sexta-feira, 17 de abril de 2026

GUERRA NO IRÃ: O Brasil diante de um conflito em que não pediu para entrar

Em 28 de fevereiro de 2026, Estados Unidos e Israel iniciaram uma ofensiva contra o Irã sem declaração formal de guerra, sem coalizão de aliados e sem qualquer tentativa de enquadramento multilateral. O presidente Donald Trump havia declarado publicamente que os Estados Unidos poderiam atacar a ilha de Kharg mais algumas vezes por pura diversão. Essa frase, por sua brutalidade deliberada, merece ser lida com seriedade analítica: ela assinala a substituição da legitimidade como categoria operacional da política externa norte-americana pela demonstração nua de capacidade coercitiva.

É o fim de uma era, e o Brasil, como o restante do Sul Global, foi apanhado sem estar pronto. O que a guerra no Irã expõe não é apenas a crise do multilateralismo ou a decadência de uma ordem liberal que já vinha se erodindo há anos. Expõe, de forma acelerada, as contradições específicas da inserção internacional do Brasil: um país que cultivou durante décadas a reputação de mediador pacífico e universalista, mas que nunca converteu essa reputação em capacidade real de influência sobre o comportamento dos grandes atores.

<><> Autofagia da hegemonia

Há um paradoxo no comportamento norte-americano que a teoria das relações internacionais ajuda a nomear com precisão. A hegemonia dos Estados Unidos no pós-1945 não foi construída apenas sobre tanques e porta-aviões e sim sobre a capacidade de fazer com que outros países aceitassem as regras do jogo como legítimas, não apenas como impostas. O cientista político norte-americano Joseph Nye chamou isso de poder inteligente: a combinação entre a coerção que compele e a atração que convence.

A ruptura normativa operada pela administração Trump é uma redução mensurável da capacidade de influência norte-americana de longo prazo, porque substitui atração por coerção em um sistema em que a coerção pura eleva os custos sem produzir adesão. No entanto, essa ruptura normativa também é estratégica precisamente porque reflete uma adaptação realista a um cenário de declínio relativo e crise interna. Quando as fontes tradicionais de hegemonia como liderança econômica inconteste, superioridade tecnológica absoluta, atratividade ideológica e legitimidade institucional se sofrem erosão, o que resta como ativo comparativo decisivo é o poderio militar inigualável. A ruptura normativa, nesse sentido, não é um acidente ou um capricho ideológico; é uma opção calculada de converter supremacia militar em moeda de influência imediata, ainda que à custa do capital de longo prazo.

Mesmo que essa estratégia de erosão da normativa tenha funcionado em outras operações, nominalmente o sequestro de Maduro, ela é estruturalmente limitada quando transposta para conflitos de alta densidade estratégica, como o caso iraniano. Em contextos nos quais o alvo possui autonomia material, capacidade de retaliação e lastro externo, seja em alianças, seja em vínculos econômicos vitais para terceiros, a coerção deixa de ser um instrumento de imposição e passa a operar como catalisador de contra-alinhamentos.

Por exemplo, a tentativa norte-americana de recrutar aliados para garantir a passagem pelo Estreito de Ormuz fracassou diante da recusa dos próprios membros da Otan. O Conselho de Segurança da ONU, reunido em sessão de emergência após os primeiros ataques à ilha de Kharg, registrou quatorze dos quinze membros em posição contrária a Washington. O estrategista chinês Sun Tzu advertia que aquele que não conhece a realidade dos Estados vizinhos não pode fazer alianças oportunas. Exatamente o que ocorreu com os Estados Unidos, que foram ao campo de batalha sem ter construído as alianças que sua estratégia pressupunha.

Ao subverter o sistema multilateral que historicamente ampliou seu poder, Washington não está praticando uma forma alternativa de hegemonia. Está praticando autofagia. A questão que se impõe – e que o Brasil precisaria responder com instrumentos que ainda não possui – é o que fazer com o vácuo de liderança que esse processo está produzindo.

