias após uma
operação arriscada que resultou no resgate de um militar americano em
território iraniano, conduzida com apoio da Central Intelligence Agency (CIA).
O cenário era, portanto, propício à construção de uma narrativa de força. E foi
exatamente isso que se viu.
Diante
das câmeras, Trump declarou, na prática, a derrota do Irã. Afirmou que sua
marinha havia sido destruída, que sua força aérea estava neutralizada, que seus
sistemas de defesa estavam “aniquilados”. A mensagem era clara: os Estados
Unidos haviam imposto sua superioridade de forma incontestável.
Mas o
que aconteceu nos dias posteriores não foi a consolidação dessa narrativa
alucinada — foi a sua dissolução.
Nos
dias que se seguiram ao pronunciamento de 2 de abril, esse padrão não apenas se
manteve — ele se intensificou. Entre 4 e 6 de abril, o presidente Donald Trump
voltou a alternar, em entrevistas e postagens públicas, entre menções vagas à
possibilidade de negociação e ameaças explícitas de novos bombardeios,
incluindo ataques a infraestruturas civis e energéticas caso suas exigências
não fossem atendidas. Prazos foram anunciados, modificados ou simplesmente
abandonados.
A
retórica oscilou entre o anúncio de uma vitória já consumada e a promessa de
uma escalada iminente. Não houve, portanto, continuidade ou consolidação da
posição apresentada no discurso inicial — apenas a sua substituição sucessiva
por novas versões, igualmente questionáveis.
Pouco
depois do discurso, surgiram relatos de resistência iraniana e de novos
confrontos. A guerra, que havia sido apresentada como próxima do fim, voltou a
ser descrita como um processo em aberto. Novas ameaças de bombardeios foram
feitas. Prazos foram anunciados e, em seguida, deslocados. A própria ideia de
negociação foi evocada ao mesmo tempo em que se prometia a escalada.
É nesse
movimento que se revela o padrão.
O
discurso do dia 2 de abril não pode ser compreendido apenas como uma peça de
comunicação voltada ao público interno americano. Tampouco se limita a uma
tentativa de demonstração de força no cenário internacional. Ele opera em uma
zona ambígua — fala simultaneamente para a audiência doméstica, para aliados e
para adversários, sem se fixar plenamente em nenhum desses planos.
Essa
ambiguidade não é um detalhe. Ela é constitutiva da forma como o poder vem
sendo exercido por Trump.
Ao
mesmo tempo em que busca reforçar a imagem de liderança diante do eleitorado
americano, o discurso projeta ameaças ao exterior sem oferecer qualquer
previsibilidade sobre sua execução. O resultado é um tipo de comunicação que
não estabiliza expectativas — pelo contrário, as fragmenta.
É
tentador interpretar essas idas e vindas como simples inconsistência. Mas essa
leitura subestima o fenômeno.
O que
se observa é a transformação da oscilação em método.
Ao
declarar a derrota de um adversário e, dias depois, admitir a continuidade da
guerra, não se trata apenas de erro de avaliação. Trata-se de um uso deliberado
da linguagem como instrumento de desorientação. Cada afirmação deixa de
construir uma linha de ação e passa a funcionar como um evento isolado,
desconectado do anterior.
Nesse
contexto, a palavra perde sua função tradicional na política internacional. Ela
deixa de sinalizar intenções, de orientar comportamentos, de permitir cálculo.
Passa a produzir ruído. E esse ruído não é periférico — ele se torna o próprio
ambiente em que decisões são tomadas.
O
episódio do resgate do militar americano é emblemático. Um fato, com alto valor
simbólico, é rapidamente incorporado a uma narrativa de vitória total. Mas essa
narrativa não se sustenta nem mesmo no curto prazo. Ela se dissolve à medida
que novos eventos contradizem suas premissas.
O
resultado é uma política externa que não acumula sentido ao longo do tempo. Ela
se reconfigura continuamente, sem coerência, sem continuidade e sem compromisso
com o que foi dito anteriormente.
