GUERRA
NO IRÃ: O Brasil diante de um conflito em que não pediu para entrar
Em 28
de fevereiro de 2026, Estados Unidos e Israel iniciaram uma ofensiva contra o
Irã sem declaração formal de guerra, sem coalizão de aliados e sem qualquer
tentativa de enquadramento multilateral. O presidente Donald Trump havia
declarado publicamente que os Estados Unidos poderiam atacar a ilha de Kharg
mais algumas vezes por pura diversão. Essa frase, por sua brutalidade deliberada,
merece ser lida com seriedade analítica: ela assinala a substituição da
legitimidade como categoria operacional da política externa norte-americana
pela demonstração nua de capacidade coercitiva.
É o fim
de uma era, e o Brasil, como o restante do Sul Global, foi apanhado sem estar
pronto. O que a guerra no Irã expõe não é apenas a crise do multilateralismo ou
a decadência de uma ordem liberal que já vinha se erodindo há anos. Expõe, de
forma acelerada, as contradições específicas da inserção internacional do
Brasil: um país que cultivou durante décadas a reputação de mediador pacífico e
universalista, mas que nunca converteu essa reputação em capacidade real de
influência sobre o comportamento dos grandes atores.
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Autofagia da hegemonia
Há um
paradoxo no comportamento norte-americano que a teoria das relações
internacionais ajuda a nomear com precisão. A hegemonia dos Estados Unidos no
pós-1945 não foi construída apenas sobre tanques e porta-aviões e sim sobre a
capacidade de fazer com que outros países aceitassem as regras do jogo como
legítimas, não apenas como impostas. O cientista político norte-americano
Joseph Nye chamou isso de poder inteligente: a combinação entre a coerção que
compele e a atração que convence.
A
ruptura normativa operada pela administração Trump é uma redução mensurável da
capacidade de influência norte-americana de longo prazo, porque substitui
atração por coerção em um sistema em que a coerção pura eleva os custos sem
produzir adesão. No entanto, essa ruptura normativa também é estratégica
precisamente porque reflete uma adaptação realista a um cenário de declínio
relativo e crise interna. Quando as fontes tradicionais de hegemonia como
liderança econômica inconteste, superioridade tecnológica absoluta,
atratividade ideológica e legitimidade institucional se sofrem erosão, o que
resta como ativo comparativo decisivo é o poderio militar inigualável. A
ruptura normativa, nesse sentido, não é um acidente ou um capricho ideológico;
é uma opção calculada de converter supremacia militar em moeda de influência
imediata, ainda que à custa do capital de longo prazo.
Mesmo
que essa estratégia de erosão da normativa tenha funcionado em outras
operações, nominalmente o sequestro de Maduro, ela é
estruturalmente limitada quando transposta para conflitos de alta densidade
estratégica, como o caso iraniano. Em contextos nos quais o alvo possui
autonomia material, capacidade de retaliação e lastro externo, seja em
alianças, seja em vínculos econômicos vitais para terceiros, a coerção deixa de
ser um instrumento de imposição e passa a operar como catalisador de
contra-alinhamentos.
Por
exemplo, a tentativa norte-americana de recrutar aliados para garantir a
passagem pelo Estreito de Ormuz fracassou diante da recusa dos próprios membros
da Otan. O Conselho de Segurança da ONU, reunido em sessão de emergência após
os primeiros ataques à ilha de Kharg, registrou quatorze dos quinze membros em
posição contrária a Washington. O estrategista chinês Sun Tzu advertia que
aquele que não conhece a realidade dos Estados vizinhos não pode fazer alianças
oportunas. Exatamente o que ocorreu com os Estados Unidos, que foram ao campo
de batalha sem ter construído as alianças que sua estratégia pressupunha.
Ao
subverter o sistema multilateral que historicamente ampliou seu poder,
Washington não está praticando uma forma alternativa de hegemonia. Está
praticando autofagia. A questão que se impõe – e que o Brasil precisaria
responder com instrumentos que ainda não possui – é o que fazer com o vácuo de
liderança que esse processo está produzindo.