<><> O Irã e o custo que não se paga sozinho

A morte do aiatolá Khamenei na primeira onda de ataques norte-americanos removeu o centro gravitacional do sistema de tomada de decisão iraniano e precipitou uma ruptura que nenhum modelo de escalada controlada havia antecipado. O Irã passou de uma estratégia de contenção calibrada, baseada em redes de procuradores, diplomacia do limiar nuclear e sinalização assimétrica, para uma escalada qualitativa que reconfigurou o próprio conflito. Novamente, Sun Tzu ensina que a guerra é vencida quando se conhece o inimigo e a si mesmo, e aqui o desconhecimento do inimigo culminou em erro estratégico de cálculo cultural e simbólico que transformou a natureza do conflito. Os Estados Unidos conheciam profundamente sua própria capacidade de destruição e a ordem de batalha iraniana, mas falharam em compreender a psicologia política e a resiliência identitária do Irã, bem como seu papel como líder regional.

Posteriormente, o ataque ao complexo de Ras Laffan, no Catar, o maior produtor mundial de gás natural liquefeito, responsável por cerca de um quinto do consumo global de GNL, foi a expressão mais consequente dessa reconfiguração. A Agência Internacional de Energia informou que os danos à infraestrutura de liquefação eram de difícil reparo no curto prazo, com equipamentos cujo tempo de fabricação é estimado entre dois e quatro anos.

O Irã demonstrou que sua desvantagem militar convencional pode ser compensada por ações de guerra econômica capazes de impor custos permanentes não apenas ao adversário imediato, mas a toda a arquitetura energética global. Ao deslocar o foco do campo de batalha para o controle dos fluxos de petróleo, de seguros marítimos e de rotas comerciais, Teerã mostrou que pode transformar o Estreito de Ormuz em um choke point político. Por exemplo, ao oferecer passagem pelo Estreito de Ormuz apenas a países árabes e europeus que expulsassem de seus territórios os embaixadores dos Estados Unidos e de Israel, a Guarda Revolucionária iraniana converteu uma rota marítima vital em instrumento explícito de alinhamento político condicionado.

Há, nesse movimento, uma lógica clausewitziana que seria equivocado ler como perda de controle. A guerra, como Clausewitz, advertia, tende a escapar ao controle dos atores que a iniciam. Mas o que o Irã fez foi deliberado: ao redistribuir o custo do conflito por múltiplos atores, Teerã ampliou os pontos de pressão sobre Washington e forçou uma recalibração regional. O problema é que essa redistribuição de custos não escolhe seus destinatários com cuidado. O Brasil está entre eles.

No interior da tradição política iraniana, há uma dimensão que os formuladores de política nos Estados Unidos sistematicamente subestimaram. A morte de Khamenei foi lida por amplos setores da sociedade iraniana através do paralelo com a Batalha de Karbala e a figura do Imam Hussein, morto cercado, em minoria absoluta, recusando-se a jurar lealdade a um inimigo ilegítimo. Khamenei morreu durante o mês sagrado do Ramadã, sob escombros produzidos por um ataque aéreo norte-americano e israelense, o que reforçou a leitura de martírio. Ao transformar uma operação tática em um evento de alto conteúdo simbólico, Washington converteu a eliminação de uma liderança em vetor de coesão adversária. O que se pretendia como neutralização produziu rearticulação.

<><> O que o conflito faz com o Brasil

O Brasil é praticamente autossuficiente em petróleo. Mas isso, com certeza, não o protege totalmente. A matriz logística brasileira é predominantemente rodoviária, e qualquer alta no preço do diesel se transmite imediatamente ao custo de frete e ao preço final de toda a cadeia de distribuição. O segundo canal é o dos fertilizantes: o país importa parcela substancial dos insumos utilizados pela agroindústria, setor que representa aproximadamente um quinto do PIB. A Confederação Nacional da Agricultura estimou, em nota técnica de março de 2026, impacto de 12% a 18% nos custos de produção agrícola para a safra seguinte, caso a alta dos fertilizantes se mantivesse por mais de três meses. O terceiro canal é monetário: a pressão inflacionária importada reduz o espaço para cortes na taxa Selic, limitando a política econômica doméstica a partir de decisões tomadas em Teerã, Ras Laffan e Washington.