E é
exatamente isso que a torna perigosa.
Não
apenas pela possibilidade de escalada militar, mas porque elimina um dos
elementos mais básicos da convivência internacional: a capacidade de
interpretar a palavra do outro como referência minimamente confiável.
Quando
isso desaparece, não é apenas a diplomacia que se fragiliza.
É a
própria possibilidade de coordenação entre países que entra em colapso.
O mundo
passa, assim, a operar não apenas sob o risco da guerra, mas sob algo mais
instável: a impossibilidade de antecipar o comportamento da principal potência
global. E, nesse cenário, a questão deixa de ser estratégica.
Ela se
torna quase elementar: o que, afinal, ainda pode ser levado a sério vindo do
presidente da maior potência militar do mundo?
Não por
acaso, começam a surgir leituras — ainda que cautelosas — de que Trump
atravessa um processo de desgaste que vai além da política cotidiana. Não se
trata apenas de perda de popularidade ou de críticas circunstanciais. Trata-se
de algo mais profundo: a percepção crescente de que sua liderança se apequena
diante da escala histórica dos desafios que enfrenta.
E
talvez seja justamente aqui que o contraste inicial retorna com toda a sua
força.
No
momento em que a humanidade demonstra ser capaz de organizar conhecimento,
tecnologia e cooperação internacional para expandir sua presença no espaço —
como evidencia o sucesso da Artemis II —, a principal potência do sistema
internacional revela dificuldades crescentes em sustentar algo muito mais
básico: coerência, previsibilidade e sentido na condução de suas ações.
A
história dificilmente será indulgente com esse descompasso.
Porque
entre ampliar os horizontes da humanidade e reduzi-los à lógica imediata do
conflito, não há ambiguidade possível.
Há
escolha.
• Entre o poder e o delírio, por Maria
Luiza Falcão
Donald
Trump atacou o Papa e o chamou de “fraco”. A resposta veio sem estridência:
Papa Leão XIV afirmou que não tem medo e voltou a denunciar as violações
promovidas por potências neocoloniais.
O
episódio, no entanto, não se esgota nesse confronto direto. Ele revela algo
mais profundo — um deslocamento na forma como o poder se apresenta e se
justifica no cenário contemporâneo.
Porque,
pela primeira vez de maneira tão explícita, Trump não apenas confronta
instituições ou lideranças: ele se projeta simbolicamente acima delas. A imagem
em que aparece como uma figura semelhante a Jesus Cristo, irradiando luz e
“curando” um doente, não pode ser tratada como um excesso isolado ou uma
simples provocação. Trata-se de um passo adiante, e um passo que precisa ser
levado a sério.
<><>
Da provocação à sacralização
Trump
sempre operou nos limites — e frequentemente além deles. Ao longo de sua
trajetória, atacou adversários, tensionou instituições, deslegitimou processos
e testou, de forma contínua, as fronteiras do discurso público. Também não
hesitou em confrontar lideranças religiosas — inclusive Papa Francisco — quando
estas ousaram criticar suas posições sobre guerra, migração e desigualdade.
Nada
disso é propriamente novo.
O que
se observa agora, contudo, não é apenas a repetição de um padrão, mas sua
transformação. Se antes predominava a provocação, seguida por um enfrentamento
institucional cada vez mais direto, o que emerge neste momento é algo
qualitativamente distinto: a tentativa de sacralizar o próprio poder.
Não se
trata mais apenas de disputar autoridade dentro de um sistema de regras.
Trata-se
de deslocar o próprio fundamento dessa autoridade.
<><>
O significado do gesto
Na
tradição cristã, a figura de Jesus Cristo não é apenas um símbolo religioso.
Ela representa um limite — ético, espiritual e, em última instância,
civilizacional.
Apropriar-se
dessa imagem, portanto, não é um gesto neutro.
