Luís
Nassif: Xadrez do papel de Campos Neto no caso Master
Em seu
depoimento no Senado, Gabriel Galípolo declarou que não havia nenhum inquérito
interno no Banco Central sobre a atuação do ex-presidente Roberto Campos Neto.
De
fato, não há. Mas não significa a absolvição da gestão Campos Neto. A
influência de um presidente do BC se dá nas orientações gerais, nas sugestões
de encaminhamento das questões. Avalia-se um presidente do BC pelos resultados
concretos de sua gestão.
Entenda
os principais passos.
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Peça 1 – o processo de decisão no Banco Central
A
diretoria do Banco Central é composta pelo presidente — Gabriel Galípolo — e
por sete diretores responsáveis por áreas específicas: Política Monetária,
Fiscalização, Assuntos Internacionais e Gestão de Riscos Corporativos,
Administração, Regulação e Relacionamento, Cidadania e Supervisão de Conduta.
O
processo decisório segue uma lógica técnica altamente segmentada. Cada área
elabora sua análise e o respectivo diretor submete um voto à diretoria
colegiada. Na prática, em quase todos os casos, a diretoria simplesmente
acompanha o parecer técnico — ou o rejeita, devolvendo-o para revisão.
Reformulações são raras, dado o grau de especialização envolvido.
Esse
modelo confere ampla autonomia a cada diretor em sua área. Como consequência,
também aumenta a possibilidade de influência individual — especialmente por
parte do presidente — sobre decisões que, embora técnicas na forma, são
isoladas na substância.
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Peça 2 – as investigações
As
investigações sobre o Master revelaram as relações do banco com dois diretores
do BC, Paulo Sérgio Neves de Souza e Bellini Santana.
Paulo
Sérgio atuou como diretor de Fiscalização por aproximadamente seis anos, de
2017 a 2023. Depois, passou a ocupar o cargo de chefe-adjunto do Departamento
de Supervisão Bancária. Quando assumiu a Diretoria de Fiscalização, indicou
Bellini Santana para seu lugar, no Departamento de Supervisão Bancária, onde
permaneceu de 2019 a 2024.
Os dois
ficaram no coração da supervisão bancária por pelo menos 7 anos consecutivos —
abrangendo os governos Temer, Bolsonaro/Campos Neto e o início do governo
Lula/Galípolo — período que cobre todo o crescimento e colapso do Banco Master.
Foram
apanhados devido à sua evolução patrimonial. Identificado o enriquecimento, o
caso foi encaminhado para a CGU (Controladoria Geral da União).
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Peça 3 – a compra do Banco Master
O Banco
Master teve seu primeiro pedido de autorização negado pelo Banco Central em
fevereiro de 2019, ainda sob a presidência de Ilan Goldfajn. O parecer técnico
apontava inconsistências na origem dos recursos e insuficiência econômica dos
controladores.
Meses
depois, já sob a gestão de Roberto Campos Neto, o banco reapresentou a
documentação, desta vez com uma nova justificativa para a origem dos recursos —
e obteve autorização em outubro de 2019.
O
episódio ilustra com precisão o funcionamento do modelo decisório: a diretoria
não reformou o voto técnico inicial, mas devolveu o processo. Na segunda
tentativa, com documentação ajustada, o pedido foi aprovado.
A
recusa original, formalizada no voto nº 20/2019 pelo diretor Sidnei Corrêa
Marques, baseou-se em dois pontos: origem não comprovada dos recursos e
incapacidade econômica dos proponentes. A análise reputacional — embora
mencionada informalmente — não foi incluída no voto, sob o princípio da
economia processual.
Nos
bastidores, contudo, esse era o fator determinante. “Sabíamos que ele era
picareta”, relatou um ex-diretor ao jornal Valor Econômico.
Mas a
compra foi aprovada dentro do chamado princípio da economia processual: não se
analisa tudo quando já há motivo suficiente para decidir.
O Banco
Central não certifica a “qualidade econômica” do dinheiro, e sim a consistência
formal da origem.
Duas
semanas após a autorização, em 29 de outubro de 2019, a Justiça Federal
decretou a prisão preventiva de Daniel Vorcaro, no âmbito de investigações
sobre desvio de recursos de fundos de previdência de Rondônia. O mandado não
foi cumprido e acabou revogado. Mas nem isso alterou a aprovação da compra do
Master.
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Peça 4 – o papel de Roberto Campos Neto
A
influência de um presidente do Banco Central raramente se manifesta por meio de
ordens explícitas ou documentos formais. Ela opera, sobretudo, na definição de
agenda, no enquadramento regulatório e na condução indireta das decisões.
No caso
do Banco Master, essa influência pode ser observada em dois momentos-chave.
O
primeiro foi a própria autorização de funcionamento do banco, apesar das
reservas técnicas e do histórico controverso de seu controlador.
O
segundo ocorreu em 2023, com a edição da Resolução BCB nº 346/2023, que
regulamentou o tratamento prudencial dos precatórios.
A norma
criou parâmetros para esses ativos, mas estabeleceu uma cláusula decisiva: os
estoques anteriores a junho de 2023 foram integralmente preservados das novas
exigências de capital.
Na
prática, isso significou que o Banco Master — que detinha cerca de R$ 8,7
bilhões em precatórios registrados antes dessa data — não precisou imobilizar
capital adicional nem reclassificar esses ativos.