Essa cadeia de transmissão é a evidência mais concreta de algo que o debate de política externa brasileiro frequentemente evita nomear: o sistema internacional chegou a um grau de interdependência em que a distância geográfica não neutraliza a exposição. Um conflito no Golfo Pérsico determina a taxa básica de juros, o preço do fertilizante para o agricultor do Cerrado e o futuro de alianças diplomáticas construídas ao longo de décadas. A questão não é se o Brasil será afetado: é se o Brasil tem instrumentos para responder.

<><> A Declaração de Teerã como espelho

Em audiência na Câmara dos Deputados em março de 2026, o chanceler Mauro Vieira evocou a Declaração de Teerã de 2010 como prova de que o Brasil havia chegado perto de uma solução diplomática que poderia ter evitado o conflito atual. O argumento merece ser levado a sério, e depois submetido à crítica que ele próprio exige.

Em maio de 2010, Brasil e Turquia articularam um acordo que previa o envio de 1.200 quilogramas de urânio iraniano levemente enriquecido para território turco em troca de combustível nuclear, sob supervisão da AIEA. O acordo foi rejeitado pelos membros permanentes do Conselho de Segurança, e a Resolução 1929, aprovada em junho daquele ano com votos contrários de Brasil e Turquia, impôs novas sanções ao Irã. As grandes potências entenderam que a Declaração de Teerã não limitava o enriquecimento contínuo, não previa inspeções efetivas e não dispunha de mecanismos de aplicação.

O episódio de 2010 demonstrou duas coisas ao mesmo tempo. Que o Brasil possui capital diplomático suficiente para ser aceito como intermediário em conflitos de alta intensidade. E que esse capital não é suficiente para garantir o cumprimento de acordos nem para impor custos ao descumprimento. Sem capacidade de pressão estratégica autônoma – militar, econômica ou tecnológica – o Brasil pode facilitar comunicação entre as partes, mas não pode ancorar nenhum resultado.

Na linguagem de Joseph Nye, a Declaração de Teerã foi uma iniciativa de poder brando bem-sucedida em sua dimensão simbólica e fracassada em sua dimensão prática, porque o Brasil não dispunha dos elementos de poder duro que teriam tornado a adesão dos demais atores racionalmente obrigatória.

O poder brando (soft power) é a capacidade de um ator influenciar o comportamento dos outros não pela força ou pela compra, mas pela atração, pela credibilidade de seus valores, pela legitimidade de suas posições, pela reputação que acumulou ao longo do tempo. Quem exerce poder brando não obriga: convence, inspira, ou simplesmente ocupa um espaço de confiança que outros atores reconhecem e respeitam.

Já o poder duro (hard power), por sua vez, é a capacidade de coagir ou induzir pelo uso ou ameaça da força militar e pela pressão econômica, ou seja, sanções, tarifas, bloqueios, arsenais. É o poder que diz: se você não fizer isso, haverá um custo concreto e imediato para você.

No caso da Declaração de Teerã, o Brasil chegou à mesa de negociação com muito poder brando: tinha reputação de país pacífico, sem bombas atômicas, sem histórico de interferência, sem agenda colonial na região, com relações funcionais com Teerã e com Washington ao mesmo tempo. Isso lhe deu acesso: foi aceito como intermediário onde potências maiores não conseguiam entrar sem custo. Nesse sentido, a iniciativa foi bem-sucedida.

O problema apareceu depois. Para que um acordo seja cumprido, não basta que as partes concordem no momento da assinatura. É preciso que o descumprimento tenha um preço. E para impor esse preço, é necessário poder duro: capacidade militar, peso econômico, tecnologia estratégica, presença em organismos capazes de aplicar sanções. O Brasil não tinha nada disso em relação ao programa nuclear iraniano. Se o Irã descumprisse o acordo, Brasília não poderia fazer absolutamente nada além de protestar – e todo mundo sabia disso, inclusive o Irã e as potências ocidentais que rejeitaram a declaração.

Em resumo: o poder brando abre portas, cria confiança e viabiliza conversas impossíveis para outros. Mas não sustenta acordos sozinho. Quando o que está em jogo é suficientemente grande, como um programa nuclear, os atores calculam se há algo a perder caso descumpram. E se a resposta for não, o acordo não tem peso real, por mais bem intencionado que seja quem o mediou.