É um
movimento que desloca o poder do campo da legitimidade institucional para o da
adesão simbólica. Sugere, ainda que de forma indireta, que a autoridade
política não precisa mais ser justificada por leis, instituições ou resultados
concretos, mas pode ser sustentada por uma construção que demanda
reconhecimento quase devocional.
Nesse
sentido, não se trata de convencer.
Trata-se
de produzir crença.
<><>
O padrão que se revela
Seria
um erro, portanto, tratar o episódio como mais uma controvérsia típica das
redes sociais.
Ele se
insere em um padrão mais amplo e coerente: declarações feitas sem qualquer
recuo, ataques sistemáticos a adversários, deslegitimação constante de
instituições e uma recusa reiterada em reconhecer erros.
A isso
se soma agora um elemento novo — ou, ao menos, mais explícito —: a incorporação
de símbolos religiosos como instrumento político.
Mas há
algo ainda mais revelador nesse processo. Não se trata apenas de uma
apropriação simbólica do cristianismo. Trata-se de uma postura recorrente de
desrespeito ao campo religioso como um todo, marcada tanto pelo deboche quanto
pela instrumentalização — e, em certos contextos, pela própria desumanização do
adversário.
No caso
da liderança iraniana, por exemplo, figuras centrais do clero xiita — como o
então líder supremo Aiatolá Ali Khamenei — passaram a ser tratadas no discurso
político e militar não como autoridades religiosas, mas como alvos
estratégicos. Em meio à escalada recente do conflito, ataques atingiram
inclusive círculos próximos à liderança, borrando de forma ainda mais profunda
as fronteiras entre guerra, política e o respeito ao sagrado.
Esse
tipo de linguagem — que oscila entre o deboche e a eliminação simbólica ou
concreta — não é episódico. Ele convive, de maneira reveladora, com a
construção de uma autoimagem grandiosa. Trump não apenas tensiona limites
institucionais: ele se apresenta, cada vez mais, como alguém que não reconhece
autoridade acima de si. Em certos momentos, flerta com a figura do “rei”; em
outros, com algo ainda mais extremo — uma autoridade que se aproxima do
absoluto.
Esses
elementos não aparecem de forma dispersa.
Eles
compõem um processo.
Um
processo no qual o poder se autonomiza, deixando progressivamente de responder
a limites externos e passando a operar como se estivesse acima de qualquer
mediação — seja ela política, jurídica ou moral.
<><>
O confronto como síntese
É nesse
contexto que o embate com Papa Leão XIV ganha um significado mais profundo.
De um
lado, um líder político que amplia continuamente o alcance de sua própria
autoridade, testando até onde pode avançar sem encontrar resistência efetiva.
De
outro, uma autoridade religiosa que, ao contrário do que se poderia esperar,
não recua. Ao reafirmar que não teme o presidente dos Estados Unidos, o Papa
não apenas responde a um ataque pessoal, mas recoloca no debate público a
necessidade de limites — ao denunciar a guerra, a violência e as práticas
associadas a potências de caráter neocolonial.
Não se
trata, portanto, de um embate entre indivíduos.
Trata-se
de um confronto entre concepções distintas de autoridade.
<><>
O que está em risco
O
problema, nesse cenário, não se restringe à figura de Trump.
Ele diz
respeito ao ambiente que permite que esse tipo de deslocamento ocorra sem
provocar rupturas mais profundas.
Porque,
quando o poder deixa de ser efetivamente questionado e passa a ser
progressivamente naturalizado, a própria política se transforma. As
instituições continuam existindo, mas perdem centralidade; o debate público
persiste, mas se esvazia; e a racionalidade cede espaço a formas de adesão
menos críticas.
<><>
A questão que permanece
Diante
disso, a pergunta central talvez não seja o que Trump fez.
Mas até
que ponto isso ainda nos surpreende.
Porque
a história sugere que o momento mais delicado não é aquele em que o absurdo
irrompe, mas aquele em que ele deixa de ser percebido como tal.
Fonte:
Jornal GGN

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