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O Irã e o custo que não se paga sozinho
A morte
do aiatolá Khamenei na primeira onda de ataques norte-americanos removeu o
centro gravitacional do sistema de tomada de decisão iraniano e precipitou uma
ruptura que nenhum modelo de escalada controlada havia antecipado. O Irã passou
de uma estratégia de contenção calibrada, baseada em redes de procuradores,
diplomacia do limiar nuclear e sinalização assimétrica, para uma escalada
qualitativa que reconfigurou o próprio conflito. Novamente, Sun Tzu ensina que
a guerra é vencida quando se conhece o inimigo e a si mesmo, e aqui o
desconhecimento do inimigo culminou em erro estratégico de cálculo cultural e
simbólico que transformou a natureza do conflito. Os Estados Unidos conheciam
profundamente sua própria capacidade de destruição e a ordem de batalha
iraniana, mas falharam em compreender a psicologia política e a resiliência
identitária do Irã, bem como seu papel como líder regional.
Posteriormente,
o ataque ao complexo de Ras Laffan, no Catar, o maior produtor mundial de gás
natural liquefeito, responsável por cerca de um quinto do consumo global de
GNL, foi a expressão mais consequente dessa reconfiguração. A Agência
Internacional de Energia informou que os danos à infraestrutura de liquefação
eram de difícil reparo no curto prazo, com equipamentos cujo tempo de
fabricação é estimado entre dois e quatro anos.
O Irã
demonstrou que sua desvantagem militar convencional pode ser compensada por
ações de guerra econômica capazes de impor custos permanentes não apenas ao
adversário imediato, mas a toda a arquitetura energética global. Ao deslocar o
foco do campo de batalha para o controle dos fluxos de petróleo, de seguros
marítimos e de rotas comerciais, Teerã mostrou que pode transformar o Estreito
de Ormuz em um choke point político. Por exemplo, ao oferecer passagem pelo Estreito de
Ormuz apenas a países árabes e europeus que expulsassem de seus territórios os
embaixadores dos Estados Unidos e de Israel, a Guarda Revolucionária iraniana
converteu uma rota marítima vital em instrumento explícito de alinhamento
político condicionado.
Há,
nesse movimento, uma lógica clausewitziana que seria equivocado ler como perda
de controle. A guerra, como Clausewitz, advertia, tende a escapar ao controle
dos atores que a iniciam. Mas o que o Irã fez foi deliberado: ao redistribuir o
custo do conflito por múltiplos atores, Teerã ampliou os pontos de pressão
sobre Washington e forçou uma recalibração regional. O problema é que essa
redistribuição de custos não escolhe seus destinatários com cuidado. O Brasil
está entre eles.
No
interior da tradição política iraniana, há uma dimensão que os formuladores de
política nos Estados Unidos sistematicamente subestimaram. A morte de Khamenei
foi lida por amplos setores da sociedade iraniana através do paralelo com a
Batalha de Karbala e a figura do Imam Hussein, morto cercado, em minoria
absoluta, recusando-se a jurar lealdade a um inimigo ilegítimo. Khamenei morreu
durante o mês sagrado do Ramadã, sob escombros produzidos por um ataque aéreo
norte-americano e israelense, o que reforçou a leitura de martírio. Ao
transformar uma operação tática em um evento de alto conteúdo simbólico,
Washington converteu a eliminação de uma liderança em vetor de coesão
adversária. O que se pretendia como neutralização produziu rearticulação.
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O que o conflito faz com o Brasil
O
Brasil é praticamente autossuficiente em petróleo. Mas isso, com certeza, não o
protege totalmente. A matriz logística brasileira é predominantemente
rodoviária, e qualquer alta no preço do diesel se transmite imediatamente ao
custo de frete e ao preço final de toda a cadeia de distribuição. O segundo
canal é o dos fertilizantes: o país importa parcela substancial dos insumos
utilizados pela agroindústria, setor que representa aproximadamente um quinto
do PIB. A Confederação Nacional da Agricultura estimou, em nota técnica de
março de 2026, impacto de 12% a 18% nos custos de produção agrícola para a
safra seguinte, caso a alta dos fertilizantes se mantivesse por mais de três
meses. O terceiro canal é monetário: a pressão inflacionária importada reduz o
espaço para cortes na taxa Selic, limitando a política econômica doméstica a
partir de decisões tomadas em Teerã, Ras Laffan e Washington.
