sexta-feira, 17 de abril de 2026

Luís Nassif: Xadrez do papel de Campos Neto no caso Master

Em seu depoimento no Senado, Gabriel Galípolo declarou que não havia nenhum inquérito interno no Banco Central sobre a atuação do ex-presidente Roberto Campos Neto.

De fato, não há. Mas não significa a absolvição da gestão Campos Neto. A influência de um presidente do BC se dá nas orientações gerais, nas sugestões de encaminhamento das questões. Avalia-se um presidente do BC pelos resultados concretos de sua gestão.

Entenda os principais passos.

<><> Peça 1 – o processo de decisão no Banco Central

A diretoria do Banco Central é composta pelo presidente — Gabriel Galípolo — e por sete diretores responsáveis por áreas específicas: Política Monetária, Fiscalização, Assuntos Internacionais e Gestão de Riscos Corporativos, Administração, Regulação e Relacionamento, Cidadania e Supervisão de Conduta.

O processo decisório segue uma lógica técnica altamente segmentada. Cada área elabora sua análise e o respectivo diretor submete um voto à diretoria colegiada. Na prática, em quase todos os casos, a diretoria simplesmente acompanha o parecer técnico — ou o rejeita, devolvendo-o para revisão. Reformulações são raras, dado o grau de especialização envolvido.

Esse modelo confere ampla autonomia a cada diretor em sua área. Como consequência, também aumenta a possibilidade de influência individual — especialmente por parte do presidente — sobre decisões que, embora técnicas na forma, são isoladas na substância.

<><> Peça 2 – as investigações

As investigações sobre o Master revelaram as relações do banco com dois diretores do BC, Paulo Sérgio Neves de Souza e Bellini Santana.

Paulo Sérgio atuou como diretor de Fiscalização por aproximadamente seis anos, de 2017 a 2023. Depois, passou a ocupar o cargo de chefe-adjunto do Departamento de Supervisão Bancária. Quando assumiu a Diretoria de Fiscalização, indicou Bellini Santana para seu lugar, no Departamento de Supervisão Bancária, onde permaneceu de 2019 a 2024.

Os dois ficaram no coração da supervisão bancária por pelo menos 7 anos consecutivos — abrangendo os governos Temer, Bolsonaro/Campos Neto e o início do governo Lula/Galípolo — período que cobre todo o crescimento e colapso do Banco Master.

Foram apanhados devido à sua evolução patrimonial. Identificado o enriquecimento, o caso foi encaminhado para a CGU (Controladoria Geral da União).

<><> Peça 3 – a compra do Banco Master

O Banco Master teve seu primeiro pedido de autorização negado pelo Banco Central em fevereiro de 2019, ainda sob a presidência de Ilan Goldfajn. O parecer técnico apontava inconsistências na origem dos recursos e insuficiência econômica dos controladores.

Meses depois, já sob a gestão de Roberto Campos Neto, o banco reapresentou a documentação, desta vez com uma nova justificativa para a origem dos recursos — e obteve autorização em outubro de 2019.

O episódio ilustra com precisão o funcionamento do modelo decisório: a diretoria não reformou o voto técnico inicial, mas devolveu o processo. Na segunda tentativa, com documentação ajustada, o pedido foi aprovado.

A recusa original, formalizada no voto nº 20/2019 pelo diretor Sidnei Corrêa Marques, baseou-se em dois pontos: origem não comprovada dos recursos e incapacidade econômica dos proponentes. A análise reputacional — embora mencionada informalmente — não foi incluída no voto, sob o princípio da economia processual.

Nos bastidores, contudo, esse era o fator determinante. “Sabíamos que ele era picareta”, relatou um ex-diretor ao jornal Valor Econômico.

Mas a compra foi aprovada dentro do chamado princípio da economia processual: não se analisa tudo quando já há motivo suficiente para decidir.

O Banco Central não certifica a “qualidade econômica” do dinheiro, e sim a consistência formal da origem.

Duas semanas após a autorização, em 29 de outubro de 2019, a Justiça Federal decretou a prisão preventiva de Daniel Vorcaro, no âmbito de investigações sobre desvio de recursos de fundos de previdência de Rondônia. O mandado não foi cumprido e acabou revogado. Mas nem isso alterou a aprovação da compra do Master.

<><> Peça 4 – o papel de Roberto Campos Neto

A influência de um presidente do Banco Central raramente se manifesta por meio de ordens explícitas ou documentos formais. Ela opera, sobretudo, na definição de agenda, no enquadramento regulatório e na condução indireta das decisões.

No caso do Banco Master, essa influência pode ser observada em dois momentos-chave.

O primeiro foi a própria autorização de funcionamento do banco, apesar das reservas técnicas e do histórico controverso de seu controlador.

O segundo ocorreu em 2023, com a edição da Resolução BCB nº 346/2023, que regulamentou o tratamento prudencial dos precatórios.

A norma criou parâmetros para esses ativos, mas estabeleceu uma cláusula decisiva: os estoques anteriores a junho de 2023 foram integralmente preservados das novas exigências de capital.

Na prática, isso significou que o Banco Master — que detinha cerca de R$ 8,7 bilhões em precatórios registrados antes dessa data — não precisou imobilizar capital adicional nem reclassificar esses ativos.