Voltando à crise de 2026, ela repõe o problema em escala maior. A posição simultânea do Brasil como membro dos Brics, que incorporou o Irã na Cúpula de Kazan de 2024, e como parceiro estratégico dos Estados Unidos cria uma ambiguidade que, em momentos de alta polarização, pode ser interpretada por ambos os lados como cumplicidade com o adversário. A indecisão sobre a visita de Lula a Trump, mantida em suspenso pelo Planalto, exemplifica uma política externa que reage às circunstâncias em vez de antecipá-las.

<><> O Brics e a ilusão do bloco coeso

O conflito EUA-Israel-Irã é também um teste de coerência institucional para os Brics, e o resultado, até agora, é a confirmação de que o bloco ainda não desenvolveu os mecanismos para gerir conflitos quando as agendas e objetivos econômicos e políticos de seus membros divergem de forma aguda.

A Rússia, exportadora de hidrocarbonetos, beneficia-se diretamente da alta dos preços de energia. A China sofre com a volatilidade, embora seus navios gozem de passagem pelo Estreito de Ormuz. A Índia, com acesso privilegiado ao porto iraniano de Chabahar e parcerias simultâneas com Washington, Tel Aviv e Teerã, é forçada a escolhas que o formato do Brics não oferece mecanismos para intermediar. O bloco que incorporou o Irã em Kazan é o mesmo que inclui uma potência que mantém relações estratégicas com Israel e outra que depende do sistema financeiro que sanciona Teerã.

A presidência brasileira dos Brics em 2025 poderia ter servido como momento de afirmação estratégica. Acabou marcada por uma condução contida, que reduziu ênfase em temas como a desdolarização e priorizou agendas menos controversas. Preservou relações com atores externos ao bloco, mas ao custo de limitar a capacidade dos Brics de atuar como polo autônomo. O legado foi uma liderança protocolar que, diante da escalada atual, deixou o Brasil sem instrumentos para gerir o que ajudou a estabilizar superficialmente.

<><> O que o Brasil poderia fazer – e o que lhe falta para fazê-lo

A crise cria oportunidades que o Brasil tem condições estruturais de identificar, mesmo que não tenha ainda os instrumentos para aproveitá-las plenamente. A mediação humanitária (a condenação de ataques à infraestrutura civil, a defesa de corredores humanitários) é uma posição que o Itamaraty pode sustentar com credibilidade normativa, sem custo diplomático elevado junto a nenhum dos polos do conflito.

O reposicionamento energético, com as reservas do pré-sal e a capacidade em renováveis, abre espaço para o Brasil se apresentar como fornecedor alternativo confiável a parceiros asiáticos e europeus afetados pela instabilidade do Golfo. A agenda de reforma da arquitetura de segurança coletiva, na qual a proposta brasileira de reforma do Conselho de Segurança obteve apoio de 126 países em novembro de 2024, ganha urgência e legitimidade com o conflito atual.

O problema é que todas essas oportunidades pressupõem condições que o Brasil ainda não satisfaz. A desindustrialização das últimas décadas reduziu a base econômica do poder do país. O subfinanciamento das Forças Armadas limita a projeção regional. A dependência tecnológica em setores críticos cria vulnerabilidades que a atividade diplomática não compensa. O relatório do Ipea sobre inserção internacional brasileira, publicado em 2025, identificou que a participação do país nos mercados globais de manufaturados de média e alta tecnologia havia recuado ao patamar de 1995.

Maquiavel advertia que a mediação exige algo mais do que a enunciação de princípios: pede a construção de poder suficiente para que a recusa das partes a ela seja percebida como um custo real. O Brasil enuncia os princípios corretos. Mas ainda não construiu o poder que os tornaria obrigatórios. Essa é a contradição central que o conflito EUA-Israel-Irã expõe com urgência.

A vacância de liderança internacional criada pela autofagia estratégica norte-americana é um dado da realidade e o Brasil tem condições estruturais de ocupá-la. Mas entre ter condições e ter capacidade há um intervalo que não se fecha com discursos diplomáticos, por mais bem articulados que sejam. Fechá-lo é a tarefa que o conflito, ao chegar ao Cerrado pelo preço do fertilizante, tornou impossível de adiar.

 

Fonte: Por Sávia Lorena Barreto Carvalho de Sousa  e Isabela Rocha-Dashicheva, no Le Monde

 

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