Essa
cadeia de transmissão é a evidência mais concreta de algo que o debate de
política externa brasileiro frequentemente evita nomear: o sistema
internacional chegou a um grau de interdependência em que a distância
geográfica não neutraliza a exposição. Um conflito no Golfo Pérsico determina a
taxa básica de juros, o preço do fertilizante para o agricultor do Cerrado e o
futuro de alianças diplomáticas construídas ao longo de décadas. A questão não
é se o Brasil será afetado: é se o Brasil tem instrumentos para responder.
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A Declaração de Teerã como espelho
Em
audiência na Câmara dos Deputados em março de 2026, o chanceler Mauro Vieira
evocou a Declaração de Teerã de 2010 como prova de que o Brasil havia chegado
perto de uma solução diplomática que poderia ter evitado o conflito atual. O
argumento merece ser levado a sério, e depois submetido à crítica que ele
próprio exige.
Em maio
de 2010, Brasil e Turquia articularam um acordo que previa o envio de 1.200
quilogramas de urânio iraniano levemente enriquecido para território turco em
troca de combustível nuclear, sob supervisão da AIEA. O acordo foi rejeitado
pelos membros permanentes do Conselho de Segurança, e a Resolução 1929,
aprovada em junho daquele ano com votos contrários de Brasil e Turquia, impôs
novas sanções ao Irã. As grandes potências entenderam que a Declaração de Teerã
não limitava o enriquecimento contínuo, não previa inspeções efetivas e não
dispunha de mecanismos de aplicação.
O
episódio de 2010 demonstrou duas coisas ao mesmo tempo. Que o Brasil possui
capital diplomático suficiente para ser aceito como intermediário em conflitos
de alta intensidade. E que esse capital não é suficiente para garantir o
cumprimento de acordos nem para impor custos ao descumprimento. Sem capacidade
de pressão estratégica autônoma – militar, econômica ou tecnológica – o Brasil
pode facilitar comunicação entre as partes, mas não pode ancorar nenhum
resultado.
Na
linguagem de Joseph Nye, a Declaração de Teerã foi uma iniciativa de poder
brando bem-sucedida em sua dimensão simbólica e fracassada em sua dimensão
prática, porque o Brasil não dispunha dos elementos de poder duro que teriam
tornado a adesão dos demais atores racionalmente obrigatória.
O poder
brando (soft power) é a capacidade de um ator influenciar o
comportamento dos outros não pela força ou pela compra, mas pela atração, pela
credibilidade de seus valores, pela legitimidade de suas posições, pela
reputação que acumulou ao longo do tempo. Quem exerce poder brando não obriga:
convence, inspira, ou simplesmente ocupa um espaço de confiança que outros
atores reconhecem e respeitam.
Já o
poder duro (hard power), por sua vez, é a capacidade de coagir ou
induzir pelo uso ou ameaça da força militar e pela pressão econômica, ou seja,
sanções, tarifas, bloqueios, arsenais. É o poder que diz: se você não fizer
isso, haverá um custo concreto e imediato para você.
No caso
da Declaração de Teerã, o Brasil chegou à mesa de negociação com muito poder
brando: tinha reputação de país pacífico, sem bombas atômicas, sem histórico de
interferência, sem agenda colonial na região, com relações funcionais com Teerã
e com Washington ao mesmo tempo. Isso lhe deu acesso: foi aceito como
intermediário onde potências maiores não conseguiam entrar sem custo. Nesse
sentido, a iniciativa foi bem-sucedida.
O
problema apareceu depois. Para que um acordo seja cumprido, não basta que as
partes concordem no momento da assinatura. É preciso que o descumprimento tenha
um preço. E para impor esse preço, é necessário poder duro: capacidade militar,
peso econômico, tecnologia estratégica, presença em organismos capazes de
aplicar sanções. O Brasil não tinha nada disso em relação ao programa nuclear
iraniano. Se o Irã descumprisse o acordo, Brasília não poderia fazer
absolutamente nada além de protestar – e todo mundo sabia disso, inclusive o
Irã e as potências ocidentais que rejeitaram a declaração.
Em
resumo: o poder brando abre portas, cria confiança e viabiliza conversas
impossíveis para outros. Mas não sustenta acordos sozinho. Quando o
que está em jogo é suficientemente grande, como um programa nuclear, os atores
calculam se há algo a perder caso descumpram. E se a resposta for não, o acordo
não tem peso real, por mais bem intencionado que seja quem o mediou.
