Reino
Unido se prepara para escassez de comida causada por guerra no Irã
O Reino
Unido poderá enfrentar escassez de alimentos nos próximos meses, incluindo
carne de frango e porco, caso a guerra dos Estados Unidos e Israel contra o Irã
prossiga em um cenário de pior caso, conforme avaliado pelas autoridades do
governo do país.
Uma
fonte declarou à BBC que o governo britânico estuda um cenário que envolveria o
fechamento contínuo do estreito de Ormuz e o colapso do fornecimento de dióxido
de carbono. O CO₂ é empregado no abate de certos animais e na preservação de
alimentos.
Um
porta-voz do Departamento do Meio Ambiente, Alimentação e Assuntos Rurais
afirmou que o órgão continuará a trabalhar em conjunto com as empresas para
combater os impactos da guerra.
"Os
cenários de pior caso razoáveis são uma ferramenta de planejamento empregada
pelos especialistas, não uma previsão de eventos futuros", destacou ele.
Líderes
do setor alimentício indicaram que sua maior preocupação é com os possíveis
aumentos de preços, mais que com a escassez.
O
Conselho Aviário Britânico declarou estar "tranquilizado" com o
estabelecimento de contingências para o CO₂ por parte do governo britânico,
caso os efeitos da guerra se estendam a este ponto.
"Nossos
membros não relataram dificuldades até aqui, mas estamos acompanhando de perto
a situação", segundo o executivo-chefe da organização, Richard Griffiths.
Já o
Consórcio Varejista Britânico afirmou esperar que o governo "esteja
elaborando planejamento de contingência para todos os cenários".
O
organismo destacou que os varejistas têm experiência na administração de
interrupções da cadeia de abastecimento.
"Mas
a situação no Oriente Médio continua a aumentar as pressões inflacionárias, em
um momento em que os varejistas já enfrentam aumentos significativos de custos
com as políticas domésticas", segundo o consórcio.
Em
entrevista à rede de TV britânica Sky News, o secretário britânico dos
Negócios, Peter Kyle, afirmou que a disponibilidade de dióxido de carbono não é
uma preocupação para a economia britânica "por enquanto".
"Neste
momento, as pessoas devem ficar onde estão", declarou ele.
O
diretor da rede varejista britânica Tesco, Ken Murphy, afirmou que não há
problemas de disponibilidade de alimentos, depois da publicação dos planos de
contingência pelo jornal britânico The Times.
Segundo
ele, até agora, nenhum dos seus produtores, fornecedores e fabricantes elevou
seus riscos de abastecimento.
"Não
estamos observando nenhum problema na nossa cadeia de abastecimento por
enquanto", segundo Murphy. "Não observamos problemas de
disponibilidade. Estamos em uma posição muito boa."
Ele não
comentou sobre o que pode acontecer com os preços dos alimentos. "Não
sabemos o que irá acontecer, pois claramente esta é uma situação volátil e
imprevisível."
Os
preços da gasolina e do óleo diesel dispararam desde que os Estados Unidos e
Israel lançaram amplos ataques ao Irã, no dia 28 de fevereiro, e o Irã bloqueou
efetivamente o estreito de Ormuz, uma via fundamental para o transporte de
petróleo e gás.
O
bloqueio iraniano levou ao aumento global dos custos de combustíveis e
fertilizantes, que são insumos fundamentais para a produção de alimentos.
Em
março, o governo britânico decidiu beneficiar os estoques críticos de dióxido
de carbono do país, religando temporariamente a usina de bioetanol Ensus, que
estava inativa desde setembro.
A
indústria fabrica bioetanol, que produz CO₂. Ela foi fechada quando o governo
britânico fechou um acordo comercial com os Estados Unidos, para retirar a
tarifa de importação sobre o etanol americano no Reino Unido.
Um
porta-voz da Ensus declarou à BBC que "estamos confiantes de poder
continuar produzindo CO₂ para atender às necessidades do país no futuro
próximo".
O
presidente da Comissão Nacional de Prontidão, Toby Harris, afirmou que o
panorama mundial significa que "precisamos nos preparar para o
inesperado".
"A
probabilidade é que os choques deste tipo se tornarão mais comuns e frequentes
no futuro. Por isso, quanto mais testarmos como iremos administrar diversos
tipos de cenário, melhor", declarou ele à BBC Rádio 4.
O
editor de comércio internacional da revista The Grocer, Kevin White, chamou o
uso de CO₂ na cadeia de abastecimento de alimentos de "o insumo que
ninguém conhece, nem se preocupa com ele, até que algo dá errado".
Ele
declarou à BBC que é "a inflação dos alimentos é praticamente
inevitável".
"Fornecedores,
agricultores, transportadores... operadores logísticos, eles têm uma margem
estreita e, realmente, não podem absorver grandes choques de preços. É isso que
causa inflação."
"Sem
alarmismo, acho que é quase inevitável que os choques dos preços da energia e a
interrupção da cadeia de abastecimento que estamos observando... irão meio que
alimentar a inflação dos alimentos e bebidas", destacou White.
No
início da semana, o Fundo Monetário Internacional (FMI) alertou que a guerra
poderá fazer a economia mundial mergulhar na recessão. E o Reino Unido seria o
país mais atingido, dentre as economias mais avançadas do mundo.
A União
Nacional dos Agricultores do Reino Unido declarou que o preço do pepino e do
tomate no país poderá aumentar nas próximas seis semanas e que o custo de
outros produtos e do leite deve subir nos próximos três a seis meses.
Já a
Federação de Alimentos e Bebidas britânica afirmou à BBC que sua previsão é que
a inflação dos alimentos atinja pelo menos 9% até dezembro deste ano.
O chefe
do setor de fertilizantes da Confederação das Indústrias Agrícolas (AIC, na
sigla em inglês), Jo Gilbertson, alertou que, se os agricultores deixarem de
fazer pedidos antecipados de fertilizantes devido ao aumento dos preços, poderá
haver impactos sobre as "decisões de plantio no outono" do hemisfério
norte.
"É
assim que haverá uma possível crise alimentar, se o custo do fertilizante e do
combustível for alto demais", declarou ele à BBC.
O
presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, indicou que as discussões para o
fim da guerra no Irã poderão ser retomadas esta semana, após o colapso das
negociações do último fim de semana, que levou os Estados Unidos a bloquear os
portos iranianos.
Na
quarta-feira (15/4), a encarregada do Tesouro britânico, Rachel Reeves, afirmou
que os Estados Unidos cometeram um "erro" ao pôr fim às negociações
diplomáticas com o Irã e dar início ao conflito militar.
Fonte:
BBC News

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