EUA:
Os furos no escudo nuclear
A
arquitetura de segurança nacional dos Estados Unidos atravessou uma
transformação fundamental com a promulgação da Ordem Executiva de 27 de janeiro
de 2025, que formalizou o projeto Golden Dome for America. Originalmente
concebido como uma versão doméstica e escalonada do sistema israelense Iron
Dome, o projeto evoluiu rapidamente para uma estratégia de defesa continental,
visando neutralizar não apenas ameaças regionais, mas também tornar obsoletas
as estratégias nucleares das grandes potências, como Rússia e China. Esta
mudança de paradigma aponta para o abandono definitivo da doutrina de
Destruição Mútua Assegurada (MAD) em favor de uma postura de dominância
estratégica, onde se busca a invulnerabilidade total do território
norte-americano através de uma infraestrutura de múltiplas camadas que integra
o espaço sideral, o domínio ciber-físico e o controle de recursos críticos no
Ártico.
A
viabilidade técnica do Golden Dome repousa sobre a transição de uma defesa
centrada em interceptadores terrestres para uma arquitetura baseada em ativos
posicionados na Órbita Terrestre Baixa (LEO). Formando a chamada Proliferated
Warfighter Space Architecture (PWSA), esses ativos são projetados para manter
uma “custódia persistente” sobre qualquer ameaça balística ou hipersônica
inimiga desde o momento do seu lançamento. Ao contrário dos sistemas de defesa
de meio curso, no qual um míssil inimigo é interceptado antes de seu mergulho
em direção ao alvo, a estratégia do Golden Dome prioriza uma interceptação
precoce, na fase de impulso: durante os seus primeiros três a cinco minutos de
voo, um míssil é um alvo muito vulnerável, porque emite uma assinatura
infravermelha massiva, detectável pelos sensores. Já em meio curso, uma ogiva
inimiga é protegida pelo chamado “problema da discriminação”: é dificil
distinguí-la de outros objetos lançados propositalmente pelo oponente (iscas),
com objetivo de confundir as defesas.
A
natureza dupla do Golden Dome é um dos seus aspectos mais estratégicos e,
simultaneamente, desestabilizadores. Embora apresentado como um sistema
defensivo, ele confere aos Estados Unidos uma capacidade nitidamente ofensiva,
pois visa inutilizar o poder de ataque do adversário antes que seus projéteis
ganhem alguma altitude, utilizando para isso plataformas de precisão como o
veículo de planeio Common-Hypersonic Glide Body (C-HGB). Com um custo de
aquisição de US$ 41 milhões por unidade, o C-HGB é capaz de atingir alvos com
uma precisão de 14 polegadas, podendo ser lançado a partir de plataformas
orbitais que eliminariam as fronteiras geopolíticas tradicionais e reduziriam
drasticamente o tempo disponível para a reação do adversário. Assim, a
capacidade de neutralizar uma ofensiva nuclear inimiga daria aos Estados Unidos
um poder de first strike assimétrico.
Entretanto,
a eficácia total desta estratégia é diretamente proporcional à densidade da
constelação de satélites que fornece dados para que os interceptadores
encontrem sua presa. E esta densidade introduz um problema logístico conhecido
como a “razão de ausência”: como os satélites na Órbita Terrestre Baixa se
movem a altas velocidades em relação à Terra, apenas uma pequena fração da
frota total está posicionada sobre um ponto de lançamento específico em um dado
momento. Para garantir a neutralização de uma salva massiva de mísseis
inimigos, lançados de um mesmo ponto, seriam necessárias centenas de milhares
de interceptadores espaciais, o que elevaria os custos e a complexidade do
sistema a patamares sem precedentes na história militar.