Em termos prudenciais, trata-se de um ponto crucial. O sistema bancário exige que ativos mais arriscados sejam acompanhados por maior capital próprio, como forma de proteção. Ao isentar o estoque pré-existente, a norma evitou qualquer impacto imediato sobre o balanço do banco.

O resultado prático: o Master, que tinha R$ 8,7 bilhões em precatórios já registrados, não precisou nem imobilizar capital adicional nem reclassificar nada. A norma chegou e o estoque existente ficou exatamente onde estava — sem exigência nova.

<><> Peça 5 – o caso Ailton de Aquino

Ailton de Aquino Santos, servidor de carreira desde 1998, assumiu a Diretoria de Fiscalização em 2023.

Foi alvo de uma campanha baseada em uma alegação posteriormente desmentida: a existência de um suposto vídeo comprometedor em celulares de dirigentes do BRB. A informação, atribuída a fontes anônimas, não foi confirmada pela Polícia Federal após perícia completa.

Apesar disso, Ailton foi publicamente exposto, incluindo sua família. Posteriormente, abriu seus sigilos bancário e fiscal — sem que qualquer irregularidade fosse encontrada.

Seu papel, porém, torna-se central na mudança de postura do Banco Central.

Durante a gestão de Roberto Campos Neto, as ações sobre o Banco Master foram limitadas. Com a posse de Gabriel Galípolo em janeiro de 2025, o caso passou a avançar com rapidez.

>>>>>>> A cronologia é reveladora:

>> Setembro de 2024 — Alerta sobre precatórios sem registro

- Um ofício do Desup apontou precatórios sem registro público de cessão, expondo o banco a “risco jurídico severo”. 

>> Outubro de 2024 — Reunião mais longa de Vorcaro no BC

- A visita de maior duração ocorreu em 30 de outubro de 2024. Vorcaro entrou no prédio às 09h54 e saiu às 12h38, permanecendo 2 horas e 44 minutos. O encontro contou com a presença do diretor de Fiscalização Ailton de Aquino. 

>> Final de 2024 — Três auditorias externas contratadas

- No final de 2024, Campos Neto solicitou que três escritórios de advocacia, um deles especialista em precatórios, realizassem uma nova análise na carteira do banco. Senado As auditorias — Galdino Advogados e KPMG — não encontraram irregularidades.

>> Novembro de 2024 — Novo questionamento sobre iliquidez

- Um ofício questionou valores e indicou que o Master “postergava o reconhecimento da iliquidez” por meio de engenharias financeiras. 

>> Novembro de 2024 — Termo de ajuste de conduta (TAC)

- Foi firmado um termo de ajuste de conduta, com prazo de seis meses, para que o Master se adequasse em relação a problemas de governança e liquidez. Senado No mesmo mês, uma agência de rating elevou a nota do banco.

>> Novembro de 2024 — Reunião no Planalto

- O presidente do BC, Gabriel Galípolo, teve reunião com Lula e Vorcaro em 4 de dezembro de 2024. Galípolo não comunicou ao então presidente do BC, Roberto Campos Neto, sobre esse encontro. O tema apresentado por Vorcaro era que o banco estava sendo “perseguido pela concorrência”.

### 2025 — O BC passa a agir de fato

>> Janeiro de 2025 — Primeiro sinal de alerta real

- Ailton Aquino começa a levantar dúvidas sobre negociações de carteira. O que soou estranho: se o banco estava com dificuldade de liquidez, como estava formando novas carteiras? No seu depoimento no Senado, Galípolo disse: “O Ailton traz para mim esse problema: ‘Olha, isso demanda a gente fazer uma investigação maior. Talvez demande uma notícia de fatos'”.

>> Fevereiro de 2025 — Grupo de trabalho apartado

- Galípolo iniciou um grupo de trabalho para aprofundar as checagens diante de evidências de irregularidades. A novidade é que esse grupo foi montado fora da alçada de Paulo Sérgio e Bellini — o BC literalmente montou uma estrutura paralela para não passar pelas pessoas que filtravam as informações.

>> Março de 2025 — Carteiras sem lastro identificadas

- O grupo apresentou relatório onde não foram encontradas “evidências que corroborem a existência da carteira”. O BC tinha desde março indícios documentados sobre a inexistência dos créditos. Nesse mesmo momento, foi anunciada a possibilidade de aquisição do Master pelo BRB.

>> Março e abril de 2025 — Primeiras sanções

- Ocorreram sanções contra o banco por descumprimento dos valores mínimos de depósitos compulsórios.

>> Maio de 2025 — Venda de ativos de Vorcaro ao BTG

- O controlador Daniel Vorcaro iniciou tratativas para venda de ativos pessoais ao BTG Pactual, possibilitando o ingresso de R$ 954 milhões no banco. Última tentativa de capitalização antes da liquidação.

<><> Peça 6 – conclusão

O caso do Banco Master expõe um modelo decisório tecnicamente robusto, mas estruturalmente fragmentado — no qual autonomia excessiva, baixa revisão cruzada e influência indireta da presidência podem produzir zonas de opacidade.

Em outras palavras: não é que o sistema não funcione. Ele funciona — mas cada um no seu quadrado. E, às vezes, é exatamente aí que mora o problema.

Quanto a um futuro inquérito sobre a atuação de Campos Neto, bastam aparecer elementos que demonstrem que ele foi alertado várias vezes sobre a inconsistência dos balanços do Master.

 

Fonte: Jornal GGN

 

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