Voltando
à crise de 2026, ela repõe o problema em escala maior. A posição simultânea do
Brasil como membro dos Brics, que incorporou o Irã na Cúpula de Kazan de 2024,
e como parceiro estratégico dos Estados Unidos cria uma ambiguidade que, em
momentos de alta polarização, pode ser interpretada por ambos os lados como
cumplicidade com o adversário. A indecisão sobre a visita de Lula a Trump,
mantida em suspenso pelo Planalto, exemplifica uma política externa que reage
às circunstâncias em vez de antecipá-las.
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O Brics e a ilusão do bloco coeso
O
conflito EUA-Israel-Irã é também um teste de coerência institucional para os
Brics, e o resultado, até agora, é a confirmação de que o bloco ainda não
desenvolveu os mecanismos para gerir conflitos quando as agendas e objetivos
econômicos e políticos de seus membros divergem de forma aguda.
A
Rússia, exportadora de hidrocarbonetos, beneficia-se diretamente da alta dos
preços de energia. A China sofre com a volatilidade, embora seus navios gozem
de passagem pelo Estreito de Ormuz. A Índia, com acesso privilegiado ao porto
iraniano de Chabahar e parcerias simultâneas com Washington, Tel Aviv e Teerã,
é forçada a escolhas que o formato do Brics não oferece mecanismos para
intermediar. O bloco que incorporou o Irã em Kazan é o mesmo que inclui uma
potência que mantém relações estratégicas com Israel e outra que depende do
sistema financeiro que sanciona Teerã.
A
presidência brasileira dos Brics em 2025 poderia ter servido como momento de
afirmação estratégica. Acabou marcada por uma condução contida, que
reduziu ênfase em temas como a desdolarização e priorizou agendas menos
controversas.
Preservou relações com atores externos ao bloco, mas ao custo de limitar a
capacidade dos Brics de atuar como polo autônomo. O legado foi uma liderança
protocolar que, diante da escalada atual, deixou o Brasil sem instrumentos para
gerir o que ajudou a estabilizar superficialmente.
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O que o Brasil poderia fazer – e o que lhe falta para fazê-lo
A crise
cria oportunidades que o Brasil tem condições estruturais de identificar, mesmo
que não tenha ainda os instrumentos para aproveitá-las plenamente. A mediação
humanitária (a condenação de ataques à infraestrutura civil, a defesa de
corredores humanitários) é uma posição que o Itamaraty pode sustentar com
credibilidade normativa, sem custo diplomático elevado junto a nenhum dos polos
do conflito.
O
reposicionamento energético, com as reservas do pré-sal e a capacidade em
renováveis, abre espaço para o Brasil se apresentar como fornecedor alternativo
confiável a parceiros asiáticos e europeus afetados pela instabilidade do
Golfo. A agenda de reforma da arquitetura de segurança coletiva, na qual a
proposta brasileira de reforma do Conselho de Segurança obteve apoio de 126
países em novembro de 2024, ganha urgência e legitimidade com o conflito atual.
O
problema é que todas essas oportunidades pressupõem condições que o Brasil
ainda não satisfaz. A desindustrialização das últimas décadas reduziu a base
econômica do poder do país. O subfinanciamento das Forças Armadas limita a
projeção regional. A dependência tecnológica em setores
críticos cria
vulnerabilidades que a atividade diplomática não compensa. O relatório do Ipea
sobre inserção internacional brasileira, publicado em 2025, identificou que a
participação do país nos mercados globais de manufaturados de média e alta
tecnologia havia recuado ao patamar de 1995.
Maquiavel
advertia que a mediação exige algo mais do que a enunciação de princípios: pede
a construção de poder suficiente para que a recusa das partes a ela seja
percebida como um custo real. O Brasil enuncia os princípios corretos. Mas
ainda não construiu o poder que os tornaria obrigatórios. Essa é a
contradição central que o conflito EUA-Israel-Irã expõe com urgência.
A
vacância de liderança internacional criada pela autofagia estratégica
norte-americana é um dado da realidade e o Brasil tem condições estruturais de
ocupá-la. Mas entre ter condições e ter capacidade há um intervalo que não se
fecha com discursos diplomáticos, por mais bem articulados que sejam. Fechá-lo
é a tarefa que o conflito, ao chegar ao Cerrado pelo preço do fertilizante,
tornou impossível de adiar.
Fonte:
Por Sávia Lorena Barreto Carvalho de Sousa e Isabela Rocha-Dashicheva, no
Le Monde

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