Então,
nada no projeto é simples. O financiamento e a sustentabilidade do Golden Dome,
por exemplo, exigiriam uma mudança radical nos modelos de aquisição militar do
Pentágono. O modelo “Anything-as-a-Service” (XaaS), visado como base
desustentação do Golden Dome, é uma abordagem de aquisição em que o governo
paga pelo acesso a uma funcionalidade ou ao resultado final, em vez de comprar,
possuir e operar o hardware ou software subjacente. Ele difere do modelo
tradicional, em que o governo compra um produto e assume a responsabilidade por
sua manutenção e atualização. Como os satélites pretendidos na Órbita Baixa são
considerados “munições perecíveis” devido à rápida decomposição orbital (não
permanecem em uma órbita plenamente estável), devem ser repostos em um ciclo
contínuo, exigindo contratos flexíveis com os provedores privados. Então, o
aspecto de “assinatura de serviços” do XaaS, se por um lado agiliza a aquisição
militar, por outro, torna o Departamento de Defesa politicamente vulnerável à
ação dos gigantes do setor de tecnologia, como a SpaceX, a Anduril Industries e
a Palantir.
Além
disso, a viabilidade operacional do Golden Dome não é apenas uma questão de
algoritmos e lasers, mas também de geografia física e controle de recursos
naturais. O Ártico, e especificamente a Groenlândia, tornou-se o epicentro
terrestre do projeto. A Base Espacial norte-americana de Pituffik funciona como
o único nó capaz de centralizar as comunicações com todos os planos orbitais
empregados na Órbita Baixa pelas planejadas constelações de satélites do Golden
Dome, aproveitando uma janela atmosférica única de baixa umidade que permite o
uso de lasers (links ópticos) para a transmissão massiva de dados necessários
para interceptações hipersônicas em tempo real. Isso sem falar da busca de
total controle sobre o depósito de Tanbreez, que fornece tântalo, nióbio e
zircônio, necessários para a produção de cerâmicas de temperatura ultra-alta
(ZrB2). Sem esses materiais, as armas e interceptadores americanos não
sobreviveriam às tensões térmicas de reentrada atmosférica em velocidades
hipersônicas.
A busca
americana por invulnerabilidade vem ainda provocando uma reação proporcional de
seus rivais, através de estratégias que visam evitar o arco de vigilância do
Golden Dome, caso seja posto em operação. A Rússia vem priorizando o
desenvolvimento do drone subaquático de propulsão nuclear “Poseidon”, que opera
em profundidades oceânicas não rastreáveis pelos satélites, enquanto a China
opera seu próprio sistema de bombardeio orbital fracionado (FOBS) com
habilidade de atacar por rotas inesperadas, como o Polo Sul, contornando os
sensores americanos tradicionalmente orientados para o Polo Norte. Além disso,
vem sendo buscada persistentemente a redução do tempo de queima de combustível
durante o lançamento de mísseis, de modo a diminuir a janela de detecção
infravermelha por sensores orbitais.
Por
fim, a vulnerabilidade física dos ativos espaciais continua sendo um ponto
fraco explorável. Mísseis antissatélite (ASAT) de baixo custo poderiam destruir
constelações de ativos orbitais que custaram milhões, criando lacunas no escudo
protetor do Golden Dome capazes de ser exploradas por salvas de mísseis
subsequentes. O custo-benefício desta troca favorece o atacante: é
financeiramente mais barato saturar e destruir partes da rede orbital do que
mantê-la e repô-la continuamente.
O
projeto Golden Dome, assim, representa o maior esforço tecnológico da história
militar americana para alcançar a segurança absoluta, mas sua viabilidade é
questionada por limitações físicas persistentes. Além disso, os riscos
geopolíticos gerados por sua implementação são imensos. A integração de
Inteligência Artificial para a tomada autônoma de decisões em órbita,
eliminando a latência de confirmação humana no solo (onde entra o projeto para
a construção de datacenters no espaço, anunciado recentemente por Musk), cria
um ambiente onde uma falha de software ou um falso positivo de sensor pode
desencadear um conflito de escala global.
A
manutenção deste sistema, estimada em trilhões de dólares ao longo das próximas
décadas, colocaria os Estados Unidos em uma posição delicada. A necessidade de
lançamentos espaciais frequentes para substituir ativos orbitais rapidamente
depreciados exigiria uma economia de guerra contínua sem nunca garantir a
segurança total que o projeto se propõe a entregar. No final, o Golden Dome
pode se provar menos como um escudo impenetrável e mais como um acelerador de
uma nova e perigosa corrida armamentista que desafia os limites da física e da
diplomacia.
Fonte:
Por Daniel Barreiros, em Outras Palavras

Nenhum comentário:
Postar um comentário