Em
termos prudenciais, trata-se de um ponto crucial. O sistema bancário exige que
ativos mais arriscados sejam acompanhados por maior capital próprio, como forma
de proteção. Ao isentar o estoque pré-existente, a norma evitou qualquer
impacto imediato sobre o balanço do banco.
O
resultado prático: o Master, que tinha R$ 8,7 bilhões em precatórios já
registrados, não precisou nem imobilizar capital adicional nem reclassificar
nada. A norma chegou e o estoque existente ficou exatamente onde estava — sem
exigência nova.
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Peça 5 – o caso Ailton de Aquino
Ailton
de Aquino Santos, servidor de carreira desde 1998, assumiu a Diretoria de
Fiscalização em 2023.
Foi
alvo de uma campanha baseada em uma alegação posteriormente desmentida: a
existência de um suposto vídeo comprometedor em celulares de dirigentes do BRB.
A informação, atribuída a fontes anônimas, não foi confirmada pela Polícia
Federal após perícia completa.
Apesar
disso, Ailton foi publicamente exposto, incluindo sua família. Posteriormente,
abriu seus sigilos bancário e fiscal — sem que qualquer irregularidade fosse
encontrada.
Seu
papel, porém, torna-se central na mudança de postura do Banco Central.
Durante
a gestão de Roberto Campos Neto, as ações sobre o Banco Master foram limitadas.
Com a posse de Gabriel Galípolo em janeiro de 2025, o caso passou a avançar com
rapidez.
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A cronologia é reveladora:
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Setembro de 2024 — Alerta sobre precatórios sem registro
- Um
ofício do Desup apontou precatórios sem registro público de cessão, expondo o
banco a “risco jurídico severo”.
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Outubro de 2024 — Reunião mais longa de Vorcaro no BC
- A
visita de maior duração ocorreu em 30 de outubro de 2024. Vorcaro entrou no
prédio às 09h54 e saiu às 12h38, permanecendo 2 horas e 44 minutos. O encontro
contou com a presença do diretor de Fiscalização Ailton de Aquino.
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Final de 2024 — Três auditorias externas contratadas
- No
final de 2024, Campos Neto solicitou que três escritórios de advocacia, um
deles especialista em precatórios, realizassem uma nova análise na carteira do
banco. Senado As auditorias — Galdino Advogados e KPMG — não encontraram
irregularidades.
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Novembro de 2024 — Novo questionamento sobre iliquidez
- Um
ofício questionou valores e indicou que o Master “postergava o reconhecimento
da iliquidez” por meio de engenharias financeiras.
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Novembro de 2024 — Termo de ajuste de conduta (TAC)
- Foi
firmado um termo de ajuste de conduta, com prazo de seis meses, para que o
Master se adequasse em relação a problemas de governança e liquidez. Senado No
mesmo mês, uma agência de rating elevou a nota do banco.
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Novembro de 2024 — Reunião no Planalto
- O
presidente do BC, Gabriel Galípolo, teve reunião com Lula e Vorcaro em 4 de
dezembro de 2024. Galípolo não comunicou ao então presidente do BC, Roberto
Campos Neto, sobre esse encontro. O tema apresentado por Vorcaro era que o
banco estava sendo “perseguido pela concorrência”.
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2025 — O BC passa a agir de fato
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Janeiro de 2025 — Primeiro sinal de alerta real
-
Ailton Aquino começa a levantar dúvidas sobre negociações de carteira. O que
soou estranho: se o banco estava com dificuldade de liquidez, como estava
formando novas carteiras? No seu depoimento no Senado, Galípolo disse: “O
Ailton traz para mim esse problema: ‘Olha, isso demanda a gente fazer uma
investigação maior. Talvez demande uma notícia de fatos'”.
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Fevereiro de 2025 — Grupo de trabalho apartado
-
Galípolo iniciou um grupo de trabalho para aprofundar as checagens diante de
evidências de irregularidades. A novidade é que esse grupo foi montado fora da
alçada de Paulo Sérgio e Bellini — o BC literalmente montou uma estrutura
paralela para não passar pelas pessoas que filtravam as informações.
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Março de 2025 — Carteiras sem lastro identificadas
- O
grupo apresentou relatório onde não foram encontradas “evidências que
corroborem a existência da carteira”. O BC tinha desde março indícios
documentados sobre a inexistência dos créditos. Nesse mesmo momento, foi
anunciada a possibilidade de aquisição do Master pelo BRB.
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Março e abril de 2025 — Primeiras sanções
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Ocorreram sanções contra o banco por descumprimento dos valores mínimos de
depósitos compulsórios.
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Maio de 2025 — Venda de ativos de Vorcaro ao BTG
- O
controlador Daniel Vorcaro iniciou tratativas para venda de ativos pessoais ao
BTG Pactual, possibilitando o ingresso de R$ 954 milhões no banco. Última
tentativa de capitalização antes da liquidação.
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Peça 6 – conclusão
O caso
do Banco Master expõe um modelo decisório tecnicamente robusto, mas
estruturalmente fragmentado — no qual autonomia excessiva, baixa revisão
cruzada e influência indireta da presidência podem produzir zonas de opacidade.
Em
outras palavras: não é que o sistema não funcione. Ele funciona — mas cada um
no seu quadrado. E, às vezes, é exatamente aí que mora o problema.
Quanto
a um futuro inquérito sobre a atuação de Campos Neto, bastam aparecer elementos
que demonstrem que ele foi alertado várias vezes sobre a inconsistência dos
balanços do Master.
Fonte:
Jornal GGN

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