O
perigo não é a repetição de Bolsonaro – é sua adaptação
Há algo
em curso na reorganização recente do bolsonarismo que escapa às leituras mais
imediatas e, sobretudo, às categorias com as quais ele foi inicialmente
interpretado. Não se trata de uma ruptura, tampouco de um enfraquecimento
automático decorrente do desgaste acumulado dos últimos anos, mas de um
movimento mais complexo de adaptação, no qual o núcleo do projeto permanece
intacto enquanto sua forma de expressão passa por um processo de recalibragem.
Menos ruído, mais cálculo; menos choque permanente, mais capacidade de
circulação; não necessariamente menos radical, mas potencialmente mais
funcional.
O
bolsonarismo que emergiu em 2018 operava em confronto aberto não apenas com
adversários políticos, mas com a própria gramática pública que organizava o
debate. O ataque sistemático ao chamado “politicamente correto”, a construção
de uma narrativa permanente contra uma suposta “patrulha ideológica” e a recusa
deliberada de mediações institucionais não eram apenas traços de estilo, mas
dispositivos centrais de mobilização. Jair Bolsonaro não apenas tensionava as
instituições; ele tensionava a própria linguagem política, criando um campo de
identificação que se alimentava da transgressão contínua, da agressividade como
autenticidade e da simplificação como forma de acesso direto ao senso comum.
Foi
nesse terreno que o campo progressista falhou em barrar, naquele momento, um
processo de regressão política que se apresentava como ruptura. A eleição de
2018 abriu um ciclo que exigiu, anos depois, um esforço colossal para ser
contido. Foram quatro anos de instabilidade institucional, corrosão deliberada
de políticas públicas, ameaças reiteradas à ordem democrática e uma condução da
pandemia que resultou em mais de 700 mil mortes, muitas delas evitáveis. Ainda
assim, a reversão desse processo demandou tudo e mais um pouco, o que deveria,
em tese, ter produzido uma leitura mais aguda sobre a natureza do fenômeno
enfrentado.
Mas o
que se observa agora é um deslocamento que não tem sido plenamente captado. O
bolsonarismo deixou de ser novidade, deixou de operar apenas pela ruptura e
passou a se colocar diante de um dilema típico de projetos que sobrevivem ao
choque inicial: ou se cristaliza na forma que o originou e paga o preço da
saturação, ou reorganiza sua forma de atuação para ampliar sua capacidade de
permanência. É nesse ponto que a figura de Flávio Bolsonaro ganha centralidade,
não como simples extensão da liderança do pai, mas como vetor de uma transição
que pode redefinir o modo de operação daquele campo político.
Há, na
leitura corrente, uma tendência a interpretar Flávio como derivação de uma
situação de limite de Jair Bolsonaro, como se sua projeção fosse resultado de
um movimento defensivo. Essa leitura desconsidera a janela de oportunidade que
se abre quando um projeto político já consolidado passa a contar com uma figura
que opera com maior previsibilidade, disciplina discursiva e capacidade de
adaptação. Não se trata de substituir o pai, mas de reorganizar o mesmo
conteúdo em uma forma potencialmente mais eficiente.
O que
se observa é um deslocamento de forma que não implica deslocamento de conteúdo.
A guerra cultural permanece como eixo estruturante, assim como o alinhamento
com a direita estado-unidense, a leitura conspiratória das instituições e a
construção permanente de antagonismos simplificados. No entanto, a maneira como
esses elementos são apresentados tende a se ajustar a diferentes públicos,
reduzindo atritos superficiais sem alterar o núcleo. Trata-se de um movimento
de ampliação de viabilidade política.
Essa
operação ganha densidade quando observada em sua dimensão geopolítica. Ao se
posicionar como interlocutor da direita estado-unidense, ao incorporar
categorias consolidadas no repertório político internacional e ao apresentar o
Brasil como peça estratégica em cadeias de valor ligadas a minerais críticos,
segurança alimentar e reposicionamento produtivo frente à China, Flávio não
apenas reproduz discursos; ele tenta inserir o bolsonarismo em uma arquitetura
mais ampla de poder. Não se trata apenas de alinhamento ideológico, mas de
tentativa de reposicionamento do país em uma lógica geopolítica na qual
soberania se reconfigura como adesão estratégica.
Diferentemente
de Jair Bolsonaro, cuja inserção internacional se dava muitas vezes de forma
errática, Flávio ensaia uma atuação mais coordenada, ainda que limitada, em
circuitos políticos transnacionais. Essa diferença indica uma passagem de um
populismo predominantemente doméstico para uma tentativa de integração em redes
globais de poder, nas quais a extrema direita opera com crescente articulação.
No
plano interno, a tentativa de reconfiguração estética acompanha esse movimento.
A rigidez discursiva cede espaço, em determinados momentos, a uma performance
mais adaptada às linguagens digitais, buscando ampliar alcance e reduzir
rejeição. Ainda que essa operação nem sempre produza autenticidade, o ponto
central é que há uma tentativa consciente de ampliação da zona de
aceitabilidade.
É nesse
ponto que a análise política precisa se deslocar. Porque o risco não está na
repetição do que já foi enfrentado, mas na possibilidade de que o mesmo projeto
adquira maior capacidade de circulação ao ajustar sua forma. Um projeto não
precisa radicalizar mais para se tornar mais eficaz; pode, ao contrário,
ampliar sua capacidade de penetração ao tornar-se mais viável.
Até que
ponto a insistência em ler o bolsonarismo a partir de sua expressão mais
caricatural não impede a percepção de sua capacidade de adaptação? Até que
ponto a ideia de que sua força dependia exclusivamente da figura de Jair
Bolsonaro obscurece a possibilidade de reorganização sob outra liderança? E,
sobretudo, até que ponto a leitura de Flávio Bolsonaro como mera extensão de um
ciclo esgotado não subestima a janela de oportunidade aberta pela combinação
entre continuidade ideológica e maior racionalidade política?
Se a
política é disputa de futuro, o maior erro pode não ser subestimar o
adversário, mas insistir em combatê-lo apenas como ele foi — e não como ele
está tentando se tornar.
Fonte:
Por Edgar Silva dos Anjos, em Outras Palavras

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